22 março 2015

V Domingo da Quaresma

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo Segundo São João (Jo 12, 20-33)

Naquele tempo, alguns gregos que tinham vindo a Jerusalém para adorar nos dias da festa, foram ter com Filipe, de Betsaida da Galileia, e fizeram-lhe este pedido: «Senhor, nós queríamos ver Jesus». Filipe foi dizê-lo a André; e então André e Filipe foram dizê-lo a Jesus. Jesus respondeu-lhes: «Chegou a hora em que o Filho do homem vai ser glorificado. Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica só; mas se morrer, dará muito fruto. Quem ama a sua vida, perdê-la-á, e quem despreza a sua vida neste mundo conservá-la-á para a vida eterna. Se alguém Me quiser servir, que Me siga, e onde Eu estiver, ali estará também o meu servo. E se alguém Me servir, meu Pai o honrará. Agora a minha alma está perturbada. E que hei-de dizer? Pai, salva-Me desta hora? Mas por causa disto é que Eu cheguei a esta hora. Pai, glorifica o teu nome». Veio então do Céu uma voz que dizia: «Já O glorifiquei e tornarei a glorificá-l’O». A multidão que estava presente e ouvira dizia ter sido um trovão. Outros afirmavam: «Foi um Anjo que Lhe falou». Disse Jesus: «Não foi por minha causa que esta voz se fez ouvir; foi por vossa causa. Chegou a hora em que este mundo vai ser julgado. Chegou a hora em que vai ser expulso o príncipe deste mundo. E quando Eu for elevado da terra, atrairei todos a Mim». Falava deste modo, para indicar de que morte ia morrer.

***

A glória de Jesus

“Chegou a hora em que o Filho do Homem vai ser glorificado”. Jesus refere-se a Si próprio como o “Filho do Homem”, numa alusão à profecia do livro de Daniel e anuncia que “vai ser glorificado”: quer dizer que vai manifestar e que Deus vai manifestar n’Ele toda a sua vida. Essa é a glória de Jesus: a manifestação, a irradiação da sua vida. Mas a sua glória é muito distinta das glórias deste mundo. Porque as glórias deste mundo são o que são? São grandes aparições em público, grandes aplausos, grandes coroações…A glória de Jesus, pelo contrário, vai revelar-se na sua cruz: aí é que tudo quanto Ele é, da parte de Deus e para nós, vai ser manifestado. É exatamente na entrega da sua vida que Jesus vai frutificar, como um grão de trigo que se desfaz na terra. A glória de Jesus Cristo, a glória de Deus, que se manifesta em Cristo, está nesta entrega até ao fim. É nela que nos vence e convence, é nela que nos atrai. Nós estamos hoje à volta da cruz de Jesus Cristo porque aí se manifestou a sua glória, na entrega da sua vida, porque assim é a vida de Deus, uma vida de doação. Nós não arredamos pé desta cruz, porque é nela que contemplamos a vida de Deus, como nos é dada em Jesus Cristo, e a sua glória, como é manifestada na sua caridade e no seu amor.


D. Manuel Clemente (2014), O Evangelho e a Vida. Conversas na rádio no Dia do Senhor. Ano B. Cascais: Lucerna, 77-78

21 março 2015

Pensamentos impensados

Costumes
Em Portugal...beijinho, no Azer...beijão.

Encontro de contas
Um encontrão é sempre uma coincidência.

Droga de costumes
Pode estar-se à coca e não se pode à marijuana.

Desaparecimentos
O seguro morreu de velho.
Lázaro morreu; de novo.

Ligações perigosas
Matrimónio - homem casa com mulher.
Património - homem casa com homem.

Chamem as Chaves do Areeiro
Em que se parece Sócrates com o futebol grego? É tudo à porta fechada.

Vantagens
Moro tão perto do cemitério que quando morrer bem posso ir pelo meu pé.

