17 outubro 2013

Crónicas de um mestrando tardio

Tive ontem feedback do meu segundo ensaio. Dos comentários escritos cito o seguinte: 
1) (...) paradoxalmente, a sua maior desenvoltura neste segundo ensaio leva-o a fazer mais erros que não fez no primeiro;
2) No fundo, se a estrutura do seu argumento fosse mais sóbria, o ensaio seria melhor - mas sei que o João é completamente capaz disso.
Em minha defesa aduzi o seguinte: sabe, Professor, senti-me mais desenvolto e aventurei-me; quando dei por mim estava fora de pé e não sabia o que fazer. 
Segue o ensaio, para os que tiverem paciência ou curiosidade de ler. Curiosamente, a nota deste foi pior, mas eu percebi mais o tema. Curiosidades...

JdB

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São as metáforas “sistematically misleading expressions?

Iniciemos a resposta a esta pergunta com dois pontos prévios: uma definição e uma citação, sendo que esta última acompanhará, sem préstimo, o espírito do ensaio:
1.          sistematicamente: de modo sistemático; invariavelmente.
2.         “para quê alcançar os astros?! Para quê?! Para os desfolhar, por exemplo, como grandes flores de luz!” (Florbela Espanca)
Retomemos a pergunta de abertura: são as metáforas “expressões sistematicamente enganosas?”
Para Max Black (MB), a utilidade das metáforas reside no facto de poderem transmitir conteúdos que, de outra forma, não poderiam ser transmitidos. Talvez resida aqui, nesta ideia de MB, uma parte da resposta à pergunta de base. Como poderemos encontrar utilidade em algo que é invariavelmente enganador? Isto é, se o nosso objectivo não for o de enganar sistematicamente o nosso interlocutor, como poderemos encontrar utilidade em algo que é, de facto, sistematicamente enganador?
Para MB, uma metáfora é uma relação entre duas coisas e, para que cumpra o seu objectivo, tem de haver (e usemos, por simplicidade de raciocínio, os exemplos citados no texto):
1.          um sistema de lugares comuns associados (p. ex. , o homem é um lobo) ou
2.          características morfo-semânticas da linguagem (p. ex., a tua boca é uma latrina)
Tomemos a primeira premissa de MB para que uma metáfora funcione. O dicionário define assim o lobo:
“Zoologia: mamífero carnívoro da família dos Canídeos, feroz, semelhante a um cão grande, que habita regiões isoladas da Europa, Ásia e América do Norte.”
Não fosse o adjectivo feroz, que de alguma forma caracteriza o animal, e tínhamos apenas uma definição científica, virtualmente neutra. Comparar o homem a um lobo não é, seguramente, querer transmitir a ideia de que é um mamífero carnívoro que habita aqui ou ali, mas que há uma certa ferocidade no ser humano. Para que a metáfora cumpra o  seu efeito, é preciso , “não que os lugares comuns sejam verdadeiros, mas que sejam pronta e livremente evocados.” No limite pode acontecer que, para uma determinada zona do globo, por questões culturais, de convivência com o lobo – ou mesmo da utilidade que lhe é dada – se considere o lobo, não um animal feroz, no sentido mais negativo da palavra, mas como um animal feroz, no sentido mais positivo da palavra. A metáfora, nesse sentido, seria potencialmente enganadora, porque o sentido dado à palavra feroz seria diferente.
Por outro lado, a expressão a tua boca é uma latrina suscita um raciocínio diferente. Até onde o nosso conhecimento alcança, não haverá circunstância ou lugar do mundo onde a  frase não seja assumida como um insulto. A eficácia da metáfora assenta, neste exemplo, em características morfo-semânticas da linguagem. Não há interpretações diversas para esta expressão. A metáfora não deixa margem para dúvidas.
Em Max Black, são as metáforas “expressões sistematicamente enganosas?” Não são. Podemos reconhecer que “as regras estabelecidas da linguagem deixam uma grande latitude para a diferença, iniciativa e criação individuais” e, nesse sentido, serão, no âmbito de um sistema de lugares comuns associados, potencialmente enganadoras. Mas não sistematicamente enganadoras, diria eu.
***
Sigamos agora o pensamento de Donald Davidson (DD), para quem a ideia de MB - as metáforas podem transmitir conteúdos que de outra forma não poderia ser transmitidos - é completamente absurda.   
Diz DD: “não existem instruções para a invenção de metáforas; não há um manual para determinar o que uma metáfora “significa” ou “diz”; não há nenhum teste para metáforas que não apele ao gosto”. E, neste sentido, discorda de Max Black quando este afirma que “as regras da nossa linguagem determinam que algumas expressões devem contar com metáforas”, porque para ele não existem regras de linguagem.
A tese de DD é que “as metáforas significam o que as palavras, na sua interpretação mais literal, significam, e nada mais”, acrescentando ainda que “o erro fulcral, que atacarei, é a ideia de que uma metáfora tem, para além do seu sentido literal, outro sentido ou significado”.
Diz DD: “uma consequência é a de que as frases nas quais as metáforas ocorrem são verdadeiras ou falsas num sentido normal, literal, pois se as palavras nas frases não tiverem um especial significado, as frases não contêm uma especial verdade”. E diz ainda: “se uma frase usada metaforicamente for verdadeira ou falsa no sentido vulgar, então é claro que é normalmente falsa”.
 Assim sendo, para DD a maior parte das frases será trivialmente verdadeira ou trivialmente falsa:
O homem é um lobo – a frase é falsa porque, de facto, o homem não é um lobo, pese embora as características de ambos que se podem assemelhar;
Nenhum homem é uma ilha – a frase é verdadeira, porque, de facto, nenhum homem é uma ilha, no sentido literal da palavra.
De acordo com este ponto de vista, e de acordo com o pensamento segundo o qual uma metáfora não veicula uma mensagem, não tem um conteúdo ou significado para além do literal, podemos então assumir que, à luz da teoria de Donald Davidson, as metáforas são sistematicamente enganadoras.
A metáfora que afirma que o homem é um lobo é verdadeira, porque há uma certa ferocidade no homem; a metáfora que afirma que nenhum homem é uma ilha é também verdadeira, não porque o ser humano seja dissemelhante de uma porção de terra emersa rodeada de água, mas porque todo o Homem é uma parte do continente. O sentido das frases, na boca de quem as profere e tendo em atenção o destinatário, não é o sentido literal, mas o sentido metafórico. Entender a frases literalmente é eliminar o encanto de decifrar um código e ou desvendar uma charada. É desprovê-las do entretenimento e da diversão. E é lê-las como sistematicamente enganadoras. Menos do que totalmente enganadoras, talvez, mas mais do que potencialmente enganadoras.
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“Para quê alcançar os astros?! Para quê?! Para os desfolhar, por exemplo, como grandes flores de luz!” Uma frase falsa, porque os astros não se desfolham, nem são grandes flores de luz. E, no entanto, há quem almeje alcançá-los.

