É urgente nutrir a vida (I)
Quando se trata de pensar aquilo que nutre a vida é tão importante fazermos o elogio da pequena história, não apenas da grande. Gosto muito da proposta que, um dia, encontrei num livro de história: "Não dar mais valor à queda de um império do que ao nascimento de uma criança, nem mais peso às ações de um rei do que a um suspiro de amor." Talvez um dia mereçamos uma história ensinada assim. Talvez um dia nos preocupemos definitivamente mais com a pessoa do que com a estrutura, com a singularidade mais do que com a afiliação. Talvez um dia uma palavra, um rosto ou um destino quaisquer, eleitos assim ao acaso, sirvam para revelar tudo: para nomear o entusiasmo e a dor, o vislumbre e o combate, a razão e o enigma que existir significou e significa. Porque a verdade é que passam os anos e o que resta deles? Vivências. Sim. Restam as marcas de que estivemos aqui, de que habitámos estações diferentes com a mesma mansidão ou o mesmo furor, de que tentámos sobreviver ao amor, ao desamparo e à morte com tudo o que tínhamos à mão, de que partilhámos, de que cremos e negámos coisas diferentes e até a mesma coisa, de que coexistimos nos nossos encontros e na nossa irredutível solidão. Restam de nós vestígios, monumentos de vário tipo, pegadas. Resta o pó e o silêncio dos ossos. Mas não só: de uma forma que não sabemos, o escasso lume que fomos perdura e serve a outros para continuar. Façamos o elogio da pequena história!
Nutrir-se de espanto
E façamo-lo, em contracorrente, nesta sociedade dominada pelo mito do controlo, onde uma ideia de vida substituiu-se à própria vida. A nossa viagem passou na nossa cultura para as mãos de um piloto, que só tem de aplicar, do modo mais maquinal que for capaz, as regras previamente estabelecidas. Os nossos sentidos adormeceram. Deixou de haver lugar para a surpresa. Vivemos condicionados por uma espécie de guião. Uma coisa, porém, tenho aprendido: é importante não condicionar o fluxo espantoso da vida e a capacidade que ela tem de nos surpreender. A nossa pequena vida é um instante em aberto. Somos chamados a cultivá-la com a paciente humildade que um jardineiro reserva ao seu jardim. O jardineiro trabalha de sol a sol, com todo o afinco, mas sabe que a rosa floresce sem ele saber como. Felizes aqueles que, em relação à vida, à pequena história se nutrem do espanto: esses, e só esses, sentirão o inacabado do tempo como uma promessa.
Como ensina Jung, “o importante não é ser perfeito, o importante é ser inteiro”. Os pequenos triunfos dão-nos fortaleza para olhar as grandes humilhações, e as dificuldades vividas dão-nos humildade para viver os triunfos. As experiências de liberdade dão-nos a capacidade e a esperança para suportar os momentos de penumbra; e os momentos em que nos sentimos aprisionados dão-nos a resistência, a força e até o sentido de humor para vivermos os tempos de liberdade. Há que afastar de nós a tentação do cinismo e aceitar, finalmente, que somos feitos destes materiais tão diversos e que tudo isso é dom, que tudo isso é o nosso nutrimento.
Estamos prontos a honrar a vida?
Olhemos para dentro de nós. Se nos escutarmos em profundidade sabemos que existem perguntas que estão desde sempre à nossa espera. Subtraí-las é subtrairmo-nos e faltarmos à chamada que a vida nos faz. Uma dessas perguntas prende-se com o desejo, e na forma mais incisiva e pessoal formula-se assim: "Qual é o meu desejo?" O meu desejo profundo, aquele que não depende de nenhuma posse ou necessidade, que não se refere a um objeto, mas ao próprio sentido. "Qual é o meu desejo?" O desejo que não coincide com as quotidianas estratégias do consumir, mas sim com o horizonte amplo do consumar, da realização de mim como pessoa única e irrepetível, da assunção do meu rosto, do meu corpo feito de exterioridade e interioridade (e ambas tão vitais), do meu silêncio, da minha linguagem. Como dizia Françoise Dolto, a nossa hora só chega "quando, como qualquer outro ser humano sentimos um desejo suficientemente forte para assumir todos os riscos do nosso próprio ser. Aí estaremos prontos a honrar a vida de que somos portadores".
O momento da aceitação de si
Olhemos para dentro de nós. A não sei quantas braças de profundidade situa-se uma dor nunca reparada, mas que condiciona toda a superfície. Identificar e cuidar dessa dor é a condição para sermos nós próprios e podermos entender também a dor que os outros transportam, tocando a nossa e a sua verdade. O momento da aceitação de si, com lacunas e vulnerabilidades, é uma etapa crítica, dilacerante até, mas abre-nos à transformação e fecundidade possíveis, abre-nos à enunciação do desejo. E, não o esqueçamos, quantas vezes a vulnerabilidade acolhida se torna a janela por onde entra a inesperada transparência da graça.
(Continua)
* D. José Tolentino Mendonça
Publicado em 17.09.2018
As melhores viagens são, por vezes, aquelas em que partimos ontem e regressamos muitos anos antes
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terça-feira, 18 de setembro de 2018
segunda-feira, 21 de agosto de 2017
Textos dos dias que correm
A Lamentação é Completamente Inútil
Não há dúvida de que é inútil e prejudicial lamentarmo-nos perante o mundo. Resta saber se não é igualmente inútil e prejudicial lamentarmo-nos perante nós próprios. Evidentemente. De facto, ninguém se lamentará perante si próprio, a fim de se incitar à piedade, o que nada significaria, dado que a piedade é, por definição, o voluptuso encontro de dois espíritos. Para quê, então? Não para obter favores, porque o único favor que um espírito pode fazer a si próprio é conceder-se indulgência, e toda a gente percebe quanto é prejudicial que a vontade seja indulgente para com a sua própria e lamentável fraqueza.
