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21 dezembro 2023

Da posição intermédia

 


A história desta fotografia idealizada por Yves Klein, e intitulada Leap Into the Void (salto para o vazio), pode ler-se aqui

***

Esta fotografia pode interpretar-se de várias formas - e sugiro que só se leia a história depois de ler o devaneio. Quais são as três hipóteses?

1) o homem é detentor de uma loucura significativa;
2) o homem é detentor de uma confiança relevante;
3) o homem é detentor de uma audácia assinalável.

Talvez seja importante ler Aristóteles em Ética a Nicómaco:

Por exemplo, os construtores de casas fazem-se construtores de casa construindo-as e os tocadores de cítaras tornam-se tocadores de cítara, tocando-as. Do mesmo modo, também nos tornamos justos praticando acções justas, temperados, agindo com temperança, e, finalmente, tornamo-nos corajosos realizando actos de coragem. 

Se este salto para o vazio for um acto de coragem então Yves Klein é um homem corajoso. Ora, podemos dizer que saltar de um 2º andar para o vazio é um gesto de coragem? Quais seriam as consequências? Recorramos novamente a Aristóteles:

Acerca do medo e da audácia, a posição intermédia é a coragem. Para os que têm uma excessiva falta de medo não há nome (muitos dos excessos são anónimos), o que tem excesso de confiança é audaz.

Ora, confrontados com uma janela do 2º andar, podemos ser considerados medrosos se não saltarmos, podemos ser considerados audazes se saltarmos. O que devemos fazer? Ser corajosos, porque o excesso ou defeito de uma característica são (quase) sempre de evitar: a generosidade, por exemplo, é a posição intermédia entre o esbanjamento e a avareza. Devemos procurar a posição intermédia: a coragem de dizer não, não salto, a menos que...

Agora sim, é altura de ler a história desta fotografia.

JdB 

26 maio 2020

Da felicidade e do Céu

Um dia destes falava com alguém sobre terceira pessoa, tendo eu afirmado: Deus queira que seja feliz. Do lado de lá do telefone a resposta veio rápida e assertiva: Deus queira que vá para o Céu; se conseguir ser feliz antes ainda melhor. Hoje, no meu passeio muito matinal no paredão (com muito mais gente do que é costume) dei por mim a pensar na afirmação e na resposta.

Usei muitas vezes o argumento do Céu como objectivo máximo na vida de um cristão. Afinal, ir para o Céu é ir para Céu - e isso é sempre bom; ser-se feliz, pelo contrário, pode ser um objectivo egoísta, porque podemos atingir a felicidade à custa da infelicidade dos outros. Nesse sentido, a resposta que me deram está correcta: Deus queira que vá para o Céu; se conseguir ser feliz antes ainda melhor. 

Ora, antes do mais falamos de momentos diferentes; se eu entendi correctamente a frase que me foi dita, ela contém uma espécie de contradição em termos. Vamos para o Céu quando morrermos, e só quando lá chegarmos é que sabemos que estamos no Céu. Também pode acontecer - como eu acredito que acontece - que para o Céu vão todos, menos aqueles que o rejeitam até ao fim, nunca se arrependendo de nada que possam ter feito de mal. Mesmo assim, se pensarmos que Deus não é senão Amor, não estou certo de que esses não vão também para o Céu. Então, se esta teoria assente na fé for válida, não vale a pena estar a desejar algo que sabemos que de facto nos vai acontecer. Na verdade, até o bom ladrão se arrependeu no último momento, chegando ao Paraíso nesse mesmo dia.

Por outro lado, se bem que o Céu se ganhe na Terra, não é na Terra que vamos para o Céu - e essa é uma decisão que não nos compete tomar, apenas podemos querer ser merecedores dela.  O que podemos então desejar para a caminhada terrena de alguém? Que vá para determinado sítio quando morrer? Devemos então estabelecer um objectivo terreno, que tenhamos a possibilidade de atingir e que nos garanta o Céu? A felicidade pode ser um deles? Ou talvez seja mais correcto pretendermos que alguém deseje o Céu, não que vá para o Céu?

Socorro-me de duas citações:

De Aristóteles (in Ética a Nicómaco):

Parece ainda que todas as características procuradas na felicidade existem de acordo com o sentido estabelecido. Para uns é a excelência, para outros a sensatez, para outros ainda parece ser uma certa sabedoria, para outros, finalmente, todas estas actividades ou algumas delas em conexão com o prazer ou então, pelo menos, não sem o prazer. 

(...) 

O sentido fixado por nós concorda com aqueles que dizem que a felicidade é a excelência ou uma certa excelência.

Agora de Santo Agostinho (in Confissões):

Há uma alegria que não é concedida aos ímpios, mas àqueles que desinteressadamente te servem, cuja alegria és tu mesmo. E a vida feliz consiste em sentir alegria junto de ti, vinda de ti, graças a ti: esta é a vida feliz e não há outra.

Para obviar discussões talvez pudéssemos desejar, então, que esta pessoa de quem estávamos a falar levasse uma vida boa, que é diferente de levar uma boa vida - a ordem dos factores não é, de facto, arbitrária. Porém, lendo Aristóteles e Santo Agostinho - nascidos com um intervalo de 700 anos - acho que posso continuar a desejar que a dita pessoa seja feliz. Em bom rigor, se for esta a felicidade que ele procura, de certeza que vai para o Céu.

JdB

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