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30 junho 2026

Crónica de um doutorando tardio

Em 1984 formei-me em Engenharia Mecânica no Instituto Superior de Engenharia de Lisboa (ISEL). Em 2012, desafiado por uma amiga, inscrevi-me numa pós-graduação intitulada Artes da Escrita (Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa). Nesse mesmo ano, impulsionado por um professor, candidatei-me ao Programa em Teoria da Literatura da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, tendo concluído o mestrado em 2015. Em Setembro deste ano, em correndo tudo bem, completarei o doutoramento no mesmo programa, na mesma universidade.

O parágrafo acima tem pouco de vaidade, tem muito - quase tudo de gozo. Em bom rigor, há dois momentos de vaidade: a conclusão de um curso em engenharia que detestei desde o primeiro dia; e a (re)entrada aos 55 anos numa faculdade totalmente desconhecida, para ouvir e discorrer sobre temas que, nalguns casos, me foram particularmente difíceis de seguir. A vaidade está na saída - quase forçada num caso, e totalmente voluntária noutro - da minha zona de conforto. Tudo o resto - e esse resto é muito - é gozo, puro gozo.

Desde 2013 que me sento na mesma aula, quase sempre no mesmo lugar (as obsessões funcionam assim...) a ouvir falar de temas e de autores que, ou conhecia pouco, ou sobre os quais / de quem tinha lido quase nada, ou que desconhecia por completo. As estantes de minha casa encheram-se de livros que nunca leria, de autores que não constavam da minha lista de intenções. A vida é maldosamente irónica: há 40 anos eu tinha uma memória óptima e sabia muito pouco da vida, e talvez fosse incapaz de relacionar estes autores / temas uns com os outros, ou com o meu próprio caminho. Hoje tenho uma experiência de vida diferente e consigo relacionar (quase) tudo; já não tenho é a memória de antes...

Nestes últimos 15 anos fiz bons amigos na Faculdade, todos com idade para serem meus filhos. Conheci muitos outros estudantes com quem tive menos contactos ou proximidade. Todos eles são pessoas muito interessantes, a defenderem teses ou mestrados em temas difíceis, a discorrerem sobre temas que me interessaram. A maioria deles, talvez, terá um futuro interrogado na área que escolheram...

O doutoramento não conclui quase nada, a não ser um capítulo da minha vida que tem 25 anos e que, por isso, merece ser posto no papel. A minha relação com a oncologia pediátrica foi de tal forma humanamente rica que merecia que eu fizesse alguma coisa com isso. O resto não se altera. Em Setembro conto sentar-me na mesma aula, no mesmo lugar, a ouvir professores que já conheço que me apresentarão  teorias interessantes sobre livros que não li, de cujos autores li outras coisas ou nada. Vou encher-me de gozo com mais estas descobertas, vou encher-me de frustração com a memória e capacidade de retenção que vão desaparecendo. E vou ver caras conhecidas de pessoas que me tratam com amizade e deferência. Afinal, entre eles e eu há 40 anos de diferença...

JdB     

  

23 setembro 2025

De uma mesa cheia de doutorandos

Um dia uma prima contou que, num casamento, lhe havia sido atribuída uma mesa onde estavam três cavalheiros (não afianço o número, mas é irrelevante) que tinham atravessado o Tejo a nado. A probabilidade de isso acontecer é baixa, muito baixa, excepto se pensarmos que o noivo já tinha atravessado o Tejo a nado, pelo que é possível que tivesse amigos - uma espécie de irmandade - capazes de uma façanha semelhante.

No sábado fui a um casamento. Na minha mesa - de oito pessoas - havia cinco doutorandos. A probabilidade de isso acontecer é baixa, muito baixa, excepto se pensarmos que a noiva também é doutoranda e convidou colegas da faculdade, eu incluído. Numa outra mesa havia mais dois doutorandos, também colegas de faculdade.  

Uma mesa de doutorandos é uma mesa divertida? Estou em crer, num pensamento muito repentino, que sim, é divertida (presumindo que as pessoas não são maçadoras) desde que sejam da mesma faculdade. Imagino-me com dificuldades em entabular conversa com um doutorando em matéria negra, na influência dos raios gama no comportamento das margaridas (título de um filme de 1972, que também vi), na definição de estruturas pendulares para o suporte de pontes aéreas ou para os efeitos da gentrificação no bairro do estacal novo. Aqui o grupo era mais homogéneo: para além de mim, havia uma doutoranda em José Régio, outra em João Guimarães Rosa (sobrinha do meu querido amigo fq), um doutorando em Alexandre O'Neill e uma doutoranda a terminar a sua tese (que vou conhecendo bem) sobre a representação social das viúvas, mas numa faculdade diferente. Para todos tenho conversa e ouvidos interessados - confirmo uma suspeita sobre José Régio (de cuja poesia gosto) no livro O jogo da cabra-cega; li há uns bons Grande Sertão: Veredas, motivo de espanto geral, e sou igualmente apreciador de O'Neill. Na mesa ao lado reencontrei mais dois colegas que já fizeram o doutoramento: um sobre Wittgenstein e a noção de casa e outro sobre Sócrates (ou seria Aristoteles?) e Platão.

Um dia perguntei a uma colega que estava a fazer um doutoramento sobre Wordsworth: o que motiva uma rapariga com 25 anos a fazer um doutoramento sobre o poeta inglês? E o que vai fazer com o doutoramento? A resposta foi sequencial: não sei e não sei. Dos dois doutorandos que referi no final do parágrafo anterior, um tirou um curso de programação e exerce esse mister; o outro deu aulas na faculdade - totalmente de graça!!! -  e agora está perdido, sem saber o que fazer. Ambos gostariam de leccionar, n(um)a faculdade, assim como o doutorando em O'Neill. 

Para a minha geração era muito importante ter-se uma ferramenta (a expressão era mesmo essa), isto é, um curso com saída para uma vida profissional. Todos estes doutorandos quererão leccionar? E se sim, onde? E será que o conseguem? E se não conseguirem, fazem o quê?

JdB

24 janeiro 2025

Divagações soltas sobre um mesmo tema

Sempre que me lembro de um determinado escritor - um bom escritor! - vejo-lhe os tiques de arrogância, inveja e maledicência. Também lhe vejo os livros que escreveu e eu li, mas não é isso que vem ao caso. Como acontece a muitas pessoas, um dia foi diagnosticado com uma doença grave e foi beneficiário de uma epifania (na sua imensa sabedoria, o povo diz: deu uma volta de 360º...) traduzida em pensamentos lindos: é preciso ver o melhor nas pessoas, há que estimar o tempo que é finito, vamos dar a atenção que lhes é devida aos pequenos prazeres e às irrelevâncias da vida, e as crianças Senhor / porque lhes dais tanta dor / porque padecem assim..., etc. Um dia, como acontece, felizmente, a muitas pessoas, recuperou a saúde e foi vítima de uma anti-epifania - regressaram os tiques de arrogância, inveja e maledicência. O contacto deste escritor com um certo alinhamento cósmico sábio esteve indexado à competência dos médicos e à eficácia dos fármacos.

