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15 dezembro 2020

Da conversa e do que somos, se formos desporto

Sempre que, enquanto jovem adolescente, jantava ou almoçava em casa de amigos, a primeira pergunta que me faziam no regresso ao lar era a mesma: o que foi o almoço / jantar? Éramos todos magros (a minha obesidade veio mais tarde) mas, mesmo assim, parte da conversa era à mesa - e sobre assuntos de mesa. Domingo, falando com uma filha de amigos sobre este tema, ela riu-se, porque, à semelhança de outras pessoas que conheço, a conversa sobre comida é, para ela, uma perda de tempo. 

Para algumas pessoas, conversar sobre comida é tão determinante para a sabedoria das nações como conversar sobre pastas de dentes. Para algumas pessoas, conversar, a menos que seja para tomar decisões, é uma perda de tempo, e encaram as perguntas como uma necessidade de compromisso. Tive um chefe que, perante algumas conversas, algumas propostas, algumas ideias, comentava com um ar educado - porém demolidor: isso acrescenta algum valor ao PIB?

Nem sempre é fácil explicar a veracidade da sabedoria que, dizem-me, é alentejana: à mesa não se envelhece.  A sabedoria dos antigos pode ser datada, não lhe conferindo dimensão intemporal; por vezes, conversar à mesa era a única coisa que podia fazer-se, já que não havia outras actividades: não havia cinema, séries de televisão, internet, jogos de computador ou whatsapp. Talvez por isso (re)aprender a conversar na era da informação seja um imperativo civilizacional.

Num diálogo há dias sobre a arte e os benefícios de conversar (é isso, para além do sorriso, que estabelece o comércio entre as pessoas) dei por mim a fazer uma metáfora, actividade intelectual a que me deito com denodo e alguma competência; se eu fosse um desporto, gostaria de ser o ténis batido ao fundo do court: bola para lá, bola para cá, bola para lá, bola para cá. É assim que me vejo, ainda que o faça de modo imperfeito: a conversar, fazendo perguntas, dando opiniões ou respostas, olhando para as hipóteses ou para o futuro, não como um momento de decisões, mas como uma tela onde se põe tudo: um trocadilho, uma graça, uma notícia, uma informação, uma opinião e, quem sabe, um compromisso.

Foi assim que eu cresci. Volta e meia alguém avançava para a rede e sentia-se a necessidade de ripostar e, quem sabe, de ganhar o jogo. Era um impulso, uma fragilidade. Afinal, conversar significa, em latim, viver junto, trocar palavras. Não significa, forçosamente, vencer o jogo ou decidir sobre a vida.  

JdB

17 junho 2019

Do desporto e outras patetices

Há uns anos foi-me diagnosticada uma rotura de ligamentos irreversível num pé. Na minha proverbial ignorância - e até esse momento inesquecível de esclarecimento tardio - achava que ligamento era uma palavra do foro desportivo, como médio-ala, florete, falso lento e bola medicinal. Hesitei, na elaboração do rol, na utilização de fato de treino. Na verdade, já fez e talvez venha a fazer parte do vocabulário desportivo; numa dada altura, e pelos piores motivos, passou a ser incorporado na classificação vestuário, tal como calças de fantasia, cuecas, meias de cano alto ou popelina. 

Regresso aos ligamentos. Surpreendeu-me o facto de também ter ligamentos, eu que tenho pelo exercício desportivo o mesmo sentimento que a natureza tem ao vácuo: uma espécie de horror. Se o facto de ter ligamentos me irmanava, ainda que numa pequeníssima fracção, aos grandes atletas, a ideia de ter uma rotura de ligamentos  - e disso poder falar com um certo orgulho parcimonioso e enganador - dava-me uma determinada aura, como algo que se adquire novo mas já dotado de uma patine surpreendente e valiosa. 

A honestidade não me chega por via da virtude, mas da consistência do discurso; ou seja, não minto, não porque tenha uma espécie de nojo ético à falsidade, mas porque sou fraco mentiroso. Como naquele jogo em que ganha a pessoa que estiver mais tempo sem dizer sim ou não, toda a mentira é, em mim, um esforço que denuncio sem arte nem persistência. É por isso que tenho de referir que a rotura de ligamentos não me atingiu por via do desporto, mas de um descuido: coloquei mal o pé na escada de um apartamento onde fui moderadamente infeliz; o destino puniu-me já eu me despedia da casa e, entre o pé mal colocado e a entrega da chave à senhoria, não passou mais de 1 hora. Morri na praia - de contas acertadas e um artelho torcido.

Vem tudo isto a propósito do que oiço constantemente: fulano partiu uma omoplata a fazer ciclismo de corta-mato, beltrano rachou um osso a jogar futebol, sicrano abriu a cabeça na prática violenta do ski. Ora, não me parece que alguma vez tenha ouvido que fulano partiu uma omoplata a redigir uma tese de doutoramento, beltrano rachou um osso na contemplação da suave rotina das marés, sicrano abriu a cabeça na escuta atenta de um Requiem, sobretudo se for o de Mozart. O desporto, e penso que o pensamento é cimeiro na lista dos lugares-comuns, é de uma perigosidade extrema, e o Estado deveria sobrecarregar fiscalmente os desportistas, deixando os obesos em paz na sua gordura imóvel e inócua.

