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18 julho 2024

Crónica de férias no Funchal (I)

 

Para já, Funchal voltou ao seu melhor: uma temperatura amena, uma teor de humidade aceitável, um banho fantástico com amigos no Clube Naval, uma gente simpática onde quer que se vá, um peixe fresco e barato, uns bifes de atum no ponto certo. Vir ao Funchal é um gosto muito grande, e não só porque se tem a sensação de férias. Num certo sentido - e muito mal comparado - eu tenho o gosto de vir ao Funchal uma vez por ano como outros têm gosto na Ericeira, na Quinta do Lago, em S. Martinho ou em Moledo. Há um sentido de uma certa pertença, de familiaridade, da leveza que decorre de se saber onde se está.

O barco que se vê na fotografia é o barco que se vê da casa onde fico estes 10 dias - mar, muito mar, umas manhãs gloriosas, uns fins de tarde com uma luminosidade fantástica. O resto do tempo de mar será no Clube de Turismo onde não há areia nem muita gente, dois factores que me são menos favráveis no gosto que tenho pelos banhos de mar.

JdB  

15 julho 2024

Músicas dos dias que correm

Parto hoje para a minha estadia anual no Funchal. Durante 12 dias ouvirei o português com sotaque, reverei amigos recentes mas bons, comerei milho frito, espetadas e bodião. Durante estes dias tomarei banho num mar fantástico, cavado, com uma óptima temperatura. Darei mergulhos de um pontão, fingindo ser menino de novo, gozarei de uma temperatura que já foi mais amena, pois o ano passado bateu nos 30ºC. 

JdB 

28 julho 2023

Poemas e fotografias dos dias que correm

Funchal (Julho de 2023)
 

Prazeres

O primeiro olhar da janela de manhã
O velho livro de novo encontrado
Rostos animados
Neve, o mudar das estações
O jornal
O cão
A dialéctica
Tomar duche, nadar
Velha música
Sapatos cómodos
Compreender
Música nova
Escrever, plantar
Viajar, cantar
Ser amável. 

Bertold Brecht, trad. Paulo Quintela

* tirado daqui

01 agosto 2022

Crónicas de um turista no Funchal

 Uma das vantagens da minha estadia quinzenal no Funchal é a leitura. Para não sobrecarregar a bagagem de volume não levo nenhum livro daqui, abastecendo-me do que houver na Bertrand local. No ano passado li Quando os Lobos Uivam, de Aquilino Ribeiro, que talvez não lesse no continente. Este ano abalancei-me a ler A Queda dum Anjo, de Camilo Castelo Branco, que começa desta forma poderosa e criativa:

Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, morgado da Agra de Freimas, tem hoje quarenta e nove anos, por ter nascido em 1815, na aldeia de Caçarelhos, termo de Miranda.  

Gostei muito do livro, que tem 200 páginas e se lê num instante, tal o gosto. A citação abaixo - talvez um pouco longa - refere-se ao discurso do morgado nas cortes após o abade Estevães lhe dizer que o Estado subsidiava o teatro de S. Carlos com vinte contos de réis anuais.   

Sr. presidente, gozem nas boas horas os sátrapas da capital os deleites da sua civilização teatral. Despendam-se, arruínem-se, doudejem com essas ficções e visualidades, que relembram factos de alto escândalo que não deviam ser vistos à luz da civilização que o meu ilustre colega preconiza. Se gostam, não serei eu, homem de outros tempos e gostos, quem lhes impugne a racionalidade do seus passatempos. O que eu requeiro, em nome da justiça e da pobreza do País, é que se não sisem os povos provinciais para manutenção dos divertimentos de Lisboa. O que eu contesto é o direito de me fazerem pagar a mim e aos meus vizinhos as notas garganteadas dos ganha-pães que não têm na sua terra ofício honesto em que vivam com seriedade e utilidade comum. O que eu sobretudo lamento, Sr. presidente, é o silêncio desaprovador dos meus colegas. Sou eu só: serei eu só o vencido. Não importa! Victis honus!. As pequenas coisas tratam-nas os pequenos: Parvum parva decent. Eu abro mão das glórias prometidas ao nobre colega que, há pouco, pediu subsídio para o teatro do Porto. Dêem-lho. Desenrolem a onda aurífera do Pactolo do nosso tesouro até Braga. Quem pede subsídio para o teatro bracarense? A equidade reclama-o. O meu círculo também quer um teatro. Teatro e subsídio para todo o lugarejo onde morar um contribuinte. Estamos em vida fictícia como país independente. Somos como o sapateiro que se veste de príncipe no Entrudo. Pois bem! Comédia geral! Seja Portugal um teatro desde Monção ao cabo da Roca! Peço uma companhia italiana para a minha terra. Os meus constituintes querem provar o sabor das delícias que têm estipendiadas em Lisboa. Se eu não posso, Sr. presidente, levar-lhes a boa-nova de que vão ter estradas que os liguem à sua nação, seja-me permitida a glória de lhes levar a Lucrécia Bórgia, a incestuosa e envenenadora Lucrécia, que os há de edificar e converter à civilização. Disse.