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Como já tive oportunidade de referir neste estabelecimento, para efeitos do meu doutoramento tenho vindo a entrevistar um conjunto alargado de Pais de crianças com cancro. O último grupo - o mais desafiante - era constituído por Pais cujos filhos tinham morrido há cerca de dois ou três anos. Todos eles referem o mesmo: sentem-se hoje melhores pessoas do que eram antes dos filhos morrerem. Não são forçosamente mais esmoleres, mais santos, mais perfeitos, mas sentem, talvez, um olhar diferente sobre a vida, um olhar mais arguto; e desvalorizam o que não é relevante - afinal, passaram por um problema (quase) sem par na existência de um Pai. 

O discurso destes Pais está alinhado com a minha própria sensação, e com a sensação de muitos outros Pais em luto com quem fui falando ao longo dos meus anos de voluntariado internacional: somos diferentes e - que não se veja nisso presunção - sentimo-nos melhores pessoas. É importante ressalvar que estes Pais que eu conheço se dedicam ao voluntariado, não sabendo eu se se dedicam aos outros porque são melhores pessoas ou se tornaram melhores pessoas porque se dedicam aos outros.

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Ofereço-vos um lugar-comum: a valorização que fazemos das qualidades dos outros (ou das qualidade humanas, em sentido genérico) varia com a nossa idade e circunstância: aquilo que eu valorizava nos meus amigos aos 20 anos, ou antes de 2001 - ano de todos os anos! - não é o que valorizo agora. Tenho uma idade diferente, vivo circunstâncias diferentes. 

A partir de uma determinada altura, comecei a dar importância à gratidão e a usar a expressão pouco consensual: tenho uma dívida de gratidão com... Não vulgarizo a expressão através da utilização excessiva, mas aplico-a a quem me resgatou em tempos difíceis, a quem me abriu os olhos para um mundo diferente, a quem me ajudou a encontrar um sentido para a vida, ou a quem me orientou - no sentido metafórico do termo - a regressar a casa. Também gosto de usar a expressão com quem, não sendo protagonista de nada impactante, se manteve firme e, com isso, marcou a diferença: a transparência em tempos de opacidade, a fidelidade em tempos de traição, a honestidade em tempos de canalhice, a memória em tempos de esquecimento.     

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Aquilo que diferencia um Pai que perdeu um filho, de um escritor quezilento que passa pelo desafio de uma doença grave é, ironicamente, a indexação à competência dos médicos e à eficácia dos fármacos: o escritor repõe as condições iniciais quando se encontra curado. Um Pai não o consegue - aquilo em que se tornou é para a vida...  

JdB

17 janeiro 2025

Fado perseguição

Ontem a minha tese de doutoramento sofreu um impulso motivacional (expressão muito moderna): de manhã tive reunião com o meu orientador, de tarde com a minha co-orientadora. Em bom rigor não sei se preciso de motivação ou de disciplina: não sei se lá vou com uma frase que estimula - tu consegues, é só quereres - se com uma frase que educa - devias ter vergonha! Todas as razões são boas para se adiar a redacção de uma tese de doutoramento: a faixa de Gaza, uma ligeira tosse que pode ser tuberculose, uma viagem em Novembro que requer planeamento, uma mosca que zumbe ou um cão que ladra, um teclado que evidencia uma nódoa misteriosa. Nada há de mais fácil do que justificar uma indolência chamando-lhe outras coisas, tal como arritmia de vontade, o que quer que isso queira dizer. 

Tanto numa conversa como noutra falámos de temas que quero abordar: luto, fé, morte, silêncio, combate, metáfora, milagres, Deus, tristeza, oração. Não sei se são temas que me perseguem, se são temas que persigo. Podiam responder-me que os temas, com a sua dimensão imaterial, não perseguem ninguém, pelo que me restaria ser eu a persegui-los. Não estou certo disso. Talvez esta imaterialidade me persiga há 24 anos e seja agora momento de qualquer coisa, de que não estou certo. Ou talvez não haja perseguição nenhuma, mas apenas uma companhia que me vai lembrando das coisas importantes, como referem tão bem estes versos de T S Eliot (in The Waste Land)

Who is the third who walks always beside you?
When I count, there are only you and I together
But when I look ahead up the white road
There is always another one walking beside you
Gliding wrapt in a brown mantle, hooded
I do not know whether a man or a woman
—But who is that on the other side of you?’

Se calhar o terceiro que caminha ao meu lado é, também, este conjunto de temas importantes.

JdB

12 setembro 2023

Crónicas de um doutorando (muito) tardio

O meu regresso às aulas para este semestre.

JdB 

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TEO5.922035/ TEO8.922034 Tópicos de Teoria Literária (12 ECTS, S1, 2ª, 9:30-12:30, Miguel Tamen)

Opiniões acertadas sobre literatura

As opiniões acertadas sobre literatura não resultam de termos aplicado as teorias da literatura certas a ficções ou poemas;  implicam porém adquirir e saber examinar opiniões sobre linguagem, histórias, interpretação, arte, e culturas, entre muitas outras coisas; de que poderão decorrer, com sorte e talento, opiniões acertadas sobre literatura.  Neste seminário serão discutidas dez distinções básicas que podem estimular o desenvolvimento de opiniões acertadas sobre literatura.   Exemplos das distinções a examinar são: uso e menção; propaganda, ambiguidade e nonsense; mimese e catarse; familiar e não-familiar; paráfrase e exemplo; fazer e descobrir; nós e eles, entre outras.  As discussões poderão incluir a leitura de fontes bibliográficas relevantes.  Quase todas as semanas os participantes deverão entregar ensaios de entre 300 e 500 palavras, sobre tópicos a indicar na aula.

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TEO5.922083/ TEO8.922084 Tópicos de Teoria Literária (12 ECTS, S1, 5ª, 9:30-12:30, Alberto Arruda)

Sobre fragilidade humana

O seminário consistirá num argumento continuado acerca da fragilidade humana como constituindo a origem de problemas filosóficos, morais, estéticos e políticos.  Na primeira parte do seminário será proposta uma leitura da história da filosofia moderna enquanto história da apreensão filosófica da fragilidade humana. Serão lidos textos de Hobbes (fragilidade enquanto medo: Of Man), Descartes (fragilidade enquanto erro: Meditações) e Rousseau (fragilidade enquanto desigualdade: Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens).  A segunda parte do seminário será dedicada à leitura de alguns dos herdeiros desta dificuldade deixada pela filosofia moderna. Tentaremos entender de que forma alguns filósofos e um poeta enfrentaram a tarefa de reconciliar a humanidade com a sua fragilidade. Serão lidos textos de Marx (Manuscritos Económico-Filosóficos), Emerson (Self-Reliance), Wittgenstein (Da Certeza) e a peça Os Ladrões de Schiller. 

