As melhores viagens são, por vezes, aquelas em que partimos ontem e regressamos muitos anos antes
30 junho 2025
29 junho 2025
XIII Domingo do Tempo Comum
EVANGELHO – Lucas 9,51-62
Aproximando-se os dias de Jesus ser levado deste mundo,
Ele tomou a decisão de Se dirigir a Jerusalém
e mandou mensageiros à sua frente.
Estes puseram-se a caminho
e entraram numa povoação de samaritanos,
a fim de Lhe prepararem hospedagem.
Mas aquela gente não O quis receber,
porque ia a caminho de Jerusalém.
Vendo isto, os discípulos Tiago e João disseram a Jesus:
«Senhor,
queres que mandemos descer fogo do céu que os destrua?».
Mas Jesus voltou-Se e repreendeu-os.
E seguiram para outra povoação.
Pelo caminho, alguém disse a Jesus:
«Seguir-Te-ei para onde quer que fores».
Jesus respondeu-lhe:
«As raposas têm as suas tocas,
e as aves do céu os seus ninhos;
mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça».
Depois disse a outro: «Segue-Me».
Ele respondeu:
«Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar meu pai».
Disse-lhe Jesus:
«Deixa que os mortos sepultem os seus mortos;
tu, vai anunciar o reino de Deus».
Disse-Lhe ainda outro:
«Seguir-Te-ei, Senhor;
mas deixa-me ir primeiro despedir-me da minha família».
Jesus respondeu-lhe:
«Quem tiver lançado as mãos ao arado e olhar para trás
não serve para o reino de Deus».
27 junho 2025
Textos dos dias que correm
26 junho 2025
25 junho 2025
Histórias dos dias que correm *
“Se a Vida são Dois Dias o que Raios me Acontece Quando Saio à Noite?”
Vítor Sertório tem 35 anos. É alto e magro debaixo de um longo cabelo encaracolado que lhe cobre as orelhas e grande parte da testa. Tem o nariz equilibrado a despontar entre dois olhos escuros e tristes, uma boca bem desenhada que revela, dizem-lhe, “uma sensualidade perturbante”. As maçãs do rosto salientam-se numa pele pouco mais do que imberbe. Tem umas mãos finas e compridas, numa expectativa de pianista que não houve.
Há nele um apego às rotinas: o banho quente e poupado, a escolha criteriosa da roupa, o pequeno almoço rápido num desinteresse de fastio repetido, o beijo ao que sobra da família, o afago na cabeça fugidia do gato. Sofre o caos do trânsito e a alegria radiofónica de gente que se identifica pela voz, como se fossemos todos cegos, tacteando com os ouvidos. Trabalha: repreende e é repreendido, manda e é mandado, motiva e qualquer coisa por aí. Retorna a casa no silêncio do fim de dia, porque cavalo que sente cocheira não carece de estímulo para lá regressar. Saúda o que sobra da família e bichana ao Eros, que foge para cantos onde só o espanador chega. Depenica um jantar porque há a estética, a roupa que não estica, um enjoo constante aos condimentos, um certo asco aos odores.
Na contabilidade de alegrias e frustrações, Vítor Sertório equilibra-se nas contas finais. Conhece vidas felizes plenas de viagens, carros novos, rostos sorridentes; identifica as muitas outras que deprimem e convidam ao desespero. Tem 35 anos, e quando olha em frente o sorriso não lhe esmorece na face.
À quinta e à sexta-feira sai pela noite, integrado num grupo que se movimenta ruidoso pela capital, gargalhando e soltando piropos provocatórios. Cantam, acenam, empurram-se, contam histórias brejeiras que fazem rir e corar. Nesses dois dias Vítor Sertório é Anabela: encheu um soutien de algodão, pintou os lábios de um vermelho que torna a sensualidade desesperante, tingiu de carmim umas maçãs do rosto que sobressaem imberbes. O cabelo que agora lhe destapa as orelhas de onde pendem brincos provocantes, e a elegância nos saltos altos, suscitam inveja e admiração.
Para Vítor Sertório, que também é Anabela (embora não se saiba quem nasceu primeiro) a vida são estes dois dias. Quando lhe perguntam o que faz quando sai à noite, denuncia uma possível timidez num trejeito feito de vida escondida e responde, afagando um brinco: “sonho com os próximos dois dias”.
