As melhores viagens são, por vezes, aquelas em que partimos ontem e regressamos muitos anos antes
12 setembro 2025
16 junho 2025
Da redenção pela dança
O que há de comum entre Namoro, uma música interpretada por Fausto Bordalo Dias (muito cá de casa, como se dizia dantes) e Bela Portuguesa, uma música interpretada por Marante, um cançonetista que nunca havia passado por este estabelecimento? E não, a resposta não é são ambas músicas...
Fausto canta a desdita de Benjamim na sua paixão por uma rapariga cujo nome nunca vem a saber-se. Benjamim manda-lhe uma carta em papel perfumado e ela diz que não; manda-lhe um cartão que o amigo Maninho tipografou e ela diz que não; manda-lhe um recado pela Zefa do sete e ela diz que não; pede um feitiço forte e seguro, e o feitiço falhou; oferece-lhe jóias, paga-lhe doces, afaga-lhe as mãos e fala-lhe de amor, e ela diz que não.
Já Marante assenta toda a sua canção num refrão forte, poderoso e ritmado:
És a linda portuguesa, com quem eu quero casar
Já corri mundo e não encontro outra igual com quem eu queira ficar
A mais formosa, mais gostosa das mulheres que Deus pode criar
A resposta à pergunta o que há de comum em ambas as músicas? poderia ser, então, esta ideia de procura da mulher desejada. A resposta não me satisfaria, gostava de atirar-me mais para fora de pé.
***
Passei a noite de Sábado em Vila Real de Santo António, onde já tinha estado, por duas vezes, em 2007. Celebram-se, um pouco por toda a parte, aquilo a que no Brasil se chamam as festas juninas e aqui não foi excepção: um dueto composto por um cançonetista e um tocador de acordeão (com a prestimosa colaboração de um gingarelho que marca batidas diversas) animou, de cima de um palco, as largas dezenas de pessoas que se reuniram na bonita praça Marquês de Pombal e a dúzia de casais que se atiraram ao espaço para dançar.
Metade dos casais que bailaram eram compostos por duas mulheres: duas raparigas novas, duas senhoras mais de idade, algumas talvez irmãs, outras apenas amigas. Nalguns aspectos, o mundo está igual: como há 50 anos ou mais, as senhoras, à falta de parceiro masculino, atiram-se à pista, sem vergonha nem pudor, para dançar uma valsa, uma marcha, um arremedo de tango ou de de kudoro. É, no fundo, o que sempre foi nestes espectáculos mais populares onde o preconceito não entra.
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Volto à pergunta inicial: o que há de comum entre Namoro e a Bela Portuguesa? A resposta é simples: a redenção pela dança. A pista - ou o espaço indefinido onde se dançou - encheu-se com Marante a cantar a linda portuguesa com quem quer casar. Já Fausto termina de forma positiva a música que interpreta com maestria:
E num passo maluco voamos na sala
Qual uma estrela riscando o céu
E a malta gritou: Aí Benjamim!
Pedi-lhe um beijo
Lá-lá-láiá, ará-rá-lá
E ela disse que sim
Quando tudo o resto parece falhar, a dança redime-nos, seja para conquistar a rapariga com uma rumba, seja para dançar com quem nos dá mais gosto - ou que diz que sim.
JdB
15 novembro 2021
Singularidades de uma rapariga loira
25 maio 2021
Da dança como conhecimento
Luciano de Samósata (Samósata, 125 - Alexandria, 181) terá dito da dança (e traduzo livremente):
É o cume de todo o conhecimento, superior, mesmo, à filosofia.
Friedrich Nietzsche, por seu lado, afirmou que:
Só acreditarei num deus que saiba dançar.
A afirmação de que a dança não é apenas um caminho para o conhecimento, mas que constitui um tipo de conhecimento, superior, mesmo, ao conhecimento trazido pela filosofia, é uma afirmação séria - e interessante. Considerar que a dança, movimento organizado, é superior à ética, é desafiante. Significa duas coisas: ou que se dança pior do que se dançava há 2000 anos, ou que se sabe tanto (ou mesmo mais) do que se sabia há 2000 anos. Sabemos mais ou menos do que sabíamos há 2000 anos?
Porque dançam as pessoas?
Para fazer a vontade a quem as desafia para tal;
como entretém - afectivo ou não;
como expurgação de demónios internos;
como repetição de movimentos ancestrais e tribais.
Conseguimos que estes quatro motivos se entrecruzem com o conhecimento?
JdB
22 abril 2021
Duas Últimas
Estou certo de que dancei Sylvia's Mother cantado pelo Dr. Hook. É uma música de 1972, e eu estava na fase de pedir para dançar, de dançar, e de agradecer a dança. Entre o pedir e o agradecer, um slow de quatro minutos com uma rapariga da minha idade, do meu grupo de amigos, com o cabelo a cheirar a Timotei, talvez, a ser mais ou menos comedida no aperto de dois corpos juvenis. Não havia nunca maldade, apenas um gosto (ou uma necessidade) de sentir um corpo próximo, quase imóvel, uma perspectiva de qualquer coisa ou de coisa nenhuma. Talvez fosse apenas uma música de que se gostava, numa altura em que dançar muito junto era uma emoção que não se consegue descrever à luz do vocabulário de hoje.