28 junho 2023

Crónicas de um doutorando muito tardio

Malacca, Maio de 2023

A minha tese de doutoramento entrou em fase de hibernação quando assumi funções voluntárias internacionais - em Outubro de 2020. A partir desse momento o voluntariado não me deu tréguas: chegaram a ser dezenas de mails por dia para ler, responder, redigir, decidir, encaminhar; eram reuniões constantes e virtuais em inglês; eram projectos que requeriam liderança, acompanhamento ou apenas presença. Era muita coisa - frequentemente demasiada para um cérebro que encolhe sem retorno. Para uma tese que tinha livros lidos, ideias construídas, supervisão segura, eu tinha escrito, em três anos, 30 páginas sofríveis. Olhava em frente e, nos meus sonhos mais selvagens, antevia pouco. Talvez em Outubro, quando acabasse uma parte mais exigente do meu doutoramento, eu pudesse retomar a tese e o gosto - que o tenho, ainda - de escrevê-la.

Há algumas semanas foi-me dito que eu não devia continuar a tese a que me tinha proposto (e o tema continua a interessar-me) mas que devia mudar completamente de rumo, para abarcar a minha vida de 20 anos na comunidade da oncologia pediátrica - uma comunidade composta por pais, doentes, sobreviventes, voluntários, profissionais de saúde.  

Perguntaram-me ainda o que retenho destes últimos 7 anos de vida mais internacional. A resposta não foi difícil. O que retenho? Ocorre-me imediatamente:

- metaforicamente (embora o episódio seja real), um israelita a dançar com uma egípcia, como se fosse uma espécie de “esperanto” do sentimento; há um “lugar” onde esta comunidade se encontra, onde todos somos iguais, onde todos falamos a mesma língua. Talvez seja o que alguém me referiu – a vulnerabilidade.

- A ideia de que os Pais querem contar uma história para a qual não têm um ouvinte tendo de recorrer a um cavalo (referência a um conto de Tchekhov, chamado Tristeza, no qual um cocheiro que quer contar o drama da sua filha que morreu recorre ao cavalo, porque não há ninguém que queira ouvi-lo).

- A ideia de força, de organização, de solidariedade desta comunidade da oncologia pediátrica.  

É então que me cruzo com uma pista - o conceito de Medicina Narrativa (Narrative Medicine em inglês) um conceito que se prende com a conjugação da evidência clínica, testada e comprovada, à interpretação dos sentimentos e emoções do doente por intermédio do seu discurso, oral ou escrito, como meio de fomento da atenção, respeito, afiliação, confiança e empatia (Charon, 2001, 2012). Num instante me interesso pelo tema sobretudo porque dá importância à história que ninguém quer ouvir, mas também porque há muito pouca coisa feita na área da Pediatria e menos ainda, por maioria de razão, na oncologia pediátrica.

O desafio está(-me) lançado. Fruto de alguém que conhece alguém já falei com gente que sabe muito disto, que escreveu livros e tem doutoramentos na área, que num repente se entusiasma por ver o potencial de se falar sobre isto na pediatria (em Portugal). Eu, num certo sentido, fecho um ciclo. Afinal, tudo o que rodeia as crianças com cancro me tem dado sentido à vida desde há 21 anos. Escrever a tese sobre este tema é um pequeno tributo que presto a uma comunidade que me deu tanto.

JdB 

22 agosto 2022

Propostas curriculares para o ano lectivo 2022 - 2023 (farei um, dois, ou nenhum dos seminários...)

TEO5.921704/ TEO8.921710 Tópicos de Teoria Literária (12 ECTS, S1, 2ª, 9:30-12:30, Miguel Tamen)

Obiter dicta

Um obiter dictum é um dito de baixo valor epistémico.  No entanto, tais ditos podem ser importantes na caracterização de acções, acontecimentos ou pessoas.  O seminário ocupar-se-á de descrições de pessoas, existentes e inexistentes, a partir de ditos incidentais que lhes foram atribuídos por terceiros.  Discutir-se-ão, entre outros, fragmentos e paráfrases de Diógenes Laércio, o Evangelho de Tomé, a conversa de mesa de Lutero e Coleridge, extractos de Life of Samuel Johnson, de James Boswell e das conversas de Eckermann com Goethe, Sartor Resartus, de Thomas Carlyle, e  “Notas para a recordação do meu Mestre Caeiro”, de Fernando Pessoa.


TEO5.921709/ TEO8.921715 Tópicos de Teoria Literária (12 ECTS, S2, 4ª, 9:30-12:30, Maria Sequeira Mendes)

A arte da crítica

“Some of my very best work went into that book and they’re treating it like a Mills and Boon potboiler, it just doesn’t make sense. I don’t expect them to give me the Nobel Prize, for Christ’s sake – I do know my own limitations, only too well, alas! – but isn’t it rather peculiar that not one of them so far has spotted the perfectly obvious point that the whole thing is meant to be an allegory of Good and Evil?”, diz a romancista num conto de Francis Wyndham.   Este seminário reflecte sobre a actividade de críticos que se ocupam (ou que se ocuparam) da produção artística do seu tempo (teatro, cinema, livros, séries de televisão), procurando demonstrar o seu valor. Leem-se artigos de autores como Andrew O’Hehir (Salon.com), David Orr (NYT), Emily Nussbaum (New Yorker), Michael Billington (The Guardian), Patricia Lockwood (LRB), entre outros, e responde-se a uma série de questões: que apreciamos num artigo de crítica?; que estratégias usam certos críticos?; podemos apreciar a crítica de espectáculos que não vimos ou de livros que não lemos? Procura-se perceber se a crítica estará, como pensa a romancista, morta e enterrada, ou se ainda existe esperança para quem procura ocupar-se destes objectos do presente. Ao longo do seminário os alunos farão exercícios tentativos de crítica.  


