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28 junho 2024

Crónica de um viajante à África do Sul (V)


Viajo para o Kruger com colegas de voluntariado internacional. É gente que vem da Malásia, Nova Zelândia, Austrália, Índia, Chile, Grécia, Inglaterra. Acabamos os safaris e algumas pessoas dizem entusiasmadas: this is life changing. A primeira reacção é achar que life changing são outras coisas, bem mais importantes do que ver o elefante ou o rinoceronte. Talvez eu também o tivesse pensado, porque em 2008, quando estive no Zimbabwe por dois meses, também fiz isto, e também vi o elefante ou o rinoceronte. Fui revisitar o que então escrevi:

Fazer um game viewing é muito mais do que ver a girafa, o mocho, o ginete ou o hipopótamo. É estar ali, onde tudo se passa, ver o mato e a savana, o espaço e a cor (sempre as mesmas referências), o cheiro e a luz, o sol a pôr-se por trás das acácias, a brisa do fim da tarde a agitar as folhas do mopane, o calor confortável do meio do dia a contrastar com o frio tremendo da noite, a paisagem verdejante ou desoladoramente lunar. Fazer um game viewing é sentir, também, a frustração de não ter visto o leopardo, o único dos big five que não se quis mostrar… O que fizemos foi mais do que encontrar bicharada escondida numa ramagem, a assomar por detrás de uma árvore, a escapulir-se na margem de um rio seco.

E terminava com uma realidade que não encontrei no Kruger, e que tantas saudades me fez.

Por último, mas não menos importante, fazer um game viewing também é sair do jipe e, na orla de um charco, à vista de uma bola amarela que se põe no fio do horizonte, beber um gin and tonic, e realizar que nem tudo se perdeu neste país que já se chamou Rodésia.

Percebo bem o que disseram as minhas amigas da Austrália ou do Chile: this is life changing.

JdB

03 junho 2024

Crónica de um viajante à África do Sul (IV)


Nascer do Sol no Kruger Park (África do Sul)
 

Waterfront (Cidade do Cabo)

Vista da Montanha da Mesa (Cidade do Cabo)

31 maio 2024

Crónica de um viajante à África do Sul (III)

Chegámos à Cidade do Cabo no sábado. Estamos em África, mas o diálogo poderia ser curioso:

- então que animais já viram?
- pinguins, focas e baleias... 

É uma cidade fantástica que merece uma visita. É uma cidade relativamente barata, onde se come bem - e em quantidades muito apreciáveis - por pouco dinheiro. Um jantar muito simpático pode custar menos de 30€. O transporte em Uber - um serviço rápido e simpático, com motoristas quase exclusivamente do Zimbabwe - é muito barato

A cidade tem uma frente de mar igualmente bonita (da qual coloco algumas fotografias) que é larga, comprida, espaçosa, e que a contorna durante vários quilómetros. 

As pessoas são simpáticas, educadas e civilizadas. Não se buzina, há cumprimentos permanentes, toda a gente sorri e está disponível para ajudar. 

Fora do Centro da Cidade (porei algumas fotografias nos próximos dias) há praias fantásticas, em enseadas rodeadas de boas casas. 

A segurança é ainda boa, ao contrário de Joanesburgo onde parece que já não é aconselhável andar na rua. O Cabo vive ainda uma realidade globalmente diferente, embora haja sítios - como em todo o mundo - menos aconselháveis. 

Tive uma oportunidade de vir à Cidade do Cabo há 30 anos, talvez. Por diversos motivos não vim, mas já tinha vindo a Pretória e Joanesburgo em 1981, ainda nos tempos do apartheid. Talvez seja melhor vir só agora - aprecio a cidade com outros olhos, comparando o que vejo com o que vi noutros sítios. e tenho mais vagar para tudo.

De tudo o que conheço do mundo, a Cidade do Cabo está seguramente no top ten. Ao contrário do que senti na Malásia / Singapura ou na Índia, vir aqui não é uma experiência, como agora se diz. Estamos num mundo ocidental. Porém, apesar de não ser uma experiência, é um local onde gostaria de voltar. 