160 anos passados após a escrita deste livro. nalguns aspectos o país não mudou muito.

JdB 


19 julho 2022

Crónicas de um turista no Funchal

 


Não me parece que nas minhas várias vindas à Madeira tivesse passado pelo Seixal. Estive lá ontem e tirei estas duas fotografias. A primeira podia ser um cenário do Senhor dos Anéis; a segunda, embora pudesse ser nos Açores, lembrou-me algumas praias da Sicília, vá-se lá saber porquê...

Depois de um óptimo Domingo de "praia" (em bom rigor no Clube Naval) o dia amanheceu farrusco. No entanto, neste momento, nenhuma temperatura desce dos 21ªC, nenhuma temperatura sobe para além dos 24 ou 25ºC. 

O Funchal está pujante de turismo; vê-se isso nas ruas e nos restaurantes, o que é bom. Tal como no continente, não há pessoal para a restauração. Jantamos no Chalet Vicente e lamentamos não poder ir para a varanda: "gostávamos muito", dizem-nos, "mas não há pessoal que chegue". Apesar da escassez, o serviço é bom, simpático, educado, sem ser demasiado próximo. 

Tomar banho no mar da Madeira continua a ser uma experiência reconfortante; não há muitos banhos como este no mundo, estou certo. 

Fomos à missa na Capela da Penha de França. A cerimónia, celebrada por um padre novo com um comprimento de cabelo que escandalizaria os mais fundamentalistas, demorou 32 minutos e teve uma homilia muito inspirada. De facto, em meia dúzia de minutos explicou o que significa o calor do Verão para Abraão naquele dia específico (os momentos maus pelos quais cada um de nós passa) e a passagem de Marta e Maria, uma casa onde não havia pais (somos todos irmãos).

Apontamentos singelos de uma estadia funchalense.  

JdB    

14 julho 2022

O Fado, canção de vencidos

Parto hoje para umas curtas férias no Funchal, repetindo uma hábito anual - ainda que irregular. Face ao que se passa a nível de calor no continente, posso dizer com propriedade que vou para a Madeira apanhar bom tempo - prevê-se que as temperaturas oscilem entre os 19ºC e os 23ºC.  

Gosto de ir ao Funchal. Ando a pé, gozo a vista sobre o oceano que se vê da casa onde estou, tomo banhos em locais com pouca gente e nenhuma areia - os dois factores negativos numa praia. O mar não está frio e permite mergulhos do pontão - é um mar fundo, cavado, com alguma ondulação. Por outro lado, é difícil encontrar-se gente antipática ou pouco educada na Madeira. Como já aqui referi, os trabalhadores da restauração do Algarve deveriam ir à Madeira fazer um tirocínio. 

Maximilano de Sousa (Funchal, Madeira, 20 de janeiro de 1918 — Lisboa, 29 de maio de 1980) ficou (mais) conhecido pelos piores motivos: A Mula da Cooperativa e Casei com Um Velha, ambas, na minha opinião, de detestável gosto, apreciadas por quem gosta de coisas jocosas cantadas com sotaque. Mas Max foi um cantor e fadista de enorme sobriedade e bom gosto, tendo-nos deixado obra composta por si.  


Fiz leilão de mim

Talvez de razão perdida 
Quis fazer leilão da vida 
Disse ao leiloeiro; venda ao desbarato 
Venda o lote inteiro que de mim, estou farto 

Meus versos, que não são versos 
Atirei ao chão, dispersos 
P'ra ver se algum dia, um mundo pateta 
Por analogia diz que sou poeta 

Fiz leilão de mim 
E fui por fim apregoado 
E de mau que sou
Ninguém gritou "arrematado” 
Fiz leilão de mim
Tinhas razão minha almofada 
Com lances a esmo
Provei a mim mesmo 
Que não valho mais que nada 

Também quis vender meu fado 
Meu modo de ser errado 
Leiloei ternura, chamaram-me louco 
Mostrei amargura, o mundo fez pouco 

Depois leiloei carinho 
E em praça fiquei sozinho 
Diz-me a pouca sorte, que para castigo 
Até vir a morte, vou ficar comigo.