TEO5.921707/ TEO8.921713 Tópicos de Teoria Literária (12 ECTS, S2, 5ª, 9:30-12:30, José Maria Vieira Mendes)

Staying With the Trouble

Em um dos seus últimos livros, Staying With the Trouble. Making Kin in the Chthulucene, Donna Haraway escreve: “staying with the trouble requer que aprendamos a estar verdadeiramente presentes, não num lugar de fuga algures entre (...) futuros salvíficos ou futuros apocalípticos, mas enquanto criaturas mortais embrenhadas em miríades de configurações inacabadas de lugares, tempos, matérias, significados.” Neste seminário iremos ler alguns textos desta bióloga, filósofa e feminista, estabelecendo com a sua escrita e pensamento uma relação literária que se apoia no seu vocabulário e metáforas idiossincráticos. Com esta aproximação procuraremos também ecos do seu pensamento em textos de autoras e autores como Octavia Buttler, P.B. Preciado, Franz Kafka ou Legacy Russel, aprendendo com Haraway a ficar com o problema ou dificuldade (trouble).



22 fevereiro 2022

Crónica de um doutorando tardio

 

Igreja de Santa Maria, Marco de Canaveses

Igreja dos Clérigos, Porto

É-me fácil imaginar ou identificar uma igreja despojada; talvez melhor dizendo, é-me fácil classificar uma igreja como despojada, porque o critério que uso é o meu, não o dos arquitectos ou dos historiadores de arte. Não me parece haver uma escala de despojamento. Penso que as fotografias acima retratam bem os polos opostos de um mesmo contínuo: Siza Vieira, séc. XX vs Nicolau Nasoni, séc. XVIII. A Modernidade vs o Barroco.

Nas paredes da Igreja de Santa Maria, pintadas de branco, não existem imagens ou pinturas, nem mesmo pequenas referências, numéricas ou pictóricas, às estações da Via Sacra. São paredes grandes, despojadas de tudo.  Não vale a pena descrever o interior da Igreja dos Clérigos; a imagem chega.

“Vemos aqui também um aspecto inesperado (...): o contraste dramático entre a fraca iluminação da nave a abundância de luz para além dela, na parte oriental da igreja, proveniente das amplas janelas do tambor da cúpula. As possibilidades expressivas da Luz foram aqui conscientemente exploradas — uma nova invenção, “teatral“ no melhor sentido da palavra — para dar a IL Gesú uma concentração de efeitos emocionais mais forte que em qualquer igreja anterior.”

Embora a descrição acima se refira a igreja de Il Gesú, a casa-mãe dos Jesuítas, em Roma, a Igreja dos Clérigos, como boa filha do Barroco, segue a mesma aproximação. Já a Igreja de Santa Maria tem uma [a]bertura horizontal contínua, de 16 m de comprimento x 0,50 m de altura, com peitoril a 1,3 m do piso, ao longo da parede lateral Sudeste." À semelhança de algumas igrejas latino-americanas “onde há uma ligação viva com o claustro, ou com a rua, através dumas grades colocadas directamente nas naves laterais que ligam os aspectos cerimoniais que se passam dentro da igreja com a vida da cidade” Siza Vieira quis que esta “incisão horizontal” permitisse, a quem se senta, ver as colinas por detrás das urbanizações e, com isso, escolherem se querem concentrar-se na Missa  ou não. 

Hoje, numa conversa académica, dei por mim a ter de raciocinar sobre um tema inesperado: qual a relação da iluminação com a ideia de despojamento? Existe ou são duas dimensões que formam entre si um conjunto vazio? Poderemos dizer, como me foi sugerido, que a iluminação numa igreja despojada é importante porque ilumina a ausência de distracção? Isto é, é importante que os marcoenses vejam que não há nada para ver? E é esse o efeito emocional contraponto ao efeito emocional de uma iluminação barroca? É importante ver o vazio como é importante ouvir o silêncio?

JdB

20 setembro 2021

Crónicas de um doutorando tardio

Voltei aos bancos da faculdade 18 meses depois de lá ter saído - em Março de 2000, quando a expressão pandemia entrou no nosso léxico quotidiano. Apesar da alteração de rotinas (o café, diz o letreiro, está em Românicas e a utilização de máscara é desconfortável) gostei do regresso, das novas leituras, do convívio com outros alunos, da activação de neurónios que se quedaram dormentes e gordos neste ano e meio. 

A perda da rotina académica teve um efeito nefasto em várias áreas da minha vida "mental": não tendo avançado com a tese de doutoramento, esta andou para trás: perdi criatividade, disciplina, memória, associações. Terei de recomeçar quase tudo do zero; por outro lado, a minha mente tornou-se mais mono-temática, pois suspendi uma certa expansão da mente que me advém de ouvir conversas que não têm a ver com as actividades mais diárias da minha vida - profissional ou de voluntariado.

Que seja um bom ano lectivo, é que o desejo a mim próprio, começando por tentar perceber o que deve ver-se ao perto e o que deve ver-se ao longe.

JdB  

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Tópicos de Teoria Literária (Miguel Tamen)

Perto ou longe

Existe um debate recorrente nos estudos literários entre quem acha que as obras literárias devem ser examinadas de perto e quem acha que lê-las de perto é uma perda de tempo.  Os primeiros defendem que os pormenores num poema ou num romance têm prioridade em relação a considerações gerais sobre a história, a sociedade ou a cultura; os segundos que os pormenores são sempre explicados por essas considerações gerais, e por isso são dispensáveis.  Seguiremos o debate através de discussões recentes das noções de “close reading” e de “distant reading.” Cada participante terá de escrever um ensaio por semana.

24 setembro 2019

Crónicas de um doutorando tardio

Alertado por mão amiga (que também é estudante na Faculdade de Letras) junto seguem dois posters para o mesmo evento. Sendo um apreciador tardio e ainda ignorante de poesia, interessa-me sobremaneira esta classificação de poesia ecofeminista para a greve climática mundial

Quando andei nas lides do ambiente na sua versão industrial, já lá vão 20 anos, cruzei-me com uma pessoa que, classificando organizações com preocupações, afirmava doutamente: algumas empresas vêem de onde parte a bola; outras já imaginam onde ela vai cair. Achei a analogia interessante e lembrei-me dela por ocasião da proibição de refeições com carne de vaca nas cantinas da Universidade de Coimbra. A universidade coimbrã faz parte, claramente das organizações que olham para onde parte a bola. A Faculdade de Letras está mais à frente, e atenta no local onde o esférico irá aterrar. E onde será isso? Na cara da senhora que ilustra a ideia de que o meu (dela) útero é uma bomba.  

O olhar esteticamente feliz não pede coisa diferente.

