quinta-feira, 20 de julho de 2017

Da rua da minha infância

Ontem almocei no Cadaval em casa de amigos. Ele mais recente, ela protagonista de uma amizade que data de 1969. Apesar de pouco nos termos visto nos últimos anos, nunca perdemos o contacto (telefónico) pelo menos duas vezes por ano. 

Entre 1969 e 1975, talvez, vivi em S. Pedro do Estoril, no fim de uma rua. Uma casa depois da nossa era campo até à Parede. Ali andei de bicicleta, ali saltei à fogueira, ali aprendi a fazer e a andar de carrinho de rolamentos, ali fumei e beijei e namorei às escondidas, ali fiz amizades que perduraram durante décadas. Ali vivi a alegria de fazer parte de um grupo. Foi por isso, pelo impacto que estes anos tiveram na minha vida que um dia, ao passar numa livraria, comprei um livro de um autor que nunca tinha lido - Juan José Millás: o mundo é a rua da tua infância.

Ontem, no decorrer deste almoço algo nostálgico, dei por mim a lembrar-me de tudo: dos nomes das pessoas que viviam nas casas, do tom de voz de quem chamava netos para dentro, de nomes de cães, de marcas de automóveis, dos hábitos e das manias deste ou daquele vizinho, das fisionomias de proprietários e de empregadas. Não foi um exercício de memória, a evidência da minha enorme capacidade para fixar coisas (algumas delas bastante inúteis). Foi, isso sim, a constatação da importância daquele tempo na minha formação, a confirmação de um tempo de enorme felicidade pela liberdade e sentimento de pertença.

O tempo mostrou-me outros mundos, outros grupos, outros motivos de felicidade. Não obstante a existência desses outros mundos compostos por famílias, amigos, gente profissional - uma parte muito substantiva do meu mundo continua a ser a rua da minha infância. Neste caso S. Pedro do Estoril, também com esta minha amiga a quem me ligam 48 anos de amizade. É ali, mas igualmente em Borba, talvez mesmo nas casas imaginadas do Macuti e noutros locais, que me escondo, fumando um cigarro ilícito, beijando uma rapariga ou imaginando o beijo numa rapariga, criando vidas por existir e sorrindo com cheiros, ruídos, caligrafias, papéis de carta ou outras minudências. É ali, nestes sítios todos e noutros igualmente importantes que em tempo de ataque me defendo, pondo as carruagens em círculo.

JdB

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