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27 janeiro 2026

Textos dos dias que correm

Agradecer o que não nos dão

O mais comum é agradecer o que nos foi dado. E não nos faltam motivos de gratidão. Há, é claro, imensas coisas que dependem do nosso esforço e engenho, coisas que fomos capazes de conquistar ao longo do tempo, contrariando mesmo o que seria previsível, ou que nos surgiram ao fim de um laborioso e solitário processo. Mas isso em nada apaga o essencial: as nossas vidas são um recetáculo do dom.

Por pura dádiva recebemos o bem mais precioso, a própria existência, e do mesmo modo gratuito fizemos e fazemos a experiência de que somos protegidos, cuidados, acolhidos e amados. Se tivéssemos de fazer a listagem daquilo que recebemos dos outros (e é pena que esse exercício não nos seja mais habitual), perceberíamos o que a poetisa Adília Lopes repete como sendo a sua verdade: «sou uma obra dos outros». Todos somos.

A nossa história começou antes de nós e persistirá depois. Somos o resultado de uma cadeia inumerável de encontros, de gestos, boas vontades, sementeiras, afagos, afetos. Colhemos inspiração e sentido de vidas que não são nossas, mas que se inclinam pacientemente para nós, iluminando-nos, fundando-nos na confiança. Esse movimento, sabemo-lo bem, não tem preço, nem se compra em parte alguma: só se efetiva através do dom.

Por isso é que quando ele falta a sua ausência indelével faz-se sentir a vida inteira. O seu lugar não consegue ser preenchido, mesmo se abunda uma poderosa indústria de ficções de todo o tipo com a inútil pretensão de ser oblívio e substituição para essa espécie de fala geológica que nos morde.

Hoje, porém, dei comigo a pensar também na importância do que não nos foi dado. E a provocação chegou-me por uma amiga que confidenciou: «Gosto de agradecer a Deus tudo o que Ele me dá, e é sempre tanto que nem tenho palavras para descrever. Sinto, contudo, que lhe tenho de agradecer igualmente o que Ele não me dá, as coisas que seriam boas e que eu não tive, o que até pedi e desejei muito, mas não encontrei. O facto de não me ter sido dado obrigou-me a descobrir forças que não sabia que tinha e, de certa maneira, permitiu-se ser eu».

Isto é tão verdadeiro. Mas exige uma transformação radical da nossa atitude interior. Tornar-se adulto por dentro não é propriamente um parto imediato ou indolor. No entanto, enquanto não agradecermos a Deus, à vida ou aos outros o que não nos deram, parece que a nossa prece permanece incompleta. Podemos facilmente continuar pela vida dentro a nutrir o ressentimento pelo que não nos foi dado, a compararmo-nos e a considerarmo-nos injustiçados, a prantear a dureza daquilo que em cada estação não corresponde ao que idealizamos.

Ou podemos olhar o que não nos foi dado como a oportunidade, ainda que misteriosa, ainda que ao inverso, para entabular um caminho de aprofundamento... e de ressurreição. Foi assim que numa das horas mais sombrias do século XX; desde o interior de um campo de concentração, a escritora Etty Hillesum conseguiu, por exemplo, protagonizar uma das mais admiráveis aventuras espirituais da contemporaneidade. No seu diário deixou escrito:

«A grandeza do ser humano, a sua verdadeira riqueza, não está naquilo que se vê, mas naquilo que traz no coração. A grandeza do homem não lhe advém do lugar que ocupa na sociedade, nem no papel que nela desempenha, nem do seu êxito social. Tudo isso pode ser-lhe tirado de um dia para o outro. Tudo isso pode desaparecer num nada de tempo. A grandeza do homem está naquilo que lhe resta precisamente quando tudo o que lhe dava algum brilho exterior, se apaga. E que lhe resta? Os seus recursos interiores e nada mais.»

José Tolentino Mendonça in Expresso, 18.4.2014

15 dezembro 2023

D. José Tolentino Mendonça - prémio Pessoa 2023

(...)  

Uma das grandes virtudes que precisamos reencontrar é a arte do espanto, pois é verdadeiramente por aí que tudo começa. Espanto deriva do latino expaventare que descreve a forte impressão originada por uma coisa inesperada e repentina. Se procurarmos sinónimos, encontramos assombro, admiração, surpresa. É o contacto (consciente, fulgurante, desarmado, rendido) com a vida maior do que nós, a vida em aberto, não predeterminada. No espanto, a nova e surpreendente expressão da vida prende a nossa atenção à maneira de um relâmpago, de um rasgão imprevisível. Não a conseguimos encaixar no nosso quadro habitual, pois o seu carácter inédito torna inúteis todas as previsões, saberes, experiências, etiquetas, mapas, preparações. Gosto muito da definição de espanto dada por Adorno: “Espanto é o longo e inocente olhar sobre o objeto”. É, de facto, um ‘olhar longo’ e isso talvez explique porque consideramos hoje tão pouco o espanto, num tempo que nos programa para olhares breves, relances, observações fugidias e utilitárias, cada vez mais simplificadas. E é um ‘olhar inocente’, isto é, aberto à revelação do próprio objeto, ao que ele pretende de nós e não ao que imediatamente pretendemos dele. O espanto obriga-nos a uma revisão do que sabemos de nós próprios e do mundo. Obriga-nos a recomeçar, como se fosse um nascer. Certamente que, no seu processo, o espanto desarruma e dói. Mas o amor, o conhecimento, a poesia ou a santidade principiam com ele.

D. José Tolentino de Mendonça

* texto completo aqui  

17 março 2022

Orações dos dias que correm

REZAR O FUTURO DO MUNDO

Ensina-nos, Senhor, a desarmar o nosso coração, multiplicando os gestos de não-agressão e de respeito pela dignidade de todos.

Ensina-nos, Senhor, em cada dia a desativar as sementes e as razões da violência, dentro e fora de nós. 

Recorda-nos que a paz é um artesanato paciente e muitas vezes escondido, mas que o futuro do mundo depende dele.

Mostra-nos como estar, de forma incondicional, ao lado das vítimas, no socorro aos perseguidos, na fronteira onde acorrem os refugiados (que, se abrirmos os olhos, compreenderemos que é mesmo a nosso lado), no serviço humano a quantos vivem o drama da guerra ou lutam desamparados com sofrimentos maiores do que as suas forças.

Ajuda-nos a transitar da informação para a acção; a superar a passividade do medo pela audácia do compromisso generoso; a abrir com rasgo profético as portas do coração, o espaço da nossa família, a condivisão da palavra e dos bens. 

Desinstala-nos, Senhor, deste sentimento de impotência que nos bloqueia, pois todos podemos fazer alguma coisa, a começar pela oração. 

P. Tolentino

14.03.2022

02 dezembro 2021

Textos e poemas dos dias que correm

Queridos irmãos, que o tempo do Advento seja um tempo para interromper, interromper, interromper. Isto é: suspender as nossas questões, suspender as nossas amarguras, suspender os nossos longos percursos, suspender a nossa inquirição àquilo que não tem resposta, ou então aquilo cuja resposta não nos cabe colher. Interromper. E preparar o nosso coração para o encontro com a vida, com a vida estreme, com a vida que começa, com a vida que é nova, com essa vida encarnada que nos mostra na nossa carne, na nossa história, o próprio Deus.

Queridos irmãos, este tempo de Advento é um tempo necessário. Precisamos de caminhar. O Natal não é uma coisa automática, não é uma coisa que se tira das nossas caixas e coloca de novo e ele acontece automaticamente, imprevistamente. Não, o Natal prepara-se. Este encontro tem de ser, de facto, um encontro com a nossa vida. Deus interrompe o que eu sei, o que eu digo, o que eu falo e mostra-se, e dá-se-me, e enche o meu coração da fome de Deus, da fome de sentido que só Ele pode saciar.

Cardeal D. José Tolentino Mendonça.

(Homilia)

***

Último Natal

Menino Jesus, que nasces
Quando eu morro,
E trazes a paz
Que não levo,
O poema que te devo
Desde que te aninhei
No entendimento,
E nunca te paguei
A contento
Da devoção,
Mal entoado,
Aqui te fica mais uma vez
Aos pés,
Como um tição
Apagado,
Sem calor que os aqueça.
Com ele me desobrigo e desengano:
És divino, e eu sou humano,
Não há poesia em mim que te mereça.