JdB





24 julho 2019

Crónicos de um doutorando tardio - ofertas para o 1º semestre 2019 / 2020

Questões canónicas (João Figueiredo)

A partir de exemplos práticos de análise literária, a realizar nas sessões, e da discussão de textos habitualmente classificados como teóricos, o curso pretende discutir um conjunto de questões centrais ao estudo da literatura. Algumas das perguntas a que se tentará dar resposta são:
     -Qual a diferença entre descrever e interpretar?
     -O que fazemos quando tentamos perceber um poema?
     -O que torna uma interpretação boa?
     -Há factos nos estudos literários?
     -Como escolhemos entre várias interpretações de um mesmo texto?
     -O que é, afinal, a teoria da literatura?
O conjunto dos textos a discutir, composto por ensaios críticos e ensaios que reflectem sobre o que fazem os críticos, propõe um cânone mínimo da crítica e da teoria literárias, e entre os autores a estudar encontram-se I. A. Richards, Frank Kermode, E. D. Hirsch, Stanley Fish, W. K. Wimsatt & M. C. Beardsley, Michael Riffaterre, T. S. Eliot, Stanley Cavell, Steven Knapp & Walter Benn Michaels, Richard Rorty.


Shakespeare e dívida (Miguel Ramalhete Gomes)

Na sequência da crise financeira de 2007/2008, o peso da dívida veio a sentir-se não apenas nos orçamentos dos estados, mas também na literatura e no seu estudo. Contudo, a dívida é uma das relações económicas mais antigas que conhecemos: está na linguagem que usamos e na literatura que lemos. Neste seminário discutiremos a presença e implicações da dívida em três peças de Shakespeare: The Merchant of Venice, Timon of Athens e Coriolanus (assim como em duas fontes desta peça, Plutarco e Tito Lívio). Partindo da experiência contemporânea da dívida e do trabalho de Marc Shell e de David Graeber, entre outros, exploraremos o efeito do dinheiro que é devido na conceptualização do valor, nas relações sociais e nos corpos dos endividados. A frequência do seminário não depende de literacia financeira prévia.


Teoria geral da interpretação (Miguel Tamen)

A maior parte das teorias sobre interpretação defende que a palavra designa uma única actividade; tal actividade será linguística, quase de certeza mental, possivelmente “artística.”  A palavra ‘interpretação’ designa porém muitas coisas diferentes, nem todas linguísticas ou mentais ou artísticas.  O seminário será dedicado aos vários sentidos em que falamos de interpretação; a partir deles tentará encorajar uma imagem mais geral do tópico e das suas dificuldades.

Procederemos em cada sessão por analogia com actividades ou descrições familiares; os assuntos serão apresentados por uma ordem crescente de complexidade que permitirá relações com discussões anteriores.  Não será usada bibliografia específica, ou expostas teorias bem-conhecidas sobre o assunto; embora possa eventualmente vir a ser indicada bibliografia de apoio a propósito de questões particulares.

No fim de cada uma das primeiras dez sessões cada participante será convidado a escrever um ensaio de menos de 500 palavras: esses ensaios não serão classificados.  Quem tiver entregue dez desses ensaios poderá depois escrever um ensaio final, de cerca de 2000 palavras, durante as últimas quatro semanas do semestre.   Além disso, cada participante terá que formular pelo menos uma objecção oral a uma das analogias usadas para motivar a discussão.  A nota do seminário será o resultado da ponderação do ensaio final e da participação oral.


Analogical Words and Analogical Thinking (Brett Bourbon)

The most basic and powerful mode of thinking proceeds by means of analogy. Analogy drives poetry, creativity, and human insight.  Analogical thinking is literary thinking. And it is much more.  It remains, however, poorly understood, linked somehow with metaphor it remains suspect.  On the other hand, much of what we imagine we know depends on analogy (the idea that we have a mind, e.g., we know only by analogy).

In this course, we will explore analogy as a mode of thinking and as an aspect of language and art.  We will begin with ancient Greek modes of thinking and then jump forward into ideas of language and poetry in the 18th century and in modernity.  We will also examine examples of analogy in science, in poetry, in philosophy, and in our everyday lives.  We will also explore the following four related concepts—metaphor, caricature, parody, and salience.

08 março 2019

da interpretação de Ulisses, de James Joyce

A leitura em inglês de Ulisses, de James Joyce, vislumbra-se uma tarefa herculeamente impossível. A sua leitura em português, numa tradução (parece que cuidada, de mais de 700 páginas) de Jorge Vaz de Carvalho afigura-se uma tarefa extenuante. Devo reconhecer que não cumpri nenhuma das duas. No entanto, na minha condição de doutorando tardio, assisto a um seminário, ministrado pelo Prof. António Feijó, que se dedica à leitura acompanhada da obra (na edição usada, mais de mil páginas entre texto e notas).

É muito vulgar perguntarem-nos sobre que é determinado filme ou determinado livro. A resposta habitual é mais ou menos esta: então, é sobre duas pessoas que se encontram... Ora, essa é a história do livro ou filme. O tema é outro: pode ser o amor na terceira idade, uma metáfora da traição, a descrição do capitalismo moderno ou um libelo contra a feminismo. 

Nesta linha, não sei, em boa verdade, sobre que é Ulisses, de James Joyce. Tampouco saberia contar a história, pois são 700 páginas passadas num único dia. Mas, como ouvi, o maior interesse para algumas pessoas (nomeadamente eu) não é saber a história ou o tema, mas perceber as inúmeras (seguramente centenas) de referências em toda a obra. O que me interessa saber é o que está por trás de determinada frase: um pensamento de Santo Agostinho ou uma frase de Shakespeare, uma citação dos clássicos gregos ou da Bíblia, um episódio da vida do autor ou do irmão em Trieste. 

Com um pontapé abriu a porta gretada da casinha. Melhor ter cuidado para não sujar estas calças para o funeral. Entrou, curvando a cabeça sob o lintel baixo. Deixando a porta entreaberta, no meio do fedor a cal mofenta e a teias de aranha bafienta tirou os suspensórios. antes de se sentar espreitou através de uma frincha para a janela da casa ao lado. O rei estava no seu trono. ninguém.    

(...)

Leu calmamente, contendo, a primeira coluna e, cedendo mas resistindo, começou a segunda. A meio, cedendo a sua derradeira resistência, permitiu aos intestinos que se aliviassem calmamente enquanto lia, lendo ainda pacientemente, já passada aquela ligeira obstipação da véspera.(*) Espero que não seja tão grosso que traga hemorróidas de volta. Não, bom tamanho. Assi, Ah! Com prisão de ventre um comprimido de cáscara sagrada. A vida podia ser assim. Não o emocionava nem tocava mas era algo rápido e asseado. Agora imprime-se qualquer coisa. Época frívola. Continuou a ler, sentado calmamente sobre o seu próprio fedor ascendente. (...) Deu uma olhadela pelo que já tinha lido e, enquanto se sentia verter calmamente as águas, ele invejou amavelmente o Sr. Beaufoy que tinha escrito aquilo e recebera o pagamento de três libras, treze e seis. 

