quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Vai um gin do Peter’s ?

TANTA GENTE MAIS PERTO QUE LONGE 

Veio da Dinamarca uma curta-metragem, que traz à luz ligações surpreendentes e ignoradas entre pessoas hoje desconhecidas e afastadas em todos os sentidos. Trata-se da quantidade imensa dos que parecem alheios à nossa vida, incluindo vizinhos de porta. O pequeno filme caloroso veio dessa Europa do Norte, onde o Inverno é longo e chuvoso, as noites compridas, os dias enevoados e reina um silêncio asséptico nos sítios mais improváveis, como uma estação de comboios cruzada por multidões que, a Sul, nunca se coíbem de ser comunicativas. 

A câmara começa por focar uma sala de espera anódina, desconfortável, cheia de gente variada na idade, na condição social, cultural, financeira e até na origem étnica. No ginásio imenso e mal iluminado para onde, depois, é encaminhado, aquele aglomerado humano mantém-se junto, provavelmente por razões fortuitas e pobres, habituado a movimentar-se em grupo, disciplinadamente, por razões defensivas e também por obediência a quem arquitectou a experiência. Já será sinal de alguma abertura alinharem numa experiência que ignoram. Ou serão naïves?

Os monitores nomeiam dois nomes, pedindo-lhes para avançarem e se arrumarem em frente um do outro. Acabam num face-a-face entre ilustres desconhecidos.

Perguntam-lhes se alguma coisa os poderia ligar, antevendo a resposta negativa, que se repetiu com os pares seguintes. Depois, escavando no passado deles, desencantam um tempo onde os dois chegaram a ser bastante próximos. É emocionante o reencontro com o compincha da praia, que já só era lembrado imberbe, completamente irreconhecível naquele adulto. 

Aos poucos, cada um é chamado a recuperar elos muito diversos, mas intensos, com outros, como o do salvador em hora crítica, a quem mal se viu a cara e de quem nunca se reteve o nome, apesar de se ser devedor da vida. 

Todos acabam por descobrir interligações fortes com quem era estranho, transfigurando caras anónimas e distantes em pessoas com nome. Misterioso tanta gente válida ter contribuído para a existência de alguém sem deixar quase rasto! Talvez por isso, o reencontro saiba ainda melhor. A amostragem confirma o mar de gente que valeria a pena rever e a quem haveria muito a agradecer. O apelo lançado é contagiante, porque todos partilhamos alguma daquelas histórias e percebemos quanto aquela teia simboliza apenas uma pequena gota do oceano de vida de cada ser humano: 


Experiências com o mesmo alcance têm sido pretexto de mais metragens, confirmando o potencial de afinidades profundas entre as pessoas, incluindo os aparentemente longínquos e inconciliáveis, como a vítima e o autor do bullying. Há uma experiência emblemática, realizada nos Estados Unidos, com título autoexplicativo: «Don’t put people in boxes». Tem o mérito de expor o lado multifacetado do indivíduo que, ao integrar grupos temáticos muito diversos – das preferências clubísticas, aos hobbies, dificuldades & traumas, talentos, etc. – acaba por se deparar com alguma área de afinidade com os mais inimagináveis. Fecha com uma pedagogia explícita, à americana: afinal, o que nos une suplanta o que nos separa ou não partilhássemos o mesmo Pai.   

Na Austrália, o filme sobre o estado da interligação humana revelou resultados preocupantes. Uma criança entre os 4 e os 5 anos foi deixada sozinha, desamparada, no meio de um centro comercial movimentado. Durante 8 horas, só 21 pessoas pararam para indagar o motivo da sua solidão óbvia e prontificar-se a ajudar, pois era visível a falta de uma presença adulta para o proteger. O vídeo termina com o alerta: há 43 mil crianças abandonadas, que reclamam a nossa atenção para as podermos resgatar de destinos desastrosos e perversos! Começar por as ver, é elementar.

Os apelos em todas as versões continuam a merecer documentários e filmes interpelativos. Na Dinamarca, o vídeo aqui postado foi um sucesso, convidando a um olhar mais empático e aberto aos outros, num movimento interior que – por dom, diria – não é estranho aos poetas: «Sou um pouco de todos os que conheci, um pouco dos lugares que fui, um pouco das saudades que deixei e sou muito das coisas que gostei» (Antoine de Saint-Exupéry). No fundo, sabermos aproximar-nos dos que nos rodeiam é uma arte. Poderia ser a oitava.


Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

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