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24 junho 2025

Poemas dos dias que correm

 A Força Exacta é Violência


a Força Exacta é violência. 
a Força em espirro, ao acaso, não é violência, é existência. 
O mal é Fixar a Força (direccioná-la) porque a natureza espontânea não o FAZ. 
Natural é ser FORTE, isto é, avançar. 
Violento é o Percurso que antecede o viajante. Antes dos pés: 
Sapatos; a estrada. 
A Força Exacta é violência. 
A natureza não tem, nunca teve, Forças EXACTAS. 
E tudo o que o homem faz é tornar exacta a FORÇA. 
Ser violento é construir; todo o Edifício é violência. 
O homem é o Exacto da Natureza; a falha NATURAL; o Erro. 
Deus errou: 
fez o homem EXACTO. 

Gonçalo M. Tavares, in "Investigações. Novalis"

***

Em Plena Vida e Violência

Em plena vida e violência 
De desejo e ambição, 
De repente uma sonolência 
Cai sobre a minha ausência. 
Desce ao meu próprio coração. 

Será que a mente, já desperta 
Da noção falsa de viver, 
Vê que, pela janela aberta, 
Há uma paisagem toda incerta 
E um sonho todo a apetecer ? 

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro" 

***

Da Violência

A violência que trazemos no sangue 
ninguém a sabe e todos (casas 
desmoronadas) a exaltam e todos 
a descombinamos 
gota a gota 
em nossos movimentos de cinza 
transitória — esta violência 
residual 
tem do corpo a secura a configuração 
cavada no sono na fogueira sem cor 
de cidades levantadas sobre a doença sobre 
a simulação 
de fogo suspenso 
no arame dos ossos — 

Casimiro de Brito, in "Negação da Morte" 

09 novembro 2023

Pensamentos dos dias que correm

A Vergonha e a Injustiça Não Existem na Natureza

A vergonha não existe na natureza. Os animais sabem a lei: a força, a força, a força. Quem é fraco cai e faz o que o forte quer. A inundação, as chuvas, o mamífero mais pesado e mais rápido e o mamífero pequeno. Os primatas, os répteis, os peixes maiores e os mais minúsculos, a cascata: já viste algum animal cair?, não há a mais breve compaixão entre os animais e a água, o mar engoliu milhares e milhares de cães desde o início do mundo. Não há a mais breve compaixão entre a água e as plantas, entre a terra que desaba e os pequenos animais acabados de nascer. A natureza avança com o que é forte e a cidade avança com o que é forte: qual a dúvida? Queres o quê?
Não há animais injustos, não sejas imbecil. Não há inundações injustas ou desabamentos da maldade. A injustiça não faz parte dos elementos da natureza, um cão sim, e uma árvore e a água enorme, mas a injustiça não. Se a injustiça se fizesse organismo: coisa que pode morrer, então, sim, faria parte da natureza.

Gonçalo M. Tavares, in "Um Homem: Klaus Klump"

23 agosto 2023

Pensamentos dos dias que correm

As Mulheres Sempre Foram Mais Minuciosas na Vingança

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As mulheres sempre foram mais
minuciosas na vingança — disse Bloom. Folheiam-na
sem saltar uma página. E tratam das unhas
antes de pegar no machado.
Pelo contrário, um homem com raiva
e ressentimento é atabalhoado, desastrado,
incapaz de encontrar a pronúncia perfeita da violência,

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como se pegasse em ferramentas
despropositadas: a charrua
para arrancar uma flor,
o martelo para ver mais perto.

Gonçalo M. Tavares, in "Uma Viagem à Índia"

***

Querer Vingar-se e Vingar-se

Ter um pensamento de vingança e realizá-lo significa apanhar um forte acesso de febre, mas que passa; ter, porém, um pensamento de vingança, sem força nem coragem para o realizar, significa trazer consigo um padecimento crónico, um envenenamento do corpo e da alma. A moral, que só olha para as intenções, avalia de igual maneira ambos os casos; em geral, considera-se o primeiro caso como pior (por causa das más consequências que o acto de vingança talvez traga consigo). Ambas as avaliações são de vistas curtas.