(...)

Rasgou metade da história premiada bruscamente e limpou-se com ela. (**)

---

* "Os actos de ler e defecar são aqui colocados juntos de forma perversa. O prazer de Bloom na contenção / libertação lembra a teoria de Freud de que, através destes meios anais, as crianças de três anos atingem gratificação sexual." (nota da edição inglesa, tradução minha.)

(**) parece que falamos de crítica literária...

JdB

08 novembro 2018

Da ligeireza com que se abordam as coisas importantes

Foi Samuel Taylor Coleridge (Inglaterra, 1772 - 1834) quem cunhou a expressão willing suspension of disbelief que se traduziria em português por suspensão voluntária da descrença embora eu prefira, em benefício do meu argumento, suspensão voluntária da incredulidade. Por outro lado, numa carta aos seus irmãos George e Thomas, John Keats (Inglaterra, 1795 - Itália, 1821) usou a expressão negative capability, que poderíamos traduzir por capacidade negativa.  

Citemos Coleridge (sublinhados meus): In this idea originated the plan of the 'Lyrical Ballads'; in which it was agreed, that my endeavours should be directed to persons and characters supernatural, or at least romantic, yet so as to transfer from our inward nature a human interest and a semblance of truth sufficient to procure for these shadows of imagination that willing suspension of disbelief for the moment, which constitutes poetic faith. 

Citemos Keats: (...) and at once it struck me what quality went to form a man of achievement especially in literature and which Shakespeare possessed so enormously - I mean negative capability, that is, when a man is capable of being in uncertainties, mysteries, doubts, without any irritable reaching after fact and reason - Coleridge, for instance, would let go by a fine isolated verisimilitude caught from the penetralium of mystery, from being incapable of remaining content with half-knowledge.  

O que diz Coleridge (ou me diz a mim)? Que para alguma leituras - nomeadamente de poesia - é preciso suspendermos a incredulidade. Isto é, deixarmos-nos levar pela improbabilidade, pela inverosimilhança, pelo aparente absurdo do poema e, com isso nos encantarmos. É a suspensão da incredulidade que está por detrás da fé poética. 

Keats diz aparentemente o mesmo, só que entende que Coleridge não o consegue. Para Keats, Shakespeare conseguia-o: ficava com meias verdades, não o incomodava o mistério ou a falta de explicação ou a dúvida. Deixava-se ir. Já Coleridge, diz Keats, sendo muito mais inteligente, não o consegue, não saberia viver numa meia verdade, não conseguiria não perceber tudo, exigiria uma explicação.

A fé (no sentido religioso do termo) é a suspensão voluntária da incredulidade. Nada daquilo fará muito sentido, mas deixamo-nos "incredulizar" para descobrir o encanto. E não vale a pena querer uma explicação para tudo, perceber os meandros da coisa, encontrar uma lógica por trás do amor aos inimigos ou da morte na cruz ou da justiça no regresso do filho pródigo. 

Talvez fossemos todos um pouco mais felizes com esta suspensão voluntária da incredulidade e com uma certa dose de capacidade negativa. Por vezes a explicação é um fosso, como me disseram uma vez. 

JdB    

13 setembro 2018

Dos que se doutoram e dos que são pedreiros

No que aos meus textos diz respeito, o meu querido amigo ATM divide-se salomonicamente entre a crítica mais assanhada e o elogio mais fértil. Entre os dois extremos deste contínuo no qual ele derrama uma certa atenção ao que eu escrevo há um estado intermédio. Chama-se alerta, e foi o que ele fez relativamente ao final do meu texto de anteontem. 

(Há ainda a indiferença, algo indefinível nesse contínuo, que se deve ao desinteresse pela forma ou pelo conteúdo, a uma gripe, a um espanto prolongado pelo tema, ou à inexistência de uma brecha por onde entrar com a lança ou com a palma.) 

Anteontem ainda, repito, alertou-me para a conclusão do meu post sobre os jovens que se doutoram em Wordsworth, Pascoaes ou arte moderna. Diz-me ele que pode dar a impressão (o pode dar não é, no entanto, uma expressão que ele use, pois alguma assertividade não concede hipóteses) que eu defenderia uma espécie de degredo destes jovens universitários para as obras, pondo as mentes inteligentes ao serviço das canalizações, das cantarias em pedra, dos disjuntores. O alerta, concedo-o, tem uma certa razão, embora essa visão não me habitasse a mente. 

Num momento que é variável, todo o jovem encontra dentro de si uma vocação, um interesse, uma queda para uma determinada actividade, o desejo de um determinado curso. Todo o jovem construirá um futuro e, para isso, desenhará uma rota para lá chegar, juntará ferramentas. Há os que querem ser engenheiros, médicos, advogados, professores. Alguns quererão tirar cursos superiores porque isso, entre outros factores, lhes dará a possibilidade de lugares mais cimeiros numa organização qualquer, lhes abre portas para posições interessantes, lhes dá a possibilidade de um salário maior, ou, porque não, lhes assegura um certo estatuto. Entre esta juventude há os que têm uma vocação clara: querem ser padres, freiras de clausura, escritores, artesãos de um mister que gere notoriedade pública ou satisfação interior. Ninguém, ou um número muito reduzido, quererá ser canalizador, pedreiro, electricista, a menos que pretenda copiar uma actividade parental, não tenha alternativas ou possua uma visão arrojada da vida. Há os que querem ser marceneiros ou carpinteiros, mas nesses futuros há a possibilidade de uma certa criatividade artística.

Para que serve um doutoramento? Em termos muito simplistas, para ascender a uma determinada posição ou para enriquecimento pessoal. Se esta divisão grosseira for aplicável aos meus colegas de mestrado / doutoramento, vou imaginar que alguns quererão aprender mais - e têm uma situação financeira que lhes permite isso - ou têm uma visão de futuro. E qual será, então, essa visão de futuro? Serem professores universitários? Parece-me lógico, normal, saudável. Mas será isso?

Olho para os meus colegas e sobre alguns faço uma avaliação muito pessoal, muito ligeira, muito falível. Alguns são detentores de um cultura grande e sólida para a idade, ainda que numa determinada área. Alguns têm um pensamento muito estruturado, que lhes permite ligações entre áreas diferentes do saber, sobre as quais discorrem com facilidade e fluidez e que, nalguns casos, são motivo da minha inveja. Outros, como é óbvio, têm inteligências normais, raciocínios normais, cultura normal, factores que lhes permitirão saber mais - ou muito - sobre um determinado tema. Se o objectivo é saber mais, vão no caminho certo. Se a intenção é construir um futuro, para onde vão?