16 outubro 2013

Memória pacífica



Chegará o momento em que a memória é maior do que o sofrimento e o cobre como um manto de serenidade. 

Entre o final da semana passada e o princípio desta, dois amigos perderam gente que lhes era próxima e de quem sentirão saudades. Num caso era a afinidade, noutro era o sangue. É irrelevante a quantidade de saudades que terão dos seus mortos, porque a dor do luto não se mede com a escala de Richter. 

A frase que encima o texto foi-me enviado por um deles com a pergunta: isto está certo?, porque quem ma mandou renovava uma experiência de morte, achando que eu havia vivido uma experiência da morte. A minha resposta, totalmente!, representava uma convicção, mais do que uma diplomacia de misericórdia. 

Não digo mais do que diriam psicólogos e outros técnicos desta área, nem diferente do que diriam pessoas que passaram por experiências de, ou da morte.  Não acrescento mais, por fim, ao que disse durante estes últimos anos. 

Não há dia em que não lembre quem me morreu. Aqui e ali, nos momentos mais sombrios que todos temos, lembro como me morreram, que o acto de desaparecer e a forma de desaparecer nem sempre são indissociáveis. Relativamente aos nossos mortos temos memórias e temos sentimentos. O que perdura de um e de outro quando o negro da alma vai dando lugar a lutos mais aligeirados? O que é mais doloroso de manter, o que é mais saudável activar dentro de nós? Não sei, nunca dediquei muito tempo a racionalizar uma dicotomia sobre a qual desconheço quase tudo. Mas sei o que o tempo faz, o que faz, sobretudo, a qualidade do tempo. Sei para mim, que sou incompetente para receitas universais: falar, lembrar, contar histórias e com elas sorrir, rir mesmo, talvez; assumir a dor da mesma forma que se assume o frio ou a noite, que mais não são do que o contraponto de momentos mais felizes; ter fotografias, guardar um ou outro objecto, não reprimir o que a mente apresenta aos sentidos; chorar sozinho ou com os amigos, comover-se com as coisas, por insignificantes que sejam; estar atento aos sinais; lembrar tudo, que a natureza do corpo, deixando-a livre, segue bem. Ter Fé, ter Fé, ter Fé. 