SdB (I)

20 março 2015

"O Fado, canção de vencidos"

Poucos temas foram tão cantados em fado como a traição, a desventura no amor, o ciúme. A esse propósito, diz Alberto Pimentel no seu Triste Canção do Sul – Subsídios para a história do fado (1904):

Uma das coisas que mais custam a compreender na vida do fadista é o ciúme que ele tem da mulher perdida, que todos os dias se vende ao primeiro homem que passa.
Interesse? Afeição? Tudo isto, talvez, porque o fadista vive à custa da depravação da amante, mas quando o ciúme o domina dir-se-ia haver nesse sentimento o que quer que seja superior ao interesse material.
(...)
Do que ele tem ciúme não é das carícias que a sua amante vende; é daquelas que ela pode dar por um impulso espontâneo do coração.
(...)

***

Carlos Augusto Conde [1901-1981] nasceu na freguesia da Murtosa, concelho de Aveiro. Em 1936 vem para Lisboa, à procura de melhores condições de vida. Das suas três filhas, duas morreram na mesma semana, por doença, com 7 anos e 1 ano de idade. Profissionalmente trabalhou a maior parte da sua carreira como chefe de escritório na firma F. H de Oliveira, na Av. 24 de Julho. Morreu atropelado por um automóvel que galgou o passeio e o foi colher, com mais dois amigos, estando todos placidamente sentados numa esplanada (Poetas Populares do Fado Tradicional, Daniel Gouveia e Francisco Mendes, 2014).

Fernanda Maria canta o ciúme, visto pelo lado da mulher. A letra de um fado é (quase) sempre um conto: apresentação dos personagens, enredo, desfecho. Carlos Conde conseguiu o pleno. Um homem que podia ter escrito apenas sobre a desgraça, que já tinha inspiração suficiente...

A música é do fado Alberto, autoria de Miguel Ramos.

Não passes com ela à minha rua

Ao fim de tantos anos de ser tua
Amaste outra, casaste, foste ingrato
Vi-te passar com ela à minha rua
Abracei-me a chorar ao teu retrato
  
Podia insultar-te quando te vi
Ferida neste amor supremo e farto
Mas vinguei-me a chorar, chorei por ti
Por entre as persianas do meu quarto
  
Eu bem sei que me tentas convencer
Mas o que me propões, não é bastante
Se não servi, p'ra ser tua mulher
Também não devo ser a tua amante
  
Casaste, sê feliz, Deus te proteja
Não te desejo mal, e tanto assim
Que não tenho ciúme nem inveja
Como a tua mulher teve de mim
  
Mas olha meu amor, eu não me importa
Antes que fosses dela, eu já fui tua
Podes sempre bater à minha porta
Mas não passes com ela à minha rua


JdB


19 março 2015

Dia do Pai

Excertos de uma oração lida hoje, quando fui cumprir o meu gosto e obrigação de padrinho:

(...)
Agradeço-te o que me ensinam do amor simples, 
e quanto me obrigam a ser uma pessoa maior e melhor.
Peço-te ajuda para ser inteiramente pai;
atento para ser vigilante,
forte para aceitar todos os sacrifícios,
cheio de ternura para ser sempre acolhedor,
firma para trazer segurança,
incansável em todas as horas do dia,
exigente para procurar sempre o melhor
e paciente com todas as contrariedades.
Deus nosso Pai e Pai de Jesus,
dá-me um coração com fé viva,
e repleto de esperança na eternidade.

As escolhas de gi


Queremos dançar. Queremos dançar. Queremos dançar. E dançamos. Rock & Roll vitaminado - como sempre, como dantes - e um pouco de Dark Wave electrificada - como dantes, como sempre.

gi.


