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29 maio 2026

De mais um desaparecimento

Penso que já aqui contei esta história. Por alturas da pandemia, e no espaço de alguns poucos anos, morreram várias pessoas da minha família paterna, a quase totalidade antes do seu tempo estatístico. Comentando este facto com um amigo, e lamentando a falta que as pessoas me faziam, por motivos diferentes, disse-me ele com um grande sentido de humor: a sua família é gado que morre muito.

Chegamos a esta idade e os nossos amigos - ou as pessoas que nos fazem falta, como aqui escrevi na semana passada - é gado que morre muito. Esta semana foi a G., irmã do JdC. Conhecemos-nos em 1971, já lá vão 55 anos, portanto. Sabia que estava doente e telefonei-lhe; a G. teve a amizade de me atender o telefone quando, parece-me, já não o fazia a toda a gente. Falámos durante 1 minuto, talvez, mas foi o bastante. Embora não convivêssemos muito, éramos grande amigos e fazíamos muita festa um ao outro, sempre que nos víamos. 

O desaparecimento da G., antes do seu tempo estatístico, suscita-me saudades muito diversas: dela, da família dela, dos Verões em Borba, dos candeeiros a petróleo, da compota de amora e dos cigarros fumados às escondidas, da Travessa de S. Vicente, do JdC. Quem me conhece também conhece este discurso, esta minha nostalgia. Revisitei todos estes lugares (geográficos e afectivos) sempre que escrevi sobre o desaparecimento de pessoas deste agregado familiar que foi, durante muitos anos, a minha família de afecto, se bem que de um sangue também, mas mais longínquo. Lembrar-me da G., do JdC ou dos Pais de ambos é uma espécie de regresso a casa - um tema que me é caro, quase obsessivo.

Com o desaparecimento da G. não desaparece o passado que foi, de certa forma, de ambos. Mas é menos uma pessoa com quem posso falar de um tempo que não volta; é menos uma pessoa com quem posso rir-me, lembrar histórias, cheiros, ambientes, pessoas, privilégios que tinham os mais velhos de uma família muito numerosa mas que, mesmo assim, teve sempre as portas abertas para quem quisesse aparecer. Chegar a esta idade é perceber que o nosso mundo afectivo é composto por gado que morre muito. Um dia serei eu, certo de que encontrarei a Borba dos meus Setembros (e outras memórias afectivas determinantes de outras geografias) no Céu, se Deus me quiser levar para lá. Até lá é só lembrar as histórias que já foram, porque o passado é certo, o futuro não se sabe se existe, até prova em contrário. 

Fica a última homenagem à G., que ficará no meu coração e no meu ouvido: afinal, foi ela que me apresentou a Maria Dolores Pradera, nesta exacta música, há 50 anos, talvez. Ouvi-a cantá-la, com um timbre que não esquecerei. Se ela me ler está a rir-se da minha memória para estas pequenas coisas.    

JdB

21 maio 2026

Das gavetas onde pomos os que partem

A informação já era esperada – o NL tinha morrido na madrugada de sábado, vítima de uma crise súbita de saúde uma ou duas semanas antes, e da qual não recuperou. 

Conhecia o NL há 15 anos talvez. Devido a um rearranjo familiar da minha parte, e que não vem ao caso, encontrávamo-nos uma dúzia de vezes por ano. Sentámo-nos muitas vezes ao lado um do outro para almoçar ou jantar. Mantínhamos uma conversa ligeira e agradável, fruto de um interesse que era mais do que simples cortesia: perguntava-me por um ou outro dos meus projectos, eu indagava das suas actividades golfistas; falávamos disto e daquilo, interagíamos com a família alargada à qual nos ligava um afecto grande, mas naturalmente diferente – ele tinha com aquele grupo uma relação de sangue.

O NL era uma pessoa que eu conhecera tardiamente na vida, com quem convivia pouco, para além de ser 13 anos mais velho do que eu. Seria exagerado dizer que éramos amigos, mas isso não diminui a pena que me provoca o seu desaparecimento. Não só a pena solidária de quem imagina o desgosto da mulher, dos filhos, dos netos e demais família, (pessoas por quem tenho uma grande simpatia, e mesmo amizade, e que me receberam sempre bem nos seus espaços) mas uma pena genuína, de quem se vê privado de uma confraternização – ainda que esparsa – com uma pessoa que deixa saudades.

Em bom rigor não é fácil colocar em gavetas bem identificadas as pessoas com quem nos vamos cruzando ao longo da vida: temos grandes amigos, temos bons amigos, temos amigos

(o JdC diferenciava-os de forma curiosa: fulano é meu amigo; beltrano é um amigo meu.)   

de algumas pessoas dizemos que as conhecemos e de outras que sabemos quem são. 