Friedrich Nietzsche, in 'Humano, Demasiado Humano'

22 junho 2020

Música e texto dos dias que correm



Sem Acção, de Nada Vale a Inteligência

Os conhecimentos ouvem-se, mas para agir a capacidade de audição é praticamente desprezável. Porque agir é estar próximo das coisas e ouvir é estar afastado das coisas. Alguém que apenas ouve será considerado um intruso no mundo, a Natureza não se sentirá ameaçada. Quem ouve poderá acumular conhecimentos, mas essa acumulação não lutará com a Natureza. Esta resiste bem à inteligência, ao raciocínio e à memória do Homem: todas estas qualidades intelectuais são assuntos que dizem respeito exclusivamente ao mundo da cidade, e o que ameaça a Natureza são as acções: os momentos em que os humandos abandonam a audição, e mesmo a linguagem do discurso, e passam a querer falar com o tacto: o único que pode alterar as coisas.

Se os homens, mantendo a sua inteligência incorrupta, fossem seres imóveis, incapazes de qualquer movimento, seriam ainda hoje menos poderosos do que um único metro quadrado de terra espontâneo. Poderiam possuir um grau de aperfeiçoamento no pensamento abstracto, matemático e lógico, mas não deixariam de ser uma espécie secundária ao lado das outras: as possuidoras de movimento. Qualquer cão mesquinho mijaria nas pernas de um homem inteligente, mas imóvel.

Gonçalo M. Tavares, in "Um Homem: Klaus Klump"

18 junho 2019

Poemas dos dias que correm

A Minha Religião é o Novo

A minha Religião é o Novo.
Este dia, por exemplo; o pôr do Sol,
estas invenções habituais: o Mar.
Ainda:
os cisnes a Ralhar com a água. A Rapariga mais bonita que
ontem.
Deus como habitante único.
Todos somos estrangeiros a esta Região, cujo único habitante
verdadeiro é Deus (este bem podia ser o Rótulo do nosso
Frasco).
Dele também se podia dizer, como homenagem:
Hóspede discreto.
Ou mais pomposamente:
O Enorme Hóspede discreto.
Ou dizer ainda, para demorar Deus mais tempo nos lábios ou
neste caso no papel, na escrita, dizer ainda, no seu epitáfio que
nunca chega, que nunca será útil, dizer dele:
em todo o lado é hóspede,
e em todo o lado é Discreto.

Gonçalo M. Tavares, in "Investigações. Novalis"

***

A Força Exacta é Violência

a Força Exacta é violência.
a Força em espirro, ao acaso, não é violência, é existência.
O mal é Fixar a Força (direccioná-la) porque a natureza espon-
tânea não o FAZ.
Natural é ser FORTE, isto é, avançar.
Violento é o Percurso que antecede o viajante. Antes dos pés:
Sapatos; a estrada.
A Força Exacta é violência.
A natureza não tem, nunca teve, Forças EXACTAS.
E tudo o que o homem faz é tornar exacta a FORÇA.
Ser violento é construir; todo o Edifício é violência.
O homem é o Exacto da Natureza; a falha NATURAL; o Erro.
Deus errou:
fez o homem EXACTO.

Gonçalo M. Tavares, in "Investigações. Novalis"

03 novembro 2016

Poemas dos dias que correm

A Força Exacta é Violência

a Força Exacta é violência. 
a Força em espirro, ao acaso, não é violência, é existência. 
O mal é Fixar a Força (direccioná-la) porque a natureza espontânea não o FAZ. 
Natural é ser FORTE, isto é, avançar. 
Violento é o Percurso que antecede o viajante. Antes dos pés: 
Sapatos; a estrada. 
A Força Exacta é violência. 
A natureza não tem, nunca teve, Forças EXACTAS. 
E tudo o que o homem faz é tornar exacta a FORÇA. 
Ser violento é construir; todo o Edifício é violência. 
O homem é o Exacto da Natureza; a falha NATURAL; o Erro. 
Deus errou: 
fez o homem EXACTO. 

Gonçalo M. Tavares, in "Investigações. Novalis"

***

Em Plena Vida e Violência

Em plena vida e violência 
De desejo e ambição, 
De repente uma sonolência 
Cai sobre a minha ausência. 
Desce ao meu próprio coração. 

Será que a mente, já desperta 
Da noção falsa de viver, 
Vê que, pela janela aberta, 
Há uma paisagem toda incerta 
E um sonho todo a apetecer ? 

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro" 

***

Da Violência

A violência que trazemos no sangue 
ninguém a sabe e todos (casas 
desmoronadas) a exaltam e todos 
a descombinamos 
gota a gota 
em nossos movimentos de cinza 
transitória — esta violência 
residual 
tem do corpo a secura a configuração 
cavada no sono na fogueira sem cor 
de cidades levantadas sobre a doença sobre 
a simulação 
de fogo suspenso 
no arame dos ossos — 

Casimiro de Brito, in "Negação da Morte" 

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