JdB

12 julho 2021

Crónicas da Madeira bela

 

Viver no Funchal (que não é sinónimo de viver na Madeira) é viver com uma dose de imprevisibilidade meteorológica baixa: em condições normais a temperatura não desce muito abaixo dos 16ºC e em condições normais não sobe mito dos 25ºC. Nos últimos anos vim ao Funchal 3 ou 4 vezes e nunca consegui usar uma camisola, mesmo no dia 31 de Dezembro.  

Ir ao Reid's - mas também andar na rua - é ver o que foi o turismo madeirense durante muitas décadas: ingleses de meia idade ou reformados que, entre outras coisas, procuravam a certeza de um tempo ameno, que fugiam à inclemência inglesa do frio, da chuva e da humidade.

Quem, como eu, anda na casa dos 60 e tal anos, sabe o que é viver uma infância de baixa imprevisibilidade meteorológica: havia 4 estações num ano e sabia-se quando começavam e terminavam; não porque o calendário assim o dissesse, mas porque a natureza o dizia. Tudo mudou e hoje faz calor no Inverno e chove em Agosto. A Madeira é uma permanente e suave Primavera - sem a praga do pólen.

A vida no Funchal tem inegáveis qualidades, mas não gostaria de aqui viver, por vários motivos: não só a minha vida familiar e social é toda feita no continente, como me faz falta o contraste: preciso do frio, do Outono e dos dias que diminuem, do nevoeiro e da lareira, como também preciso das noites amenas e sem vento que também as há pelo Estoril. Não conseguiria viver só com bom tempo.

Estive aqui há um ano, mais dia menos dia, e a diferença é abissal: há gente nas ruas, os restaurantes têm gente, os hotéis voltam à vida, as esplanadas estão cheias; dizem-me que há uma invasão de nórdicos no Porto Santo. O que não muda, para além da amenidade do tempo? a simpatia do pessoal da restauração, que é onde me cruzo mais com os nativos: é gente competente, sempre com um sorriso que se adivinha por trás de uma máscara, com sentido de humor face a uma graça. Algumas zonas do Portugal continental deveriam obrigatoriamente fazer um tirocínio no Funchal, mesmo que seja num modesto restaurante. 

JdB   

05 julho 2021

Do chá no Reid's

 

Tomar o chá da tarde no Reid's é ter a certeza de que há experiências que se mantêm imutáveis com o tempo. Tive essa experiência ontem, mas poderia estar a vivê-la há 50 anos, talvez. Há uma elegância no serviço, na vista, na frequência humana que nos dão a garantia de que este tipo de civismo é inglês. Independentemente da influência da D. Catarina de Bragança na tradição do chá das 5, tudo isto é inglês: o chá (Earl Grey para mim, sempre?), as sanduíches, os scones.


Não pode discutir-se a origem da açorda ou da pizza; não pode discutir-se a origem da doçaria conventual ou da pastelaria ou do vodka. Nessa linha de pensamento, não pode discutir-se a origem da civilidade, de um certo requinte de comportamento ou de tradições - a origem é Inglaterra.

À nossa volta há casais de ingleses de meia idade, já reformados. Poderiam ser o Churchill e a sua mulher, poderia ser a Agatha Christie a imaginar um crime. Não tocam telemóveis, não há crianças a correr, ninguém fala alto. 


 Ler os livros de Somerset Maugham (outros escritores haverá) é perceber um pouco do que afirmo; ver o África Minha é perceber outro pouco. Ingleses que vão para África ou para as Índias Ocidentais onde se quedam anos a fio a viver sozinhos, ou amancebados com gente local. No entanto, no sítio mais recôndito do Império Britânico, jantam de smoking. 


Tudo isto está para acabar, talvez, quando morrer uma geração que conheceu gente que conheceu o Somerset Maugham, o mundo do Império Britânico, ou o Quénia dos anos 40. Acaba quando a barbárie vencer, a cerveja eliminar o chá, os hooligans substituirem os casais de reformados que retocam o guarda-roupa para o chá do Reid's.


O chá do Reid's é um oásis, uma espécie de paraíso por onde o tempo não passou, o lugar geométrico da felicidade dos anglófilos, como eu. Ir ao Reid's (os lugares na esplanada já estão reservados para as próximas duas semanas) é viver uma experiência, não é lanchar, mesmo que haja sanduíches de pepino, de salmão, de pera abacate. Até isso contribui para uma cerimónia cara, muito cara, mas de uma elegância que não se repete em muitos sítios.

JdB  

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