O NL cabia numa gaveta particular – e restrita: a daquelas pessoas de quem não somos parentes chegados nem amigos próximos, mas cujas características pessoais ou sociais as colocam num patamar muito próprio, muito exclusivo. Não perdi um amigo, um confidente, alguém com quem partilhava um passado comum. Perdi uma pessoa com quem gostava de estar e de conversar e por isso, num certo sentido menos óbvio, o seu desaparecimento deixa o meu património afectivo ou social mais pobre. 

Do NL só posso dizer isto: era uma pessoa com quem eu simpatizava muito e cuja morte me entristeceu bastante. Não sei se é pouco, mas reflecte genuinamente a minha grande pena. 

JdB


09 dezembro 2025

Em memória de Anita Guerreiro (1936 - 2025)



Sou tua

Reneguei tuas promessas
E juras de amor ardente
Até com certo rancor
Disse-te assim, não sou dessas
Que se embalam cegamente
Em juramentos de amor
Meu Deus, como a boca mente
Pois se te amo loucamente
Eu digo seja a quem fôr

Sou tua... como o luar é da lua
Como as pedras são da rua, e p'ra ser tua nasci
Sou tua... tão tua que me convenço
Que já nem a mim pertenço, que sou um pouco de ti
Sou tua... deixa-me gritar ao vento
P'ra que o vento num lamento, diga ao mar, á terra, ao céu
Sou tua... e deixa que os olhos meus
Só vejam p'ra ver os teus, embora não sejas meu

Às vezes sinto desejo
De ofender-te, embora iluda
Meu coração a sofrer
Mas fico, quando te vejo
Tão pequenina, tão muda
Com tanto p'ra te dizer
É então que a minha boca
Porta voz desta alma louca
Murmura quase sem querer

28 agosto 2025

Em memória de JdC, dois anos volvidos

Faz hoje dois anos que recebi a mensagem, infelizmente já esperada, que me informava da morte do JdC. Terminava ali uma amizade próxima que se estendera por mais de 50 anos.

A minha amizade com o JdC - como acontecerá, aliás, com a generalidade das amizades - atravessou várias fases que se ligam, inevitavelmente, às várias fases da vida de cada um. Ser amigo de alguém aos 18 anos não é - ou pode não ser - o mesmo que ser amigo desse alguém aos 60. Somos afectados, não só pelas vicissitudes da vida, mas também por uma sensação de proximidade exclusiva que se vai esboroando. No entanto, apesar de todas estas inevitabilidades, mantive com o JdC uma amizade muito próxima seguramente até 2008, ano em que ele me recebeu no Zimbabwe.

Um dia destes, a conversar com alguém sobre um tema que me é caro, ouvia esta partilha: não tenho qualquer memória da cara do meu Pai. Já aqui escrevi sobre o que morre quando nos morre alguém. O que nos morre quando morre alguém cujo formato dos olhos, desenho da boca, implantação do nariz não perdura na lembrança dos que lhe foram próximos? É só uma questão de nitidez fotográfica que se vai esfumando, como um retrato demasiado exposto ao sol, ou é uma espécie de purga da alma?

Se o JdC tivesse morrido em 2008, o que teria morrido em mim? E o que morreu em mim pelo facto de ter morrido em 2023, quinze anos depois dessa minha breve mas impressiva estadia em África? Para muitos estas dúvidas não têm razão de ser, ou são meio patetas: lembrar uma pessoa é, na verdade, lembrar uma pessoa. Mas não é assim - melhor dizendo, não é sempre assim. Olho para a minha galeria de mortos: pais, irmão, filha, avó, sogros, cunhado, um ou outro amigo, familiares mais ou menos próximos. O que morreu em mim naquele minuto em que fecharam os olhos é, provavelmente, o que teria morrido em mim se tivessem fechado os olhos 15 anos depois. Com o JdC isso não acontece. Morreram em mim algumas coisas, mas morreu em mim, também, a memória de algumas coisas, ou de tempos que não voltariam, mesmo que ele tivesse vivido até aos 100. 

Por estes dias sento-me a ler notícias, a ver telejornais, a programar viagens, a pensar na vida. Por vezes - talvez com muita frequência - lembro-me dele e da falta que me faz ou que me fez. Gostaria de ouvi-lo sobre a Ucrânia, sobre o conflito israelo-palestiniano, sobre o embaixador que está no Chile ou sobre uma ou outra preocupação mais prosaica. Era um homem bem informado, culto nos seus interesses, que discorria bem sobre os seus temas ou sobre alguns aspectos da vida. 

Heráclito terá dito mais ou menos isto: Nenhum homem pode banhar-se duas vezes no mesmo rio, pois na segunda vez o rio já não é o mesmo, nem tão pouco o homem! Sendo isto verdade, talvez o seja, sobretudo, noutras áreas da vida onde algumas pessoas, todas voltadas para a memória e para o ritual, como eu, se confrontam com o fim das coisas, mesmo antes do fim das coisas. E alguma coisa do que foi não voltará, também porque já não somos os mesmos.

JdB        

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