Resta a hipótese de o fazermos para extrair verdades do nosso coração amolecido pela ternura. Mas a experiência ensina que as verdades surgem apenas em virtude de uma pacata e severa busca, que surpreende a consciência numa atitude inesperada e a vê, como de um filme que parasse de repente, estupefacta, mas não emocionada.
Basta, portanto.
Cesare Pavese, in "O Ofício de Viver"
O Amor é o Caminho que nos Leva à Esperança
O amor é o caminho que nos leva à esperança. E esta não é uma espécie de consolação, enquanto se esperam dias melhores. Nem é sobretudo expectativa do que virá. Esperar não significa projetar-se num futuro hipotético, mas saber colher o invisível no visível, o inaudível no audível, e por aí fora. Descobrir uma dimensão outra dentro e além desta realidade concreta que nos é dada como presente. Todos os nossos sentidos são implicados para acolher, com espanto e sobressalto, a promessa que vem, não apenas num tempo indefinido futuro, mas já hoje, a cada momento. A esperança mantém-nos vivos. Não nos permite viver macerados pelo desânimo, absorvidos pela desilusão, derrubados pelas forças da morte. Compreender que a esperança floresce no instante é experimentar o perfume do eterno.
José Tolentino Mendonça, in 'A Mística do Instante'
Não há dúvida de que é inútil e prejudicial lamentarmo-nos perante o mundo. Resta saber se não é igualmente inútil e prejudicial lamentarmo-nos perante nós próprios. Evidentemente. De facto, ninguém se lamentará perante si próprio, a fim de se incitar à piedade, o que nada significaria, dado que a piedade é, por definição, o voluptuso encontro de dois espíritos. Para quê, então? Não para obter favores, porque o único favor que um espírito pode fazer a si próprio é conceder-se indulgência, e toda a gente percebe quanto é prejudicial que a vontade seja indulgente para com a sua própria e lamentável fraqueza.
Resta a hipótese de o fazermos para extrair verdades do nosso coração amolecido pela ternura. Mas a experiência ensina que as verdades surgem apenas em virtude de uma pacata e severa busca, que surpreende a consciência numa atitude inesperada e a vê, como de um filme que parasse de repente, estupefacta, mas não emocionada.
Basta, portanto.
Cesare Pavese, in "O Ofício de Viver"
***
O Amor é o Caminho que nos Leva à Esperança
O amor é o caminho que nos leva à esperança. E esta não é uma espécie de consolação, enquanto se esperam dias melhores. Nem é sobretudo expectativa do que virá. Esperar não significa projetar-se num futuro hipotético, mas saber colher o invisível no visível, o inaudível no audível, e por aí fora. Descobrir uma dimensão outra dentro e além desta realidade concreta que nos é dada como presente. Todos os nossos sentidos são implicados para acolher, com espanto e sobressalto, a promessa que vem, não apenas num tempo indefinido futuro, mas já hoje, a cada momento. A esperança mantém-nos vivos. Não nos permite viver macerados pelo desânimo, absorvidos pela desilusão, derrubados pelas forças da morte. Compreender que a esperança floresce no instante é experimentar o perfume do eterno.
José Tolentino Mendonça, in 'A Mística do Instante'
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quarta-feira, 9 de novembro de 2016
Amar a imperfeição *
Ouvi aí umas duzentas vezes o poeta Tonino Guerra citar o verso de um monge medieval: «É preciso ir além da banal perfeição». É isso mesmo: a perfeição pode ainda ser um caminho que trilhamos pela superfície ou constituir uma ilusão que nos impede de aceder ao verdadeiro e paradoxal estado da vida. Levamos tanto tempo até perder a mania das coisas perfeitas, até nos curarmos do impulso que nos exila no aparente conforto das idealizações, ou finalmente vencermos o vício de sobrepor à realidade um cortejo de falsas imagens! «É preciso ir além da banal perfeição».
Lembro-me de um filme de Nanni Moretti, acho que é “O quarto do filho”, em que uma personagem, estando a viver um duro luto, se coloca a arrumar no armário as chávenas de chá. Percebe então que uma tem um lado partido. Tenta disfarçar o facto, colocando visível apenas o lado intacto. Mas ela sabe que àquela chávena falta alguma coisa. Aquela chávena é o símbolo da sua vida, da nossa vida, que ela e nós temos de aceitar e redescobrir continuamente. Acolher isso é uma condição necessária no amor e na amizade, no viver comum e na maturação pessoal que nos cabe fazer.
Há aquele mote de Samuel Beckett que, se o soubermos ouvir, derrama sobre os nossos embaraços grande luz. Diz assim: «Errar, errar de novo, errar melhor». O que é errar melhor? É saber que, no fundo, erramos sempre. Isto é: a perfeição encontrámo-la nos catálogos, mas não nos nossos gestos ou em nós próprios. O mais sensato é mesmo adotar a humilde sabedoria de quem procura conscientemente o melhor, mas sabe que o seu melhor ficará ainda aquém. O que podemos aprender é, pois, a semear, num trabalho de confiança, de desprendimento e simplicidade cada vez maiores. Jung escrevia: «o importante não é ser perfeito, mas sim inteiro». E para nós, o que é realmente importante?