Miguel Torga, Gaia, 24 de Dezembro de 1990 (in Poesia Completa vol. II, Lisboa 2007)


29 abril 2021

Textos dos dias que correm

«A pandemia parece o apocalipse, mas não o esqueçamos, todo o apocalipse é uma revelação»

Temos de reconhecer que esta pandemia apanha as nossas sociedades impreparadas. E não falo simplesmente ou sobretudo do ponto de vista sanitário; falo do ponto de vista da nossa experiência, e daquilo que a nossa memória pode extrair em nosso socorro; falo da nossa visão do mundo e da existência, do que julgamos distante ou longínquo e do que está efetivamente perto; do que temos por estritamente individual e do que é coletivo; do que consideramos que nos protege e do que nos expõe; do que temos, ou tínhamos, por adquirido ou como completamente improvável; da consciência da nossa real força e da nossa vulnerabilidade.

Não é fácil, repentinamente, constatar que sabemos de nós próprios e da vida muito menos do que pensávamos. Não é fácil despertar dentro de um mundo desconhecido, como o pobre caixeiro-viajante naquela novela de Franz Kafka.

Há uns dias, um escritor italiano recordava que a nossa geração tem sido uma juventude dourada na história europeia. Todas as coisas más, que, na verdade, nunca deixaram de acontecer, aconteciam, porém, lá longe, e aos outros. Era tragédias que assistíamos pela televisão e em diferido. E nem nos dávamos conta de que a perceção que construíamos das nossas sociedades - que no fundo correspondem à de uma humanidade co mais saúde, com maior esperança de vida, com mais segurança e proteção, melhor nutrida e vestida – assenta num contexto histórico que não é inabalável, ou, pelo menos, não é tão inabalável como nós pensávamos.

Porém, e pode parecer paradoxal, este tempo presente, este tempo de crise, com as dificuldades que todos conhecemos, representa também uma oportunidade para nos reencontrarmos.

A experiência de confinamento, por exemplo, tem-nos ajudado a compreender talvez melhor o que significa ser, e ser de uma forma autêntica, radical, uma comunidade. Hoje, porventura, percebemos melhor que a nossa vida não depende apenas de nós e das nossas escolhas. Todos estamos nas mãos uns dos outros. Todos experimentamos como é vital esta interdependência, esta trama feita de reconhecimento e de dom, de respeito e solidariedade, de autonomia, de serviço e de relação. Todos esperam uns dos outros, e estimulam-se positivamente a que façam a sua parte. Todos contam. Como dizia o papa Francisco, naquele 27 de março de 2020 que não esqueceremos, na praça vazia de S. Pedro, ninguém se salva sozinho. Estamos todos no mesmo barco. Todos contam.

Os cuidados individuais que somos chamados a exercitar não são a expressão de uma fobia ou apenas do interesse próprio, como se destinados a nos enclausurar na torre de marfim do nosso ego. São sim a forma de colaborar para uma construção maior, de colocar os outros no centro, de sacrificar-se por eles, de privilegiar nesta hora o bem comum.

Esta é, de facto, a hora em que podemos reaprender tantas coisas. Podemos, por exemplo, reaprender a estar nas nossas casas, nas nossas famílias, mas também a sentir que depende de nós o nosso prédio, o nosso sítio, o nosso bairro, a nossa cidade, a nossa região, o nosso país, dando substância efetiva a palavras tantas vezes esvaziadas dela, como proximidade, vizinhança, humanidade, povo e cidadania.

Podemos, por exemplo, reaprender a utilizar as redes sociais não só como forma de divertimento e evasão, mas como canais de presença, de solicitude e de escuta. Sem nos tocarmos, podemos reaprender o valor da presença, da saudação, o estímulo do cumprimento, a incrível força que recebemos de um simples sorriso ou de um olhar.

Sem que os nossos braços se estendam na direção uns dos outros podemo-nos abraçar afetuosamente, como já o fazíamos, ou de um modo mais intenso ainda, transmitindo nesses abraços reinventados o encorajamento, a hospitalidade, a certeza de que ninguém será deixado só. Sem nos conhecermos, poderemos finalmente reaprender a não votar ninguém à indiferença ou tratar os nossos semelhantes como desconhecidos. Nenhum ser humano nos é desconhecido, pois sabemos por nós próprios o que é um ser humano, o que é esse pulsar de medo e de desejo, essa mistura de escassez e prodigalidade, esse mapa que cruza o pó da terra com o pó das estrelas.

Quantas coisas somos chamados a reaprender nestes dias. Mas a vida também é isso: transformação, despojamento, viragem, mudança, que depois pode também estar na origem do nosso reflorescimento. A vida também é este apelo que nos pode chegar através das formas mais exigentes e dolorosas, para que a escutemos melhor, e a escutemos até ao fim como provavelmente não o havíamos feito ainda. Porque a vida é o seu parto interminável, que é também o nosso. E é este incessante modelar do inacabado que a nossa gestação, a par da gestação do mundo, significam.

A pandemia parece o apocalipse, mas não o esqueçamos, todo o apocalipse é uma revelação. Esse é, aliás, o sentido do termo grego “apokálypsis”, que devemos entender e racionalizar não como uma enigmática catástrofe ou um castigo, mas literalmente como um descobrir, um retirar do véu.

Se de uma forma tão brusca, tão violenta, como aquela que o presente histórico vive, o véu que ocultava a nossa visão foi retirado, o que é que nós agora vemos? Penso que ficam a descoberto três coisas.

A primeira é aquela expressa pelos cientistas, que nos recordam que o número das epidemias cresceu e crescerá, porque os nossos modelos de desenvolvimento não têm em conta o equilíbrio dos ecossistemas nem o respeito pela casa comum. Temos atuado no mundo como se estivéssemos sozinhos no planeta, e esquecemo-nos que partilhamos com as outras criaturas ambientes, potencialidades, e também uma palavra urgente para o século XXI aprofundar, conexão.

Em segundo lugar, os nossos estilos de vida no contexto deste mundo globalizado precisam de conversão. Construímos sociedades movidas pelo dogma do utilitarismo, que operam sobretudo como mercados massificados e exibem um desinvestimento dramático no humano. A corrida que nos impomos é produzir mais para consumir mais, e com isto desaprendemos o essencial da vida.

Esta pandemia ajuda-nos a compreender que precisamos de uma nova sabedoria, de modelos mais integrativos, com visões capazes de dialogar com a inteireza da pessoa humana nas usas diversas dimensões. Nestes longos meses, por exemplo, o heroico empenho dos profissionais de saúde, o exemplo do seu sentido de responsabilidade, dedicação e sacrifício inspiram o arranque de um tempo novo.

Embora não possamos esquecer aquilo que o romancista Albert Camus escreveu no seu romance “A peste”: o bacilo da peste pode chegar e ir embora sem que o coração do homem se modifique. E esse seria o verdadeiro desperdício, se nem uma pandemia nos ajudasse a mudar individualmente – porque as grandes mudanças são, antes de tudo, mudanças pessoais –, mas também coletivamente a nossa visão, o nosso coração.

A terceira coisa é que não nos chega agir por medo. Este não pode ser apenas o triunfo do medo, o triunfo da incerteza, do terror do que pode acontecer. Este é o tempo para semear, este é o tempo para relançar a nossa aliança com a vida. E por isso precisamos todos de nos unir e fortalecer para desenvolver apostas de confiança na vida, neste dom incalculável que a vida significa.

Aqui é preciso recordar que no meio da emergência que vivemos não podemos esquecer o testemunho humano altíssimo que nos está a ser dado por todos os cuidadores. Estes são os heróis desta história coletiva. E são milhões que de forma anónima, e com um extraordinário sentido de abnegação, continuaram a manter abertos os serviços e as fábricas, a continuar a produção alimentar e os bens indispensáveis, a vigiar pela segurança, pela saúde material e espiritual, e, claro, nos hospitais a combater por todos nós na primeira linha.

E são inúmeras as histórias, aparentemente minúsculas, mas verdadeiramente gigantes, que nestes meses tão difíceis nos estiveram a ser contadas.

Uma primeira história exemplar, que foi um ícone nas primeiras semanas da pandemia, foi a de uma imagem, contada sem palavras, e que mostra os bastidores de um hospital italiano onde primeiramente se sentiu o efeito devastador da pandemia. A fotografia era uma enfermeira adormecida com a cabeça em cima de um teclado do computador. Tem a máscara colocada no rosto, os braços caídos ao longo do corpo sem nenhum apoio. É uma imagem comovedora no seu desamparo extremo porque se percebe tudo. Há quantas horas aquela mulher não dormia? Que dimensão tem de ter o cansaço, que peso tem de atingir para fazer tombar assim um corpo?