Algumas músicas sei com quem dancei; esta não me lembro. Mas que dancei, estou certo que dancei. E Também cantei, porque cantávamos o que dançávamos, embora nem sempre percebêssemos o que cantávamos. A frase Sylvia's Mother, permanentemente repetida, está bem presente na minha memória, juntamente com a melodia.
Ler o poema - e coloco-o a seguir ao youtube - dá uma ideia precisa do que cantávamos: a mediação de uma mãe entre a sua filha e um pretendente. Nunca saberemos se a mãe de Sylvia a protegia ou se protegia a si própria; nunca saberemos se Sylvia foi feliz com o homem de Galveston, ou se preferia aquele que se quer despedir dela e de quem a mãe a afasta. Nunca saberemos isso, como nunca saberemos muitas coisas que se passaram no passado, porque foi assim e como teria sido se fosse diferente.
Nota: como explicamos à gente de agora o que era um período de telefone, o que era por moedas numa máquina para podermos falar mais três minutos?
JdB
Sylvia's Mother
Too busy to come to the phone
Sylvia's mother says Sylvia's trying
To start a new life of her own
Sylvia's mother says Sylvia's happy
So why don't you leave her alone?
And the operator says forty cents more
For the next three minutes
I'll only keep her awhile
Please, Mrs. Avery, I just want to tell her goodbye
She's gonna be leaving today
Sylvia's mother says Sylvia's marrying
A fella down Galveston way
Sylvia's mother says please don't say nothing
To make her start crying and stay
And the operator says forty cents more
For the next three minutes
I'll only keep her awhile
Please, Mrs. Avery, I just want to tell her goodbye
She's catching the nine o'clock train
Sylvia's mother says take your umbrella
'Cause, Sylvie, it's starting to rain
And Sylvia's mother says thank you for calling
And, sir, won't you call back again?
And the operator says forty cents more
For the next three minutes
I'll only keep her a while
Please, Mrs. Avery, I just want to tell her goodbye
Tell her goodbye
Please, tell her goodbye
02 outubro 2020
Da dança e do sexo
Não me atirei a investigar a história da dança: não as danças de palco, mas as danças de salão. Não sei, por isso, quando é que nasceu a dança em casal. Sei, isso sim, quando acabou - e sei o que isso fez de mal à civilização.
Como já tive oportunidade de referir bastas vezes neste estabelecimento, olho para a dança com os meus olhos - e isso parece-me um enorme lugar-comum. Ver algumas pessoas numa pista de dança é perceber que a agitação do corpo ao som de uma música - ou apenas de um pau que bate num balde de metal - é algo de muito antigo, que se perde na escuridão dos tempos. Não sendo especialista na matéria (já fui especialista em matéria vaga, agora nem isso) vou presumir que a dança é como os filisteus: sempre houve, no raciocínio de um néscio que existiu. Seja para afugentar espíritos, seja para convocar os deuses, para dar sorte ou para esconjurar o mal, a raça humana já se agitava ainda antes de usar o fogo no seu quotidiano.
Há uma semelhança interessante entre a dança e o sexo. Vou imaginar que há milhares de anos, os habitantes da Terra, depois de se terem agitado freneticamente à volta de uma fogueira, não escolheriam uma parceira com quem ir para a caverna de mão dada. O sexo era procriação, tal como a dança era exorcismo. A palavra par não tinha sido ainda inventada para o movimento mais ou menos coordenado dos corpos. Tudo era mais ou menos grupal.
Não sei o que provocou a dança em casal,
(e é o facto de não saber que me permite escrever este ror de disparates)
o que sei é que há um momento de perfeição na existência do mundo em que dança e sexo atingem o seu ápice em conjunto: é aquele fugaz momento
(e terá existido mesmo?)
em que as pessoas gostavam de dançar com uma determinada pessoa e que gostavam de fazer amor com uma determinada pessoa: uma espécie de fidelidade a atingir um pináculo. Depois, a partir de uma certa altura, a dança em casal terminou, como terminou uma certa vontade de fidelidade. Dança-se em grupo, onde as relações físicas são fluidas. Engana-se a pessoa com quem mantemos um vínculo afectivo, porque também as relações humanas são fluidas.
Dançar é um momento afectivo; fazer amor é um momento afectivo. Fazer ambas as actividades com outra pessoa que não aquela com quem escolhemos partilhar a vida pode ser um momento de perdição. Talvez por isso tenham acabado com as danças de agarração, como se diria num certo tempo.
JdB
23 maio 2019
Crónicas de Praga
JdB
08 abril 2019
Da cacofonia dos nomes e da dança
10 fevereiro 2017
Da dança
Acerca de mim
- JdB
- Estoril, Portugal