Durante anos tive em casa um cartaz de uma peça de teatro infantil, de um grande autor italiano. Para saber falar às crianças como ele o faz, a gente percebe que se tem de apetrechar não apenas uma enorme habilidade, mas uma afetuosa esperança. Os miúdos sabem distinguir bem quem lhes fala para entreter ou quem realmente lhes quer comunicar uma verdade de coração. Este autor, chamado Gianni Rodari, é assim. Durante anos tive um cartaz seu com esta frase: «errando também se inventa». Olhar para aquela frase transmitia-me o ânimo e a leveza de que precisava.
A perfeição coloca-nos perante a realidade como se de um facto consumado se tratasse: se formos mexer, intervir, retocar ou alterar, sentimos isso como uma perturbação. Essa perfeição é estática. Existe só para ser admirada… à distância. A imperfeição, porém (e penso também naquelas que identificamos na nossa vida interior), é uma história ainda em aberto, que conta ativamente connosco. Na imperfeição é sempre possível começar e recomeçar. A imperfeição permite-nos compreender a singularidade, a diversidade, o real impacto da passagem do tempo, o traço dos seus vestígios. A imperfeição humaniza-nos.
José Tolentino Mendonça
Publicado no Diário de Notícias (Madeira) a 21.05.11 e no estabelecimento quatro dias depois
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terça-feira, 22 de dezembro de 2015
Textos para os dias que correm
Para além do Pai Natal, reaprendamos a arte do dom
José Tolentino Mendonça
In "Avvenire", tirado daqui
Quando as crianças se dão conta - e dão-se conta muito depressa - que o Pai Natal não existe, falam disso entre elas, mas diante dos adultos fingem que não o sabem ainda durante algum tempo, porque percebem que isso lhes dá prazer. O Pai Natal é uma crença extremamente efémera que se torna numa representação cultural ou familiar tácita, apenas isso. Não admira que muitos se interroguem sobre a razão da persistência da sua figura quando, grandes ou pequenos, muito poucos acreditam verdadeiramente nela. O Pai Natal seria então uma imposição meramente comercial, um ícone vazio, um símbolo gasto e esgotado que não tem nada mais a dizer? Provavelmente sim, se pensarmos na banalização massiva que assistimos ano após ano.
Em todo o caso, vale a pena sondar esta estranheza que faz com que os pais continuem a atribuir a uma outra entidade - uma entidade gráfica e pitoresca como o Pai Natal - os dons que eles mesmos compram para os próprios filhos. Seria lógico pensar que faria mais sentido que o presente fosse ligado ao seu rosto, um tosto bem conhecido, que transmite confiança e afeto, um rosto que reforça o contexto habitual da criança. O dom é, em vez disso, atribuído a uma entidade anónima, desconhecida, que aparece anualmente e de modo fugaz, sem uma relação personalizada com aqueles que oferecem os dons. Mas é precisamente este fato que nos induz a refletir sobre aquilo que se ativa no ato de dar e de receber. Que significa dar? Quem é o agente do dom? De quem recebemos aquilo que nos é dado? É aqui que se decide o sentido submerso do Pai Natal.
Sublinhemos, antes de mais, que o Pai Natal não deixa de ser um pai. O, melhor, o pai de um pai, um avô, se tivermos em consideração a sua idade, a sua barba branca, o seu humor tilintante e redondo, a sua bondade um pouco extravagante. Trata-se, no fundo, de um predecessor, de alguém que não representa apenas o instante atual mas quanto nos é transmitido de geração em geração, aquilo que os nossos pais nos dão porque o receberam antes dos seus pais e assim por diante.
O Pai Natal alarga os restritos metros quadrados da família contemporânea e estende os laços, testemunhando também tudo aquilo que se recebe dos outros, e não só dos pais, não só daqueles que constituem o quadro normal da vida. Deste modo, ele une cada criança a todas as crianças do mundo na expectativa e no entusiasmo pelo dom, sem o qual a vida nada seria. O dom, não o esqueçamos, é muito diferente do circuito frio, tão sonâmbulo e voraz, da troca e do comércio, mesmo se hoje parece totalmente sequestrado por essas lógicas.
O que é que de mais precioso podemos dar aos outros que a nossa atenção criativa, o nosso cuidado, o nosso tempo, a nossa fidelidade ao que cada um, em cada instante, é? O dom gera dom, mas não no sentido da gramática mercantil que procura o proveito próprio mais do que a experiência autêntica da oferta de um presente.
O citadíssimo "do ut des" (dou-te para que me dês) é um mote que trai a beleza do dom, o qual pode ser unicamente uma expressão de amor sem cálculo nem medida. Por isso é urgente resistir à pressão comercial que enche o saco do Pai Natal de coisas, coisas e mais coisas, que têm o único efeito de neutralizar a relação, de perpetuar de modo camuflado a indiferença e a distância, em vez de construir uma presença calorosa, disponível, confiante na nossa humanidade diante da humanidade dos outros.
Por isso, quando nós, adultos, nos sentamos junto às crianças, mesmo àquelas que ainda não sabem escrever, para as ajudar a redigir a sua cartinha ao Pai Natal, é importante que tenhamos bem claro dentro de nós a oportunidade e o sentido que naquele momento estão em jogo. Precisamos de reaprender a arte do dom.
José Tolentino Mendonça
In "Avvenire", tirado daqui
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Tolentino Mendonça
quinta-feira, 17 de dezembro de 2015
Poemas dos dias que correm
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| Fotografia de Alfredo Cunha (tirada da net) |
Nas fronteiras deste Mundo
Deus nas fronteiras deste mundo,
Deus que cruzamos como as sombras,
dá-nos um corpo de desejo
e um ouvido de começo,
fica connosco Deus que passas
e nossas mãos te larguem,
Deus confundido com a sede,
e as palavras que dizemos,
vem alterar o nossos corpo,
vem confundir a nossa fome,
Deus da palavra,
flor do vento,
manhã que vem em Jesus Cristo.