Aquela comovente imagem mostra a atitude ética, e para lá disso, de amor que os profissionais de saúde nestes meses têm testemunhado, e que sem dúvida constitui uma grande reserva de humanidade para as nossas sociedades e um exemplo para todos os cidadãos.

Há já quem diga que a geração que está a viver o turbilhão desta pandemia olhará inevitavelmente para a vide de outra maneira. Esperemos que sim. Esperemos que sim. Que todos passemos a olhar parta a vida de outra maneira. Mas que na equação que porventura espoletará esta mudança de mentalidade não entre só o medo – que nos faz em circunstâncias históricas como esta relativizar tanta coisa e estar disponível para fazer tantos sacrifícios; que nós saibamos considerar, conservar e contar muitas vezes todas as histórias de amor que estão a ser escritas, a começar por esta multidão de profissionais e voluntários que aproxima esta nossa experiência hodierna de crise daquilo que a nossa humanidade tem de melhor.


Card. José Tolentino Mendonça
27.4.2021
Fonte: Governo Regional da Madeira
Publicado aqui em 28.04.2021

29 março 2021

Textos dos dias que correm *

 A audácia da vulnerabilidade, a profecia de uma visão

É sabido que vivemos na era da padronização das imagens. Em nenhuma época anterior da história foram produzidas tantas imagens e, além disso, nenhuma outra como a nossa testemunhou a sua radical banalização. Em vez de imagens únicas e autênticas, temos produtos fabricados em série, selfies fabricadas num instante e num instante prontas para serem devoradas pelo esquecimento. O filósofo Walter Benjamin falou com razão em "perda da aura", ou seja, a imagem deixa de constituir "a única aparência de uma coisa distante" e passa a fixar-se na repetição sonâmbula de um déjà vu. Por isso, o comovente consenso em torno da imagem do Papa Francisco na praça de São Pedro vazia é algo que nos faz pensar, dentro e fora do espaço eclesial.

Um ano depois, vale a pena revisitar aquela imagem, que na realidade nunca deixou de estar presente, e indagar de onde vem o seu excepcional poder icónico. Por que é que essa imagem que ficou ainda representa o que estamos a viver e não qualquer outra imagem? E o que é que isso nos revela sobre ela mesma, ou o que nos ensina sobre nós próprios? Procurando sintetizar o que certamente merece uma reflexão mais ampla, indicaria quatro motivos.

A ousadia de habitar a vulnerabilidade como lugar de experiência humana e crente. É verdade que a cultura dominante, o mainstream modelado como um automatismo pelas nossas sociedades de consumo fez da vulnerabilidade uma espécie de tabu. A fragilidade está sujeita a ocultação. E, ao impedirmo-nos de enfrentar o sofrimento humano, cada vez menos sabemos como nos reconhecermos nele, ou como partirmos dele para aprofundar o sentido da nossa humanidade comum. Mas esse não é apenas um problema da cultura actual. A performance religiosa também tem alguma dificuldade em integrar o que Michel de Certeau chamou "fraqueza de acreditar". A imagem que se transmite é mais a de uma operação efectuada a partir de um guião do que de desapropriação e abertura para criar um "caminho não percorrido". O Papa Francisco ousou habitar a vulnerabilidade. Ele não falou apenas sobre a vulnerabilidade do mundo, como se estivesse fora dela. Na medida em que aceitou expor-se como qualquer pessoa, surgiu como uma figura sacerdotal capaz de representar todos.

A audácia de abraçar e devolver sentido ao vazio. Uma das experiências mais impactantes do confinamento foi testemunhar, no início da pandemia, o esvaziamento das cidades. De um momento para o outro espalhou-se um silêncio estranho e desconhecido. Incrédulos, olhávamos das nossas janelas para as ruas e praças em total solidão, sentindo-nos despojados do mundo. A nossa primeira reacção foi ler o vazio como algo hostil que nos ameaçava. Pois bem, Francisco teve a grande sabedoria de abraçar o vazio em vez de repudiá-lo, sublinhando o seu potencial simbólico e revelador. Por isso foi muito importante o texto escolhido para o Evangelho, cenário da tempestade acalmada segundo Mc 4, 35-41. Porque se, por um lado, o vazio foi aceite, abraçando-o como lugar existencial e teológico, por outro, a Palavra de Deus forneceu a chave para dar-lhe sentido. O vazio tornou-se um barco. “Percebemos que estávamos no mesmo barco, todos frágeis e desorientados, mas ao mesmo tempo importantes e necessários, todos chamados a remar juntos, todos a precisar de consolo uns nos outros. Neste barco… estamos todos lá ”. O vazio ofereceu uma nova gramática para nos descobrirmos, não como fragmentos isolados, mas como Fratelli Tutti.

A audácia de encontrar uma metáfora. Comentando o texto do Evangelho de Mc 4, 35-41, o Papa Francisco fez um gesto de grande importância: reorientou a percepção a respeito da pandemia. Os primeiros Chefes de Estado a falar referiram-se à pandemia como uma guerra, uma metáfora até certo ponto compreensível, mas muito equívoca e com muitos perigos à espreita. O Papa foi o primeiro a falar disso como uma tempestade. Essa passagem do estreito plano beligerante para o plano cosmológico coincidiu com um alargamento da visão. Permitiu, por exemplo, desmantelar o impulso inicial de encontrar um culpado, aceitando em vez disso que a tempestade nos atraiu a todos para uma vulnerabilidade que não queremos ver e que nos envolve numa reconstrução que nos compromete globalmente. Este tempo de prova representa, portanto, um tempo de escolhas novas e proféticas que nos unem, em vez de intensificar o triunfo da lógica dos conflitos e das partes.

A audácia de pregar Deus no silêncio de Deus. As tempestades são experiências de crise, até para os crentes. Há um escândalo implícito no grito dos discípulos que tentam despertar Jesus: "Mestre, não te preocupas que estejamos perdidos?" (Mc 4, 38). Como explica o Papa, esta “é uma frase que fere e desencadeia tempestades no coração”. Perante a propagação do mal e a sua proximidade traumática, sentimos com sofrimento o que parece ser o silêncio incompreensível de Deus, e a grande tentação nesses momentos é o niilismo ou a desmobilização. Sobre o poder das imagens, Heidegger escreveu que "a essência da imagem é mostrar algo". A imagem do Papa a rezar e a dar a bênção eucarística, num contexto universalmente vivido como de desolação, mostra como o invisível de Deus penetra os blocos da história e o seu silêncio nos dá a possibilidade de viver, seguindo os passos de Jesus, as situações de abandono como confiança e entrega nas Suas mãos. Francisco pediu: "Desta colunata que abraça Roma e o mundo, que a bênção de Deus desça sobre vós como um abraço consolador". E assim foi.

D. José Tolentino de Mendonça

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* tradução livre minha de um artigo publicado aqui

15 março 2021

Das conversas

Sigamos cronologicamente. 

  1. Seis sessões de coaching com uma profissional inglesa. 
  2. Um artigo que o Padre Tolentino Mendonça escreveu para o Expresso (24 de Agosto de 2019), intitulado Conversem uns com os outros. 
  3. Um texto Transformando sofrimento em narrativa e narrativa em uma nova vida (Tatiana Piccardi, EFLCH/Universidade Federal de São Paulo, Brasil).
Nas três ofertas de que fui beneficiário há mais em comum do que a generosidade, ou o facto de provirem de mãos amigas, pormenor que é despiciendo. O fio que liga as três referências acima é a conversa ouna expressão afortunada da académica, ato de fala curativo feliz. As três realidades referidas acima são diferentes: (i) sessões de aconselhamento profissional, (ii) aspectos da vida social ou (iii) dinâmicas em grupo de pais em luto. No entanto, em todas elas há esta ciência do encontro (Pe. Tolentino) que nos interliga com o(s) outro(s), esta experiência ancestral de contar e trocar histórias de vida (T Piccardi).

