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30 maio 2024

Textos dos dias que correm

 O Peso Bruto da Irritação

Se fôssemos contabilizar as paixões desta vida, os ódios e os amores, os grandes sobressaltos, as comoções, os transtornos, os arrebatamentos e os arroubos, os momentos de terror e de esperança, os ataques de ansiedade e de ternura, a violência dos desejos, os acessos de saudade e as elevações religiosas e se as somássemos todas numa só sensação, não seria nada comparada com o peso bruto da irritação. Passamos mais tempo e gastamos mais coração a sermos irritados do que em qualquer outro estado de espírito.

Apaixonamo-nos uma vez na vida, odiamos duas, sofremos três, mas somos irritados pelo menos vinte vezes por dia. Mais que o divórcio, mais que o despedimento, mais que ser traído por um amigo, a irritação é a principal causa de «stress» — e logo de mortalidade — da nossa existência.

É a torneira que pinga e o colega que funga, a criança que bate com o garfinho no rebordo do prato, a empregada que se esquece sempre de comprar maionnaise, a namorada que não enche o tabuleiro de gelo, o namorado que se esquece de tapar a pasta dentrífica, a nossa própria incompetência ao tentar programar o vídeo, o homem que mete um conto de gasolina e pede para verificar a pressão dos pneus, a mania de pôr o pacotinho vazio de açúcar debaixo da chávena de café, a esferográfica de Mário Crespo... é por estas e por outras que as pessoas se suicidam. E têm toda a razão.

É nos engarrafamentos, na bicha do supermercado ou do multibanco, no cinema atrás do cabeçudo que não nos deixa ver, no autocarro cheio de gente, que somos diariamente irritados. Há-de reparar-se que as pessoas que mais nos irritam são as que estão à nossa frente. São estas as pessoas que demoram, que levam horas a tirar o porta-moedas para pagar o táxi, que insistem em passar um cheque para comprar um quilo de cebolas e uma embalagem de Super-Pop, que se mexem na cadeira e desembrulham rebuçados durante a cena mais dramática do filme, que têm um tempo de reacção ao semáforo verde de aproximadamente 360 segundos, que pagam as contas da água, da luz e do telefone ao Multibanco, que se esquecem de tomar banho antes de usar um transporte público e depois insistem em esfregar-se contra quem tomou.

Miguel Esteves Cardoso, in 'Último Volume'

25 março 2024

Textos dos dias que correm

 

A Tristeza dos Portugueses

Porque é que os portugueses são tristes? Porque estão perto da verdade. Quem tiver lido alguns livros, deixados por pessoas inteligentes desde o princípio da escrita, sabe que a vida é sempre triste. O homem vive muito sujeito. Está sujeito ao seu tempo, à sua condição e ao seu meio de uma maneira tal que quase nada fica para ele poder fazer como quer. Para se afirmar, como agora se diz, tão mal.
Sobre nós mandam tanto a saúde e o dinheiro que temos, o sítio onde nascemos, o sangue que herdámos, os hábitos que aprendemos, a raça, a idade que temos, o feitio, a disposição, a cara e o corpo com que nascemos, as verdades que achamos; mandam tanto em nós estas coisas que nos dão que ficamos com pouco mais do que a vontade. A vontade e um coração acordado e estúpido, que pede como se tudo pudéssemos. Um coração cego e estúpido, que não vê que não podemos quase nada.
Aí está a razão da nossa tristeza permanente. Cada homem tem o corpo de um homem e o coração de um deus. E na diferença entre aquilo que sentimos e aquilo que acontece, entre o que pede o coração e não pode a vida, que muito cedo encontramos o hábito da tristeza. Habituamo-nos a amar sem nos sentirmos amados e a esse sentimento, cortado por surpresas curtas, passamos a chamar amor. E com verdade. No mundo das ausências, onde a tristeza vem de sabermos muito bem o que nos falta, a nós e àqueles que nos rodeiam, a bondade, que nos torna vulneráveis aos sofrimentos daqueles que nos acompanham e nos faz sofrer duas vezes mais do que se estivéssemos sozinhos, é o preço que pagamos por não sermos amargos. É graças à bondade que estamos tristes acompanhados. Há uma última doçura em sermos tristes num mundo triste. Igual a nós.

Miguel Esteves Cardoso, in 'As Minhas Aventuras na República Portuguesa'

24 janeiro 2024

Textos dos dias que correm

Olhar para o peixinho

Estas são duas crianças a fazer festas a uma gata. Quando passa um carro a gata foge. E depois volta para retomar as marradinhas. 

“Estúpida da gata!”, diz o miúdo, “sempre cheia de medo!” 

A miúda não discorda mas diz: “Já viste? Deve ser horrível estar sempre cheia de medo.” 

Não sei se foi [Paul] Valéry que disse que ser poeta é imaginar o que sente o peixe dentro do aquário: como vive e o que vê. É uma afirmação de autonomia, quase profissional: é isso que o pintor não consegue pintar. 

Lembrei-me de Valéry – não é por parecer pretensioso que me vou pôr a disfarçar – porque há muitas maneiras de compreender o mundo e, por muito democráticos que queiramos ser, algumas são melhores do que outras, e merecem ser escolhidas por quem ainda não se decidiu. 

