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20 março 2025

Ainda das corridas de touros

 

Mão amiga enviou-me um link para uma notícia que poderão ler aqui: as corridas de touros, tal como as conhecíamos, acabaram na Cidade do México. Estamos mais perto do que um primo, agricultor e ganadero, vaticinava há uns largos anos: as touradas acabarão no espaço de uma geração

Tenho uma relação estranha com as corridas de touros - espectáculo que aprecio muito. Naturalmente avesso à violência sobre animais - até sobre aqueles de que não gosto, como os gatos - não me faz confusão ver um touro a morrer numa praça. Apesar de ser incapaz de dar um pontapé num gato - para me manter nestes felinos - vejo, sem um enorme incómodo, um touro que demora a morrer porque a estocada não foi eficaz. E vejo ainda, sem um sobressalto assinalável, o que se faz ao touro para terminar o processo (com a puntilla) ou para corrigir a ineficácia da estocada (com o descabello).

Dentro de mim há um bárbaro, estou certo. Não me orgulho disso, não me envergonho disso. É o que é, e tudo me sai naturalmente, isto é, não viro a cara ao sangue na arena, não me comprazo com o sangue na arena. Faz parte de um espectáculo que aprecio, que tem raízes antigas, que representa parte de um modo de vida do campo que está a desaparecer da vista e da prática, que opõe homem e animal num combate forçosamente desigual, onde se digladiam bravura e coragem, arte e tragédia.   

As corridas de touros acabarão? Talvez sim, talvez não. No meu tempo haverá sinais pequenos e irreversíveis de que o sim está mais perto. Até lá é apreciar e não entrar em discussões sobre o tema.

JdB 

11 março 2025

Dos touros em Olivença

A convite de gente que me é próxima, voltei a Olivença - e não para repor a justiça dos factos e colocá-la de novo sob a alçada de Portugal. Em bom rigor, conversando com vizinhos de bancada na praça local, e falando deste tema, um cavalheiro de Alcochete (gente que aprecia o azul e branco das bandeiras) dizia-me com acerto: deixe lá Olivença ficar em Espanha. Sempre é da maneira que podemos vir cá ver touros de morte. Retomo o fio à meada: voltei a Olivença para ver uma novilhada e uma corrida de touros: uma manhã e um tarde bem passadas, ainda que com ameaça permanente de chuva, que foi caindo aqui e ali. 

Olga Casado, uma novilheira espanhola de 22 anos. 

Olga Casado, a única rapariga / senhora que vi tourear a pé
Para uma pessoa como eu, cheio de apreço por rituais e tradições (uma coisa não vai totalmente sem a outra) ir aos touros a Espanha é um festim: da entrada supersticiosa dos toureiros em praça ao convívio entre pessoas na bancada, passando pela coreografia dos vários intervenientes na arena ao longo das lides, tudo obedece a uma tradição e / ou a um ritual, seguramente com décadas, se não séculos. É importante, por isso, estar-se atento (quem aprecia, é claro) a mais do que à lide propriamente dita: o agradecimento discreto do bandarilheiro junto ao burladero, a música que deve tocar quando o novilheiro bandarilha, o pasodoble que é uma tradição no último touro de cada uma das partes, etc.  

Sendo uma praça de 3ª, Olivença é generosa nos prémios: quase toda a gente é premiada com uma orelha (por vezes duas) e música abundante. A população gosta e o director da corrida prefere a generosidade ao rigor. 

Sorte de gaiola de Tomás Bastos (Portugal) um dos novilheiros em praça, e que cortou 4 orelhas 
Olivença em dia de corrida de touros provoca um estranho sentimento em mim. Como dizia hoje a quem me convidou, talvez não haja recinto de espectáculos mais desconfortável do que a praça de touros de Olivença: é pequena, acanhada, com um espaço menos que decente para uma pessoa razoável colocar o seu corpo. Requer um encaixe perfeito entre pessoas, e, quem está na fila acima da nossa tem de abrir as pernas para permitir o ajuste. E no entanto, apesar do desconforto, pouco ou nada me importa: a cada 15 ou 20 minutos (tempo médio de uma lide) todos nos levantamos, e esticamos as costas ou os braços, que não há espaço para mais. E o gosto de ir a Olivença - também na companhia de quem vou - tudo compensa. 

Para o ano lá estarei - em Deus dando-me saúde e em não se acabando as corridas... Parafraseando Chico Buarque, foi bonita a festa, pá.

JdB  

07 março 2024

De uma ida a Olivença

 

A convite de pessoas que me são próximas, voltei a Olivença este ano, desta vez para assistir a 3 corridas - uma das quais uma novilhada, de cujo cartel fazia parte um português chamado Tomás Bastos. 

Ir aos toiros a Olivença é fazer uma espécie de peregrinação sem promessas, mas com desconforto. Começo pelo desconforto. 