No decurso de uma entrevista, e falando com algum conhecimento de causa, afirmei que não havia nada pior para um Pai que passa por esta experiência do que a sugestão alheia de se falar temas ligeiros. Muitas vezes os pais querem exercer esta fala curativa feliz, querem contar uma história, partilhar uma experiência, alumiar um buraco negro que têm dentro de si. Como diz T Piccardi, [t]odas as mães e o pai presentes nas reuniões relatam sua dificuldade principal: a falta de ouvintes para suas histórias, para as histórias de vida e morte de seus filhos. Reclamam que a vida segue, em pouco tempo as pessoas se esquecem dessas crianças que se foram, e os pais ficam sós, sem ter com quem falar, sem ter quem ouça as histórias inesquecíveis que constituem a vida de cada filho morto. Não resisto, por isso, a citar outro texto do Pe. Tolentino, já publicado neste estabelecimento: 

(...) Um dos textos mais impressionantes sobre o valor da escuta é o conto “Tristeza” de Tchékov. Conta a história de um cocheiro, Iona, que perdeu um filho e não encontra, entre os humanos, ninguém disponível para o amparar. «Precisa contar como o filho adoeceu, como padeceu, o que disse antes de morrer e como morreu... Precisa descrever o enterro e a ida ao hospital, para buscar a roupa do defunto. Na aldeia, ficou a filha Aníssia... Precisa falar sobre ela também...», mas ninguém o ouve. O cocheiro volta-se então para o seu cavalo e enquanto lhe dá aveia começa a expor-lhe, num longo e dorido monólogo, tudo o que viveu. E as últimas palavras do conto são estas: «O cavalo foi mastigando, enquanto parecia escutar, pois soprava na mão do seu dono... Então Iona, o cocheiro, animou-se e contou-lhe tudo».    

Durante seis semanas, oferta de quem achou que talvez ajudasse à minhas responsabilidades internacionais, tive a experiência inédita do coaching via zoom com uma técnica inglesa, ex-jornalista da BBC. O que fizemos durante seis horas no total? Conversámos. Não estabelecemos objectivos, não desenhámos um roadmap, não discutimos estratégias, embora tivéssemos pensado e falado sobre isso. Durante seis horas fiz da palavra partilhada um reduto e um alimento (Pe. Tolentino) tendo encontrado, numa total desconhecida, um eco mais purificado das minhas palavras pensadas num inglês imperfeito. Não fiz catarse, não falei do passado doloroso ou da precisão das memórias; falei e ouvi e, talvez mais importante, ouvi-me. O reflexo das minhas palavras chegou-me mais nítido, mais pedagógico, mais construtivo, mais depurado. À despedida, e repetindo uma fórmula usada e abusada, agradeci por alguém ter ouvido o que eu queria dizer a mim próprio, um homem numa circunstância específica, com responsabilidades específicas. 

Conversar é uma palavra onde cabem muitos mundos: conversamos para aprender, para desabafar, para nos ouvirmos. Como diz o Pe. Tolentino, [f]requentar os outros capacita-nos para o encontro connosco mesmos e o conhecimento próprio dá-nos chaves para viver a aventura da alteridade. Num certo sentido, a conversa é um livro pré-Gutemberg e, por isso, um acto único que deve ser preservado e acarinhado. É um exercício de oralidade, sujeito à economia da memória ou da (pouca) atenção que damos aos outros, porque o tempo é o do ecrã, da voragem e do imediatismo, do desejo de leveza e de sucesso. Iona e os pais brasileiros em luto vivem realidades iguais: não só perderam os seus filhos para a morte como não têm interlocutores. O cocheiro socorreu-se do cavalo, os pais recorreram aos grupos de ajuda; em ambos os casos tudo é monólogo, porque não há interlocutores com quem exercer o gosto da troca. Não basta que nos oiçam, nem sempre queremos que nos digam. Mas no coração dos que sentem a vantagem da conversa há sempre o desejo de um compasso partilhado. 

JdB

22 outubro 2020

Textos dos dias que correm

O que diz Dante e a “Divina Comédia” a estes tempos de pandemia?

Como todo o não-italiano, detenho-me sempre de novo com admirado maravilhamento diante deste monumento da cultura italiana [“(Divina) Comédia”, de Dante Alighieri], e, como todo o leitor, considero-me pequeno e frágil diante de tanta elevação, mas nunca estranho e indiferente, porque o milagre da poesia de Dante é precisamente o de fazer sentir em casa cada pessoa que lhe vá ao encontro com espírito aberto e recetivo, de conduzir cada um de nós a reconhecer-se na humanidade ferida e redentora que ela representa, com uma verdade e uma profundidade que tem poucas comparações na literatura mundial.

As páginas que pretendo ler convosco, que encontramos no segundo canto da segunda parte, colocam-nos numa fase de transição, na passagem perplexa e cautelosa entre um ciclo acabado de concluir (a travessia infernal do mal privado de redenção) e o início de um novo (a purgatória reconstrução do bem através da expiação purificadora). Dante e Virgílio, acabados de subir da voragem infernal, vagueiam pela margem da ilha do Purgatório para encontrar o ingresso da montanha penitencial. A novidade da situação, a ausência de direções traçadas, desconcerta-os, retarda-os, confunde-os. O Antipurgatório, espaço de suma indefinição e desorientação, aprisiona quem o atravessa num estado de inércia, de impasse: Do mar ao longo inda éramos nessa hora,/ Como quem pensa no seu caminho,/ que vai com o coração e com o corpo demora (cf. “Purgatório” II, 10-12). Como acontece a todos aqueles que não sabem que estrada escolher, o coração diz aos dois viandantes que têm de avançar, mas trava-os a incerteza sobre o que fazer: ficam bloqueados. Bem depressa descobrem que não estão sós nesse estado de indecisão. Pelo leme de um anjo enigmático e silencioso, desembarca, com efeito, na margem um grupo de almas nem beatas nem penitentes, também elas à procura do acesso ao percurso de purificação, e não menos desorientadas que os dois poetas: A turba que ali permanece, selvagem/ parecia de espanto apoderada, olhando à volta/ como quem novas coisas experimenta (cf. 52-54).

Esta turba, agitada pela novidade daquilo que está a experimentar, comporta-se como todo o viajante privado de mapa, que pede informações ao primeiro desconhecido com quem se depara. Quando nos sentimos perdidos, é difícil encontrar quem nos possa guiar: Quando a nova gente ergueu a fronte/ a nós se dirigiu dizendo:/ “Se sabeis,/ mostrai-nos o caminho para chegar ao monte”./ E Virgílio responde: “Vós acreditais/ talvez que somos especialistas deste lugar;/ mas nós somos peregrinos como vós o sois” (cf. 58-63).

Como toda a geografia da “Comédia”, o Antipurgatório não representa um lugar, mas um estado, especificamente a condição de se ser recém-chegados, de se estar numa situação que nos apanha completamente impreparados, na qual as nossas coordenadas habituais se tornam insuficientes e falíveis, lançadas fora por uma crise intensa, que acabámos de superar, mas que ainda domina sobre nós: Chegámos aqui, de vós pouco antes,/ por outra estrada, tão áspera e forte,/ que subir ao monte, em comparação, é jogo de crianças (cf. 64-66). Ao ler estes versos, poderoso e irresistível, toma corpo, aos nossos olhos de leitores, o paralelo entre a cena descrita por Dante e o momento histórico que estamos a viver. Também nós, neste singular setembro de 2020, agora para além do ponto de inflexão de um ano excecionalmente doloroso e denso de perguntas ainda sem resposta (acabados de sair de uma estrada áspera e forte que profundamente nos provou como indivíduos e como comunidade), nos encontramos numa espécie de Antipurgatório; também nós experimentamos coisas novas, como a turba de almas que se cruzaram com Dante e Virgílio, e ninguém se sente capaz de dizer experiente do lugar para onde a pandemia nos arremessou, colhendo-nos totalmente de imprevisto, abrindo cenários inéditos, sacudindo certezas, hábitos que pareciam inabaláveis de tal maneira eram óbvios, a indolente rotina da normalidade.

Olhamos à nossa volta, desorientados e perplexos, e não reconhecemos esta estação estranha. Não sabemos que outono nos espera, se de isolamento ou de presença reencontrada. Sentimo-nos bloqueados, nesta terra incógnita que queremos atravessar o mais rapidamente possível, olhando em redor sem saber exatamente que caminho escolher para sair. Nenhuma pessoa sensata se arrisca a desenhar mapas e a batizar percursos. Os experientes descobrem-se inexperientes nesta fase forçosamente transitória na qual todos somos peregrinos, recém-chegados e desejosos de sair o quanto antes, se ao menos soubéssemos como… Uma só coisa, porém, é certa na incerteza total do momento: a crise do coronavírus, que se faz tão áspera e forte, transportou-nos para um mundo desconhecido, nada será como antes, e a novidade é tão grande, que hesitamos, sabendo que, em todo o caso, será um caminho de árdua reinvenção, de redefinições purificadoras.

