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08 fevereiro 2023

Da família que se encurta

Para o A., no Céu de onde olha para nós. 

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Passavam cinco minutos das nove da manhã de ontem quando recebi a mensagem esperada: uma prima minha tinha morrido. Fui vê-la no sábado e não evidenciou sinal algum de que se tinha apercebido da minha presença. Talvez fruto da doença ou dos cuidados paliativos, estava já no mundo dela, de sossego e espera. Não sei se sentiu as minhas festas; não sei se ouviu a graça que dizíamos um ao outro sempre que falávamos ao telefone: olhe A., olhe agora, olhe a casa da... O facto de não ter evidenciado que sentia ou ouvia não quer dizer que não sentisse ou ouvisse. Talvez sim ou talvez não, é pouco importante.

Há pouco mais de dois anos, no decurso da venda de uma quinta de família, escrevi o parágrafo abaixo:

Por circunstâncias próprias do meu crescimento e da minha vida familiar / social, fui consolidando a ideia de que a família não era o sangue. Podíamos sentir-nos mais familiares de uma vizinha de quem sempre fomos próximos do que de um primo direito a quem nada nos ligava. Não obstante, fui sendo educado - por via de uma capilaridade, não de uma instrução - que a família era o sangue; ou que era muito o sangue. A idade, a experiência ou uma certa sorte, permitiu uma convicção: família é tudo. Ou seja, o não sangue, mas o sangue também. Por vezes o que nos define como família não é, nem a proximidade, nem a semelhança de idades, nem uma convivência próxima, mas uma certa ideia de património imaterial que nos é comum por via de um nome de família.  

Esta minha prima era da minha família em todos os aspectos: era do meu sangue e era do meu afecto. Tínhamos um nome em comum e tínhamos um património em comum: histórias, acima de tudo, porque os imóveis quase não existiam. Talvez a família se torne mais importante à medida que envelhecemos e realizamos que temos mais passado do que futuro. Conversar com ela - e com os irmãos, únicos primos direitos deste lado - era percorrer um território conhecido, familiar. Era, de certa forma, um regresso a casa. Saber que foi para o Céu é perceber, no meu pequenino egoísmo, que a minha casa afectiva está mais pequena, irremediavelmente mais pequena. Na última meia dúzia de anos foi-se esvaziando com uma rapidez injusta, porque levou gente a quem faltavam muitos anos para cumprir a estatística da esperança de vida. 

Tive um desgosto grande com a morte desta minha prima. Um desgosto que não se compara ao dos filhos, netos e irmãos mas, não obstante, um desgosto. Porque era minha amiga, porque era muito boa pessoa - e porque era da minha família do coração. E porque, apesar de tudo o que a vida nos ensina, ainda nos custa aceitar que nunca mais veremos alguém de quem gostamos muito. Perde-se uma fonte de informação, uma fonte de amizade, uma presença regular na mesa onde celebrávamos datas específicas. O que se ganha, porque também se ganha, ainda que dolorosamente? A certeza da efemeridade das coisas e das pessoas, a evidência de que aquilo que separa a vida da morte é um fio de cabelo; entre estar e deixar de estar há um pedaço de nada. 

Resta-nos lutar pelos que nos são mais próximos, para que permaneçam próximos e para que possamos usufruir do futuro desconhecido que temos até que vislumbremos a curva da estrada. Se estas mortes prematuras não nos derem discernimento, então tudo é vão.

JdB 

02 julho 2021

De mais uma morte

Madeira, 1 de Julho de 2021

No espaço de meia dúzia de meses morreram três primos da minha família: o mais velho tinha 70 e muitos poucos anos, os outros andavam pelos 65 a 67, por aí. Dois morreram, se não vítimas do COVID, por complicações derivadas do vírus.

Sendo que todos tinham o mesmo apelido do que eu, poderia dizer que o número de pessoas que usa este nome decresceu assinalavelmente (um amigo diz-me que é uma família que morre muito). Ainda que pertinente, não é isso que me preocupa: tal como escrevi neste estabelecimento relativamente a outro primo, morre mais um bocado de memória. A este primo que morreu há 2 dias unia-me um laço de amizade recente. Mas éramos da mesma família, tínhamos histórias em comum, ele era detentor de conhecimentos que desaparecem com ele, conhecimentos de que eu queria ter usufruído, mas não fui a tempo. 