The Wytches, "Wire Frame Mattress"



The Orwells, "Let It Burn"



Detachments, "The Promenade"



The Soft Moon, "Feel"



Interpol, "All The Rage Back Home"

18 março 2015

Da morte

Reds, fotografia de JMAC, o homem de Azeitão


Nos últimas poucas semanas fui a três velórios de pessoas com quem tinha uma relação de natureza diversa. Os dois primeiros eram pais de amigos; o terceiro era meu primo, para além de companheiro numa certa fase da minha juventude. O primeiro morreu com mais de noventa anos, totalmente autónomo e com uma saúde física invejável. O segundo morreu com 80, após um período de saúde debilitada que provocou sofrimento, dor e cansaço ao próprio e aos mais próximos. De uma certa forma - e apesar da aparente ironia do raciocínio - a morte de ambos foi um alívio. Relativamente ao primeiro, porque ao morrer repentinamente nunca viveu a hipotética, mas possível e, quem sabe provável, decadência física, dependência, perda de autonomia. O segundo, por motivos que parecem óbvios e que não se prendem, muito pelo contrário, com confortos egoístas ou comodismos pouco cristãos. Quanto ao terceiro, que faria 58 anos daqui a pouco mais de um mês, não há qualquer alívio.

Como olhamos para a morte? Expurgo deste raciocínio a dimensão crente que se prende com eternidade, ressurreição, Céu, etc. Falo da morte no sentido mais cru do termo - talvez mesmo mais descrente, ou mesmo ateu. Morte que representa ausência para sempre, simpatia pelo desgosto de gente próxima, confronto com a nossa própria finitude, angústia pelo desconhecido, gaveta fechada sobre uma determinada época, desaparecimento de uma memória. Ao falar deste tema não consigo abstrair-me da minha própria história de vida, dos meus mortos, do meu encontro com a mortalidade ou com a fragilidade da vida. 

Como é que vemos o desaparecimento da terceira pessoa que referi no parágrafo inicial? Ando um pouco para trás... A forma como olho para a morte de alguém tem sempre como ponto de comparação a minha realidade pessoal? Isto é, o facto de eu ter vivido um episódio de morte brutal de alguém muito próximo e demasiado novo para desaparecer condiciona-me? Há, pergunto, um olhar de analogia que me leva a dizer nada me impressiona já, depois de ter passado pelo que passei...? Por outro lado, alguns de nós poderão ver, nesta morte, a sua própria. Era rapaz da nossa idade, cometeu os mesmos excessos, jogou às cartas connosco, éramos primos / amigos, tínhamos círculos sociais comuns, um dia acontece-me o mesmo. Replico a analogia: posso olhar para esta morte e dizer não faz mal, sei quem vou encontrar quando desaparecer e por isso não me assusto...

O que sentimos quando morre alguém da nossa idade, com quem percorremos uma certa fase da vida? Desgosto, tranquilidade, medo, distância? O nosso passado e presente com a pessoa em questão é determinante ou é apenas um facto mais? Olho para dentro de mim e gostava de perceber, embora tenha convicções próprias...  

JdB  

17 março 2015

Duas últimas

Do Porto, cidade de que estou e estarei sempre próximo, por razões fortes e diversas, visita-nos hoje Miguel Araújo, nascido na respectiva área metropolitana em finais dos anos 70.

Alguém da sua geração me chamou a atenção para ele. Tem boas influências, por exemplo de uns tios já entradotes com quem aparece em gravações comprovativas. Diria que os seus pontos fortes são as letras, originais e sensíveis. Mas guitarra e as instrumentações acessórias também são bem agradáveis. E a voz não destoa.

Em suma, um continuador já mais do que potencial dos excelentes músicos/autores que a capital nortenha tem produzido.

Numa fase anterior da carreira, ele é igualmente o “Mendes” do duo com João Só, novíssimo músico rendido à capital para quem a natureza foi igualmente pródiga em originalidade.

Espero que apreciem.  

fq 



16 março 2015

Dos pontos de interrogação

Na minha ronda de blogues encontro a seguinte frase, de autoria não atribuída: o ponto de interrogação é um ponto de exclamação cansado. A frase é curiosa embora errada, quanto a mim. Há o cansaço físico - umas pernas que se dobram, umas costas que se ressentem, uns braços débeis, incapazes de levantar o mais módico dos pesos, uns pés que arrastam as solas num terreno todo feito de exaustão. E há a fadiga da mente: sinapses que não se estabelecem, uma voz que teima em não sair porque não há comandos que cheguem às cordas onde os pensamentos ganham corpo. Cansaço é isto. O ponto de interrogação não é outro sinal gráfico afectado pela fraqueza. O ponto de interrogação é o irmão desprezado relativamente ao qual não se matará nunca o vitelo mais gordo, o familiar que emigrou para o abandono porque ninguém lhe sentiu a falta no quotidiano exclamado.