Dê-te prazer o nosso canto,
Deus das manhãs azuis e rosa,
que o nosso corpo te anuncie qual fonte,
rio ou chaga aberta,
que nossas mãos persigam o teu passar escondido.
Deus invisível para os olhos,
palavra solta, luz que passa,
é neste tempo que dizemos o claro escuro do teu nome,
onde é secreta a tua face e o teu passar adivinhado.
(Frei José Augusto Mourão)
***
O silêncio (segundo Angelus Silesius)
Deus ultrapassa tudo
nada se pode dizer
a tua oração seja
a prece do silêncio
Cala-te, cala-te, dileto
aprende ainda a calar
A prodigalidade de Deus
só a alcança
a prece do teu silêncio
Ninguém fala menos do que Deus
em nenhum tempo, em nenhum lugar
A Palavra que Deus pronuncia
é silêncio
(Pe. Tolentino Mendonça)
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Fotografias,
José Augusto Mourão,
Poemas,
Tolentino Mendonça
quarta-feira, 30 de setembro de 2015
Textos dos dias que correm
O instante, a graça e a «escolha decisiva»
Podem tornar-se instantes de graça todos os instantes da vida? Ou, pelo contrário, não: há instantes límpidos, incomparáveis, de que não conhecemos as regras, e só estas são portadores da possibilidade de sentido e redenção para a vida?
Não fiz sondagens, mas direi sem muitas hesitações que a maior parte de nós tende para esta segunda hipótese. A vida normal goza de má imprensa, sobre ela recai um imutável descrédito, como se vivêssemos a descobrir que o que nos falta está noutro lado.
Olhamos os dias, o curso dos seus instantes reputados como sem história, estranhamento seguros de que deles não virá o que procuramos. Seduz-nos muito mais o extraordinário: pensamos que, no fundo, a felicidade depende da experiência não habitual, descontínua, de uma visita esporádica, de um lampejo que não se detém.
Se tivéssemos de assinalar, entre as práticas artísticas, um exemplo desta sensibilidade dominante, poderíamos citar as fotografias (extraordinárias, ainda para mais) de Henri Cartier-Bresson.
Na introdução ao primeiro livro de imagens que publicou, ele propõe uma tese precisa sobre o que chamava «o instante decisivo». Hoje é impossível pensar na sua fotografia e, em certo sentido, no que é a fotografia em geral, sem revisitar esse texto que o tempo tornou cada vez mais influente.
O ponto de partida de Cartier-Bresson é uma epígrafe extraída dos volumes de memórias do cardeal de Retz: «Não há nada neste mundo que não tenha um momento decisivo». E o que diz, em síntese? Que quando o olhar do fotógrafo considera o mundo, sabe que exercita um poder: pode modificar perspetivas, colocar a máquina fotográfica próxima ou afastada do sujeito, realçar um detalhe ou recompor a realidade.
Mas ao fotógrafo ocorre também dar-se conta de que estão reunidos todos os elementos para uma excelente fotografia, e todavia ainda falta alguma coisa, e não sabe o quê. Até que acontece alguma coisa de imprevisto a atravessar a cena. O fotógrafo põe-se então a acompanhar o movimento por trás da sua máquina e espera, espera, espera.
Quando, por fim, carrega no botão, sente confusamente que captou algo. Mais tarde, no laboratório, revelando aquele material, dá-se conta de que o que captou era o instante decisivo. Fixou o instante sem o qual aquela imagem seria banal, não possuiria a mesma forma, intensidade, pulsão, mistério e vida.
Por isso, a atividade do fotógrafo e do artista pode apenas consistir numa espera aberta ao momento extraordinário. Será também assim para nós? Será que é isto que talvez suceda no labor interno que desenvolvemos, na vida espiritual que se ativa em nós?
Os ingredientes estão lá todos, mas ainda não é suficiente. O quotidiano é opaco, demasiado preso àquilo que conhecemos, que nos é familiar. «De Nazaré pode vir alguma coisa de bom?» (João 1, 46), perguntamos incessantemente. Consumimo-nos na espera difusa daquilo que virá, preferimos sempre o distante ao próximo, o futuro ao presente, e tornamos a existência uma ficção de si própria.
Mas se não é agora, é quando? Se a graça não atravessa precisamente estes instantes cinzentos e contraditórios, esta montanha de emoções dispersas, este movimento que nos parece demasiado concreto, demasiado denso, demasiado obtuso, dificilmente a graça se manifestará de outra forma.
Também aqui o caso de Henri Cartier-Bresson nos pode ajudar de novo. Porque a sua história é, no fim de contas, mais complexa. A curadora de uma grande mostra sobre a sua obra trouxe à luz elementos novos relativos ao seu modo de trabalhar, até então desconhecidos.
Aquilo que a sua investigação nos mostrou é que, mais do que um «instante decisivo», trata-se com mais verdade de uma «escolha decisiva», pois o fotógrafo fazia vários disparos da mesma cena, por vezes em grande número, mas escolhia só um e eliminava os outros.
O instante decisivo não é, então, um momento exterior irrepetível, nem essa epifania que encontra espaço num fugitivo piscar de olhos: é um instante, qualquer instante, que eu faço tornar decisivo, por nele investir deliberadamente a minha esperança.