Durante muito tempo ouvi o meu pai dizer que tinha de falar com fulano/a porque essa pessoa tinha conhecimentos relevantes - ou apenas interessantes. Nunca o fez, e as pessoas morreram, levando para a cova um manancial de histórias e informações que mais ninguém tem. 

Com a morte deste meu primo morre mais uma fatia importante da memória da família. Já não me resta muita gente - nem sequer sei quem é que me sobra. Talvez me sobre eu, cheio de vontade mas falho de histórias.

JdB

Nota: no espaço de pouco mais de 1 ano morreram duas pessoas cujas iniciais seriam SdB. Em Outubro, recupera-se uma perda. O saldo continua negativo, mas há uma esperança na renovação.
 

19 junho 2020

Da venda de uma pequena quinta

Ontem, juntamente com um primo - e em representação do resto da família - formalizei a venda de uma pequena quinta que nos era comum. O acto em si, uma escritura que durou pouco mais de 40 minutos, suscita-me duas ordens de devaneio.

1. A pandemia

Numa sala semi-acanhada de um advogado de província estavam 11 pessoas, todas de máscara: eu, duas pessoas da minha família e a nossa advogada; a compradora e namorado, a sua advogada, um representante da imobiliária, a notária e mais dois técnicos. A compradora é uma rapariga nova, belga, com uns olhos bonitos, e que me dizem ser muito simpática. Não tendo o hábito de vender quintas de família ou outros imóveis, nunca na vida me tinha deparado com uma cerimónia tão fria, tão impessoal, tão distante. O distanciamento social elimina o beijo ou o aperto de mão, a máscara impede a constatação de um face bem disposta. Ambas as coisas, somadas ou concomitantes, impedem um módico de humanidade, de proximidade, de calor afectivo. Contei uma história associada ao nome próprio da compradora, e que é um nome muito comum na minha família, e senti-me despropositado, porque não percebi se ela tinha achado interessante. 

Diz-se que é o sorriso que estabelece o comércio entre as pessoas. Talvez seja e, ao não existir - ou a existir por detrás de uma máscara - o comércio não é mais do que uma transacção que, não fossem as necessidades legais, poderia ser feita por zoom. Ao fim de 40 minutos despedimo-nos com o mesmo calor com que nos despedimos de alguém que nos traz uma encomenda: com educação e vagueza.

2. A família

Por circunstâncias próprias do meu crescimento e da minha vida familiar / social, fui consolidando a ideia de que a família não era o sangue. Podíamos sentir-nos mais familiares de uma vizinha de quem sempre fomos próximos do que de um primo direito a quem nada nos ligava. Não obstante, fui sendo educado - por via de uma capilaridade, não de uma instrução - que a família era o sangue; ou que era muito o sangue. A idade, a experiência ou uma certa sorte, permitiu uma convicção: família é tudo. Ou seja, o não sangue, mas o sangue também. Por vezes o que nos define como família não é, nem a proximidade, nem a semelhança de idades, nem uma convivência próxima, mas uma certa ideia de património imaterial que nos é comum por via de um nome de família. 

Do ponto de vista afectivo nada me ligava à pequena quinta que agora vendi / vendemos. Nunca lá passei férias, em 62 anos de vida não tenho memória de mais de meia dúzia de visitas. Contudo, dentro de mim alojou-se uma certa pena - vendi algo que também era património, sobretudo imaterial, de uma família comum. O desgosto (passe o exagero) que eu tive na venda da quinta é em quantidade igual ao gosto que eu tenho em conhecer um primo (que talvez nunca mais veja) numa qualquer festa. Há qualquer coisa, invisível e intangível, que nos aproxima. O quê? Um antepassado vago, uma história que se ouviu, uma memória comum, um conceito. Talvez a ideia, afectivamente racional (ou a sua inversa) de que família é (também) o sangue. 

JdB             
     

17 dezembro 2019

Da nossa família que desconhecemos

No início do século passado, um irmão da minha avó paterna partiu como chargé d'affaires, o que tem uma conotação diferente de encarregado de negócios, para a Holanda. Aí terá casado com uma holandesa e, aos 50 anos, teve uma filha. Morreu quando a filha (única) tinha 10 anos. À semelhança de muita gente daquele ramo da minha família (talvez meia dúzia, o que, com estes hábitos, configura bem a dimensão muita gente) nunca voltou a Portugal - ou se voltou não deixou marcas perenes da sua permanência. Talvez nem mesmo vestígios.