Se desejamos um futuro para a nossa sociedade, temos de enfrentar o purgatório de colocar em questão erros, excessos e omissões. Naquele momento extraordinário de oração que o papa Francisco celebrou sozinho no adro da basílica de S. Pedro, em março passado, recordou-nos: «Caiu a maquilhagem dos estereótipos com que mascaramos o nosso «eu» sempre preocupado com a própria imagem… Na nossa avidez de lucro, deixamo-nos absorver pelas coisas e transtornar pela pressa. Não nos detivemos perante os teus apelos, não despertamos face a guerras e injustiças planetárias, não ouvimos o grito dos pobres e do nosso planeta gravemente enfermo. Avançamos, destemidos, pensando que continuaríamos sempre saudáveis num mundo doente». Temos, agora, de aceitar o doloroso exercício das “correções”, como corajosamente propôs, recentemente, um autor americano.

Obviamente, resistimos. Retardamo-nos, adiando, mais ou menos conscientemente, o momento de nos despedirmos do mundo que deixamos para trás para nos adentrarmos naquele que lhe segue. Como quem pensa no seu caminho,/ que vai com o coração e com o corpo demora, pensamos até ao infinito naquilo que há a fazer, mas tergiversamos, agarrando-nos ao “dejà vu”. O pensamento da purificação purgatória é intimidatório, e foi extirpado da nossa autoconsciência de modernos, ilusoriamente substituído por formas secularizadas de autoaperfeiçoamento, que acabam por reforçar o narcisismo e a solidão. O Purgatório, segundo o Catecismo da Igreja católica, recorda-nos que estamos «imperfeitamente purificados» e que devemos submeter-nos «a uma purificação, a fim de obter a santidade necessária para entrar na alegria do Céu».

Também no plano histórico temos de empreender o difícil caminho purgatório da correção do nosso modo de viver, dos nossos hábitos, da inércia a que nos acomodámos há demasiado tempo, deixando que a Terra corresse de encontro ao colapso ecológico, as que as diferenças económicas se aprofundassem de maneira iníqua, que o tecido comunitário se degradasse na estéril cegueira do individualismo. Seremos capazes? Esta pergunta pesa sobre nós como um grande desafio, marcado pela consciência de que aquilo que temos pela frente é um caminho que não se percorre a sós. Requer um compromisso comum, uma sintonia coral: “Isräel de Aegypto”/ cantavam todos a uma voz (cf. 46-48). Só cantando a uma só voz se sai do Egito do mal para reencontrar a liberdade de uma convivência de justiça e de paz, para chegar à terra prometida de uma sociedade em que a dignidade de cada um floresce ao pôr em comum recursos e oportunidades, em que a solidariedade leva a melhor sobre a competição, a tenção recíproca sobre a indiferença, o respeito e a confiança sobre a violência e a desconfiança.

Card. José Tolentino Mendonça
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado pelo SNPC em 21.10.2020


24 junho 2020

Textos dos dias que correm

Espiritualidade cristã em tempo de isolamento, pelo cardeal Tolentino

Uma espiritualidade em tempos de pandemia, o que é, ou melhor, o que pode ser? Porque, no fundo, estamos no improviso. É interessante que, muitas vezes, na coreografia, na dança, se usa o improviso; não gostamos muito, porque preferimos uma vida conduzida por um guião; um improviso faz-nos viver o aberto; e para começar a falar do que é a espiritualidade em tempos de isolamento provocado pela pandemia, tenho de dizer isto: o futuro chegou de supetão, o futuro chegou achando-nos impreparados. Nenhum de nós sabe como lidar com esta situação. Sentimo-nos, todos, mais vulneráveis, mais precários.

À primeira vista, dizemos: aquilo que nos aconteceu é uma distopia; é uma calamidade; é o contrário da graça. E, contudo, em termos de fé, temos de olhar para este cronos, que parece devorar a nossa força e a nossa esperança, como a possibilidade de um káiros, a possibilidade de uma graça.

Este é um tempo de kénosis, de esvaziamento, um tempo de silêncio, um tempo em que, talvez, sintamos uma incerteza muito grande, um tempo de crise, um tempo em que parece que a vida vem menos. Um tempo precário.

Mas eu lembraria que a mesma raiz etimológica aproxima as duas palavras: precare, rezar, em latim, e precarium, o destino daquilo que é frágil. A espiritualidade não se constrói com a força. Jesus ensinou-nos isso com o mistério da sua Páscoa. Porque tudo tem de passar pelo mistério da cruz. E, por isso, este tempo, que parece só de calamidade, temos de o interpretar de um ponto de vista teológico e espiritual como um tempo de graça.

Como é que este pode ser um tempo de graça? Na oração que o papa organizou, na praça de S. Pedro, sexta-feira [27 de março de 2020], que muito nos impactou, ele escolheu ler o texto do Evangelho da tempestade acalmada. E no meio da tempestade, os discípulos perguntam a Jesus: Senhor, não te importas que morramos? É uma pergunta. E este é o tempo das perguntas, e das perguntas fundamentais. Se eu tivesse de sublinhar um ponto muito positivo desta experiência exigente que estamos a viver, é a qualidade das perguntas que escutamos.

É como se vencêssemos a banalidade, e as perguntas que ouvimos fazer uns aos outros são muito mais intensas, muito mais carregadas de sentido.

É curioso que aqui, em Itália, no início da pandemia, abriram-se gabinetes de apoio psicológico. E muitos idosos telefonavam, dizendo isto: eu não consigo rezar. E, de facto, este começou por ser um tempo em que parece que não era possível uma vida espiritual. Depois, descobrimos o contrário: que este tempo é de uma grande intensidade espiritual. E qual é o termómetro para perceber isso? São as perguntas, a radicalidade, a força das perguntas fundamentais que estamos a fazer.

Pegando no discurso do papa, há que dizer a verdade: não é a pandemia que nos adoeceu; nós já estávamos doentes. A pandemia descobriu, revelou, uma doença, que são, no fundo, os nossos estilos de vida, onde já não há alugar para o humano, não há lugar para o encontro, não há lugar para o transcendente, não há lugar para uma vida interior rica, digna desse nome, não há lugar para uma oração. Tudo é cronometrado, tudo passa pelo taxímetro.

Tenho um casal amigo - e é muito belo ouvir as histórias que se passaram nas famílias, porque, de certa forma, uma das coisas que este isolamento trouxe, é a redescoberta da família. Pelas primeira vez muitos casais, muitas famílias, passaram juntas um tempo de qualidade como não passavam há muitos anos, ou como nunca tinham passado – no qual um menino de cinco anos, à mesa, disse isto: eu acho que percebo o que estamos aqui a fazer; estamos aqui a criar memórias. Por vezes as crianças são antenas que nos ajudam a perceber o que estamos a fazer.

Este é um tempo de graça, é um tempo para a graça, é um tempo de maior gratuidade, e é um tempo para criar. Não é só um tempo para “descriar”; não é só a passividade, não é só o não fazer; é um tempo propício, oportuno. Por isso, há aqui um chamamento a modelar o tempo do ponto de vista da fé.

Um dos princípios que o papa Francisco repete muitas vezes é: o tempo é superior ao espaço. Parece uma sentença muito filosófica, e que não tem uma leitura fácil, imediata. Contudo, neste tempo de isolamento social, percebemos isso: o tempo é superior ao espaço. Aconteceu uma espécie de recuo.

A mística judaica fala numa espécie de “tzimtzum”, parece uma coisa brincada. O “tzimtzum” é uma coisa inventada a partir das leituras da Cabala, segundo a qual Deus, para poder criar, teve de dar um passo atrás, teve de se despojar de si mesmo para poder criar. Esta ideia foi retomada por autores tão importantes na segunda guerra mundial como Simone Weil, que disseram, precisamente: o tempo da catástrofe parece um tempo em que Deus recua, dá um passo atrás; contudo, é um tempo para descobrirmos o Deus da ternura, o Deus da misericórdia, o Deus próximo, o Deus comprometido com a pessoa humana, o Deus que está ao lado da vítima, ao lado do que sofre; porque o próprio Deus vive este recuo.

É uma ideia curiosa, que nos deixa a mística judaica, e que nos ajuda a pensar o que está a acontecer com o espaço; está a acontecer o nosso “tzimtzum”, damos um passo atrás para, também, ter uma visão crítica em relação ao modo como habitamos o espaço. Porque, muitas vezes, é pura ocupação de espaço, pura marcação de território, puro automatismo. É uma espécie de colonização do território da comunidade, ou do território público. É sonambulismo existencial.

O “tzimtzum” permite olhar para o tempo, não tanto para o espaço, e ouvir os múltiplos tempos que existem dentro de nós. Santo Agostinho, nas Confissões, fala de três presentes: o presente das coisas passadas, o presente das coisas presentes, e o presente das coisas futuras. O tempo é superior ao espaço.

