23 outubro 2019

Vai um gin do Peter’s ?

SURDO-MUDO DESCOBRIU ANTES DOS OUTROS A VISITA DE NEPTUNO AOS AÇORES

A história do deus romano dos mares está documentada no museu do mítico «Peter Café Sport», que alberga a maior coleção particular de «Scrimshaw» (1) – a arte de gravação, entalhe ou pintura em ossos da mandíbula da baleia ou do cachalote – além de outras preciosidades náuticas e notícias que somam memórias iatistas, desde que foi inaugurado, em 1986. Ali consta a fotografia do deus romano Neptuno, como me indicou um/a leitor/a deste blog, a quem agradeço muito a dica noticiosa e o desafio lançado da forma mais simpática.

Também a origem do nome Peter’s, como é mais conhecido o café dos velejadores situado no meio do Atlântico, tem uma história: deve-se a um oficial da Royal Navy que, nos idos do século passado, conheceu o dono do simpático estabelecimento, José Henrique Azevedo (JHA, pai do actual dono), quando o navio «HMS Lusitania II» atracou no porto da ilha do Faial. Achando-o muito parecido com o seu filho Peter, resolveu chamá-lo pelo mesmo nome. A ideia pegou. 



Há 33 anos, entre as 12h e as 16h do Sábado 15 de Fevereiro de 1986, o arquipélago açoriano foi açoitado pela pior tempestade do século XX, provocada pelo furacão Alex. Na estreita e, por vezes, feroz massa de água que separa o Faial da ilha do Pico, a célebre expressão de Vitorino Nemésio «Mau tempo no Canal» só pecou por defeito. A pequena cidade portuária da Horta foi varrida por ventos de 225 km/hora e fustigada por ondas de 20m e 30m de altura, que duplicavam ao rebentar contra a costa, segundo as notícias da época. 

Fã de ondas homéricas, o filho homónimo de JHA, com 27 anos, fez questão de captar em slides aquelas horas de fúria dos ventos e do Atlântico. Mal terminou o serviço no Peter’s, partiu para a sua reportagem com dois amigos corajosos, que ajudaram a dar lastro ao carro e a segurar a máquina fotográfica. 

Como de costume, no Verão seguinte, houve uma sessão em frente ao café para mostrar os diapositivos do ano. Os slides correram ao som de boa música, sem que ninguém reparasse numa imagem curiosa. A foto-galeria fez sensação, porque mais ninguém tinha saído de casa e testemunhado tantas perspectivas da violência da natureza à passagem do Alex.  

Dois anos depois, quando imprimiu um par de imagens da tormenta de 1986 e as mostrou a um grupo de navegadores estrangeiros, o empregado surdo-mudo do Peter’s alertou-o para o perfil bem delineado numa delas: Neptuno pousara a sua cabeleira farta no rochedo enorme da costa Oeste do Monte da Guia. 

Fotografia tirada do Observatório meteorológico Príncipe Alberto do Mónaco, situado a sul da cidade

Mais tarde, na mesmíssima encosta visitada por Neptuno, outro fotógrafo captou a efígie da mulher do deus náutico, formada pela rebentação de outra onda gigante. Calhou no dia que os açorianos dedicam aos namorados, conhecido pela ‘Quinta-feira de Amigas’:

© António Pedro Oliveira, em Fevereiro de 2014.

Uma descrição especialmente deliciosa (creio) sobre o Peter’s veio de Maria José Nogueira Pinto, escrita com a elegância que era seu apanágio. Alude, ao de leve, à memorável visita de Neptuno: «O Café Sport Peter é uma das coisas mais lindas que me foi dada conhecer. Ou seja, é como nos romances, como nos filmes, como nos sonhos. Pelo menos para quem, como eu, é atlântica de alma e coração e tem dos portos, dos barcos e das viagens uma ideia irremediavelmente romântica. À minha volta, os personagens não desiludem. Vêm das sete partidas e formam um conjunto inesperado, cosmopolita e universal porque o Peter denomina-se com orgulho “o lugar de refúgio e auxílio dos iatistas que cruzam o Atlântico”. De surpresa em surpresa subo ao andar de cima para ver o Scrimshaw, museu onde aprecio dezenas de dentes de baleia que os marinheiros poliram, gravaram e pintaram “durante as longas viagens e esperas” com “as ilhas, as gentes e a saudade...” E também a fotografia de Neptuno, que visitou aquele mar na grande tempestade de 1986.» [publicada em 1993, no jornal PÚBLICO]

JHA/Peter recorda sempre a misteriosa descoberta da fotografia da sua vida, tardiamente, quando menos esperava, depois de já ter sido vista por tanta gente que não dera por nada! E logo envolveu a sua paisagem marítima preferida registada numa data histórica e perigosa, em que só ele e os amigos se tinham atrevido a sair de casa. Valeu-lhe aquele segundo olhar, que vislumbrou mais e antes dos outros um rosto inscrito no recorte da água salgada.


Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Quarta-feira)
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(1) https://www.visitportugal.com/pt-pt/content/museu-de-scrimshaw

1 comentário:

Anónimo disse...

Sim senhora...
Um post a encaixilhar e pendurar. Para se apreciar como se faz um excelente post.

Felicito-a,
ao

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