Aristóteles achava que a queda dos objectos era explicada pela tendência de cada um em procurar o seu local de repouso natural. Podemos, mesmo que isso exija um esforço desnecessariamente grande, replicar o raciocínio para o tema em apreço: tendemos para a paz interior, que é uma espécie de gravidade por explicar, porque é isso que Deus, a primeira causa de tudo, deseja para nós. Não ensino nada a ninguém mas acredito, com a mesma força com que acredito que Deus não é senão Amor, que de todos os nossos mortos, bem feitas as coisas - ou feitas as coisas de forma humanamente imperfeita -, teremos uma quantidade imensa de memórias pacíficas. A paz está para as memórias como a terra está para os objectos. Sei-o, mesmo que não me saiba fazer entender. 

JdB 

15 outubro 2013

Duas Últimas

Eu, JdB, me confesso: nunca fui grande apreciador de Bruce Springsteen. Conheço-lhe mal a discografia, identificarei meia dúzia de títulos, se tanto. Se me pedirem para citar dois, gaguejo, remetendo toda a beleza da música para o Requiem de Mozart, que esse sim, trauteio com gosto e desafinação em proporções iguais. Por isso dificilmente sugeriria, neste espaço que vou ocupando às 3ªs feiras, o cavalheiro em questão. Acontece que mão amiga enviou-me o youtube abaixo, sem qualquer nota explicativa que decifrasse o mistério, mistério que talvez só o fosse para mim. Abri-o no domingo com sossego, porque sei que daquele remetente só vêm coisas boas. Quedei-me surpreendido nos primeiros segundos, sem perceber porque mo tinha mandado. Bruce Springsteen? Para mim? E porquê?

De olhos postos no ecrã, numa tentativa embrutecida de desvendar a charada, vi os cinco minutos e um segundo. E não é que gostei? Não falo especificamente da música (uma letra simples e sincera, numa batida que se fixa), menos ainda da imaginação cinéfila do video, que não sei se pretendia ter. Mas gostei verdadeiramente daquele desfilar de pessoas de várias idades, a emoção nas caras diferentes: a alegria, a expulsão das tensões internas num corpo que se agita, o gozo de ouvir alguém que para eles é the boss, os risos, o embaciamento dos olhos, a chuva que cai perante a indiferença das pessoas, as multidões, os miúdos felizes a gozarem o ritmo, que o sentido das palavras ainda não o entendem. Talvez os cinco minutos não pretendam ser mais do que um desfilar humano de sensações e, em cada uma das pessoas que aparece, o desafio de imaginarmos uma vida única, irrepetível, cheia de encantos e desilusões, de choros e risos, de um dream baby dream repetido insistentemente  

Não sei porque é que o meu querido amigo JS me enviou o video. Prosaicamente, admito que se tenha enganado no destinatário, embora não me pareça. Admito ainda que tenha visto mais do que eu vi, porque há sagacidades e sensibilidades que bafejaram mais uns do que outros. Um dias destes almoçarei com ele e falaremos disto, como falaremos de livros, de futuro, de alma, de pessoas, de saudades e de projectos, da vida canalha feita de dinheiro e de horas. Aprenderei como sempre aprendo, verei melhor a vida e descortinarei coisas neste video - que lhe agradeço - e que não consegui ver, apesar de ter tentado três ou quatro vezes.