Este é um tempo de grande escuta espiritual. Este é o momento para percebermos que a vida não se esgota no momento, no instante, na arquitetura do quotidiano, mas que a vida tem uma respiração muito maior. E nós temos de ouvir os passos do futuro, e dialogar com o futuro de outra forma.

Não tenho dúvidas de que entramos numa nova época da história. A pandemia vai passar. Mas nós já estaremos outra época. Culturalmente noutra época. Civilizacionalmente noutra época. Mas também espiritualmente noutra época da história. É importante que em termos da espiritualidade também nos preparemos para entrar nesse tempo novo, que já é o tempo que estamos a viver. Por isso, não podemos olhar para este momento apenas como um parêntesis, como uma suspensão, e depois vamos voltar a viver tudo o que vivíamos – isso não é ajustado à realidade. Temos de encontrar novas linguagens; este tempo é um laboratório. E temos de ouvir o futuro, que já está aqui, porque, como diz Santo Agostinho, há um presente do futuro.

Uma última dimensão que queria sublinhar é que este tempo de isolamento é muito intenso de relação. E é um tempo de intensificação da relação. Porque é muito viciante, e é um jogo viciado, acharmos que só existe uma forma de presença, ou que a ausência tem sempre o mesmo sentido; que a distância e a proximidade se leem de uma forma unívoca. Não. Muitas vezes estamos próximos e estamos completamente ausentes; muitas vezes encontramo-nos e só esbarramos uns nos outros; muitas vezes estamos em comunidade e somos ilhas, não arquipélagos. E este é um tempo para redescobrir e retrabalhar as histórias de amor. E eu não tenho dúvida de que este tempo faz-nos descobrir tanto, tantas possibilidades.

Na história da cultura do século passado, vemos que grandes obras da literatura, da filosofia, da música, da pintura, da espiritualidade, aconteceram em contextos dramáticos, como o que estamos a viver. Franz Rosenzweig, o grande filósofo, escreveu a sua Estrela da redenção nas trincheiras da primeira guerra mundial; Messiaen escreveu a sua obra mais famosa, o Quarteto para o fim dos tempos, num campo de concentração. A Guernica, um dos símbolos da arte do século XX, foi escrita no impacto da guerra civil espanhola.

Uma das grandes místicas do século XX é, sem dúvida, Etty Hillesum, esta jovem holandesa judia, muito próxima do cristianismo, laica e crente ao mesmo tempo, que, podendo escapar do campo de concentração, se oferece como voluntária para nele trabalhar, e nele acaba como prisioneira. E Etty Hillesum diz esta coisa espantosa: este tempo em que parece que a nossa alma soçobra, este é o tempo para olhar os lírios do campo.

Há um desafio enorme neste tempo. E vemos a quantidade de histórias de amor, pequenas histórias, os médicos, os enfermeiros, o pessoal técnico, as pessoas dos laboratórios, tantos sacerdotes, tantas comunidades; mas não só: tantos gestos de amor: as pessoas que dizem, nos seus prédios, aos mais idosos, que vão fazer as compras; aqueles que não querem deixar ninguém para trás; todos esses gestos de amor são alguma coisa que está a transformar este tempo numa catedral.

Como é que eu vejo a espiritualidade neste tempo de pandemia? É um tempo de kénosis, mas também de graça; é um tempo de grande precariedade, mas é um tempo para descobrir o precare, a força da oração; é um tempo para voltar às grandes perguntas; é um tempo para criar memórias, para ouvir o futuro, para perceber que o tempo é superior ao espaço.

Podemos pensar: este é um ano para esquecer; este é um ano de vida adiada. Há um grande poeta de língua portuguesa, António Ramos Rosa, que tem um verso maravilhoso: «Não posso adiar o coração para outro século». Este não é um tempo para a pura sobrevivência, este é um tempo para sonhos grandes, para projetos maiores do que nós, é um tempo para dar passos novos, para ensaiar novos caminhos, para sair da caixa, para reinventar o formato, para descobrir novas linguagens. É um tempo para sentir coisas que, possivelmente, até aqui não sentimos.

Eu dou um exemplo da porta ao lado. O papa gosta de falar da santidade da porta ao lado. Na praça onde está a casa onde vivo, estão algumas pessoas sem-abrigo. E, claro, eu procuro ser cuidadoso, ser humano e ser próximo. Mas a verdade é que quando nós temos uma casa, e estamos a falar com uma pessoa sem-abrigo, há uma diferença: nós não estamos completamente naquela situação. Para mim, uma das coisas extraordinárias foi, no primeiro mês após a pandemia, sair de casa e perguntar «como está?» à senhora que dorme na rua, e ela perguntar-me: «E você, como está?». E a pergunta era igual. Porque estávamos no mesmo barco, debaixo da mesma tempestade. Penso que esta aprendizagem é de uma riqueza espiritual que nos pode ajudar muito.


Card. José Tolentino Mendonça
Arquivista e bibliotecário da Santa Igreja Romana
Intervenção no ciclo "Tecendo redes - Diálogos online de Teologia Pastoral" (2020), 22.4.2020
Fonte: Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, Belo Horizonte, Brasil
Publicado pelo SNPC em 23.06.2020

01 junho 2019

Textos dos dias que correm



Pietà

Os biógrafos de Miguel Ângelo são unânimes em sublinhar a importância da figura materna na sua obra: perde a mãe desde criança, e em muitos momentos a sua arte será uma espécie de diálogo, evocação discreta ou puro grito, com esta figura ausente e, precisamente por isso, desmesuradamente presente.

Pensemos, por exemplo, na Pietà que se encontra na basílica de S. Pedro, no Vaticano, uma das imagens mais dolorosas e icónicas do cristianismo. A Mãe está sentada, e o Filho morto repousa no seu ventre. A Mãe tem um corpo enorme, capaz de acolher o corpo do Filho adulto, mas conserva o rosto de uma jovem em flor.

O corpo parece um bote, um salva-vidas, uma cidade-refúgio. O rosto, no entanto, desenha-se impávido, como se, através daquele sofrimento, olhasse para outro lugar, e se concentrasse não sobre aquela morte, mas na infância intacta do Filho.

É um enigma esta discordância aparente, e as hipóteses de explicação são numerosas: que Miguel Ângelo estivesse contagiado pelo neoplatonismo, segundo o qual a vida divina é impassível; que pretendesse reproduzir a forma dos rostos da escultura greco-romana, tão admirada pelo Renascimento; que citasse o teológico verso de Dante sobre os mistérios da Virgem, «filha do seu filho»; ou, simplesmente, que aquele rosto jovem fosse a imagem que um filho pode preservar da sua mãe perdida na infância.


D. José Tolentino Mendonça
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: "Pietà" (det.) | Miguel Ângelo | Basílica de S. Pedro, Vaticano
Publicado pelo SNPC em 31.05.2019

20 maio 2019

Textos dos dias que correm

O amor visto

A grande aventura cristã não é uma aventura ideológica. Os discípulos não tinham grande coisa a dizer. Imaginemos Pedro: que tinha ele a dizer, aquele pescador do lago de Tiberíades, aos atenienses, que de filosofia sabiam muito mais que ele?

Que tinha ele a dizer aos mestres judaicos que tinham escrutinado os vários sentidos da Bíblia mil vezes mais do que ele? O que tinha a propor aos romanos, que haviam criado o direito e eram uma civilização altamente sofisticada?

Pedro não levava no seu alforge nenhum tratado estimulante para o pensamento, nenhuma descoberta técnica ou teórica. A única coisa que Pedro levava consigo era Jesus, a experiência de Jesus, a sua Boa Nova pascal e o seu mandamento: «Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros, como Eu vos amei».

É esta a verdadeira novidade que Pedro e a sua barca que é a Igreja guardam ao longo da história. Testemunhar que a medida do nosso amor, o modelo do nosso amor, pode ser o próprio Cristo.

E que somos chamados a amar como Ele amou, com aquela disposição, com aquela gratuidade, com aquela capacidade de ser dom até ao fim. A grande força da identidade cristã radica-se sempre aqui.

Aquilo que vemos de extraordinário no cristianismo das origens é como ele não deixa indiferente as multidões, que comentam: «Vede como se amam».


D. José Tolentino Mendonça
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado pelo SNPC em 19.05.2019

01 maio 2019

Textos dos dias que correm

Habitar a dor

O místico medieval Ricardo de São Vítor escreveu: «Onde está o amor, aí há um olhar». Não raro, este olhar que o amor nos requer dá-se no contexto de um sofrimento que teríamos absolutamente preferido não viver, mas da qual aprendemos alguma coisa – e alguma coisa de belíssimo – a que, sem ela, não teríamos chegado.