JdB
* publicado originalmente a 7 de Janeiro de 2014
24 junho 2025
Poemas dos dias que correm
A Força Exacta é Violência
a Força Exacta é violência.
a Força em espirro, ao acaso, não é violência, é existência.
O mal é Fixar a Força (direccioná-la) porque a natureza espontânea não o FAZ.
Natural é ser FORTE, isto é, avançar.
Violento é o Percurso que antecede o viajante. Antes dos pés:
Sapatos; a estrada.
A Força Exacta é violência.
A natureza não tem, nunca teve, Forças EXACTAS.
E tudo o que o homem faz é tornar exacta a FORÇA.
Ser violento é construir; todo o Edifício é violência.
O homem é o Exacto da Natureza; a falha NATURAL; o Erro.
Deus errou:
fez o homem EXACTO.
Gonçalo M. Tavares, in "Investigações. Novalis"
23 junho 2025
22 junho 2025
XII Domingo do Tempo Comum
EVANGELHO – Lucas 9,18-24
Um dia, Jesus orava sozinho,
estando com Ele apenas os discípulos.
Então perguntou-lhes:
«Quem dizem as multidões que Eu sou?»
Eles responderam:
«Uns, João Baptista; outros, que és Elias;
e outros, que és um dos antigos
profetas que ressuscitou».
Disse-lhes Jesus:
«E vós, quem dizeis que Eu sou?»
Pedro tomou a palavra e respondeu:
«És o Messias de Deus».
Ele, porém, proibiu-lhes severamente
de o dizerem fosse a quem fosse
e acrescentou:
«O Filho do homem tem de sofrer muito,
ser rejeitado pelos anciãos,
pelos príncipes dos sacerdotes e pelos escribas;
tem de ser morto e ressuscitar ao terceiro dia».
Depois, dirigindo-Se a todos, disse:
«Se alguém quiser vir comigo,
renuncie a si mesmo,
tome a sua cruz todos os dias e siga-Me.
Pois quem quiser salvar a sua vida, há de perdê-la;
mas quem perder a sua vida por minha causa,
salvá-la-á».
20 junho 2025
Duas Últimas
![]() |
| Eglise Saint-Gervais-Saint-Protais (Paris) |
Ontem postei esta fotografia num grupo de família com a seguinte pergunta: quem adivinha a musica para esta fotografia? As respostas foram diferentes:
Knocking on heavens door
Stairway to Heaven
Highway to Hell
A resposta está abaixo, curiosamente uma música de um grupo de que nunca gostei muito:
19 junho 2025
Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo
EVANGELHO – Lucas 9, 11b-17
Naquele tempo,
estava Jesus a falar à multidão sobre o reino de Deus
e a curar aqueles que necessitavam.
O dia começava a declinar.
Então os Doze aproximaram-se e disseram-Lhe:
«Manda embora a multidão
para ir procurar pousada e alimento
às aldeias e casais mais próximos,
pois aqui estamos num local deserto».
Disse-lhes Jesus:
«Dai-lhes vós de comer».
Mas eles responderam:
«Não temos senão cinco pães e dois peixes…
Só se formos nós mesmos
comprar comida para todo este povo».
Eram de facto uns cinco mil homens.
Disse Jesus aos discípulos:
«Mandai-os sentar por grupos de cinquenta».
Assim fizeram e todos se sentaram.
Então Jesus tomou os cinco pães e os dois peixes,
ergueu os olhos ao Céu
e pronunciou sobre eles a bênção.
Depois partiu-os e deu-os aos discípulos,
para eles os distribuírem pela multidão.
Todos comeram e ficaram saciados;
e ainda recolheram doze cestos dos pedaços que sobraram.
"We'll always have Paris..." *
18 junho 2025
Vai um gin do Peter’s ?
CAMÕES EM NOVA IORQUE
Graças à Fundação portuguesa «Gaudium Magnum» foi constituída uma parceria artística com o Museu nova-orquino Hispanic Society Museum & Library para divulgar Camões no coração de Manhattan. A iniciativa conta também com o apoio da Embaixada de Portugal em Washington e do Instituto Camões. Começou, logo em Outubro de 2024, com uma conferência internacional sobre o poeta português, a que se seguirá a exposição «The Legacy of Luís de Camões: Portugal’s Greatest Poet | Hispanic Society of America», cuja inauguração decorrerá no próximo dia 26 de Junho terá inaugurada. Ficará patente até 3 de Setembro, no Terraço Audubon daquele museu da Broadway (between 155th and 156th Streets).