Dizem-me ser de Picasso este pensamento: um quadro não existe até que alguém olhe para ele. Faz sentido. Olhar um quadro é reconhecer o quadro; ao ser olhado - mesmo que este pensamento exija uma certa suspensão da descrença - o quadro ganha um corpo, uma alma, uma materialidade de impacto diverso. Ganha uma existência. Como? Através de uns olhos que perscrutam. O olhar que indaga é um ponto de interrogação. O que significa aquela forma geométrica? Porquê aquele jogo de cores? Onde está o punctum deste quadro? O que me diz ele? Afirmar a fealdade das imagens, a desproporção dos objectos, a irregularidade de uma simetria desejada ou a incorrecção da perspectiva  - ou mesmo a inversa de tudo isto - não é ver, é apenas olhar; não é sentir, é apenas tocar; não é escutar, é apenas ouvir. O ponto de exclamação, a cansar-se, é apenas pelo prussianismo de uma postura rígida, empertigada, excessivamente vertical, sem uma curvatura estética que represente o encaixe dos seres humanos. 

Replicando o exercício para o mundo humano, uma pessoa não existe até que alguém se aperceba da sua presença. E só ao ser olhada (num certo sentido metafórico do termo) é que esse indivíduo ganha corpo, uma alma, um número de identificação fiscal de utilização exclusiva pelos corações semelhantes. Como ganha existência? Através da interrogação. Perguntar é ver, escutar, sentir. A voz que pergunta é o olhar que perscruta: quem és tu? Como beijas? O que te emociona? Contas-me coisas da tua vida? 

A exclamação é unidireccional, não requer interlocutor. Digo, afirmo, constato, exclamo. A exclamação é uma linha recta, uma lança, uma seta, um pau por vezes afiado. Tal como a música alegre, é centrífuga. Pelo contrário, a interrogação é redonda, requer participação, é envolvente, uma linha curva toda feita de elegância, que uma recta pode ser mais sinuosa que uma curva. A interrogação é o sinal gráfico que une os seres, como a sala de jantar é a assoalhada que une as famílias. Tal como a música triste, é centrípeta.  

JdB     


15 março 2015

IV Domingo da Quaresma

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo, disse Jesus a Nicodemos: «Assim como Moisés elevou a serpente no deserto, também o Filho do homem será elevado, para que todo aquele que acredita tenha n’Ele a vida eterna. Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o homem que acredita n’Ele não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus não enviou o Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele. Quem acredita n’Ele não é condenado, mas quem não acredita já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho Unigénito de Deus. E a causa da condenação é esta: a luz veio ao mundo e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque eram más as suas obras. Todo aquele que pratica más acções odeia a luz e não se aproxima dela, para que as suas obras não sejam denunciadas. Mas quem pratica a verdade aproxima-se da luz, para que as suas obras sejam manifestas, pois são feitas em Deus.

***

Dar uma oportunidade a Deus

É uma grande lição este Evangelho. Nós podemos e devemos perguntar, neste domingo, se estamos realmente dispostos a renascer a partir da vida que Deus nos oferece em Jesus Cristo. Se estamos cansados da vida que levamos a partir de nós, se estamos cansados de contar demasiado connosco, então porque é que não damos uma oportunidade a Deus, que nos oferece Jesus Cristo em cada página do Evangelho, em cada sacramento da Igreja, em cada encontro fraterno, para que vivamos a partir d’Ele uma vida que, sendo d’Ele, nunca mais acaba, porque é eterna? Porque é que não aproveitamos esta oportunidade? É uma imensa possibilidade que nós, com certeza, queremos fazer nossa.


