quinta-feira, 6 de julho de 2017

Carta a um anjo

Nasceste hoje, mas há 23 anos.

O que se diz ainda vinte e três anos depois, mas, acima de tudo, dezasseis anos depois do ano de todos os anos? Qualquer que seja a criatividade do texto, a sabedoria das ideias ou a escolha das palavras, tudo fica aquém do sentimento, porque o verdadeiramente importante não é dizível pelas palavras que usamos todos os dias. Cada um sente o que sente e a única certeza é que nenhum de nós, aqueles que te seguraram uma mão à chegada e à partida, os que sorriram para ti e choraram por ti, os que te beijaram, amaram, acompanharam nas brincadeiras e nas quedas e nos risos e nos choros nenhum de nós, repito, é dono deste dia. As palavras são escolhidas, as lembranças são fruto de processos que não dominamos, aos quais somos alheios, vítimas, por vezes, porque dolorosos, beneficiários, noutras vezes, porque alegres. Cada um lembra um pormenor que mais ninguém lembra, um sorriso que não foi visto por mais ninguém, um aceno de mão que ninguém descortinou, porque tinha o sol por trás a iluminar o caminho para o Céu.

A data não nos pertence, não somos donos de nada a não ser daquilo que deixamos partir. A data é um ponto no infinito para nos lembrar de parar, de pensar no que é importante e tentar fazer o Bem, porque não foi para mais nada que vieste. Não vieste para separar, mas para unir; não vieste para a tristeza, mas para a esperança; não vieste para o choro ou para o riso, mas para os olhos que vêm mais longe, sentem mais longe, agarram mais longe; não vieste para a despedida, mas para o aceno de quem se encontra pela primeira vez. Vieste para o Amor das ideias afastadas, das pessoas frágeis, da desesperança e da fadiga com que somos acometidos porque estamos desatentos, focados no lado errado da vida.

Não fazemos nada com as palavras, fazemos tudo com o coração. Não fazemos nada com as actividades do dia, porque nasceste hoje mas todos os dias, partiste hoje mas todos os dias. É dia do pó do Amor, das coisas importantes que permanecem, das pessoas que olham no mesmo sentido mesmo não estando no mesmo sentido, tendo olhares diferentes, próprios, genuínos, esperançados ou desiludidos. Ensinaste-nos tudo, só nos resta ir aprendendo com a tua ajuda e do Deus que não é senão amor.

Na sua bondade sem fim
Quis Deus olhar para mim
Dar-me um pouco do que é seu
Deu-me uma estrela pequena
A quem chamou Madalena
Que é uma das santas do Céu


J (em nome de todos os que te lembram)    


4 comentários:

ATM disse...

Há momentos em que a memória nos leva à oração e o texto de um Pai às lágrimas.É o caso, é o agora de hoje. Não escrevo , emociono-me. Choro
ATM

ATM disse...

Há momentos em que a memória nos leva à oração e o texto de um Pai às lágrimas.É o caso, é o agora de hoje. Não escrevo , emociono-me. Choro
ATM

Anónimo disse...

Um abraço fraterno, sempre.

gi.

Anónimo disse...


Quanta Luz e Amor se projectam no texto que é mais uma oração de Reconhecimento...

Agradeço a dádiva.

Acerca de mim

Arquivo do blogue