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26 julho 2023

Textos dos dias que correm

Felicidade e Alegria

Não creio que se possa definir o homem como um animal cuja característica ou cujo último fim seja o de viver feliz, embora considere que nele seja essencial o viver alegre. O que é próprio do homem na sua forma mais alta é superar o conceito de felicidade, tornar-se como que indiferente a ser ou não ser feliz e ver até o que pode vir do obstáculo exactamente como melhor meio para que possa desferir voo. Creio que a mais perfeita das combinações seria a do homem que, visto por todos, inclusive por si próprio, como infeliz, conseguisse fazer de sua infelicidade um motivo daquela alegria que se não quebra, daquela alegria serena que o leva a interessar-se por tudo quanto existe, a amar todos os homens apesar do que possa combater, e é mais difícil amar no combate que na paz, e sobretudo conservar perante o que vem de Deus a atitude de obediência ou melhor, de disponibilidade, de quem finalmente entendeu as estruturas da vida.
Os felizes passam na vida como viajantes de trem que levassem toda a viagem dormindo; só gozam o trajecto os que se mantêm bem despertos para entender as duas coisas fundamentais do mundo: a implacabilidade, a cegueira, a inflexibilidade das leis mecânicas, que são bem as representantes do Fado, e cuja grandeza verdadeira só se pode sentir bem no desastre; é quando a catástrofe chega que a fatalidade se mede em tudo o que tem de divino, e foi pena que não fosse esta a lição essencial que tivéssemos tirado da tragédia grega; como pena foi que só tivéssemos olhado o fatalismo dos árabes pelo seu lado superficial.
Por outra parte, é igualmente na desgraça que se mede a outra grande força do mundo, a da liberdade do espírito, que permite julgar o valor moral no desastre e permite superar, pelo seu aproveitamento, o toque do fatal; não creio que Prometeu estivesse alguma vez verdadeiramente encadeado: talvez o estivesse antes ou depois da prisão; mas era realmente um espírito de liberdade e um portador de liberdade o que, agrilhoado a montanha, se sentiu mais livre ainda; porque podia consentir ou não no desastre, superá-lo ou não, ser alegre ou não. E este ser alegre não significa de modo algum a alegria daquele tipo americano de «Quebre uma perna e ria»; acho que eram muito mais alegres as pragas dos velhos soldados de Napoleão. No fundo é o seguinte: é necessário, ajudando a realizar o homem no que tem de melhor, que a mesma energia que se revelou pela física no mundo da extensão, se revele pelo espírito no mundo do pensamento e domine a primeira vaga de energia, como onda rolando sobre onda mais alto vai. E mais ainda: que pelo momento de infelicidade, o que não poderá nunca suceder no caso da felicidade, entenda o homem como as duas espécies ou os dois aspectos de energia se reúnem em Deus. Só por costume social deveremos desejar a alguém que seja feliz; às vezes por aquela piedade da fraqueza que leva a tomar crianças ao colo; só se deve desejar a alguém que se cumpra: e o cumprir-se inclui a desgraça e a sua superação.

Agostinho da Silva, in 'Textos e Ensaios Filosóficos'

18 março 2019

Do vegetarianismo como fonte de tristeza



Declaração prévia: a fotografia acima, que ilustra o texto abaixo, não é mais do que um exercício de tentativa de humor. Não pretende apoucar ninguém que tenha sido afectado pela anorexia, nem pretende diminuir as pessoas que fazem opções alimentares com base em juízos ponderados.

***

As teorias mais falíveis e, por isso, as que menos se prestam a discussões, são as elaboradas de forma impulsiva, baseadas em percepções, embirrações ou fetiches. Estas teorias não se combatem porque não se sabe onde está a argumentação que as sustenta.  O pensamento que desenvolverei abaixo podia, por isso, assentar numa patetice apenas, numa ideia vestida de embirração. Pelo contrário, tem por trás um raciocínio que, embora não infalível, tem o seu quê (ainda que pouco) de lógico e pensado, o que abre uma brecha na muralha... Eu explico:

Ontem ao pequeno almoço, lamentando não poder deglutir duas torradas de pão saloio barradas de generosa manteiga, dei por mim com uma certeza partilhada em voz alta: não conheço vegetarianos (menos ainda adeptos do veganismo) que aparentem um ar verdadeiramente feliz. Aliás, acho que revelam todos um semblante triste, talvez flácido, pouco enérgico, nada vivaz. 

O vegetariano (e incluirei aqui os adeptos do veganismo, por facilidade de exposição) assentam a sua conduta alimentar na recusa. Tudo neles está pendurado numa palavra: não. Poderão eles alegar que comem vegetais e frutas, e que isso é dizer sim - pelo menos aos vegetais e frutas. Acontece que estes dois alimentos, embora abundantes e propiciando uma abundância de receitas (falam-me no alho francês à Braz e no bife de tofu) são uma minoria de entre a variedade de géneros que podem comer-se. Significa isto que à maioria das coisas que existem na natureza, o vegetariano diz não. Diz não ao bife, diz não ao entrecosto ou às lulas, diz não à pescada cozida ou ao salmão grelhado, à chanfana ou ao franguinho da Guia. O vegetariano diz não, e não e não. Recusa quase tudo.  

Entre o vegetariano e a velha solteirona há semelhanças assinaláveis - a recusa feita quase religião. O vegetariano diz não às favas com chouriço como a velha solteirona diz não ao beijo carregado de paixão e demora. Ambos, acantonados cada um na sua trincheira, dizem não ao prazer saudável, ao pequenino excesso, àquilo que, num caso, une mais as pessoas - uma mesa onde se almoçou ou jantou. Ambos fazem da recusa, do não proferido com um ar de horror, um hábito de vida. São os animais que morrem para dar comida, são os corpos enleados para gerar prazer. A tudo isto se diz que não, em nome de uma ética forte ou de um combate da devassidão. Este combate, feito em nome de valores muito próprios, é um combate árido, que esmaece as feições porque o corpo e a alma, para se habituarem à recusa, hibernam em permanência, fogem do sol e refugiam-se numa aparente seriedade onde não entra a sensualidade, porque é pecado, ou o pargo legítimo, porque foi pescado ainda vivo.

Gostaria que me apresentassem um comediante vegetariano para, num exercício de humildade saudável, eu reconhecer a inutilidade da minha certeza. Até lá, até ser esmagado pelo peso da evidência, ergo bem alto a bandeira da minha convicção: ser vegetariano (como ser puritano) torna as pessoas tristes. 

JdB

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