D. Manuel Clemente (2014), O Evangelho e a Vida. Conversas na rádio no Dia do Senhor. Ano B. Cascais: Lucerna, 73

14 março 2015

Pensamentos Impensados

Otorrino
Diga de que se queixa; sou todo ouvidos, nariz e garganta.

Acerto de contas
A moeda foi inventada por um tipo que não sabia como pagar as dívidas.

PIB e outros mistérios
Passos Coelho, ao pagar as coimas, contribuiu para aliviar o défice;
foram receitas extraordinárias.

Mais mistérios
Ainda não percebi se é a electricidade que produz coisas, ou se são coisas que produzem electricidade.

Avós são paternidade?
Caim e Abel eram (foram, são) netos de Deus.

Lacticínios
Os dentes de leite não são bens de raiz.

Flores
Na China fabricou-se a porcelana Família Rosa.
Em Portugal é mais barro família cravo.

Alternativas
Querem manobras de diversão? Vão aos bares de alterne.

SdB (I)

13 março 2015

"O Fado, canção de vencidos" *

* título de uma compilação (1936) de oito palestras, de Luis Moita, emitidas na Emissora Nacional.


***

De Linhares Barbosa já abaixo fiz referências biográficas. Talvez possa acrescentar-se que era chamado o “Príncipe dos Poetas Populares”. Quem o cantasse tinha êxito garantido; o letrista, que vendia este “produto” como fonte de subsistência, beneficiava obviamente deste sucesso.
Encontrei uma explicação para a história do anel de cinco pedras, cuja veracidade não afianço. Seriam elas:
a malaquite, que cura as doenças espirituais e é indicada para a desintoxicação e alegria de viver.
a esmeralda, que nos dá a imortalidade e a fé na vida, sendo um símbolo de excelência de uma vida melhor
o rubi, usado para preservar o corpo físico e a saúde mental, inspirando sabedoria espiritual, saúde, conhecimento, tranquilidade e riqueza.
o diamante, símbolo do amor eterno, que representa o poder.
a ametista, que possui um efeito tranquilizador, sendo a pedra da realização dos desejos pessoais.
Pondo as iniciais das cinco pedras de seguida, encontramos um bonito acrónimo: MERDA
Si non é vero é bene trovato...
Deixo-vos com um “mano-a-mano”, entre Amália, que celebrizou este fado, e Teresa Salgueiro, numa versão mais arrojada.
JdB
*** 

Lá porque tens cinco pedras

Lá porque tens cinco pedras
Num anel de estimação
Agora falas comigo
Com cinco pedras na mão!

Enquanto nesses brilhantes
Tens soberba e tens vaidade,
Eu tenho as pedras da rua
P’ra passear à vontade!

Pobre de mim, não sabia
Que o teu olhar sedutor
Não errava a pontaria
Como a pedra do pastor
Mas não passas sorridente
A’lardear satisfeito
Pois hei-de chamar-te à pedra
Pelo mal que me tens feito!


E hás-de ficar convencido
Da afirmação consagrada:
Quem tem telhados de vidro
Não deve andar à pedrada


12 março 2015

um fantasma escreve

perdido entre traduções, alimento-me de café bem escuro,
da vista para um velho pátio, de tangerinas fora-de-época.

sei que não posso viver da poesia, por isso exerço um outro
banal mister, entre papelada avulsa e dicionários mudos.

um fantasma, ainda assim, espreita, dá de si sinal de vida,
pisca-me o olho e sugere-me um título para este poema.

deixei para trás, dizia, o meu sonho de ser das letras mestre,
por razões tão vis que até do meu fantasma as escondo.

entretanto, adormeço e sonho contigo, como um escritor deve,
acho eu, sonhar com um naco de bela prosa - a volúpia rara

que nos faz desejar um exercício extremo de "close reading"
- de palavras, para "veros" poetas; dos teus lábios, para mim,  

senhora mais do que minha e meu tão doce fantasma.

gi.