Em momento algum acharia que os meus colegas deveriam deixar uma academia que lhes abre poucas portas para se dedicarem à cablagem e às manilhas - ainda que pudessem ganhar mais dinheiro. Gosto de ver gente a perseguir um desejo, a instruir-se, a pensar sobre as coisas, a cumprir uma vontade ou, simplesmente, a cumprir-se. Mas para onde irão, em Portugal, com um conhecimento grande sobre poetas ingleses, escritores portugueses, arte moderna ou teatro contemporâneo? A pergunta é totalmente genuína e transparente: que lógica está por trás da decisão de um doutoramento aos 30 anos estas áreas?

As caixas dos supermercados estarão repletas de licenciados, mestrados ou mesmo doutorados. Gente que não encontrou uma profissão consentânea com a sua formação académica, gente que talvez não se tenha imaginado por trás de um balcão de loja quando se abalançou a uma formação superior. Noutro prato de outra balança - e tanto o prato como a balança são diferentes - um pedreiro ou um carpinteiro (ou um doceiro, como me disseram um destes dias) pode ganhar muito dinheiro por mês, e talvez não o faça por deficiente formação em gestão ou planeamento. São os excedentários de uma certo prato de balança que deverão colmatar os défices de outro prato de outra balança? Não seguramente, até porque todos - pelo menos para já - ambicionamos para nós e para os nossos filhos o melhor. E o melhor ainda está, aparentemente, na formação académica superior. O meu colega que se especializará (ou especializará ainda mais) em T S Eliot não deve ir para electricista só porque há falta de gente competente que diferencie a corrente alterna da contínua. Ele deve fazer o que quer para chegar onde quer. Não sei é onde é que ele quer chegar.

Do ponto de vista do utilitarismo, é pena que não haja mais gente a querer ser electricista (ou não haja formação adequada), porque não há muitos. Para além de tudo pode ganhar-se bom dinheiro... Isto sou eu a falar, que também incentivaria os meus a serem doutores em vez de serralheiros mecânicos. Estou disponível para pensamentos arrojados, mas nem tudo no meu quintal...

JdB  

11 setembro 2018

Crónicas de um doutorando tardio

Fui ontem à já habitual reunião de início de ano do Programa em Teoria da Literatura, onde faço o meu doutoramento. Ainda de manhã mandaram-me uma fotografia ternurenta: uma criança de três anos, que me é próxima e faz a caridade infantil de gostar muito de mim, com mochila às costas, pronta para o primeiro dia de escola da sua vida. A imagem é a de uma criança sorridente, a irradiar felicidade, certa, como disse a uma tia, de ir fazer novojamigos. Neste relato que faço deste meu também regresso às aulas, poderia falar do meu contentamento infantil ao cruzar o átrio da faculdade pejado de gente nova, ao conhecer novas caras de novos colegas, ao imaginar o que tenho pela frente de textos para ler e sobre os quais discorrer. Não o farei por pudor.

(Começo com uma curiosidade estatística. Na fila onde me sentei estavam, contanto comigo, quatro pessoas. A que estava à minha direita era canhota, a que estava à minha esquerda também. Eu também sou canhoto.)

Naquela sala de aula desconfortável estariam 40 pessoas, a maior parte delas a fazer o seu mestrado, outras, em menor número, a fazer o seu doutoramento. Olhei à volta, e percebi que no pódio do campeonato geriátrico alguém me daria a medalha de prata. 95% dos alunos terão menos de 30 anos. Ora, isto levanta-me uma questão: o que faz um adulto de 30 anos com um doutoramento em Proust, em Wordsworth, em Wittgenstein ou em estética de qualquer coisa? Não sei, honestamente não sei. Eu também não farei nada com o meu doutoramento, mas o motivo para o fazer foi puramente lúdico, não lhe associei uma valência utilitária. Um adulto (jovem adulto?) com 30 anos está em princípio de vida familiar / profissional. Pensará em casar, em ter um emprego, meios de subsistência, uma carreira, talvez. De que lhe serve saber muito - ou quase tudo - sobre um poeta inglês, sobre um escritor portugês, sobre um filósofo ou sobre relíquias? Não sei, honestamente não sei.

Há dois ou três anos, talvez, perguntei a um destes jovens, no início do seu doutoramento (em T S Eliot, talvez) o que faria ele com isso. A resposta foi clara, curta e concisa: irei trabalhar para o call center de uma vodafone qualquer. O mundo do trabalho braçal, do trabalho repetitivo, do trabalho intelectualmente menos exigente estará pejado de licenciados, mestrados, doutorados. Gente que tratará o cliente por senhor joão, lhe dirá como reiniciar o router ou o custo do roaming no Japão. Em casa, atamancado por trás de uns sapatos, de uma prancha de surf e, quiçá, de uma frustração, estará The Waste Land, ou os livros que falam de um tempo perdido. Entretanto, não se consegue um canalizador, um pedreiro, um marceneiro ou um bom electricista. O que nos diz isto do mundo em que vivemos? 

JdB   

07 setembro 2018

Crónicas de um doutorando tardio - os seminários para este semestre

Os princípios da crítica literária (Miguel Tamen)

O que foi exactamente a crítica literária? A que actividades se dedicaram os críticos? Importava que fossem escritores? Precisavam de ser professores? Tinham de escrever em jornais? O seminário discutirá uma série de textos que, entre os séculos XVIII e XIX, ajudam a perceber os princípios da crítica literária. Serão lidos textos de Hume, Johnson, Diderot, Schiller, Schlegel, Wordsworth, Coleridge, Keats, Shelley, Emerson, Baudelaire, Arnold, Pater, Nietzsche, Wilde, Proust e Tolstoy.  Não é de esperar nenhuma teoria unificada.

 ***

Uma teoria sobre lisonja (Maria Sequeira Mendes)

Na literatura, como na vida, os lisonjeiros são seres detestáveis, a quem chamamos parasitas e sicofantes, engolidores de sapos e lambe-botas, entre outros nomes pouco simpáticos. Alguns parecem ser relativamente inofensivos, diminuindo-se para obter pequenos favores pessoais, mas outros são fazedores de enredos competentes, que desencadeiam verdadeiras tragédias ao manipular aqueles que os rodeiam. Neste seminário vamos diferenciar parasitas de falsos acusadores e pessoas obsequiosas de lisonjeiros, mas também demonstrar que, nalguns casos, podem existir usos positivos – e até necessários – para a lisonja. Serão lidos no seminário uma peça de Margaret Cavendish, Timon of Athens e Julius Caesar, de Shakespeare e Volpone, de Ben Jonson, mas também, Plutarco e Platão, entre outros autores, de modo a elaborar uma teoria sobre o tópico.