Daqui por 50 anos os meus bisnetos falarão de mim com a ternura falsa que devotamos aos que não conhecemos, mas de quem nos falam com desvelo. Citarão histórias a meus respeito, repetirão com orgulho os elogios que me fizeram, e que me assentam menos por via das minhas virtudes humanas, e mais pelas minhas qualidades de vendedor de feira, perito na arte do logro. E rematarão: coitado, parece que comia carne. Perante a necessidade de pedir desculpa aos animais de terra, do ar e do mar que aquele seu antepassado deglutia com laivos de pecado, sobra-lhes o conforto de poder dizer: ao menos não fazia desporto

Alguém inventou, como benéfica, a dieta do paleolítico. Alguém inventou, como benéfica, a prática do desporto. Comer mamutes parece ser, para alguns iluminados, uma opção de vida inquestionavelmente saudável, ainda que difícil. Para outros, o esplendor da saúde seria perseguir os ditos animais a pé, antes mesmo de os cozinhar a fogo lento. As minhas convicções de homem moderadamente esclarecido duvidam dessa dieta, como duvidam da virtude de um desporto que imprima um ritmo que acelere o coração para além do que acontece quando nos apaixonamos pela primeira vez; parece-me, aliás, do mais elementar bom senso definir esse ritmo cardíaco como um limite superior. Um dia mais tarde, creio e espero eu, se provará os enormes malefícios do desporto a não ser com uma valência de entretenimento, como ouvir a Marisol ou ler banda desenhada; um dia seremos lembrados por termos comido carne e por nos termos agitado freneticamente sem razão. Seremos, em 2069, os esclavagistas do século XXI, olhados com desdém retrospectivo.

Não serei vegetariano e não farei desporto. Sobre mim ficam memórias de carnívoro e de sedentarismo persistente. Aos meus bisnetos cabe-lhes 50% de alegria, o que já não é de deitar fora.

JdB      

06 agosto 2018

Da obesidade e do desporto

Volto ao tema do desporto o que, em mim, pode revelar uma perturbação preocupante: duas vezes no espaço de escassos dias!?

Uma ida ao Decathlon obedece a uma motivação principal e uma secundária: a procura de um determinado equipamento, seja para utilização própria, seja para cumprir uma encomenda ou manifestar uma generosidade. Ora, como a loja é de desporto, ninguém se dirige àquele estabelecimento para comprar courgettes biológicas, o último livro de um determinado escritor ou uma camisa de noite sensual. Quem vai à Decathlon vai à procura de artigos desportivos - isto parece-me um grande lugar-comum. Esta é a motivação principal.

A motivação secundária, que se agarrou a mim como um boia de salvação, foi a exploração sociológica. Arredado que estou, felizmente, do desejo de aquisição de capacetes de bicicleta, camisetas caviadas, bolas de futebol ou raquetes de praia, resta-me olhar para quem o faz. Quem são as pessoas, o que fazem, como se comportam, o que procuram? Vi gente local e gente estrangeira com interesses diversos aparentes - férias na praia,  substituição de equipamentos, subida de patamar ao nível da compleição física. Eram pessoas mais ou menos elegantes (até nas meninas da caixa não há adiposidades) e / ou musculadas, com ar de quem cultiva meticulosamente o físico (e cito um pensamento muito antigo).

Eis senão quando me confronto com uma família composta por (parecia-me) pai, mãe e filho. Nada disto é muito estranho, a não ser o facto de pesarem, cada um deles, bem para além dos 100 kg. Diz-me pessoa sabedora que aquela gordura é da comida, não de um desarranjo genético ou hormonal. E, confesso, gostei de os ver e de imaginar a cena: a compra de um aparelho que trabalha ao nível do abdominal, umas cintas que, presas no ramo alto de um pinheiro, permitem trabalhar vários músculos em simultâneo, dinamizar o equilíbrio e melhorar a postura, que as vidas de hoje são sedentárias. Os três, cada um com o seu carrinho, percorrem vagarosa e atentamente os corredores, procurando a melhor relação custo - benefício, ouvindo os funcionários que partilham a sua experiência de cross aos fins de semana, ou as histórias de uma prima que ganhou prémios numa agremiação dos arrabaldes da Chamusca.

Depois, gasto o subsídio de férias em artigos com hipótese de troca mediante apresentação do talão, dirigem-se ao shopping mais próximo, que já são horas de almoço. Aí, sentados a uma mesa de plástico, afagam o estômago como quem consola um órgão debilitado. Olham em redor, atentando com os olhos no que vão comer. Escolhem um hamburger com batatas fritas e refrigerante, mas não escolhem sobremesa, porque suspeitam que tem lactose e já lhes disseram que isso pode fazer mal. Escolhem antes um bolo com a bica cheia em chávena fria, que o folhado (disse-lhes um primo) não tem glúten. 

Há uma parte da minha vida que difere profundamente dos hábitos perniciosos desta família obesa e mal informada: eu nunca vou ao Decathlon.

JdB  

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