11 março 2015

Da honra republicana e liberal

Declarações de interesse:

- não sou amigo de Henrique Granadeiro. Vi-o meia dúzia de vezes, se tanto, em encontros sociais, e trocámos apenas palavras de circunstância;
- não sou inimigo (por oposição a amigo) de Henrique Granadeiro. Reconheço-lhe qualidades, quase exclusivamente por aquilo que vou ouvindo de pessoas cuja opinião prezo.

***

Quando liguei a televisão para ouvir em directo, já HR tinha feito o seu juramento (espontâneo, que ninguém lho pediu, menos ainda o exigiu) enquanto crente e republicano. Reforçou-a depois, em resposta ao deputado do PSD, parece-me. Diria toda a verdade, na sua qualidade de crente e republicano. E também como liberal. Algo que, confesso, me pareceu estranho. Talvez porque ouvi em directo, que sempre tem um impacto diferente. Do resto do seu depoimento não farei comentários, pois não sou suficientemente letrado na matéria.

Mão amiga fez a fineza de me enviar um texto onde o autor afirma: em Portugal e para que conste, católico e republicano são duas condições que se excluem, a não ser para os ignorantes ou para os espertos. Não irei tão longe na ousadia da afirmação, se bem que perceba o sentido por trás das palavras. Acima de tudo fica a minha perplexidade do que é um juramento em nome do republicanismo ou do liberalismo, como se este fraseado descansasse a panóplia de deputados que, representando o povo português, se sentam à volta da mesa interrogando os suspeitos de algo. Imaginemos que no momento seguinte um dos inquiridos jurava dizer a verdade - mais uma vez espontaneamente - em nome de um ateísmo e de uma devoção ao marxismo-leninismo. Em que alteraria isso a substância das declarações ou a forma como elas eram ouvidas? Devemos acreditar mais num do que noutro? E se o terceiro inquirido for monárquico? Haverá risota em surdina ou esgares de ódio? 

Poucas coisas me dão um tédio tão grande como a ideia de ética republicana, uma espécie de título que, aposto num cartão de visita, confere ao seu utilizador uma fama de impoluto. Em nome de que república é que HR jura? Da primeira, assente no regicídio e cujos dirigentes pretendiam erradicar a religião católica de Portugal? Da segunda, apodada de ditadura? Da terceira, que gerou uma quantidade imensa de corruptos e fez aquela descolonização? Qualquer república, em sentido lato, fez mais pelo bem-estar dos povos do que uma única monarquia? E é um garante inequívoco de seriedade?

Parece-me ser claro que algumas decisões tomadas por HR - e cuja responsabilidade ele terá assumido, o que abona em seu favor - prejudicaram a solidez financeira da PT e nesse sentido, os seus accionistas. Imaginemos, por exercício académico e em nome da presunção de inocência, que houve incúria, favorecimento, irresponsabilidade. HR tê-lo-á feito, também, em nome da religião que professa, e das suas opções de republicano e de liberal? 

A palavra de um Homem é a palavra de um Homem. Enquanto pessoas de bem, a palavra de um conservador monárquico deve valer tanto como a de um comunista ateu. A verdade é a verdade, e sou ingénuo suficiente para achar que a hombridade não é privilégio de um casta política ou religiosa.

Termino, dando de novo a palavra ao autor do texto que me chegou às mãos: afirmar-se republicano em Portugal, mesmo nos dias de hoje, tem um conteúdo próprio que não podemos escamotear. Conteúdo diferente dos tempos da Roma antiga, e diferente também do título de 'defensor da república' ostentado pelos reis de Portugal.    