Amanhã parto partimos para Joanesburgo, sábado zarpamos para o Kruger, para um misto de trabalho e lazer

JdB

As fotografias abaixo são da zona de Sea Point / Green Point




29 maio 2024

Crónica de um viajante à África do Sul (II)

 Nunca gostei de ir ao barbeiro; gostei sempre de sair de lá - não pelo horror inerente, que não tinha, mas porque tinha o cabelo cortado. Era, por assim dizer, a alegria que advinha de um serviço comprido. A lembrança mais interessante que tenho de um barbeiro é da Barbearia Campos, ao Chiado, onde cortei o cabelo enquanto miúdo. Gostava da dimensão do estabelecimento, do alinhamento das cadeiras e da senhora que, sentada numa cadeira e com um ar educadamente íntimo, arranjava as unhas aos fregueses de mais idade. 

Entrei neste cabeleireiro no centro comercial Victoria & Alfred na Waterfront, Cidade do Cabo. Fi-lo, não por necessidade de desbastar a gaforina (precavi-me disso antes de partir de viagem) mas por absoluto fascínio. Criado por um inglês amigo do Príncipe Filipe de Inglaterra (atestado por fotografias) é agora gerido pelo genro, que também foi cabeleireiro / barbeiro - um homem simpático que me pacificou com os produtos pós-barba, depois de me ter oferecido uma loção não alcoólica onde deitou um pingo de água de colónia. Eu, que não uso nada, estive a pontos de adquirir bálsamos benfazejos. 


Tal como dizia a um amigo a quem enviei estas fotografias, estabelecimentos como este fazem parte de um Portugal que nunca existiu, ou desapareceu. Aqui, cortar o cabelo ou aparar a barba são experiências, como agora se diz; não são coisas de índole prática. Eliminado o branco decorativo dos cabeleireiros actuais que revela uma assepsia que maça, estamos em casa, ou numa casa que nunca tivemos mas que suscita um certo fascínio. Ficamos então rodeados de artigos que nos atiram para um tempo em que havia vagar, havia estética, havia objectos de madeira e, talvez mesmo, objectos pouco práticos. 30 minutos aqui e sai-se com o cabelo cortado - e a alma lavada. 

JdB 

27 maio 2024

Crónica de um viajante à África do Sul (I)

 

Há em todos nós, creio eu, uma dose grande de preconceito à espera do momento certo para se revelar. Por mais tolerantes que sejamos, somos xenófobos quando vemos chineses a falar muito alto, ou racistas (num certo sentido mais comum) quando nos confrontamos com negros a ouvirem música aos gritos. Na mesma linha, reside em nós um grande amor às crianças até elas nos matarem o sossego num avião ou numa esplanada onde ouvimos um trio de jazz a tocar; e adoramos os jovens até os vermos enroscados aos beijos num lugar público, a falar alto de chapéu de pala e com os pés em cima do sofá. 

Obviamente que o contraponto a este argumento é simples: nós não somos xenófobos, nem racistas, nem intolerantes, nem o que quer que seja - limitamo-nos a não gostar de falta de educação ou daquilo que nos parece ser falta de civismo. Não é bem assim. Viajar de avião, andar em aeroportos, estar em sítios públicos é um convite à revelação do que há de pior em nós: num momento bramamos contra o turismo, no momento a seguir lembramos - com saudade e uma lágrima furtiva - o tempo em que viajar era uma actividade de elite, em que andar de avião algo diferente de um desporto de massas. 

Cruzei-me com este cartaz à porta do Azoka - um restaurante, bar e lounge - na Cidade do Cabo. O dress code é simples e claro: não aceitam clientes com fato de treino, camisolas com capuz, chapéus, vestuário desportivo, calções, havaianas ou mochilas. Num certo sentido, o Azoka é um eliminador de raivas e uma ferramenta para o bom feitio. Janta-se no Azoka, bebe-se uma cerveja no Azoka, e nada nos fazer ser racista, xenófobo, intolerante ou snob. Disciplinados pela estética e pela regra, revela-se em nós um pouco de paraíso.

JdB

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