JdB
  

14 outubro 2013

Fórmula para o caos*


Ajustamento e Investimento
Durante a primeira década do século XXI, o país viveu, na sua globalidade, 10% acima daquilo que produzia. Por outras palavras, as nossas necessidades de consumo superaram em 10 pontos percentuais as nossas capacidades de produção. Esse era o chamado défice externo. Para financiar esse desequilíbrio, tivemos que importar capitais. Contrair empréstimos. Pagar o nosso consumo com o excedente de outros países. Em meados de 2011, face à gigante dívida acumulada como resultado dos consecutivos défices, os nossos credores, com uma desconfiança crescente quanto às nossas reais possibilidades de pagarmos a divida, fecharam-nos a torneira do crédito. Foram os parceiros europeus, com o apoio do FMI, que vieram em nosso socorro. Contudo, em troca do empréstimo, apresentaram-nos um plano de ajustamento da economia que teríamos que seguir à risca. No fundo, ou produzíamos mais para compensar o gasto, ou teríamos que reduzir o gasto até ao nível da produção. Aliás, a médio prazo, um excedente externo seria o necessário por forma a honrarmos os compromissos com os credores. Por muito custoso que seja, o ajustamento é fundamental para que possamos voltar ao crescimento económico. Fundamental, mas insuficiente.
Como complemento à austeridade, os responsáveis políticos terão que implementar medidas estruturais que promovam e atraiam investimento. Em especial, Investimento Directo Estrangeiro, que tem vindo a cair a um ritmo vertiginoso. Em 2012, segundo um ranking elaborado pela revista The Economist, Portugal ocupava um desanimador 41º lugar em termos de atractividade de negócios. São várias as componentes estudadas pelos investidores antes tomar a decisão de aloucar capitais num país estrangeiro. Claro que Portugal fez alguns progressos, com destaque para as baixas taxas de inflação dos últimos 20 anos, muito embora esse tenha sido um avanço alcançado por imposição da União Europeia. No entanto, ainda são bastantes, e decisivos, os aspectos que carecem de uma clara melhoria. No que toca ao sistema de Justiça, apesar de anualmente despendermos 0,3% do PIB do dinheiro dos contribuintes para financiá-lo (média OCDE de 0,2%), os processos nos tribunais arrastam-se por anos a fio. Também o regime laboral é um dos mais rígidos dos países desenvolvidos. Quanto à estabilidade política, dispensa comentários de maior: 14 primeiros-ministro desde a democratização, enquanto em Espanha houve 6.
Apesar de toda atenção que merecem os factores enunciados no parágrafo anterior, de acordo com os mais bem sucedidos empresários, é a estabilidade fiscal o ponto que mais pesa quando se decide investir. Nesse campo o nosso percurso não pode ser mais desastroso. Todos os anos surgem novas leis fiscais, sobem e descem impostos, criam-se taxas especiais sobre tudo e sobre nada. Sempre que muda o governo, um novo regime fiscal é adoptado. Ainda há poucos dias, a empresa chinesa China Three Gorges, que nem há 2 anos adquiriu o que restava de capital publico na EDP, mostrou-se extremamente decepcionada pela criação de uma taxa sobre os produtores de electricidade. Mais: os investidores chineses afirmam que o acordo de privatização previa que não se introduzisse qualquer taxa nos próximos anos. No passado dia 8 de Outubro, foi noticiado que o fundo imobiliário alemão Dekka Immobiliene comprou, por 43 milhões de euros, o edifício Báltico no Parque das Nações em Lisboa. Imagine-se que, daqui por uns tempos, o governo decide alterar o valor do Imposto imobiliário? Qual seria a reacção de quem já investiu, e, pior, de quem pensava investir?
Veja-se o exemplo da Jerónimo Martins que, à semelhança da maioria das sociedades cotadas no PSI20, transferiu a sua sede para Holanda por aí obter um quadro fiscal muito mais favorável. No inicio deste ano, a mesma JM atacou em força o mercado colombiano, com a abertura de várias lojas no país sul-americano. O CEO, Pedro Soares dos Santos, afirmou taxativamente que o poder politico da Colômbia garantiu 20 anos de estabilidade fiscal, independetemente do governo que esteja em funções. Porque não fazer o mesmo em Portugal? Se PSD, PS e CDS-PP convergem na ideia de que é crucial atrair investimento estrangeiro, qual a razão de não assinar um pacto de regime para 10 anos, em que se garantisse a manutenção da fiscalidade e a protecção ao investidor?

Pedro Castelo Branco

Artigo originalmente publicado no site portugueseindependentnews.com

13 outubro 2013

Acto de entrega a Nossa Senhora de Fátima*



Nossa Senhora de Fátima,
Com renovada gratidão pela tua presença materna, unimos a nossa voz à de todas as gerações que Te proclamam bem‑aventurada.
Em Ti celebramos as grandes obras de Deus, que nunca se cansa de inclinar‑se com misericórdia sobre a humanidade, afligida pelo mal e ferida pelo pecado, para a curar e salvar.

Acolhe com benevolência de Mãe o ato de entrega que hoje fazemos com confiança, diante desta tua imagem que nos é tão querida.
Estamos certos que cada um de nós é precioso aos teus olhos e que nada do que se encontra nos nossos corações Te é estranho.
Deixamo‑nos alcançar pelo teu dulcíssimo olhar e recebemos a consoladora carícia do teu sorriso.

Guarda a nossa vida entre os teus braços: abençoa e robustece todo o desejo de bem; vivifica e alimenta a fé; ampara e ilumina a esperança; suscita e anima a caridade; guia a todos nós no caminho da santidade.
Ensina‑nos o teu amor de predileção com os pequenos e pobres, com os excluídos e sofredores, com os pecadores e os de coração perdido: reúne a todos sob a tua proteção e entrega a todos o teu amado Filho, Jesus nosso Senhor.