José Tolentino Mendonça, tirado daqui
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Tolentino Mendonça
segunda-feira, 16 de junho de 2014
Textos dos dias que correm
Olhar para a vida
A dada altura percebemos que o mais importante não é saber se a vida é bela ou trágica, se, feitas as contas, ela não passa de uma paixão irrisória ou se a cada momento se revela uma empresa sublime. Certamente está-nos reservada a possibilidade de a tornar em cada um desses modos, só distantes e contraditórios na aparência.
A mistura de verdade e sofrimento, de pura alegria e cansaço, de amor e solidão que no seu fundo misterioso a vida é, há de aparecer-nos nas suas diversas faces. Se as soubermos acolher, com a força interior que pudermos, essas representarão para nós o privilégio de outros tantos caminhos. Mas o mais importante nem é isso, aprendemos depois. Importante mesmo é saber, com uma daquelas certezas que brotam inegociáveis do fundo da própria alma, se estamos dispostos a amar a vida como esta se apresenta.
A dada altura compreendemos que falar sobre o ar, como faz o poeta Tonino Guerra, não tem de ser uma deriva, mas um chamamento à construção concreta que a vida é, confirmada (ou não) pelo nosso sim: «O ar é esta coisa ligeira/ que te gira em torno à cabeça/ e torna-se mais clara/ quando ris». Ou que quando Simone Weil repete que «a atenção é uma prece», ela mais não faz do que mobilizar-nos para a aliança com o agora, porque se não formos prudentes e generosos para manter os olhos maximamente abertos sobre o presente, que ciência poderá o futuro constituir para nós?
O viver tem esta simplicidade, que precisamos de redescobrir, despojando-nos do muito que nos atravanca, relançando-nos no seu obstinado fluxo. Estamos muitas vezes alienados da vida, separados dela, por uma muralha de discursos, de angústias, de confusas esperanças. Precisamos de perfurar esse muro até ao fim.
É necessário decidir, portanto, entre o amor ilusório à vida, que nos faz adiá-la perenemente, e o amor real, mesmo que ferido, com que a assumimos. Entre amar a vida hipoteticamente pelo que dela se espera ou amá-la incondicionalmente pelo que ela é, muitas vezes em completa impotência, em pura perda, em irresolúvel carência. Condicionar o júbilo pela vida a uma felicidade sonhada é já renunciar a ele, porque a vida é dececionante (não temamos a palavra).
Com aquela profunda lucidez espiritual que por vezes só os homens frívolos atingem, Bernard Shaw dizia que na existência há duas catástrofes: a primeira, quando não vemos os nossos desejos realizarem-se de forma alguma; a segunda, quando se realizam completamente. Há um trabalho a fazer para passar do apego narcisista a uma idealização da vida, à hospitalidade da vida como ela nos assoma, sem mentira e sem ilusão, o que requer de nós um amor muito mais rico e difícil. Esse que é, em grande medida, um trabalho de luto, um caminho de depuração, sem renunciar à complexidade da própria existência, mas aceitando que não se pode demonstrá-la inteiramente.
A vida é o que permanece, apesar de tudo: a vida embaciada, minúscula, imprecisa e preciosa como nenhuma outra coisa. A sabedoria é a vida mesma: o real do viver, a existência não como trégua, mas como pacto, conhecido e aceite na sua fascinante e dolorosa totalidade.
Não se trata apenas de viver o instante, tarefa inútil, pois a vida é duração. Aquilo que nos é dado dura, e nós dentro dele, com ele, por ele. Não é a flor do instante que nos perfuma, mas o presente eterno do que dura e passa, do que dura e não passa.
E quando é que chega a hora da felicidade?, perguntamo-nos. Chega nesses momentos de graça em que não esperamos nada. Como ensina o magnífico dito de Angelus Silesius, o místico alemão do século XVII: «A rosa é sem porquê, floresce por florescer/ Não se preocupa consigo, não pretende nada ser vista».
José Tolentino Mendonça
In Expresso, 13.6.2014
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segunda-feira, 21 de abril de 2014
Textos dos dias que correm
Agradecer o que não nos dão
O mais comum é agradecer o que nos foi dado. E não nos
faltam motivos de gratidão. Há, é claro, imensas coisas que dependem do nosso
esforço e engenho, coisas que fomos capazes de conquistar ao longo do tempo,
contrariando mesmo o que seria previsível, ou que nos surgiram ao fim de um
laborioso e solitário processo. Mas isso em nada apaga o essencial: as nossas
vidas são um recetáculo do dom.
Por pura dádiva recebemos o bem mais precioso, a
própria existência, e do mesmo modo gratuito fizemos e fazemos a experiência de
que somos protegidos, cuidados, acolhidos e amados. Se tivéssemos de fazer a
listagem daquilo que recebemos dos outros (e é pena que esse exercício não nos
seja mais habitual), perceberíamos o que a poetisa Adília Lopes repete como
sendo a sua verdade: «sou uma obra dos outros». Todos somos.
A nossa história começou antes de nós e persistirá
depois. Somos o resultado de uma cadeia inumerável de encontros, de gestos,
boas vontades, sementeiras, afagos, afetos. Colhemos inspiração e sentido de
vidas que não são nossas, mas que se inclinam pacientemente para nós,
iluminando-nos, fundando-nos na confiança. Esse movimento, sabemo-lo bem, não
tem preço, nem se compra em parte alguma: só se efetiva através do dom.
