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28 julho 2009

História para pintar – V

O vê dos patos acaba a tarde num silêncio leve.
As árvores quietas
espalmam sobre o rio o lado errado
e o sol pôs-se, mais uma vez, a divagar
entre o laranja, o violeta e o encarnado.

JCN

21 julho 2009

História com restos de vida – V

Ficou no espelho vazio
um nome estranho.

Redimo numa consolação
o desencontro:
ás vezes a verdade
trai a falta de jeito
para os tempos tristes.

JCN

14 julho 2009

História com restos de vida – IV

No fundo
há sempre uma parte de nós que
surdamente
guarda o som
do talher vazio à mesa.

Lá no fundo,
há no fundo de nós
uma esperança
à espera de esquecer.

JCN

07 julho 2009

História com saudades

Não sei
se é no desejo
que o afecto está,
sei que os dias sem ti
se fazem cheios
no inquieto vazio
de te esperar.

JCN

30 junho 2009

História à chegada

Se o amor nos visse assim,
se agora, quando chegássemos,
à espera na estação,
entre beijos, abraços e apitos,
estivesse o amor
a ver-nos assim chegar,
cansados,
sobraçando malas,
mão na mão
e braço dado,
se, de repente, nos visse assim o amor,
que farias tu
com as tuas asas?

JCN

23 junho 2009

História de um sopro

Cerrei as mãos
uma contra a outra,
recolhi os pingos perdidos
perfeitamente redondos
de fazerem reflexos
na luz espalhada
pelo teu corpo
e reguei num sopro
o Deus que em ti reconheci.

JCN

16 junho 2009

História acordada

Desfiando noites,
desfazendo nós,
dedilhando cabelos
na indecisão de adormecer.

O lençol paira
à tona do corpo
e a mão pára
à beira do toque.

JCN

09 junho 2009

Histórias de descobrir o Mundo para a véspera do Dia de Portugal

(Portugal - I)

Da mão o Destino lhes escapou
e, feito nau, caiu ao mar
traçando no azul um rumo
que não puderam recusar.


(Portugal – II)

Dormia com o sol enrolado nos cabelos
e a areia de dentro de si escorria pela mão.

O mar o penetrou
e ao sair
as ervas medraram aí
como em bom chão.

Saíram então da terra
coisas tidas por secretas:
das cinzas criou um barco
das ganas
fez rotas certas.

Depois de parar um instante,
El -Rei D. João Segundo,
meteu a mão na cartola,
do vazio tirou o Mundo.


(Portugal – III)

Criando-se Pátria
aos homens se provou.

E fez-se depois ao mar
como quem um touro cita
para a si mesmo se provar.


(Portugal – IV)

Fim da Europa o criou
tranquilo e regular
e de proibido
só lá pôs o mar.

Da árvore tentação
o mar colheu
e, errante pelo mundo,
se perdeu.


(Portugal – V)

Heróis do Mar
nobre Povo
lúcido Ícaro.

As fontes do teu jardim
jorravam tédio e mel.

Partiste à grandeza.
Destino antigo,
profundamente mergulhaste o vento.

Profanando a Lei,
tocaste, ao de leve, o Sol.

Ferido,
soletraste a dor
e olhaste, coroado de lume,
a luz insuportável.

Só paraste de morrer
quando a terra arrefeceu
e recomeçou das cinzas a nascer,
rente, a erva.

JCN

02 junho 2009

História que aconteceu mesmo

(Esta noite deu-me para criar)

Pus jasmim na tua boca
pintei de luz os teus olhos
tirei-te as rugas da alma
e fiz com elas três molhos.

Deslumbrei o teu sorriso
fiz do teu corpo um desejo
pus ouro nos teus cabelos
e, sem querer, dei-lhes um beijo.

Foi ao ver o que fizera
que vi que em nada mudaste:
tanto trabalho perdido ...
que bonita que ficaste!