Através de uma aplicação que envolve identificação do ADN e comparação com ADN's semelhantes, um primo meu descobriu o que parecem ser familiares nossos, descendentes desse tio José do Carmo. Através do obituário soube-se que a filha única desse nosso tio-avô morrera em 2007 numa terra chamada Urbanna, onde era co-proprietária da Taylor Hardware & Furniture Co. O obituário tem um início invulgar para as páginas dos jornais portugueses que participavam, noutros tempos, falecimentos e missas de 7º dia. Diz o obituário (e traduzo livremente) que Therese D. Taylor, de 78 anos e viúva de Robert P. Taylor, partiu para casa para se encontrar com o seu Senhor e Salvador Jesus Cristo a 8 de Dezembro de 2007. Terá morrido na sua própria casa, após breve doença.

Há duas cidades Urbanna, nos EUA. Cruzando com o nome da empresa funerária (de Saluda, também nos EUA) que tratou das exéquias depreendo (sem grande margem para certezas) que esta Urbanna é na Virgínia; é uma cidade onde, segundo o censo de 2000, moravam menos de 600 pessoas, e que, entre outros factos assinaláveis, tem um festival de ostras que começou em 1958. 

Assumamos que falamos da mesma família: eu e os filhos da falecida somos filhos de primos direitos, o que é um parentesco próximo. Do lado específico da família que nos é comum conheço quase toda a gente; do lado específico da família que nos é comum eles não conhecerão ninguém. Num instante - num mail, num telefonema, numa imagem partilhada, no acesso a um programa específico - estes meus primos de Urbanna, VA, passarão a conhecer uma genealogia que vai até onde se poderá ir: nobres e plebeus, reis e aventureiros, santos e conspiradores, profissionais competentes ou amantes da boa-vida, gente notável e gente vulgar. O que dirão eles, habitantes de uma terra que tem menos de 600 habitantes e um festival de ostras com 60 anos? O que diria eu, se fosso ao contrário? Que mundo se abre dentro de nós? Abre-se algum, ou é apenas como ver uma rã com três olhos?

JdB   

28 dezembro 2008

A Festa da Sagrada Família

A Sagrada Família (Pompeo Batoni 1708 - 1787)


Família. Do latim família, «o conjunto dos escravos da casa, os escravos; a casa, todas as pessoas ligadas a qualquer grande personalidade; casa de família».

A Igreja celebra hoje a festa da Sagrada Família de Jesus, Maria e José e eu não esqueço a minha condição de Católico.
Fosse por preguiça, falta de criatividade, dificuldade do tema ou indecisão sobre a melhor aproximação ao assunto, o facto é que andei engasgado com os dedos pairando sobre um teclado desinspirador, nesta ingenuidade de quem acredita que o tempo de espera resolverá o drama da folha em branco.
Oscar Wilde afirmava-se de gostos simples, satisfazendo-se com o melhor. À nossa maneira – dos cristãos, digo – poderíamos dizer frase semelhante, aplicando o raciocínio à Sagrada Família.
Não tenho competência para falar da família de hoje em dia, naquilo em que se tornou, na mudança de paradigma, nas vantagens e desvantagens de novas formas. Sei que a vida mudou, as separações e os divórcios deixaram de ser um estigma que doía e envergonhava, e que as famílias reconstruídas estão longe de ser menos boas do que as originais, tantas e tantas vezes disfuncionais e coladas com o cuspo de dependências várias.
Não obstante todas as tendências, costumes, estudos, evidências, continuo a acreditar firmemente na família tradicional como espaço de partilha, de memória, de estabilidade, de troca de experiências, de transmissão de valores e de princípios. Mais ainda, acredito no valor e na importância da igreja doméstica, consubstanciada numa família que se revê no ideal cristão, que encontra na mensagem de Cristo um guia seguro para o caminho que deve seguir, e que constrói a sua casa sobre a rocha firme de valores que não se compadecem com modas.
O post de hoje é dedicado à minha família, em particular aos meus três filhos e a quem me ajudou na tarefa de os educar, transmitindo-lhes valores seguros de solidariedade, atenção ao próximo, respeito, honestidade, altruísmo, generosidade. Estou certo de que aquilo que são, o que me ensinam e o que passarão aos que vierem a seguir a eles foi possível pelo ambiente familiar em que cresceram. Não um ambiente de perfeição, mas de procura daquilo que é justo e recto. Nem sempre uma casa, mas sempre um espaço.
A Igreja celebra hoje a festa da Sagrada Família. Não nos podemos queixar de não ter um modelo.

JdB


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