Por isso é que quando ele falta a sua ausência
indelével faz-se sentir a vida inteira. O seu lugar não consegue ser
preenchido, mesmo se abunda uma poderosa indústria de ficções de todo o tipo
com a inútil pretensão de ser oblívio e substituição para essa espécie de fala
geológica que nos morde.
Hoje, porém, dei comigo a pensar também na importância
do que não nos foi dado. E a provocação chegou-me por uma amiga que
confidenciou: «Gosto de agradecer a Deus tudo o que Ele me dá, e é sempre tanto
que nem tenho palavras para descrever. Sinto, contudo, que lhe tenho de
agradecer igualmente o que Ele não me dá, as coisas que seriam boas e que eu
não tive, o que até pedi e desejei muito, mas não encontrei. O facto de não me
ter sido dado obrigou-me a descobrir forças que não sabia que tinha e, de certa
maneira, permitiu-se ser eu».
Isto é tão verdadeiro. Mas exige uma transformação
radical da nossa atitude interior. Tornar-se adulto por dentro não é
propriamente um parto imediato ou indolor. No entanto, enquanto não
agradecermos a Deus, à vida ou aos outros o que não nos deram, parece que a
nossa prece permanece incompleta. Podemos facilmente continuar pela vida dentro
a nutrir o ressentimento pelo que não nos foi dado, a compararmo-nos e a
considerarmo-nos injustiçados, a prantear a dureza daquilo que em cada estação
não corresponde ao que idealizamos.
Ou podemos olhar o que não nos foi dado como a
oportunidade, ainda que misteriosa, ainda que ao inverso, para entabular um
caminho de aprofundamento... e de ressurreição. Foi assim que numa das horas
mais sombrias do século XX; desde o interior de um campo de concentração, a
escritora Etty Hillesum conseguiu, por exemplo, protagonizar uma das mais
admiráveis aventuras espirituais da contemporaneidade. No seu diário deixou
escrito:
«A grandeza do ser humano, a sua verdadeira riqueza,
não está naquilo que se vê, mas naquilo que traz no coração. A grandeza do
homem não lhe advém do lugar que ocupa na sociedade, nem no papel que nela
desempenha, nem do seu êxito social. Tudo isso pode ser-lhe tirado de um dia
para o outro. Tudo isso pode desaparecer num nada de tempo. A grandeza do homem
está naquilo que lhe resta precisamente quando tudo o que lhe dava algum brilho
exterior, se apaga. E que lhe resta? Os seus recursos interiores e nada mais.»
José
Tolentino Mendonça
In Expresso,
18.4.2014
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Tolentino Mendonça
sexta-feira, 29 de novembro de 2013
Textos dos dias que correm*
Pedir
É um
verbo humaníssimo, este verbo pedir. Pedimos coisas diferentes e de formas
absolutamente variáveis. Quando nascemos, começamos por pedir aos gritos que
partam em nosso socorro, antes de termos as palavras. Quando aprendemos a
usá-las, ganhamos talvez maior tranquilidade no pedir, mas nem sempre. Pedimos
porque não nos bastamos a nós próprios. E isso, que seguramente é um elemento que
nos redime, não deixa de ser igualmente uma ferida. O léxico do pedir é
prolífero, mas também inconstante. Pedimos com simplicidade e com inúmeros
rodeios. Mantemo-nos fluentes ou gaguejamos, mergulhados numa insegurança que
nos tolhe.
Pedimos
oralmente, por escrito, por entreposta pessoa, de forma ostensiva ou subtil,
ou, até, com maior ou menor consciência de que um pedido está a ser formulado.
Há mesmo momentos da vida (e não são poucos) em que faríamos tudo para não ter
de pedir. Esta dificuldade nem sempre é má Precisamos de autonomia para
maturarmos o nosso caminho pessoal, e todas as dependências de que a vida se
tece só ganham em ser sacudidas e purificadas por um espírito de liberdade que
se afirma. Pedir pode tornar-se um obstáculo a aprendizagens que estão
perfeitamente ao nosso alcance. Mas o contrário também é verdade, pois
crescemos no reconhecimento de que sem os outros nós não somos. De entre todos
os pedidos, os que nos custam mais são os mais simples, aqueles imateriais, e
que se prendem com a arquitetura (ou arquitextura, como ensinou Derrída) das
relações: pedir amor, pedir desculpas, pedir presença, conversa, calor,
compaixão. Aí é tão fácil ficar enredado em engulhos, coisas não-ditas ou
mal-entendidas.
Penso
muitas vezes num pedinte que conheci em Roma. Era (e é) impossível não dar com
ele quando se visita a cidade. Eu estava sempre a esbarrar com uma das suas
passagens: à saída da universidade, da biblioteca, do cinema, no Campo das
Flores, em São Pedro, por todo o lado. De dia ou de noite. Um homem que andará
hoje pelos sessenta anos de idade, com um porte discreto, delicado até.
Abeira-se dos passantes com duas perguntas. «Fala italiano?» - atira primeiro.
E, qualquer que seja a resposta, dá o passo seguinte. Pegando cuidadosamente numa
moeda entre os dois dedos e colocando-a perto dos nossos olhos, roga: «Tem 100
liras?». Conheci-o assim, ainda antes do euro. Com a integração na moeda única,
ele também se ajustou, passando a pedir 10 cêntimos.
A
primeira vez que a sua interpelação nos é dirigida pensamos que se trata de
alguém que precisa de completar a quantia necessária para um bilhete de metro
ou para uma fatia de pizza. Depois de o encontrarmos centenas de vezes, ficamos
sem saber exatamente o que pensar. Assisti, porém, a uma cena que porventura
pode esclarecer parte do enigma.