O mundo da dor é vasto e, quando menos o esperamos, encontramo-nos a habitá-lo. Os sentimentos que então irrompem são muitos: recusamo-nos a aceitar, entramos em revolta, em depressão; gostaríamos de fugir para longe; perguntamo-nos “porquê?”, “porquê precisamente a mim?”, “porquê precisamente agora?”; sentimo-nos impreparados para uma travessia muito árdua.

E, pelo menos neste último ponto, temos razão. O nosso tempo fez da doença, da velhice da deficiência um verdadeiro tabu. Vigora uma espécie de interdito em relação à vida vulnerável: cada um tem de viver estas situações em estreita solidão, sem grandes ajudas para aprofundar a sua experiência como um recurso, e não como uma fatalidade. No entanto, a verdade é bem diferente deste desígnio traçado pelo egoísmo ou pelo medo.

Escutava há alguns dias um pai falar do seu filho com síndrome de Down, Dizia, sem esconder a sua comoção: «Este meu filho é um membro importante da nossa família. É o nosso ponto de união. Fez de nós pessoas diferentes, mais humanas e atentas aos outros. Alargou a nossa capacidade de amar».


D. José Tolentino Mendonça
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado pelo SNPC em 30.04.2019

11 abril 2019

Textos dos dias que correm

Ter tempo

O bem mais precioso é o tempo. E tenhamos a certeza: aquilo de que os nossos semelhantes mais precisam é que lhes demos tempo. Quer se trate dos desconhecidos com quem apenas nos cruzámos, ou daqueles que partilham a vida connosco.

E o que é o tempo? É disponibilidade para uma escuta em profundidade. É disposição para um encontro verdadeiro, que não seja um mero esbarrar-se no outro. É espaço para ver, para sentir, para ter compaixão, para fazer um pedaço de caminho em conjunto.

Sensibilizou-me muito uma história que uma amiga, professora de liceu, me contou. Deu-se conta, um dia, de que uma das suas estudantes tinha alguma coisa no nariz que brilhava, e aproximou-se: era um “piercing”.

Falaram disso: queria compreender as motivações da adolescente; escolheu a ocasião e falou também da nossa cultura e daquela grande descoberta que é o nosso corpo.

A jovem dialogou com muita naturalidade e interesse. No fim, contudo, confiou à professora: «Tenho este “piercing” há quase seis meses, e os meus pais ainda não o notaram».

Quando oferecemos tempo, à nossa mesa vem sentar-se o mundo inteiro. A realidade torna-se menos opaca e incompreensível. Conseguimos interpretá-la melhor, e até a colhê-la numa transparência que antes nos era desconhecida.

A realidade não é uma coisa genérica, nem tem lugar num olhar rápido. A vida está cheia de detalhes que não se revelam a quem não seja sensível ao tempo.


D. José Tolentino Mendonça
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado pelo SNPC em 10.04.2019

18 setembro 2018

Textos dos dias que correm *

É urgente nutrir a vida (I)

Quando se trata de pensar aquilo que nutre a vida é tão importante fazermos o elogio da pequena história, não apenas da grande. Gosto muito da proposta que, um dia, encontrei num livro de história: "Não dar mais valor à queda de um império do que ao nascimento de uma criança, nem mais peso às ações de um rei do que a um suspiro de amor." Talvez um dia mereçamos uma história ensinada assim. Talvez um dia nos preocupemos definitivamente mais com a pessoa do que com a estrutura, com a singularidade mais do que com a afiliação. Talvez um dia uma palavra, um rosto ou um destino quaisquer, eleitos assim ao acaso, sirvam para revelar tudo: para nomear o entusiasmo e a dor, o vislumbre e o combate, a razão e o enigma que existir significou e significa. Porque a verdade é que passam os anos e o que resta deles? Vivências. Sim. Restam as marcas de que estivemos aqui, de que habitámos estações diferentes com a mesma mansidão ou o mesmo furor, de que tentámos sobreviver ao amor, ao desamparo e à morte com tudo o que tínhamos à mão, de que partilhámos, de que cremos e negámos coisas diferentes e até a mesma coisa, de que coexistimos nos nossos encontros e na nossa irredutível solidão. Restam de nós vestígios, monumentos de vário tipo, pegadas. Resta o pó e o silêncio dos ossos. Mas não só: de uma forma que não sabemos, o escasso lume que fomos perdura e serve a outros para continuar. Façamos o elogio da pequena história!

Nutrir-se de espanto

E façamo-lo, em contracorrente, nesta sociedade dominada pelo mito do controlo, onde uma ideia de vida substituiu-se à própria vida. A nossa viagem passou na nossa cultura para as mãos de um piloto, que só tem de aplicar, do modo mais maquinal que for capaz, as regras previamente estabelecidas. Os nossos sentidos adormeceram. Deixou de haver lugar para a surpresa. Vivemos condicionados por uma espécie de guião. Uma coisa, porém, tenho aprendido: é importante não condicionar o fluxo espantoso da vida e a capacidade que ela tem de nos surpreender. A nossa pequena vida é um instante em aberto. Somos chamados a cultivá-la com a paciente humildade que um jardineiro reserva ao seu jardim. O jardineiro trabalha de sol a sol, com todo o afinco, mas sabe que a rosa floresce sem ele saber como. Felizes aqueles que, em relação à vida, à pequena história se nutrem do espanto: esses, e só esses, sentirão o inacabado do tempo como uma promessa.

Como ensina Jung, “o importante não é ser perfeito, o importante é ser inteiro”. Os pequenos triunfos dão-nos fortaleza para olhar as grandes humilhações, e as dificuldades vividas dão-nos humildade para viver os triunfos. As experiências de liberdade dão-nos a capacidade e a esperança para suportar os momentos de penumbra; e os momentos em que nos sentimos aprisionados dão-nos a resistência, a força e até o sentido de humor para vivermos os tempos de liberdade. Há que afastar de nós a tentação do cinismo e aceitar, finalmente, que somos feitos destes materiais tão diversos e que tudo isso é dom, que tudo isso é o nosso nutrimento.

Estamos prontos a honrar a vida?

Olhemos para dentro de nós. Se nos escutarmos em profundidade sabemos que existem perguntas que estão desde sempre à nossa espera. Subtraí-las é subtrairmo-nos e faltarmos à chamada que a vida nos faz. Uma dessas perguntas prende-se com o desejo, e na forma mais incisiva e pessoal formula-se assim: "Qual é o meu desejo?" O meu desejo profundo, aquele que não depende de nenhuma posse ou necessidade, que não se refere a um objeto, mas ao próprio sentido. "Qual é o meu desejo?" O desejo que não coincide com as quotidianas estratégias do consumir, mas sim com o horizonte amplo do consumar, da realização de mim como pessoa única e irrepetível, da assunção do meu rosto, do meu corpo feito de exterioridade e interioridade (e ambas tão vitais), do meu silêncio, da minha linguagem. Como dizia Françoise Dolto, a nossa hora só chega "quando, como qualquer outro ser humano sentimos um desejo suficientemente forte para assumir todos os riscos do nosso próprio ser. Aí estaremos prontos a honrar a vida de que somos portadores".

O momento da aceitação de si

Olhemos para dentro de nós. A não sei quantas braças de profundidade situa-se uma dor nunca reparada, mas que condiciona toda a superfície. Identificar e cuidar dessa dor é a condição para sermos nós próprios e podermos entender também a dor que os outros transportam, tocando a nossa e a sua verdade. O momento da aceitação de si, com lacunas e vulnerabilidades, é uma etapa crítica, dilacerante até, mas abre-nos à transformação e fecundidade possíveis, abre-nos à enunciação do desejo. E, não o esqueçamos, quantas vezes a vulnerabilidade acolhida se torna a janela por onde entra a inesperada transparência da graça.

(Continua)

* D. José Tolentino Mendonça
Publicado em 17.09.2018

21 agosto 2017

Textos dos dias que correm

A Lamentação é Completamente Inútil

Não há dúvida de que é inútil e prejudicial lamentarmo-nos perante o mundo. Resta saber se não é igualmente inútil e prejudicial lamentarmo-nos perante nós próprios. Evidentemente. De facto, ninguém se lamentará perante si próprio, a fim de se incitar à piedade, o que nada significaria, dado que a piedade é, por definição, o voluptuso encontro de dois espíritos. Para quê, então? Não para obter favores, porque o único favor que um espírito pode fazer a si próprio é conceder-se indulgência, e toda a gente percebe quanto é prejudicial que a vontade seja indulgente para com a sua própria e lamentável fraqueza.
Resta a hipótese de o fazermos para extrair verdades do nosso coração amolecido pela ternura. Mas a experiência ensina que as verdades surgem apenas em virtude de uma pacata e severa busca, que surpreende a consciência numa atitude inesperada e a vê, como de um filme que parasse de repente, estupefacta, mas não emocionada.
Basta, portanto.