Amen.

*Oração do Papa Francisco 13/10/13, 

(tradução: padre Manuel Morujão, SJ)

28º Domingo do Tempo Comum


EVANGELHO – Lc 17,11-19

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
indo Jesus a caminho de Jerusalém,
passava entre a Samaria e a Galileia.
Ao entrar numa povoação,
vieram ao seu encontro dez leprosos.
Conservando-se a distância, disseram em alta voz:
«Jesus, Mestre, tem compaixão de nós».
Ao vê-los, Jesus disse-lhes:
«Ide mostrar-vos aos sacerdotes».
E sucedeu que no caminho ficaram limpos da lepra.
Um deles, ao ver-se curado,
voltou atrás, glorificando a Deus em alta voz,
e prostrou-se de rosto por terra aos pés de Jesus
para Lhe agradecer.
Era um samaritano.
Jesus, tomando a palavra, disse:
«Não foram dez que ficaram curados?
Onde estão os outros nove?
Não se encontrou quem voltasse para dar glória a Deus
senão este estrangeiro?»
E disse ao homem:
«Levanta-te e segue o teu caminho;
a tua fé te salvou».

12 outubro 2013

Pensamentos impensados


Cantorias
Mais vale a solo do que mal acompanhado.
 
Buscas
Sempre que oiço falar da Procuradoria Geral da República lembro-me, não sei porquê, de um fado cantado por Tony de Matos: procuro e não te encontro.
 
É só saúde
Saramago era grande apologista de mens sana in corpore sano.
Daí ter feito saneamentos no Diário de Notícias,
 
Eras
Quando Jesus Cristo nasceu não havia antes de Cristo nem depois de Cristo
Quando Jesus Cristo morreu, morreu depois de Cristo.
 
Grafismos
O dr. Medina Carreira faz uma análise Portugal com um aspecto foto...gráfico, quiçá cinemato...gráfico; ou será porno...gráfico?
 
Comiseração
Que terá acontecido ao Talião que toda a gente o lamenta?
Só se ouve dizer que pena de Talião!

SdB (I)

11 outubro 2013

Largo da Boa-Hora*


Sob o sol primaveril que ilumina o largo e dá ares de talha dourada a este meu banco, pergunto-me qual o maior tesouro da nossa vida, qual o valor mais precioso que nos é concedido.
Considero e pondero, detalhada e cuidadosamente, as várias fortunas de que dispomos, e, depois de muito examinar e peneirar, consigo eleger aquela que é a riqueza superior às demais, a rainha das nossas venturas.
A primeira surpresa deste meu exercício é que não suspeitava que o elencar sistemático e exaustivo dos “activos” originasse um rol tão extenso. Fiquei surpreso com a multiplicidade de “bens” que compõem a nossa vida, assim como com a suficiência formada pelo conjunto: “tanto mar têm os nossos barcos para navegar”.
Também me impressionou quanto a riqueza material se desvaloriza no “ranking”, quando em concurso com as riquezas espirituais. A matéria é pó quando comparada com a essência, com a alma, com os sentimentos.
A rainha das venturas, é haver quem precise de nós. Não me refiro a alguém indeterminado da comunidade, mas a alguém em concreto, a que estejamos ligados por laços de amor. De igual modo, não me refiro apenas a uma pessoa, mas às pessoas que, por causa desses específicos e particulares laços de amor, formam o nosso núcleo existencial.
A grande riqueza é esta certeza, este saber convicto, de que para alguém somos contributo decisivo para o seu bem, para a viabilidade da sua felicidade, para a realização dos seus sonhos, ambições, projectos, e tudo o mais de construção de uma vida.
Do mesmo modo que para esse alguém somos bálsamo, refúgio, ajuda nas tristezas, desalentos, dores e infortúnios, acompanhando derrotas e medos, testemunhando inquietudes e angústias, suavizando remorsos e erros.
Para esse alguém somos espelho que não consente máscaras, dispensa maquilhagens e disfarces, somos procurados para reflexo da verdade, e não camarim de actor.
Para esse alguém somos parte e condição da vivência, da alegria e da tristeza.
Olhar e ver, ouvir e escutar, falar e dizer, tocar e sentir, consumam-se na partilha com esse alguém que nos precisa.
Para esse alguém somos, afinal e sempre, bordão de peregrino na romagem da vida.
Essa utilidade, necessidade, enche-nos de felicidade e encantamento, dá-nos sentido à vida, é estrela polar que marca o nosso norte e empalidece as tantas constelações celestiais que brilham, apontando outras direcções e rumos.
Servir esse alguém é vocação bastante, é missão suficiente para todo o “eu” fazer sentido, para o “eu”acontecer por uma causa e não por mera casualidade.
Sem esse alguém seriámos, provavelmente, seres erráticos, desnorteados, por não ter de quem ser bordão.
E este ser bordão é condição inesgotável, porque a cada nascer do sol se renova a oportunidade de continuar a caminhada. Há sempre um amanhã e há sempre mais caminho, até ao fim da longa jornada.
Nunca a missão está completa, nunca a vocação está saciada, regenera-se no dia-a-dia e essa continuidade é, por natureza, a fonte da tranquilidade.
Trata-se de uma dependência desejada e consentida, fruto de uma reciprocidade de eleição do bem mais precioso, com a assunção de que amar é querer ser o bordão do outro, e desejar que o outro precise que nós sejamos o seu bordão.
Muitas formas existem para definir o amor, para o demonstrar e para o viver quotidianamente.
Este texto é sobre o amor, tendo seguido uma dedução que me conduz à definição que o amor é, metaforicamente, ser eleito o bordão do outro, que é, reciprocamente, o nosso bordão.
Focando-nos agora e exclusivamente no amor entre pares (deixemos, pois, o filial, parental, fraternal, em que somos bordões por tempos ou ocasiões) três notas finais completam o quadro que quis esboçar.
A primeira, é no sentido de que, enquanto cada um se revir e sentir como bordão do outro, a relação se manterá forte, leal e segura, apesar das vicissitudes surgidas no caminho. Enquanto a mão amada me segurar como seu bordão (e vice-versa) os sulcos e obstáculos do caminho serão ultrapassados e vencidos, desaparecendo na curva do caminho.
A segunda é que a mão e o bordão vão envelhecendo e desgastando-se juntos. O que ambos perdem em qualidades de juventude ganham em conhecimento, ajeitamento e confiança, cada dia mais moldados, cada dia mais calhados; os nós das mãos conhecem os nós do bordão e sabem senti-los.
A terceira é que a jornada a dois termina, definitivamente, quando por razões que a razão desconhece, o bordão, antes amparo indispensável, se transforma em objecto inútil, empecilho de caminhadas ou estradas diferentes que se querem calcorrear ou percorrer.
Para mim basta-me esta metáfora.