Numa
rua, à volta do Panteão, estava sentado um outro mendigo. Melhor seria dizer
que estava prostrado. Com um vestuário andrajoso, um braço deformado por
caroços, um ar que trazia misturado tudo: dor e exclusão. À distância, vejo o
pedinte aproximar-se dele. E, para meu espanto, percebo que repete ao mendigo a
cantilena que faz a todos os outros, mostrando-lhe insistentemente uma moeda.
Talvez para afastá-lo, talvez vencido pela compaixão, vejo que o mendigo tira
do seu prato uma moeda que lhe entrega. E foi neste momento que a cena se
tornou inesquecível. O pedinte ajoelha-se ali diante de todos, agarra as mãos
do mendigo e beija-as repetidamente, turbado pela emoção. Penso que finalmente
o percebi. Ele não pedia moedas. Pedia um bem mais raro e vital: pedia o dom.
* José Tolentino Mendonça
In Expresso,
23.11.2013
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Tolentino Mendonça
sexta-feira, 31 de maio de 2013
A arte da lentidão *
![]() |
| Fotografia tirada e gentilmente oferecida pelo homem de Azeitão |
Talvez
precisemos voltar a essa arte tão humana que é a lentidão. Os nossos estilos de
vida parecem irremediavelmente contaminados por uma pressão que não dominamos;
não há tempo a perder; queremos alcançar as metas o mais rapidamente que formos
capazes; os processos desgastam-nos, as perguntas atrasam-nos, os sentimentos
são um puro desperdício: dizem-nos que temos de valorizar resultados, apenas
resultados.
À conta
disso, os ritmos de atividade tornam-se impiedosamente inaturais. Cada projeto
que nos propõem é sempre mais absorvente e tem a ambição de sobrepor-se a tudo.
Os horários avançam impondo um recuo da esfera privada. E mesmo estando aí é
necessário permanecer contactável e disponível a qualquer momento. Passamos a
viver num open space sem paredes nem margens, sem dias diferentes dos
outros, sem rituais reconfiguradores, num contínuo obsidiante, controlado ao
minuto. Damos por nós ofegantes, fazendo por fazer, atropelados por agendas e
jornadas sucessivas em que nos fazem sentir que já amanhecemos atrasados.
Deveríamos,
contudo, refletir sobre o que perdemos, sobre o que vai ficando para trás,
submerso ou em surdina, sobre o que deixamos de saber quando permitimos que a
aceleração nos condicione deste modo. Com razão, num magnífico texto intitulado
“A lentidão”, Milan Kundera escreve: «Quando as coisas acontecem depressa
demais, ninguém pode ter certeza de nada, de coisa nenhuma, nem de si mesmo.» E
explica, em seguida, que o grau de lentidão é diretamente proporcional à
intensidade da memória, enquanto o grau de velocidade é diretamente
proporcional à do esquecimento. Quer dizer: até a impressão de domínio das
várias frentes, até esta empolgante sensação de omnipotência que a pressa nos
dá é fictícia. A pressa condena-nos ao esquecimento.
Passamos
pelas coisas sem as habitar, falamos com os outros sem os ouvir, juntamos
informação que nunca chegamos a aprofundar. Tudo transita num galope ruidoso,
veemente e efémero. Na verdade, a velocidade com que vivemos impede-nos de
viver. Uma alternativa será resgatar a nossa relação com o tempo. Por
tentativas, por pequenos passos. Ora isso não acontece sem um abrandamento
interno. Precisamente porque a pressão de decidir é enorme, necessitamos de uma
lentidão que nos proteja das precipitações mecânicas, dos gestos cegamente
compulsivos, das palavras repetidas e banais. Precisamente porque nos temos de
desdobrar e multiplicar, necessitamos de reaprender o aqui e o agora da
presença, de reaprender o inteiro, o intacto, o concentrado, o atento e o uno.
Lembro-me
de uma história engraçada que ouvi contar à pintora Lourdes de Castro. Quando
em certos dias o telefone tocava repetidamente, e os prazos apertavam e tudo,
de repente, pedia uma velocidade maior do que aquela que é sensato dar, ela e o
Manuel Zimbro, seu marido, começavam a andar teatralmente em câmara lenta pelo
espaço da casa. E divergindo dessa forma com a aceleração, riam-se, ganhavam
tempo e distanciamento crítico, buscavam outros modos, voltavam a sentir-se
próximos, refaziam-se.
Mesmo se
a lentidão perdeu o estatuto nas nossas sociedades modernas e ocidentais, ela
continua a ser um antídoto contra a rasura normalizadora. A lentidão ensaia uma
fuga ao quadriculado; ousa transcender o meramente funcional e utilitário;
escolhe mais vezes conviver com a vida silenciosa; anota os pequenos tráficos
de sentido, as trocas de sabor e as suas fascinantes minúcias, o manuseamento
diversificado e tão íntimo que pode ter luz.
* José Tolentino
Mendonça
In Expresso 25.5.2013
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terça-feira, 4 de dezembro de 2012
sexta-feira, 21 de setembro de 2012
Textos dos dias que correm
De que falamos quando falamos de santidade
Sophia de Mello Breyner naquele conto tão
conhecido, “O retrato de Mónica”, explica que a poesia é-nos dada uma vez e
quando dizemos que não ela afasta-se. O amor é-nos dado algumas vezes, e também
se o recusamos ele distancia-se de nós. Mas a santidade é-nos dada todos os
dias como possibilidade. E se a recusamos teremos de a recusar todos os dias da
nossa vida, porque quotidianamente a santidade se avizinha de nós.