A questão de a gata ser estúpida ou inteligente também é interessante, claro. É estúpida porque 99% das vezes não era preciso fugir? Ou é inteligente porque fugir, por tudo e mais alguma coisa, é uma boa estratégia para sobreviver?

Há pessoas que querem classificar e pessoas que querem compreender. Classificar é rápido e eficaz. Compreender é moroso e incerto. As primeiras querem saber “quem é ela? O que é que está a fazer?” e, mal recebem as respostas, passam logo a classificar o bicho: “É estúpida” ou “faz ela muito bem”. É assim com os gatos, com os vizinhos, com a política e com tudo. Mas compreender acaba por ser mais útil ainda, porque nós dispomos de tudo o que é preciso para tentarmos imaginar que somos outra pessoa, outro povo, outro bicho. 

É arriscado, claro, e parcial também, porque só conseguimos fazer uma aproximação, mas é nessa tentativa de percebermos, nesses passos pequenos que damos para nos aproximarmos, que ganhamos uma proximidade que nos ajuda a compreender o outro. 

A empatia sem imaginação é suspeita. A imaginação sem esforço e sem tempo, sem curiosidade ou perplexidade, não é imaginação: é só olhar. É o que faz a gata. 

(Mas será?)

Miguel Esteves Cardoso, “Olhar para o peixinho”, Público, 19 Out. 2023

23 outubro 2023

Textos dos dias que correm

 Reagir à Saudade e à Tristeza

A maneira de reagir à saudade e à tristeza é ter um coração bom e uma cabeça viva. A saudade e a tristeza não são doenças, ou lapsos, ou intervalos, como se diz nos países do Norte. São verdades, condições, coisas do dia a dia, parecidas com apertar os atacadores dos sapatos. É banalizando-as que as acompanhamos. Um sofrimento não anula outro. Mas acompanha-o. Para isto é preciso inteligência e bondade.
Aquilo que resta são as pequenas alegrias. No contexto de tamanha tristeza e tanta verdade tornam-se grandes, por serem as únicas que há. Não falo nas alegrias que passam, como passam quase todas as paixões.
Falo das alegrias que se tornam rotinas, com que se conta: comprar revistas, jantar ao balcão, dormir junto do mar, dizer disparates, beber de mais, rir. Coisas assim. São essas coisas — entre as quais o amor — que não se podem deitar fora sem, pelo menos, morrer primeiro.

Miguel Esteves Cardoso, in 'As Minhas Aventuras na República Portuguesa'

17 agosto 2017

Pensamentos dos dias que correm

A Coragem da Resignação

A palavra «resignação» não tem boa reputação. Lembra atitude devota, passividade, lágrima ao canto do olho. E todavia, não é isso. Em face dos limites de uma condição, da morte e do nada que vem nela, que outro nome dar à aceitação calma, à fria impassibili­dade? A revolta em tal caso pode falar ao nosso orgulho, à imagem de grandeza que queiramos se tenha de nós. Mas é uma imagem ridícula. Ela responde ainda, não ao reconhecimento do que nos espera, mas a uma notícia recente e não assimilada que disso nos dessem. A coragem não está na atitude espectacular, mas na serena e recolhida e modesta aceitação. Temos assim tendência a julgar herói o que enfrenta a morte com atitudes de grandiosidade, não o que a enfrenta no seu recanto, em silêncio e discrição. Mas o espec­táculo é ainda uma forma de compensar o desastre da morte — é ainda uma forma de uma parcela de nós se recusar a morrer. Quem morre resignado morre todo por inteiro, nada ele assim recusa do que a morte lhe exige. 

Vergílio Ferreira, in "Conta-Corrente 2"

***

A Culpa é Sempre Nossa


Sempre admirei aqueles que nos fazem sentir culpados do que dantes nos julgáramos inocentes. A culpa é uma riqueza, à qual se vai acrescentando. O resultado oscila entre a lista telefónica e as Obras Completas mas pesa sempre. 

Os grandes mestres são os nossos pais e os nossos filhos - ambos mostram de onde veio a inspiração para o pecado original. Ora se é culpado por ter nascido e interrompido, ora se é culpado por ter dado a nascer e não se ter interrompido tanto quanto precisariam os nascidos. A culpa não é uma coisa que se tenha, como um pescoço. É uma coisa que se transmite, como uma gripe. Tanto faz ser-se inocente ou culpado «à partida», que tem aspas porque não existe. Os malvados constipam-se tanto como os bonzinhos. Mas ambos são vulneráveis à ideia que até fizeram por isso e merecem pagar. Até com as lâmpadas de casa de banho acontece. Não há domínio de banalidade que a culpa não contamine. Tenho passado, nos últimos anos, várias semanas, dispersas no tempo, sem luz na casa de banho. Uso pilhas e a luz da lua, quando é oferecida. Depois aparece o electricista que é afoito e resolve tudo num segundo. Não desaparece, contudo, sem bafejar-me primeiro com o ónus da culpa. «Usa muito a casa de banho de noite?», pergunta, como se fosse uma perversão ou uma coisa má. Eu caio na asneira de responder que não. Ele dá-me o olhar culpabilizante: «Andas a cagar muito e a más horas, a ler o Proust...» Santa culpa, que é sempre nossa. 


Miguel Esteves Cardoso, in 'Jornal Público (19 Jan 2012)'

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