JdB

10 março 2015

Duas Últimas

Nada ligo ao Dia Internacional da Mulher, tanto que não sei se é internacional ou mundial. Nem sequer percebo a diferença entre uma designação e outra... No entanto, sou sensível à violência sobre as mulheres. Talvez prefira dizer que sou sensível à violência, independentemente de quem a pratica e sobre quem a pratica. Parece-me que este raciocínio é do mais elementar bom senso. Também sei que, por via da diferença de força humana, a violência física se exerce mais sobre as mulheres do que sobre os homens. As estatísticas não mentem, e mesmo essas só revelarão a violência que se exerce no corpo, não no espírito. 
No  final da semana passada mostraram-me o vídeo com o (novo) hino da APAV, intitulado “Cansada”. Não me debrucei sobre a letra, confesso, pois estava distraído a fazer outras coisas. Achei a música bonita e bem interpretada. Por isso, e também por um certo imperativo de consciência, a divulgo.




Depois lembrei-me de um fado com que me cruzei há uns tempos. A letra, que reproduzo abaixo, é de Linhares Barbosa [1893 – 1965], um torneiro mecânico que terá produzido, apesar de ter a instrução primária, cerca de três mil letras.  Vamos supor que o letrista a escreveu no último ano de vida. Entre esse momento e o ano de agora distam 50 anos. É muito ou pouco? Não sei. Mas há meio século ninguém se chocaria que uma mulher (penso que a Lucília do Carmo interpretou o fado) dissesse em público bate naquilo que é seu / ninguém tem nada com isso.
Curiosidades...

JdB


O meu (um homem a meu jeito)

Amo um homem a meu jeito
Valente, como os que o são
Tem tatuagem no peito
E lá dentro, um coração

Com ciúmes, são de lume
Seus olhos que me consomem
Gosto de o ver com ciúme
Acho-o mais belo, mais homem

Com seus lábios de veludo
Com que amor eu sou beijada
Beija-me às vezes por tudo
Bate-me às vezes por nada

Dizem, porque me bateu
Que o seu amor é postiço
Bate naquilo que é seu 
Ninguém tem nada com isso


09 março 2015

Vai um gin do Peter’s?

Além de se ter distinguido como um dos maiores estadistas do século XX, pelo seu contributo inequívoco para a vitória dos Aliados na Segunda Guerra, Churchill foi escritor, premiado com o Nobel (ref. no gin de 9.Set.2013), e ainda pintor. A sua paixão pelas artes plásticas será uma faceta menos conhecida, mas nada desprezível.

Intenso e workaholic como era, ninguém estranhou a sua fúria e perplexidade quando foi liminarmente demitido do Governo, na sequência do desastre na Batalha dos Dardanelles, na actual Turquia. Enfrentava o primeiro grande revés político da sua longa e atribulada carreira. Como panaceia, os amigos recomendaram-lhe que experimentasse pintar, por ser um passatempo ideal para descomprimir. À beira do desespero, resolveu mesmo deitar mão às aguarelas dos filhos a ver se conseguia relaxar. Gostou tanto do passatempo que, daí em diante, não havia folga que não passasse junto ao cavalete, a observar a paisagem e a transpô-la, à sua maneira, para a tela. Aos 40 anos descobria o seu hobby preferido, confirmando a curiosa coincidência de quase tudo aquilo em que se sobressaiu lhe ter acontecido muito tardiamente, na vida. Só fora Primeiro-Ministro aos 65 anos. 


Curiosamente, enquanto nas letras e na política a sua veia irónica era preponderante, na pintura Churchill mostrou-se sóbrio e até suave, comedido e afectuoso, bem nos antípodas do seu temperamento de figura pública, maximamente polémico e belicoso. A combatividade aguerrida do seu discurso verbal está totalmente ausente na pintura. Mal agarrava o pincel, Churchill parecia amansar, saboreando o cachimbo, ou melhor, o charuto da paz. Na tela, usa a cor com a frescura de uma criança que se encanta com tudo o que vê, com uma candura invulgar, ao mesmo tempo temperada pela lucidez (ou não fosse quem era!) e um olhar atento sobre a realidade. As suas composições são harmoniosas, decorativas e equilibradas. Por vezes, têm leves toques exóticos e um ou outro elemento de humor, como o friso de garrafas a incluir o seu whiskey de estimação, escocês – Johnny Walker Black Label. Mas nada de arrebatamentos nem estridência.