Contudo, fizemos da santidade uma coisa tão
extraordinária, abstrata e inalcançável, que quase não ousamos falar dela.
Muito menos no espaço público. De certa forma, habituamo-nos a olhar para a
experiência cristã como que acontecendo a duas velocidades: o caminho heróico
dos santos e a frágil estrada que é aquela de todos os outros, e por maior
razão a nossa. Ora esta conceção de santidade não pode estar mais longe daquilo
que a tradição cristã propõe, pela qual pugnou e pugna. O Concílio Vaticano II,
por exemplo, deixa bem claro: a santidade é vocação mais inclusiva e comum. Mas
é preciso entender de que falamos quando falamos de santidade.
Bastar-nos-ia certamente ler as bem-aventuranças.
Jesus não diz que os bens aventurados são os outros, os que não estão ali.
Jesus olha para a multidão e começa a dizer: “bem-aventurados vós os pobres”,
“bem-aventurados vós os aflitos”, “bem-aventurados vós os misericordiosos”. O
que é que isto quer dizer? Que são, no fundo, as nossas pobrezas, fragilidades,
aflições, mansidões, procuras de justiça, sedes de verdade, a nossas buscas por
um coração puro, que dão a substância da bem-aventurança, a matéria da
santidade.
É naquilo que somos e fazemos, no mapa vulgaríssimo
de quanto buscamos, na humilde e mesmo monótona geografia que nos situa, na
pequena história que dia-a-dia protagonizamos que podemos ligar a terra e o
céu. Falar de santidade em chave cristã passou a ser isso: acreditar que a
humanidade do homem se tornou morada do divino de Deus.
José
Tolentino Mendonça
. Tirado daqui
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domingo, 19 de agosto de 2012
20º Domingo do Tempo Comum
Hoje é Domingo e eu não
esqueço a minha condição de católico.
O "ato gratuito" é um gesto que nos salva.
Uma das mais belas orações que conheço foi aquela encontrada entre os pertences
pessoais de um judeu, morto num campo de concentração. Diz o seguinte: «Senhor,
quando vieres na Tua glória, não Te lembres somente dos homens de boa vontade;
lembra-Te também dos homens de má vontade. E, no dia do Julgamento, não Te
lembres apenas das crueldades e violências que eles praticaram: lembra-Te também
dos frutos que produzimos por causa daquilo que eles nos fizeram. Lembra-Te da
paciência, da coragem, da confraternização, da humildade, da grandeza de alma e
da fidelidade que os nossos carrascos acabaram por despertar em cada um de nós.
Permite então, Senhor, que os frutos em nós despertados possam servir
também para salvar esses homens».
Recebi este texto do Padre Tolentino Mendonça (que
vale a pena ser lido na totalidade aqui) no remanso do Castelo de
Bode, com uma vista deslumbrante sobre a vastidão da barragem e com um silêncio
entrecortado, apenas, pelas conversas e pelo ruído longínquo de um ou outro
barco a motor. Há muito que acho o silêncio reconfortante e propício, não a
neuroses, mas a introspecções ou laboração de ideias.
A oração de que fala o Padre Tolentino é
particularmente bonita e tocante. Fala de perdão - que força interior tem de
ter quem quer perdoar o carrasco! - e revela a capacidade do autor em olhar
além do desfocado, das coisas óbvias e imediatas. Somos o que somos e a nossa
circunstância. Mas também somos o que os outros fazem da nossa pessoa. O bem
que há dentro de nós e que fazem ressaltar, mas também o desafio de sermos bons
perante a maldade.
Temos todos muito (vou eu presumir) para agradecer aos
outros. Às vezes é bom lembrarmo-nos disto, mesmo que não consigamos verbalizar
o agradecimento. Eu, pessoalmente, teria um ror de gente a quem dizer obrigado:
gente que permitiu ou lutou para que viessem ao de cima as qualidades que
tenho; gente que me ouviu pacientemente nos tempos difíceis e que nunca faltou
com uma palavra de sossego ou de confiança; gente que leu, tantas e tantas
vezes, aquilo que eu tinha a dizer a mim próprio; gente que me fez perceber
que somos mais, mas muito mais, do que a evidência mais básica dos nossos
comportamentos; gente que me disse o que eu não queria, mas que precisava
de ouvir; gente que me disse não, mas ofereceu um abraço de compaixão;
gente que...
Bom Domingo para todos.
JdB
***
EVANGELHO – Jo 6,51-58
Evangelho de Nosso Senhor
Jesus Cristo segundo São João
Naquele tempo,
disse Jesus à multidão:
«Eu sou o pão vivo que
desceu do Céu.
Quem comer deste pão
viverá eternamente.
E o pão que Eu hei-de dar
é minha carne,
que Eu darei pela vida do
mundo».
Os judeus discutiam entre
si:
«Como pode ele dar-nos a
sua carne a comer?»
E Jesus disse-lhes:
«Em verdade, em verdade
vos digo:
Se não comerdes a carne
do Filho do homem
e não beberdes o seu
sangue,
não tereis a vida em vós.
Quem come a minha carne e
bebe o meu sangue
tem a vida eterna;
e Eu o ressuscitarei no
último dia.
A minha carne é
verdadeira comida
e o meu sangue é
verdadeira bebida.
Quem come a minha carne e
bebe o meu sangue
permanece em Mim e eu
nele.
Assim como o Pai, que
vive, Me enviou
e eu vivo pelo Pai,
também aquele que Me come
viverá por Mim.
Este é o pão que desceu
do Céu;
não é como o dos vossos
pais, que o comeram e morreram:
quem comer deste pão viverá
eternamente».
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