“Quem és tu, Camões?” Esta pergunta, feita ao lendário poeta português, convida-nos a reflectir sobre identidade, curiosidade e a busca pelo conhecimento. Para encerrar o programa desenvolvido pela Fundação e pela HSM&L de celebração dos 500 do nascimento de Camões, Isabel Almeida traz-nos uma exposição que investiga a vida, as viagens e o legado literário de Camões, um explorador tanto na poesia quanto na realidade.
O século XVI foi um período de transformações, uma era de Descobrimentos. Enquanto Portugal expandia a sua influência marítima, cartógrafos redesenhavam os mapas do mundo e a ciência florescia. Camões viveu essa época, capturando o espírito deste período em «Os Lusíadas», onde narra a viagem de Vasco da Gama à Índia. Inspirada na literatura clássica, mas profundamente moderna na sua visão, a sua obra épica expressa as tensões entre passado e presente, mito e realidade, exploração e introspecção.
Esta exposição ilustra como o mundo foi re-imaginado: como os continentes evoluíram na sua representação e como a cartografia influenciou as descrições poéticas dos mares de Camões. Quem é o verdadeiro herói de Os Lusíadas? Seria Vasco da Gama, a nação portuguesa ou o próprio Camões? Por meio de uma narrativa envolvente, a exposição examina a sua visão do heroísmo, desde o mítico Adamastor até às suas reflexões sobre destino, justiça e ambição humana.
Trata-se de uma obra que mistura a epopeia clássica com tradições ibéricas e sonetos líricos com uma crítica social afiada. Descubra como a sua poesia entrelaçou influências diversas, para criar um legado intemporal. Os visitantes são convidados a interagir de novas maneiras com as palavras e ideias camonianas, oferecendo uma nova perspectiva sobre o seu legado.
Junte-se a nós nesta viagem literária—onde as palavras se tornam mapas, a poesia encontra a história e a voz de Camões ecoa através do tempo.»
* * *
«THE LEGACY OF LUÍS DE CAMÕES: PORTUGAL’S GREATEST POET PORTUGAL’S GREATEST POET
At the close of the European Renaissance, when intellectual curiosity and scientific inquiry were flourishing, Luís de Camões, Portugal’s most celebrated poet, lived a life marked by travel and exploration.
To commemorate the 500th anniversary of Camões’ birth, the Gaudium Magnum Foundation and the Hispanic Society Museum and Library are strengthening their partnership through a public program of events. It comprises an exhibition featuring a selection of rare books related to Luís de Camões and a symposium highlighting the major contributions of European humanists and artists to the cultural dynamics of the sixteenth century.
His writings were deeply influenced by his experiences as a navigator for the Portuguese empire. Camões’ most renowned work, the epic poem “Os Lusiadas”, published in 1572, immortalizes Vasco da Gama’s historic discovery of the sea route to India. This seminal text, considered the most important work in Portuguese literature, masterfully recounts the journeys of Vasco da Gama, as well as those of Pero da Covilha and Afonso de Paiva.»
Numa curta-metragem, a curadora da exposição em Nova Iorque antecipa uma visita guiada ao seu conteúdo, maioritariamente constituído por monografias antigas, exibidas num Museu onde os Descobrimentos das duas potências da Península Ibérica merecem lugar de honra:
17 junho 2025
Poemas dos dias que correm
Vivo na esperança de um gesto
Vivo na esperança de um gesto
Que hás-de fazer.
Gesto, claro, é maneira de dizer,
Pois o que importa é o resto
Que esse gesto tem de ter.
Tem que ter sinceridade
Sem parecer premeditado;
E tem que ser convincente,
Mas de maneira diferente
Do discurso preparado.
Sem me alargar, não resisto
À tentação de dizer
Que o gesto não é só isto...
Quando tu, em confusão,
Sabendo que estou à espera,
Me mostras que só hesitas
Por não saber começar,
Que tentações de falar!
Porque enfim, como adivinhas,
Esse gesto eu sei qual é,
Mas se o disser, já não é...
Reinaldo Ferreira (Livro I - Um voo cego a nada)
Ela, a Poesia de hoje
Ela, a Poesia de hoje,
Como que foge
De si mesma e se dói
De ter sido algum dia
Meramente poesia.