ATM

(publicado originalmente em 18.03.09)

10 outubro 2013

Crónicas de um mestrando tardio


Pessoa próxima, cuja inteligência invejo e cuja amizade prezo, escreveu-me no seguimento de um post da semana passada ao abrigo das crónicas de um mestrando tardio. Cito o mais relevante:

Estupefacto com a fantasia das vossas viagens.
O jardim secreto está bem guardado pelo hermetismo. A vedação do ocultismo assegura o recreio dos eleitos. O cultivo do esotérico garante a sombra para a casta. Que seita no seu Éden.
Todavia, e "malgré tout", esforçadamente, lá fui seguindo o teu discursar, e a verdade é que julgo perceber o que pensas e dizes. Pelo menos faz-me sentido e é eficaz, pois chega a parecer que é importante, até indispensável para um quotidiano lúcido.

É lógico que as pessoas se questionem, face ao conteúdo hermético do pobre ensaio que redigi, o que ando a fazer na faculdade de letras, para que serve algo de que não se entende o teor, quanto mais a utilidade para a vida prática. Eu tento explicar, não conceptualmente, mas no que me diz respeito: tenho aprendido a pensar. Isto é, tenho-me confrontado com áreas diversas, como a filosofia da linguagem ou a filosofia da ciência, ou ainda as relações whitmanianas. Em termos de quotidiano, não me serve para nada, mas ajuda-me a desenvolver um raciocínio, para além de ouvir falar e ter de discernir sobre temas que me eram totalmente desconhecidos - mas que me acrescentam valor intelectual. Só isso, só esse desafio, seria o suficiente para justificar a minha inscrição.

Por outro lado, há sete ou oito anos que tenho a ideia para um livro a bailar-me na cabeça. Partilhei a trama com duas ou três pessoas mas, se tivesse de escrevê-la, não me ocuparia mais do que meia dúzia de linhas, que não havia conteúdo para mais. Este mestrado - e as pouquíssimas semanas desde o início - deram-me ideias importantes que eu espero ter engenho e arte para desenvolver. Tem sido, confesso, um manancial de inspiração. 