13 agosto 2018

Crónicas de um dourando tardio *

Leio O Enigma da Chegada. O livro de Naipaul abre-nos uma perspectiva desafiante: a distância com que olhamos para um objecto, sendo que objecto tem um sentido muito lato: pode ser uma bicicleta, uma flor, uma fotografia, uma cara, uma casa, uma sequência de casas, um momento ou uma sequência de momentos. E o que é a vida, se não todos estes objectos elencados?

Se mantivermos um olhar demasiado próximo do objecto, detectamos facilmente a imperfeição do contorno de uma letra impressa ou a implausibilidade de uma paixão que nasce numa franja negligente da violinista. É o olhar que vê a inutilidade do incenso que se queima numa cerimónia religiosa, a soturnidade de um coro de Bach a cantar a paixão de Cristo, o amor paternal exercido com uma disciplina extemporânea. Um olhar excessivamente próximo detecta facilmente a pequena falha que desfeia. Fixa a árvore, talvez o arbusto, seguramente a erva daninha.

Por outro lado, um olhar demasiado afastado do mesmo objecto só vê um ponto contra a linha do horizonte. A dissonância da cor dos olhos de uma criança numa aguarela é um ponto no horizonte, o cheiro a sardinha no estalar do Verão é um ponto na linha do horizonte, uma vida dedicada ao próximo é um ponto no horizonte. Tudo se esbate, se perde num ambiente de ruído e distracção. A lonjura não permite ver o belo nem a sua inversa, permite apenas imaginar sem encanto.

É preciso encontrar o espaço certo para observar estes objectos de que falo. Pode ser um milímetro, um hectómetro – ou dez anos. Ou pode ser outra medida de comprimento ou de tempo que ainda não tenham sido inventadas pelo génio humano. É importante referir, no entanto, que esta distância milimétrica ou temporal pode ser fruto de um acaso, isto é, não há garantia que seja definida por critérios de decisão, do tipo o sítio onde se vê bem o Cristo-Rei é o Chapitô. Há quem se sente no Chapitô e só veja palhaços, há quem se sente no Catujal e vislumbre com nitidez o encanto dos braços abertos de Cristo.

O que era Naipaul no remanso verdejante do Wiltshire? Em que se tornara o Naipaul, jovem indiano da ilha de Trindade, que aos 18 anos parte para Inglaterra para estudar e, posteriormente, se tornar escritor? Era um emigrante, um exilado, um explorador, um peregrino? O que somos, cada um de nós, num país que nos é relativamente estranho, com pessoas que nos são estranhas, a querer ser aquilo que queremos ser desde o princípio: escritor, médico, desenhador de moda? O que nos diz cada uma destas profissões, ou outras que possamos abraçar, sobre o que é ou foi a nossa vida? Diz-nos o mesmo, mas de um modo diferente, apenas. O emigrante, o turista, o peregrino ou o exilado fazem tudo para se sentirem em casa: o festejo da passagem do ano pelo fuso português, a colocação de artesanato alegórico barcelense nas varandas dos países da emigração, os estabelecimentos da restauração com as bicas e os pastéis de nata; mas também o acto de ir pelos campos aprendendo com os pés, ou, olhando para a paisagem envolvente, vislumbrar a sua casa.

Assim como foi a medicina que fez o médico, foi o trabalho da escrita que fez Naipaul ser (ou voltar a ser) de Trindade. Se no Catujal se pode ver o Cristo-Rei, também no Wiltshire se pode ver a ilha de Trindade. Naipaul, como tantos outros retirados do seu espaço vital, quis voltar para casa. O tempo todo em que ele viveu em Inglaterra foi de preparação, de meditação e de construção sobre a sua própria narrativa. “Os homens precisam da História. Mas a História, como a santidade, pode residir no coração; basta que o coração não seja um lugar vazio.”

Ironicamente, talvez a História de Naipaul tenha nascido quando ele escreveu a palavra morte – a da irmã -  palavra essa que determinou o seu regresso a casa que, no caso vertente foi um regresso físico, mas podia não tê-lo sido.

“O nosso mundo sagrado – o sentido do sagrado que nos tinha sido transmitido, quando éramos pequenos, pelas nossas famílias, os locais sagrados da nossa infância, sagrados porque os tínhamos visto quando éramos crianças e lhes tínhamos atribuído qualidades maravilhosas, lugares que, para mim, eram dupla e triplamente sagrados porque, na longínqua Inglaterra, eu viva neles imaginariamente em muitos livros e, na minha fantasia, localizara nesses lugares o início de todas as coisas, construíra a partir deles uma fantasia de lar, embora viesse a saber que aquela terra fora encharcada de sangue, que, outrora, houvera indígenas que tinham sido mortos ou deixados morrer até à total extinção -, o nosso mundo sagrado desaparecera. (...)”.

O que significa o título O Enigma da Chegada? De que enigma falamos? O enigma não se deve ao facto de nunca partirmos, mas ao facto de nunca sabermos onde e quando é a chegada. Viajar é partir para ver a casa com a distância certa. Viajar é partir para longe à procura do regresso.

JdB

---

* excerto de um trabalho escrito no âmbito do doutoramento, repescado por alturas da morte de V S Naipaul

24 julho 2018

Duas Últimas (em registo de doutorando tardio)

Até ao final de Setembro será isto: o silêncio. Os dois livros abaixo mais outros que me possa surgir / ser sugeridos, tal como textos / artigos / regras sobre / dos cartuxos. Se alguém quiser sugerir alguma coisa chegue-se à frente se faz favor. 

Até lá, continuamos em modo Simon and Garfunkel, naquele mítico concerto do Central Park.

Boas férias, para aqueles que as vão gozando.

JdB 








The Sound of Silence

Hello darkness, my old friend
I've come to talk with you again
Because a vision softly creeping
Left its seeds while I was sleeping
And the vision that was planted in my brain
Still remains
Within the sound of silence

In restless dreams I walked alone
Narrow streets of cobblestone
'Neath the halo of a street lamp
I turned my collar to the cold and damp
When my eyes were stabbed by the flash of a neon light
That split the night
And touched the sound of silence

And in the naked light I saw
Ten thousand people, maybe more
People talking without speaking
People hearing without listening
People writing songs that voices never share
And no one dared
Disturb the sound of silence

Fools, said I, you do not know
Silence like a cancer grows
Hear my words that I might teach you
Take my arms that I might reach you
But my words, like silent raindrops fell
And echoed in the wells of silence

And the people bowed and prayed
To the neon god they made
And the sign flashed out its warning
In the words that it was forming
And the sign said, the words of the prophets are written on the subway walls
And tenement halls
And whispered in the sounds of silence

Letra de Paul Simon

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