JCN

26 maio 2009

História com retrato

Não se tinha mexido (o coração aos saltos conta?).
Disfarçou a voz presa na garganta: “- nem respirei” e levantou os olhos numa força.
A ideia era parar a vida numa cara feliz. Tango suspenso no momento de cair. Fotografia é para isso que serve. Para parar.
E para recuar, não dava?
Tomara um abraço sem explicações, tomara sacudir os dias soltando os desencontros. Ajeitar a verdade e deixar-se mergulhar devagar, desfiando os momentos bons. Tantos momentos bons…
Éramos assim? Tinha sido assim?
Quis dizer-lhe que o fim também se engana, mas saiu-lhe só:
“-Como é que ficou? Assim, assim?”
Espreitou a má escolha do vestido, as cores fortes e aquelas bolas pequenas azuis perdidas e a espalharem-se por todo o lado. Tinha ficado a rir e com a vida toda à volta, naquela porcaria de barulho que esvaziava tudo.
Conseguiu fintar o que ele ia dizer.
Ganhou um tempo e um vento que lhe voou pela cara.
“- Olha, fiquei a rir.”

JCN

19 maio 2009

História com restos de vida – III

Dizes: não digas o amor
e ris ao espelho os olhos arranjados para sair
acertando o baton.

Tiro outra vez a mão que não sai do teu peito,
beijo a ida e volta das tuas costas
e espero o tempo que for preciso.

Já não te ouço dizer
que sabes voltar sozinha.

JCN

12 maio 2009

História com restos de vida - II

Decifro nos jornais
que me deixaste ao tempo
o que riscaste.
Vindas de ti,
não sei se são sinais
notícias de amores banais
que sublinhaste.
Responde, meu amor:
Sobejou a palavra que invocaste
ou sobrou para nós e não ligaste
o céu que se acendeu
nos títulos que encontraste?

JCN

28 abril 2009

Quase História

Nunca passou desse quase
o quase de te beijar.
E, sem passar dessa fase
(da fase do desejar),
sem te dizer uma frase,
sem sequer me aproximar,
sabe tão bem esse quase
que assusta só de pensar
que o quase só chega a quase
se for a sério o tentar.

JCN

21 abril 2009

História para pintar - IV

O horizonte passa de tom em tom
por todos os cinzentos,
e do azul ao rosa velho.

Não passa lá do fundo o mar.

Nisto, o sol desaparece sem se dar por isso
na abundância da paisagem.

Um fresco vago
atravessou o ar
como uma asa de anjo.

Como uma asa de anjo.

JCN

14 abril 2009

História para pintar - III

Desenho com o dedo
o teu corpo
neste muro onde bate o sol,
ressoando no gesto um eco
que enche a tua falta.

O movimento surge exacto
caminhando,
efémero, vivo e luminoso,
até o fim da tarde te guardar
na sombra destes versos que escrevo
onde estás sempre.

JCN

07 abril 2009

História para pintar - II

Riscando contornos familiares
criei um vazio
que pede verde.

Desenho os cabelos
acariciando a tela
a dar nome às cores.

Traço a branco um brilho no olhar,
guardo para a alma o azul,

e assino com o teu nome.

JCN

31 março 2009

História para pintar - I

Magia antiga
esta de guardar segredos
abrindo janelas
e riscando depois,
para lá delas,
tranquilamente,
o nome das cores,
como se cada vazio
pedisse por si,
para o seu silêncio,
uma morte diferente
e um espelho
nos devolvesse depois,
de algures,
o destino que acordámos.

JCN

24 março 2009

História com música – II

(These foolish things remind me of you)

Em volta de ti
o piano ficou suspenso
da mão em garra
à espera que o contrabaixo
acabe de remoer o desgosto.

Em volta de ti
aligeiro compassos
vagabundeando o saxofone
e a noite quente cansada
balança enlaçada
em volta de ti.

A luz que chega depois
encontra-me aqui
em volta de ti.

JCN

10 março 2009

História com música – I

Sinto os sonhos
que tocam espessos
as pontas vagarosas dos meus dedos.

De trás do sofá
o disco toca
«My heart is so down»
e a noite pede versos tristes.

Embrulhas as palavras
na sombra dos meus braços,
calas com um beijo os beijos
e adormeces a dizer
que sexta-feira é um dia bom
para estar assim.

JCN

03 março 2009

História de Lisboa II

(FOTOGRAFIA)

O cordão de meias
pendura varandas
entre janelas à sombra.

Pedras roliças
escorregam
nas escamas húmidas
onde o andaime pinga
no pim da lata de atum.

O gato pestaneja
o olho que pôs no pombo
negando o esforço ao salto.

JCN

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