Erra,
Solitária e solene,
Nos caminhos da terra,
E vitupera o céu
E o que ele encerra:
- Ah! morra! Ah! esqueça Orfeu!
Canta a grilheta, a enxada
E a madrugada
Dos dias que hão-de-vir,
E como frutos, cair
Em nossas mãos...
Fala no imperativo,
E tem por vocativo
- Irmão! Irmãos!
Mas longe,
E perto, porque em nós,
Onde uma fonte canta
Uma toada clara,
Um fauno sabe e ri,
Na pedra gasta e escura,
Um fim de riso
De ironia rara...
Reinaldo Ferreira (Livro I - Um voo cego a nada)
16 junho 2025
Da redenção pela dança
O que há de comum entre Namoro, uma música interpretada por Fausto Bordalo Dias (muito cá de casa, como se dizia dantes) e Bela Portuguesa, uma música interpretada por Marante, um cançonetista que nunca havia passado por este estabelecimento? E não, a resposta não é são ambas músicas...
Fausto canta a desdita de Benjamim na sua paixão por uma rapariga cujo nome nunca vem a saber-se. Benjamim manda-lhe uma carta em papel perfumado e ela diz que não; manda-lhe um cartão que o amigo Maninho tipografou e ela diz que não; manda-lhe um recado pela Zefa do sete e ela diz que não; pede um feitiço forte e seguro, e o feitiço falhou; oferece-lhe jóias, paga-lhe doces, afaga-lhe as mãos e fala-lhe de amor, e ela diz que não.
Já Marante assenta toda a sua canção num refrão forte, poderoso e ritmado:
És a linda portuguesa, com quem eu quero casar
Já corri mundo e não encontro outra igual com quem eu queira ficar
A mais formosa, mais gostosa das mulheres que Deus pode criar
A resposta à pergunta o que há de comum em ambas as músicas? poderia ser, então, esta ideia de procura da mulher desejada. A resposta não me satisfaria, gostava de atirar-me mais para fora de pé.
***
Passei a noite de Sábado em Vila Real de Santo António, onde já tinha estado, por duas vezes, em 2007. Celebram-se, um pouco por toda a parte, aquilo a que no Brasil se chamam as festas juninas e aqui não foi excepção: um dueto composto por um cançonetista e um tocador de acordeão (com a prestimosa colaboração de um gingarelho que marca batidas diversas) animou, de cima de um palco, as largas dezenas de pessoas que se reuniram na bonita praça Marquês de Pombal e a dúzia de casais que se atiraram ao espaço para dançar.
Metade dos casais que bailaram eram compostos por duas mulheres: duas raparigas novas, duas senhoras mais de idade, algumas talvez irmãs, outras apenas amigas. Nalguns aspectos, o mundo está igual: como há 50 anos ou mais, as senhoras, à falta de parceiro masculino, atiram-se à pista, sem vergonha nem pudor, para dançar uma valsa, uma marcha, um arremedo de tango ou de de kudoro. É, no fundo, o que sempre foi nestes espectáculos mais populares onde o preconceito não entra.
***
Volto à pergunta inicial: o que há de comum entre Namoro e a Bela Portuguesa? A resposta é simples: a redenção pela dança. A pista - ou o espaço indefinido onde se dançou - encheu-se com Marante a cantar a linda portuguesa com quem quer casar. Já Fausto termina de forma positiva a música que interpreta com maestria:
E num passo maluco voamos na sala
Qual uma estrela riscando o céu
E a malta gritou: Aí Benjamim!
Pedi-lhe um beijo
Lá-lá-láiá, ará-rá-lá
E ela disse que sim
Quando tudo o resto parece falhar, a dança redime-nos, seja para conquistar a rapariga com uma rumba, seja para dançar com quem nos dá mais gosto - ou que diz que sim.
JdB
15 junho 2025
Solenidade da Santíssima Trindade
EVANGELHO – Jo 16,12-15
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Tenho ainda muitas coisas para vos dizer,
mas não as podeis compreender agora.
Quando vier o Espírito da verdade,
Ele vos guiará para a verdade plena;
porque não falará de Si mesmo,
mas dirá tudo o que tiver ouvido
e vos anunciará o que está para vir.
Ele Me glorificará,
porque receberá do que é meu
e vo-lo anunciará.
Tudo o que o Pai tem é meu.
Por isso vos disse
que Ele receberá do que é meu
e vo-lo anunciará».