***

Ontem foi dia de Chaos and Order, o seminário ministrado pelo Prof. John Jean, convidado de uma universidade americana. Falámos da Divina Comédia e, sobretudo, do Inferno. Não nos importou a alegoria teológica, mas a concepção aristotélica do universo (finito), os conhecimentos de matemática de Dante, os estudos e as dissertações de Galileu sobre o tema, sobre a (im)possibilidade física do Inferno, apenas porque a estrutura seria inviável do ponto de vista da escala...

    

JdB


09 outubro 2013

Diário de uma astróloga – [62] – 9 de Outubro de 2013


Francisco Lufinha / Diana Nyad – coincidências astrológicas

Durante o mês de Setembro foram batidos dois recordes mundiais em modalidades muito diferentes, mas com alguma coisa em comum – o MAR.

Um jovem de 30 anos, português, Francisco Lufinha, bateu a marca existente de 199 milhas em kitesurf ao fazer o percurso Foz do Douro – Lagos, num total de 307,5 milhas marítimas, isto é, 569 km. Passou cerca de 29 horas em cima da prancha nas ondas da costa portuguesa. A sua primeira tentativa foi logo coroada de êxito.

No princípio do mês, do outro lado do Atlântico, uma senhora de 64 anos, Diana Nyad, bateu o record da travessia a nado de Havana, Cuba a Key West na Florida sem gaiola anti-tubarão. Uma distância de aproximadamente 110 milhas (177 Km) coberta em 53 horas. Foi só à sua 5ª tentativa que conseguiu bater o record.

O que têm estes dois atletas em comum para além de se sentirem no mar como peixe na água?

A mãe de Francisco Lufinha forneceu-me gentilmente a sua hora de nascimento. A carta de Diana Nyad foi estabelecida para o meio-dia do dia e local de nascimento indicados na sua biografia.
      

Apesar dos anos que os separam, têm muitas coisas em comum.  O primeiro elemento que me saltou aos olhos é relativo ao mar.  O planeta Neptuno,  com nome do deus romano que reinava sobre os mares, está em ambos conjunto ao Nodo Lunar Sul. Este ponto da carta está ligado a uma herança karmica, a uma memória de vidas passadas ou para quem não acredita na reencarnação, a uma memória ancestral no âmbito de colectivo inconsciente. Esta memória é semelhante para ambos. É junto a Neptuno, é  no mar onde ambos vão buscar forças para prosseguirem a sua evolução. 

Não pude deixar de sorrir quando li no livro de uma suposta especialista em astrologia dos Nodos Lunares, Judith Hill, uma advertência para as pessoas que têm na sua carta a combinação Neptuno /Nodo Lunar Sul “Nadar no oceano é perigoso…. Nunca devem estar no mar sozinhos”.   O meu desprezo por livros de astrologia tipo livro de receitas só fica confirmado por estas generalizações.  Francisco e Diana sentiram no mais profundo da sua alma a voz do mar e, cada um à sua maneira, responderam.

Mais elementos em comum:
·       Sol e Lua em Leão – o signo do herói e heroína
·       Mercúrio em Virgem – capacidade mental de planear detalhes tão importante em aventuras como estas
·       Marte em Caranguejo – o planeta da força e da coragem num signo de água

Os estudos de fisiologia do desporto mostram que, nas actividades “tipo maratona”, a determinação mental é um factor mais importante do que a energia física da juventude. Em astrologia, os planetas e os ângulos em signos fixos indicam esta dimensão da personalidade. O Francisco tem o Sol e Lua em Leão, o Ascendente em Touro e o Meio do Céu em Aquário, isto é, os pontos mais importantes da sua carta em signos fixos. Diana tem o Sol, Lua e Plutão em Leão; não posso ter a certeza dos ângulos (pois desconheço a hora de nascimento) mas, dado a determinação que tem demonstrado ao longo da sua vida, tudo me leva a crer que têm o Ascendente e o MC também em signos fixos.

E sobre as datas escolhidas?  Lufinha trabalhou com o Instituto Hidrográfico para identificaram a janela de tempo que reunisse as previsões meteo-oceanográficas mais favoráveis, e com certeza que Diana Nyad fez o mesmo. Se não consultaram um astrólogo não sabiam que por trânsito Marte estava no princípio de Setembro a aproximar-se da Lua natal de Diana e no dia 19 de Setembro o mesmo Marte esta pertíssimo do Sol e Lua de Francisco Lufinha. Num ciclo de 2 anos as datas escolhidas foram aquelas em que estes fantásticos atletas se sentiam mais capazes de enfrentar e vencer um desafio físico.  Foi a forma do Universo dizer  “estou de acordo com as vossas aventuras, vou dar uma forçinha”.

Ainda há por aí pessoas que não acreditam em astrologia????