Cesare Pavese, in "O Ofício de Viver"

***

O Amor é o Caminho que nos Leva à Esperança

O amor é o caminho que nos leva à esperança. E esta não é uma espécie de consolação, enquanto se esperam dias melhores. Nem é sobretudo expectativa do que virá. Esperar não significa projetar-se num futuro hipotético, mas saber colher o invisível no visível, o inaudível no audível, e por aí fora. Descobrir uma dimensão outra dentro e além desta realidade concreta que nos é dada como presente. Todos os nossos sentidos são implicados para acolher, com espanto e sobressalto, a promessa que vem, não apenas num tempo indefinido futuro, mas já hoje, a cada momento. A esperança mantém-nos vivos. Não nos permite viver macerados pelo desânimo, absorvidos pela desilusão, derrubados pelas forças da morte. Compreender que a esperança floresce no instante é experimentar o perfume do eterno.

José Tolentino Mendonça, in 'A Mística do Instante'

09 novembro 2016

Amar a imperfeição *

Ouvi aí umas duzentas vezes o poeta Tonino Guerra citar o verso de um monge medieval: «É preciso ir além da banal perfeição». É isso mesmo: a perfeição pode ainda ser um caminho que trilhamos pela superfície ou constituir uma ilusão que nos impede de aceder ao verdadeiro e paradoxal estado da vida. Levamos tanto tempo até perder a mania das coisas perfeitas, até nos curarmos do impulso que nos exila no aparente conforto das idealizações, ou finalmente vencermos o vício de sobrepor à realidade um cortejo de falsas imagens! «É preciso ir além da banal perfeição».

Lembro-me de um filme de Nanni Moretti, acho que é “O quarto do filho”, em que uma personagem, estando a viver um duro luto, se coloca a arrumar no armário as chávenas de chá. Percebe então que uma tem um lado partido. Tenta disfarçar o facto, colocando visível apenas o lado intacto. Mas ela sabe que àquela chávena falta alguma coisa. Aquela chávena é o símbolo da sua vida, da nossa vida, que ela e nós temos de aceitar e redescobrir continuamente. Acolher isso é uma condição necessária no amor e na amizade, no viver comum e na maturação pessoal que nos cabe fazer.

Há aquele mote de Samuel Beckett que, se o soubermos ouvir, derrama sobre os nossos embaraços grande luz. Diz assim: «Errar, errar de novo, errar melhor». O que é errar melhor? É saber que, no fundo, erramos sempre. Isto é: a perfeição encontrámo-la nos catálogos, mas não nos nossos gestos ou em nós próprios. O mais sensato é mesmo adotar a humilde sabedoria de quem procura conscientemente o melhor, mas sabe que o seu melhor ficará ainda aquém. O que podemos aprender é, pois, a semear, num trabalho de confiança, de desprendimento e simplicidade cada vez maiores. Jung escrevia: «o importante não é ser perfeito, mas sim inteiro». E para nós, o que é realmente importante?

Durante anos tive em casa um cartaz de uma peça de teatro infantil, de um grande autor italiano. Para saber falar às crianças como ele o faz, a gente percebe que se tem de apetrechar não apenas uma enorme habilidade, mas uma afetuosa esperança. Os miúdos sabem distinguir bem quem lhes fala para entreter ou quem realmente lhes quer comunicar uma verdade de coração. Este autor, chamado Gianni Rodari, é assim. Durante anos tive um cartaz seu com esta frase: «errando também se inventa». Olhar para aquela frase transmitia-me o ânimo e a leveza de que precisava.

A perfeição coloca-nos perante a realidade como se de um facto consumado se tratasse: se formos mexer, intervir, retocar ou alterar, sentimos isso como uma perturbação. Essa perfeição é estática. Existe só para ser admirada… à distância. A imperfeição, porém (e penso também naquelas que identificamos na nossa vida interior), é uma história ainda em aberto, que conta ativamente connosco. Na imperfeição é sempre possível começar e recomeçar. A imperfeição permite-nos compreender a singularidade, a diversidade, o real impacto da passagem do tempo, o traço dos seus vestígios. A imperfeição humaniza-nos.

José Tolentino Mendonça
Publicado no Diário de Notícias (Madeira) a 21.05.11 e no estabelecimento quatro dias depois 

22 dezembro 2015

Textos para os dias que correm

Para além do Pai Natal, reaprendamos a arte do dom

Quando as crianças se dão conta - e dão-se conta muito depressa - que o Pai Natal não existe, falam disso entre elas, mas diante dos adultos fingem que não o sabem ainda durante algum tempo, porque percebem que isso lhes dá prazer. O Pai Natal é uma crença extremamente efémera que se torna numa representação cultural ou familiar tácita, apenas isso. Não admira que muitos se interroguem sobre a razão da persistência da sua figura quando, grandes ou pequenos, muito poucos acreditam verdadeiramente nela. O Pai Natal seria então uma imposição meramente comercial, um ícone vazio, um símbolo gasto e esgotado que não tem nada mais a dizer? Provavelmente sim, se pensarmos na banalização massiva que assistimos ano após ano.

Em todo o caso, vale a pena sondar esta estranheza que faz com que os pais continuem a atribuir a uma outra entidade - uma entidade gráfica e pitoresca como o Pai Natal - os dons que eles mesmos compram para os próprios filhos. Seria lógico pensar que faria mais sentido que o presente fosse ligado ao seu rosto, um tosto bem conhecido, que transmite confiança e afeto, um rosto que reforça o contexto habitual da criança. O dom é, em vez disso, atribuído a uma entidade anónima, desconhecida, que aparece anualmente e de modo fugaz, sem uma relação personalizada com aqueles que oferecem os dons. Mas é precisamente este fato que nos induz a refletir sobre aquilo que se ativa no ato de dar e de receber. Que significa dar? Quem é o agente do dom? De quem recebemos aquilo que nos é dado? É aqui que se decide o sentido submerso do Pai Natal.

Sublinhemos, antes de mais, que o Pai Natal não deixa de ser um pai. O, melhor, o pai de um pai, um avô, se tivermos em consideração a sua idade, a sua barba branca, o seu humor tilintante e redondo, a sua bondade um pouco extravagante. Trata-se, no fundo, de um predecessor, de alguém que não representa apenas o instante atual mas quanto nos é transmitido de geração em geração, aquilo que os nossos pais nos dão porque o receberam antes dos seus pais e assim por diante.

O Pai Natal alarga os restritos metros quadrados da família contemporânea e estende os laços, testemunhando também tudo aquilo que se recebe dos outros, e não só dos pais, não só daqueles que constituem o quadro normal da vida. Deste modo, ele une cada criança a todas as crianças do mundo na expectativa e no entusiasmo pelo dom, sem o qual a vida nada seria. O dom, não o esqueçamos, é muito diferente do circuito frio, tão sonâmbulo e voraz, da troca e do comércio, mesmo se hoje parece totalmente sequestrado por essas lógicas.

O que é que de mais precioso podemos dar aos outros que a nossa atenção criativa, o nosso cuidado, o nosso tempo, a nossa fidelidade ao que cada um, em cada instante, é? O dom gera dom, mas não no sentido da gramática mercantil que procura o proveito próprio mais do que a experiência autêntica da oferta de um presente.

O citadíssimo "do ut des" (dou-te para que me dês) é um mote que trai a beleza do dom, o qual pode ser unicamente uma expressão de amor sem cálculo nem medida. Por isso é urgente resistir à pressão comercial que enche o saco do Pai Natal de coisas, coisas e mais coisas, que têm o único efeito de neutralizar a relação, de perpetuar de modo camuflado a indiferença e a distância, em vez de construir uma presença calorosa, disponível, confiante na nossa humanidade diante da humanidade dos outros.

Por isso, quando nós, adultos, nos sentamos junto às crianças, mesmo àquelas que ainda não sabem escrever, para as ajudar a redigir a sua cartinha ao Pai Natal, é importante que tenhamos bem claro dentro de nós a oportunidade e o sentido que naquele momento estão em jogo. Precisamos de reaprender a arte do dom.

José Tolentino Mendonça
In "Avvenire", tirado daqui

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