13 junho 2025
Dia de Santo António
Passeio de Santo António
Saíra Santo António do convento,
A dar o seu passeio costumado
E a decorar, num tom rezado e lento,
Um cândido sermão sobre o pecado.
Andando, andando sempre, repetia
O divino sermão piedoso e brando,
E nem notou que a tarde esmorecia,
Que vinha a noite plácida baixando…
E andando, andando, viu-se num outeiro,
Com árvores e casas espalhadas,
Que ficava distante do mosteiro
Uma légua das fartas, das puxadas.
Surpreendido por se ver tão longe,
E fraco por haver andado tanto,
Sentou-se a descansar o bom do monge,
Com a resignação de quem é santo…
O luar, um luar claríssimo nasceu.
Num raio dessa linda claridade,
O Menino Jesus baixou do céu,
Pôs-se a brincar com o capuz do frade.
Perto, uma bica de água murmurante
Juntava o seu murmúrio ao dos pinhais.
Os rouxinóis ouviam-se distante.
O luar, mais alto, iluminava mais.
.
De braço dado, para a fonte, vinha
Um par de noivos todo satisfeito.
Ela trazia ao ombro a cantarinha,
Ele trazia… o coração no peito.
Sem suspeitarem de que alguém os visse,
Trocaram beijos ao luar tranquilo.
O Menino, porém, ouviu e disse:
- Ó Frei António, o que foi aquilo?…
O Santo, erguendo a manga de burel
Para tapar o noivo e a namorada,
Mentiu numa voz doce como o mel:
- Não sei o que fosse. Eu cá não ouvi nada…
Uma risada límpida, sonora,
Vibrou em notas de oiro no caminho.
- Ouviste, Frei António? Ouviste agora?
- Ouvi, Senhor, ouvi. É um passarinho.
.
- Tu não estás com a cabeça boa…
Um passarinho a cantar assim!…
E o pobre Santo António de Lisboa
Calou-se embaraçado, mas por fim,
Corado como as vestes dos cardeais,
Achou esta saída redentora:
- Se o Menino Jesus pergunta mais,
… Queixo-me à sua mãe, Nossa Senhora!
Voltando-lhe a carinha contra a luz
E contra aquele amor sem casamento,
Pegou-lhe ao colo e acrescentou: - Jesus,
São horas… e abalaram pró convento.
Augusto Gil
12 junho 2025
Dos ventos Algarvios
Estou a banhos no Algarve. Felizmente estou sóbrio e a senilidade ainda não me bateu totalmente à porta, porque senão imaginar-me-ia no Guincho, tal a ventania. Cheguei à praia pouco passava das 5 da tarde - praia vazia... Ao longo dos alguns quilómetros que palmilhei na maré baixa, uma pessoa a tomar banho. Há uma esperança que mude, para que não corramos de dizer eh pá! Mais valia ficares no Guincho: tem ondas e é mais perto... Uma praia vazia tem encantos e estar a 10 minutos a pé do mar encantos ainda maiores, onde quer que seja.
JdB
11 junho 2025
do teu amor *
numas águas furtadas perdidas,
a cidade branca lá fora,e nós, poetas e poema 'in motion',
entretidos a ser felizes.
disse um poeta russo
que nada do que excluía a alegria lhe interessava.
dias houve, minha querida,
em que tudo o que te excluía me dizia nada vezes nada.
como disse outro poeta, daqueles a sério,
um mundo que te inclui não pode ser um mau mundo.
mas agora, em que restamos já só de memória,
isso vale um avo de mel coado - moeda fraca e incolor.
sobeja-nos o mistério - e a 'feérie' -
de um dia, num vão de escada, termos sido capazes
de reinventar (sujeito, complemento e predicado)
essa coisa do amor.
(e tudo isso e o seu contrário:
o que a vida tem de pior e de melhor)
incluo aqui os beatles, kafka, ruy belo,
mais os cinco violinos do sporting,
toda a música sacra,
nova iorque e a matemática,
o dia mais perfeito,
daqueles que fazem rimar agosto e calor.
nada, minha menina, nada de nada,
chega ao sabor da tua pele,
essa ideia desvairada e luzidia
de matar fome e sede e mágoa
com as migalhas do teu amor.
gi.
10 junho 2025
10 de Junho
O INFANTE
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma.
E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.
Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!
s.d.
Mensagem. Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 57.
***
Poema e imagem tirados daqui
09 junho 2025
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