Para os que acreditam, quero lembrar o novo período de mercúrio retrógrado de 21 de Outubro a 10 de Novembro entre 18 e 2 graus de Escorpião. Releiam o que escrevi aqui e tomem as devidas precauções:


Luiza Azancot

08 outubro 2013

Duas Últimas

Ontem, por motivos que não vêm ao caso, tive muito pouco tempo para escrever o meu post de hoje. A jornada foi todo preenchida com aulas de manhã (mais de duas horas a falar sobre metáforas na filosofia), almoço de favas e partilha de vida com o meu querido amigo fq, resolução de minudências nos correios onde nos confrontamos com a maior ineficiência, e outras actividades de urgência imprevista. O tempo de escrita foi, por isso, francamente escasso - diria mesmo quase nulo.

Deixo-vos com um fado de que gosto muito e que tenho ouvido na Rádio Amália. Oiçam a letra (nostálgica, como compete) e a música, que não darão o tempo por perdido.

Jdb


07 outubro 2013

Vai um gin do Peter’s?


Com bom humor e bastante simplicidade (que é como quem diz simplismo puro e duro) há umas dicas divertidas para um leigo, que esteja a milhas da pintura, passar a reconhecer alguns dos pintores mais emblemáticos da arte ocidental.

O início da tal mensagem não deixa dúvidas de que vamos mergulhar numa explicação hiper condensada, de ignorantes despachados para público equivalente, confirmando à letra o dito popular de que a ignorância costuma ser atrevida. Parece até favorecer maximamente o atrevimento… Não por acaso, os pintores merecem tratamento familiar, como se fossem do nosso círculo de conhecidos, num afã titânico para nos tornar peritos no património do Louvre, Hermitage, Capela Sixtina e lugares semelhantes. Tudo muito acessível, como calhava bem.

A suposta aula, que condensa 5 séculos de arte em dois minutos, tem saídas tão bem apanhadas, que vale a pena partilhá-la. O mais não seja pelas telas lindas que a ilustram, com legendas no tom festivo e informal dos brasileiros.

Quer aprender a reconhecer os pintores pelos quadros? Então, vamos ao que interessa.

 1) Se o fundo for escuro e toda gente estiver com ar de tortura, é do Ticiano:


 2) Se todo o mundo é rechonchudo, é do Rubens:


 3) Se os homens têm olhos de vaca e parecem donas-de-casa, é do Caravaggio:


 4) Se o quadro está apinhado de gente, que parece normal, é do Pieter Bruegel:


 5) Se todo o mundo parece um mendigo iluminado por um poste de rua, é do Rembrandt


6) Se o quadro tem (ou podia ter) cupidos e ovelhas, é do François Boucher: 


7) Se todos forem lindos, estiverem semi-nus e empilhados ou bem apertados, é do Michelangelo: 


8) Se tem bailarina, é do Degas: 


9) Se tudo é alongado, com muitos claros-escuros e homens barbudos de cara magra, é do El Greco: 


 10) Se todo o mundo parece o Vladimir Putin, é do Van Eyck: 


Nesta lógica infalível, bastantes mais pintores e museus caberiam: narizes e tudo o mais fora do sítio seria de Picasso, os sorrisos enigmáticos de Leonardo, as taitianas de Gauguin, o mundo aos quadradinhos de Vieira da Silva, as catedrais e os nenúfares de Monet, os monstros psicadélicos de Bosch, Paris com nevoeiro e chuva de Cézanne, o Moulin Rouge e toda a agitação da noite parisiense de Toulouse-Lautrec, a mania das frutas e dos legumes de Arcimboldo, gente entretida em pequenos hobbies em salas à meia-luz de Vermeer, etc. Não faltariam bons truques para preparar as pessoas mais incautas para uma visita-relâmpago às colecções de arte da Europa e dos Estados Unidos. Naturalmente que se contaria com um mínimo de boa vontade.

O final da tal lição acaba por ser a cereja no bolo, assumindo o objectivo (pueril e anedótico) de tentar impressionar o próximo, porque é disso que se trata: «Agora, qualquer um está preparado para arrasar num Museu». Leia-se arrasar no sentido mais literal do termo, e mesmo assim...

Entretanto, se houver folga para ver telas boas, mas menos conhecidas e sem truques, recomenda-se a dupla exposição (até 20 de Outubro) sobre a arte do reinado de D.João V, o rei do Convento de Mafra, que se desdobra entre o MNAA e S.Roque (1), com o título sugestivo «A Encomenda prodigiosa», aludindo à Capela Real de S.João Baptista, na Igreja  de S.Roque.

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
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