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16 agosto 2018

Poemas dos dias que correm

Utopia
 
Cidade
Sem muros nem ameias
Gente igual por dentro
Gente igual por fora
Onde a folha da palma
Afaga a cantaria
Cidade do homem
Não do lobo mas irmão
Capital da alegria

Braço que dormes
Nos braços do rio
Toma o fruto da terra
E teu a ti o deves
   Lança o teu
      Desafio

Homem que olhas nos olhos
Que não negas
O sorriso a palavra forte e justa
Homem para quem
O nada disto custa
Será que existe
Lá para as margens do oriente
   Este rio este rumo esta gaivota
Que outro fumo deverei seguir
         Na minha rota?

Zeca Afonso, in 'Textos e Canções'

***

Verdade e Mentira

Neste livro do mundo
      Quase perfeito
Preto e branco irmanados
      De igual jeito
Quem não foi a tribunal
      Quem teve mão
      Nos juizes da Santa Inquisição?

Em menino te ensinaram
Mentiras que a morte leva
Para outra morte bem longe
De pensares que outra contrária
Com a tua se aglomera
Neste livro de concórdia
Só tem guarida o Infinito
Por Giordano Bruno amado
Como se fora seu filho
Acima da besta fera
Que na fogueira o lançava
Aquela verdade brilha
A morte à morte diziam
Os que não adivinhavam
Que era verdade a mentira
Até o Mar se acomoda
E paciente requebra
Enquanto gritas à toa
A tua verdade cega
Conta as areias da praia
O grande mago do mundo?
      Só não mente quem não sente
      Que o mistério não tem fundo

Zeca Afonso, in 'Textos e Canções'

25 abril 2017

Duas Últimas

Onde estavas no 25 de Abril?

A pergunta é humorística, não requer uma resposta exacta. Acima de tudo, dispensa uma resposta exacta. O 25 de Abril foi há 43 anos e sobre esse dia não farei análise. Nem sequer direi que falta cumprir-se Abril porque, de facto, falta: o mês acaba a 30...

O período a seguir ao 25 de Abril foi, para um rapaz urbano como eu, filho de gente católica, monárquica e conservadora, um período entusiasmante, pese embora algumas selvajarias de ponto de vista cívico, como pintar frases políticas no centro histórico de Évora. Mas eram, repito, tempos entusiasmantes: militante do CDS, confrontei-me com discussões políticas no liceu, com alguns encontrões e com ameaças; confrontei-me com a adrenalina de fazer parte do primeiro grupo que colou cartazes do partido em Évora, de pincel numa mão e matraca na outra, eu que nunca fui um homem violento, ou dado a brigas. Confrontei-me, acima de tudo, com uma luta emocional, por aquilo que entendíamos ser um combate contra o mal. Eram tempos de compromisso, de luta, de gozo, e mesmo de divertimento. Eram tempos de empenho, de causas. Nesse sentido foram tempos bons - talvez educativos e formadores de carácter.

Hoje serei revolucionário, deixando-vos com Zeca Afonso, um artista de que gosto muito, se tirarmos o pendor esquerdista sempre incómodo. 

Bom feriado, onde quer que o gozem.

JdB  



28 fevereiro 2012

Duas últimas

Ingénuos e persistentes leitores,

Nunca, nem sequer nos meus tempos de juventude mais desbragada (enfim, o que isso queira dizer num homem pouco dado a excessos) rocei politicamente pela esquerda. 

(suspendo momentaneamente a escrita para procurar, nos recônditos da minha memória, se rocei pela esquerda de uma forma mais carnal, mas também não me parece, que até nisso sou conservador). 

A minha carreira política, retomando um fio condutor mais sério, passou sempre pelo centro direita. Fui militante do CDS, fiz parte do grupo de energúmenos que, numa época mais quente, se deitou a Évora a colar cartazes e a pintar paredes. Sim, queridos leitores, a adolescência selvagem levou-me a conspurcar o praça do Giraldo com frases criativas que apelavam ao voto no partido do centro. Numa mão a trincha com a tinta que sujava as magníficas arcadas. Na outra mão uma matraca, porque os comunistas, tal como os beduínos, velavam ao longe. 

Fiz militância em Cascais, no CDS local, onde usámos de maior criatividade e de menos selvajaria, porque as paredes eram menos históricas. À célebre frase a terra a quem a trabalha, respondíamos com provocação inócua: e os comboios a quem anda neles... Momentos de rara inspiração, digo-vos. Estive ainda no comício da Juventude Centrista em Novembro de 74, no teatro S. Luís, e na sede do largo do Caldas quando, num qualquer 1 de Maio, se temia que fosse assaltada.

Fui a comícios do PPM (um, na Voz do Operário, se me lembro), defendi bancadas no liceu de S. João do Estoril, fiz parte de mesas eleitorais, achei ingenuamente que a minha altura acima da média me dava prerrogativas de segurança, um homem que tem tanta experiência de pancadaria como de comida cantonesa. Nunca levei mais do que um empurrão, nunca dei mais do que um empurrão. Em muitos episódios estive com o meu amigo e colega bloguista JdC, com quem tenho memórias memoráveis (sim, a redundância é propositada...) em Borba nos idos anos de 74 e 75. No que a ele diz respeito não sei, mas o meu corpo e a minha alma não mostram feridas desse combate político. Memórias, apenas - e vagamente desinteressantes...  

A par disto fui amigo de comunistas, de outros que se identificavam politicamente como sendo republicanos (melhor seria que não fossem, descendentes que eram de dois presidentes da república) mas sem acinte contra o meu nome, e de outros ainda que viviam com um arma contundente no carro, sussurrando uma conspiração inspirada pelas iniciais ELP e MDLP, traficando panfletos na penumbra das esquinas. 

Hoje partilho convosco Zeca Afonso, surpreendentes leitores de convicções políticas que desconheço, mas intuo. Alguns de vós esfregarão de contentamento as mãos finas, aforrando argumentos para zurzir as minhas opções musicais. Outros seguirão para o blogue seguinte, alegando as baixas de tensão que sempre nos provocam as coisas maçadoras. Restarão dois, quiçá três (oh! ingenuidade...) que apreciarão este momento - ou o suportarão estoicamente.

Sejam felizes - e respeitem o editor e dono do estabelecimento.

JdB





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