Na verdade, só lá vai quem gosta muito: a praça é acanhada, num bocado de pedra (onde nos assentamos) onde nem um rabo cabe, tem de caber um rabo mais os pés da pessoas que está a trás de nós. A estática e os movimentos - os nossos, os dos que estão à nossa frente e os dos que estão atrás de nós - têm de ser síncronos, isto é, temos de abrir as pernas para que o vizinho da frente se encaixe, temos de confiar que a pessoa atrás de nós abra as pernas, para que nós próprios nos encaixemos. Quando nos levantamos, convém que todos o façam em simultâneo, para não haver desequilíbrios. 

Uma corrida de toiros é um espectáculo a que se deve assistir em silêncio, para permitir a concentração de toiro e toureiro. No entanto, há pessoas que falam, que gritam, que desconcentram os intervenientes. Há os que o fazem por ignorância, há os que o fazem por excesso de álcool no sangue.

O reverso da medalha deste desconforto é a convivência com uma certa tribo, como se fossemos todos iguais nesta peregrinação a um local de devoção. As pessoas perguntam-se de onde são (metade dos espectadores são portugueses) fazem graça com isso. Um local à nossa frente ofereceu-nos vinho, queijo e chouriço, o outro disponibiliza um chapéu de chuva. Fazemos todos parte de uma certa irmandade que suporta o frio, a chuva e o desconforto em nome de um espectáculo que faz parte de uma cultura, seguramente, mas que está longe de ser popular. Quem lá vai é aficionado, companheiro da mesma peregrinação.

Para mim, o reverso da medalha do desconforto (dois conhecidos portugueses compraram três bilhetes para ficarem mais à vontade) é, também, o ritual inerente a uma corrida de toiros: a superstição, a forma de andar ou de colocar o queixo, a maneira de atravessar a arena arrastando um capote, um sem número de pormenores que faz parte daquela festa, que empresta à coreografia que há em tudo um pormenor que nem sempre é percebido - ou valorizado.

 

Tal como referi acima, uma das corridas a que assisti era uma novilhada; isto é, não se tourearam toiros com 4 ou 5 anos, mas novilhos com 3 anos, com tudo o que isso representa de diferença em termos de peso e bravura. Falamos, no entanto, de animais com 400 e muitos quilos. Em Portugal um novilheiro tem de ter pelo menos 16 anos. Tomás Bastos, o novilheiro português que se estreou em Olivença com picadores, deverá ter 17 anos, a mesma idade dos seus colegas de cartel. 

Na fotografia, um deles a executar uma sorte de gaiola, que consiste em receber o novilho (ou toiro) assim que ele sai dos curros.  

JdB

07 março 2023

Da ida aos touros em Olivença



A convite de gente que me é próxima voltei aos touros em Espanha, passados, talvez, 20 anos.

Ir aos touros a Olivença é um programa desafiante sob vários motivos. Podemos ter a ideia saudosista de pisar terra portuguesa, ocupada ilegitimamente pelo infame vizinho; podemos ter a ideia de que vamos assistir a um espectáculo bárbaro que a burocracia árida da União Europeia não conseguiu proibir; podemos ter a ideia de que assistimos a um espectáculo desconfortável - em bom rigor, uma praça pequena onde distância para nos sentarmos é exígua e o encaixe entre as costas de quem nos está à frente e as pernas de quem nos está por trás tem de ser de uma precisão milimétrica, sob risco de cãibras e dores de costas; podemos ter a ideia de um espectáculo caro - afinal, um concerto na Gulbenkian, bem sentado e sem aperto é mais barato; podemos, por fim, ter a ideia de que se perde uma corrida (e o respectivo valor) porque a chuva que cai torna a lide impossível. 

Gostei de voltar às corridas de touros, porque gosto - ou não desgosto o suficiente - de tudo. Gosto da tradição dos acenos que, em extremos opostos da bancada, os populares fazem entre si à hora a que a corrida deve começar; gosto de uma certa irmandade que se sente, de pessoas que não se importam com um pé grande que assenta numa nádega alheia, que ajudam o próximo a não cair ou que abrem um sorriso quando percebem que somos portugueses. Gosto da alegria que se sente, das pessoas que se riem quando, ao segundo capotazo, já há alguém que grita "música, coño!", como também gosto das pessoas que se irritam com a falta de silêncio. Gosto, e muito, de uma certa ideia de ritualismo, de cerimonial, de pequenos gestos que são sinónimo de cortesia ou de orgulho por parte do matador de touros ou dos seus peões de brega. Gosto do risco, do arrojo - gosto menos de uma certa ideia de passes quase circenses; até gosto do meu próprio medo de que, num golpe de infortúnio, uma lide se esvaia numa poça de sangue; gosto das superstições, de observar o que fazem os intervenientes quando pisam a arena e percebem que vão defrontar um animal com 500 kg.  

Não me apanharão numa discussão sobre touros de morte, como já raramente me apanham numa discussão sobre religião ou, menos ainda, sobre Igreja. Há temas sobre os quais não vale a pena discorrer em público, bastando apenas dizer que se gosta. Há muito tempo que não ia a uma corrida de touros e gostei de voltar. Mais a mais em Olivença, com gente cuja companhia aprecio.  

Olé!

JdB 

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