Título original «Bottlescape».

Com o pincel, Churchill transforma-se num cronista pacato e de bem com a vida, abstendo-se de experimentalismos e ousadias. Cultiva, antes, um estilo hiper clássico, que privilegia a estética e o registo próximo do que vê, sem fantasias nem marcas pessoais demasiado fortes.

As viagens fornecem-lhe um manancial de inspiração inesgotável, das familiares às políticas, daquelas que fizeram História. Percebe-se que a bagagem das tintas o acompanha para todo o lado, qual kit de sobrevivência psicológica. Ainda assim, parece que a única pintura realizada em plena guerra, foi a vista de Marraquexe, datada de 1943, logo após a Conferência de Casablanca. Nessa altura, o líder britânico convenceu o Presidente dos EUA a ir com ele até à cidade marroquina e apreciar a vista fantástica, a partir de uma torre, estrategicamente situada numa das extremidades da malha urbana. Mal o americano partiu, o inglês aplicou-se a pintar aquela vista, que depois ofereceu a Roosevelt.


Inacreditável pensar que cenas campestres e prosaicas eram os seus alvos de eleição, como o pátio de um convento, algures na Grã-Bretanha profunda. O denominador comum são as perspectivas pacíficas e de escala humana, dir-se-ia, aconchegantes: 



Aqui chegados, torna-se mais compreensível que o paraíso, para o agitadíssimo Winston, não fosse a natureza grandiosa e avassaladora, mas antes um espaço verde da Inglaterra rural, perdido no meio de um bosque viçoso e pacífico, onde nada de especial parece acontecer. Zero de adrenalina. Tudo aqui é discreto e expressão perfeita da temperança e da bonomia, apesar de ter sido pintado no alvor da Segunda Guerra, quando Hitler já incendiava a Europa, anexando os países vizinhos com panzers e a temível Luftwaffe, sob o olhar bem atento e preocupado de Churchill:

Título original: "View from Chartwell", terminado em 1938.
 Chartwell era o seu recanto favorite e tema recorrente nas telas, com
perspectivas do interior da casa, naturezas-mortas e vistas do exterior.
Comprara a propriedade, em Setembro de 1922 e ali montara o atelier    

Interior de uma das propriedades de família – o Palácio de Blenheim, dos duques de Marlborough – profusamente decorado em estilo barroco, datado do século XVIII:

As tapeçarias de Marlborough, no Blenheim Palace

Mesmo a nível náutico, não são as ondas indomáveis do Atlântico que o atraem, mas os riachos e as enseadas calmas que serpenteiam o campo inglês, salpicado de simples barcos a remos. Vemos ancoradouros remotos e modestos, em vez de marinas faustosas ou dos portos garbosos da Marinha britânica, que Winston conhecia como ninguém.

Uma das suas aguarelas mais conhecidas e populares data de 1933, em plena travessia do deserto, do ponto de vista político. Barquinhos de cores alegres e pueris flutuam num lago azul de águas paradas, num dia privilegiado de luz. Talvez aquela aberta de sol, luminosa e rara no clima sombrio das ilhas Britânicas, tenha encantado o estadista, que o tomou como «Estudo de barcos», ele que tinha um currículo ligado à Marinha, onde se cruzou com embarcações gigantescas, daquelas que asseguraram à sua pátria a primazia dos mares. Mas nada dessas vivências, que entusiasmaram o seu dia-a-dia profissional, chegaram à tela:  

O hobby preferido de Winston ainda teve o mérito de revelar um lado calmo, amistoso e sóbrio, que a parte visível da sua personalidade nunca fariam supor. Uma boa surpresa, que prova o mistério quase insondável que é cada pessoa, de quem conhecemos tão pouco, até mesmo, de nós próprios. Para não variar, Churchill é o exemplo acabado da riqueza multifacetada do ser humano, a paisagem mais surpreendente e maravilhosa do planeta, digo eu...

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)


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