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16 junho 2025

Da redenção pela dança

 

O que há de comum entre Namoro, uma música interpretada por Fausto Bordalo Dias (muito cá de casa, como se dizia dantes) e Bela Portuguesa, uma música interpretada por Marante, um cançonetista que nunca havia passado por este estabelecimento? E não, a resposta não é são ambas músicas...

Fausto canta a desdita de Benjamim na sua paixão por uma rapariga cujo nome nunca vem a saber-se. Benjamim manda-lhe uma carta em papel perfumado e ela diz que não; manda-lhe um cartão que o amigo Maninho tipografou e ela diz que não; manda-lhe um recado pela Zefa do sete e ela diz que não; pede um feitiço forte e seguro, e o feitiço falhou; oferece-lhe jóias, paga-lhe doces, afaga-lhe as mãos e fala-lhe de amor, e ela diz que não.

Já Marante assenta toda a sua canção num refrão forte, poderoso e ritmado:

Eu sei, eu sei
És a linda portuguesa, com quem eu quero casar
Já corri mundo e não encontro outra igual com quem eu queira ficar
A mais formosa, mais gostosa das mulheres que Deus pode criar 
 

A resposta à pergunta o que há de comum em ambas as músicas? poderia ser, então, esta ideia de procura da mulher desejada. A resposta não me satisfaria, gostava de atirar-me mais para fora de pé.

***

Passei a noite de Sábado em Vila Real de Santo António, onde já tinha estado, por duas vezes, em 2007. Celebram-se, um pouco por toda a parte, aquilo a que no Brasil se chamam as festas juninas e aqui não foi excepção: um dueto composto por um cançonetista e um tocador de acordeão (com a prestimosa colaboração de um gingarelho que marca batidas diversas) animou, de cima de um palco, as largas dezenas de pessoas que se reuniram na bonita praça Marquês de Pombal e a dúzia de casais que se atiraram ao espaço para dançar.

Metade dos casais que bailaram eram compostos por duas mulheres: duas raparigas novas, duas senhoras mais de idade, algumas talvez irmãs, outras apenas amigas. Nalguns aspectos, o mundo está igual: como há 50 anos ou mais, as senhoras, à falta de parceiro masculino, atiram-se à pista, sem vergonha nem pudor, para dançar uma valsa, uma marcha, um arremedo de tango ou de de kudoro. É, no fundo, o que sempre foi nestes espectáculos mais populares onde o preconceito não entra. 

***

Volto à pergunta inicial: o que há de comum entre Namoro e a Bela Portuguesa? A resposta é simples: a redenção pela dança. A pista - ou o espaço indefinido onde se dançou - encheu-se com Marante a cantar a linda portuguesa com quem quer casar. Já Fausto termina de forma positiva a música que interpreta com maestria:

Tocaram uma rumba e dancei com ela
E num passo maluco voamos na sala
Qual uma estrela riscando o céu
E a malta gritou: Aí Benjamim!

Olhei-a nos olhos, sorriu para mim
Pedi-lhe um beijo
Lá-lá-láiá, ará-rá-lá
E ela disse que sim

Quando tudo o resto parece falhar, a dança redime-nos, seja para conquistar a rapariga com uma rumba, seja para dançar com quem nos dá mais gosto - ou que diz que sim. 

JdB 

15 novembro 2021

Singularidades de uma rapariga loira

 


Há pouco mais de 13 anos, a passar dois meses no Zimbabwe, fui a uma festa em Harare. Cantava uma senhora local (hei-de lembrar-me do nome para trazê-la de novo ao estabelecimento) tendo-se-lhe juntado alguns locais para dançar. De repente, e seguramente impulsionada pelo clima de um continente onde o pecado é apenas uma palavra e os corpos têm uma sensualidade entusiasmante, uma holandesa atirou-se ao palco para dançar também. Não falo do contraste claro - escuro, de pessoas de cor com uma loira de permeio; falo do contraste entre o ritmo, a sexualidade quase explícita, o casamento perfeito e dengoso entre música e movimento dos africanos, e o esforço saudável e meritório de uma rapariga frísia a tentar o seu melhor.

Sway é um cha-cha-cha, parece-me. Nem Dean Martin nem Colin Firth - um actor que suscita suspiros por aí - são latino-americanos. Dean Martin, no entanto, canta bem tudo - de uma toada de cowboys a uma música italiana - sobretudo com aquela voz sensual, já meio alcoólica, com falhas que suscitariam olés!, fosse esse o caso. Já Colin Firth (de quem eu me lembro dizer bonita Aurélia, a uma Lúcia Moniz vestida de serviçal natalícia) tem a singularidade de uma rapariga loira no meio de zimbabueanos.

Oiçam, acima de tudo. Também podem ver, mas é menos importante.

JdB

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retirei a idea para este texto aqui.
 

25 maio 2021

Da dança como conhecimento

Luciano de Samósata (Samósata, 125 - Alexandria, 181) terá dito da dança (e traduzo livremente): 

É o cume de todo o conhecimento, superior, mesmo, à filosofia.

Friedrich Nietzsche, por seu lado, afirmou que:

Só acreditarei num deus que saiba dançar.

A afirmação de que a dança não é apenas um caminho para o conhecimento, mas que constitui um tipo de conhecimento, superior, mesmo, ao conhecimento trazido pela filosofia, é uma afirmação séria - e interessante. Considerar que a dança, movimento organizado, é superior à ética, é desafiante. Significa duas coisas: ou que se dança pior do que se dançava há 2000 anos, ou que se sabe tanto (ou mesmo mais) do que se sabia há 2000 anos. Sabemos mais ou menos do que sabíamos há 2000 anos?

Porque dançam as pessoas? 

Para fazer a vontade a quem as desafia para tal;

como entretém - afectivo ou não;

como expurgação de demónios internos;

como repetição de movimentos ancestrais e tribais.

Conseguimos que estes quatro motivos se entrecruzem com o conhecimento?

JdB  

22 abril 2021

Duas Últimas

Estou certo de que dancei Sylvia's Mother cantado pelo Dr. Hook. É uma música de 1972, e eu estava na fase de pedir para dançar, de dançar, e de agradecer a dança. Entre o pedir e o agradecer, um slow de quatro minutos com uma rapariga da minha idade, do meu grupo de amigos, com o cabelo a cheirar a Timotei, talvez, a ser mais ou menos comedida no aperto de dois corpos juvenis. Não havia nunca maldade, apenas um gosto (ou uma necessidade) de sentir um corpo próximo, quase imóvel, uma perspectiva de qualquer coisa ou de coisa nenhuma. Talvez fosse apenas uma música de que se gostava, numa altura em que dançar muito junto era uma emoção que não se consegue descrever à luz do vocabulário de hoje. 

Algumas músicas sei com quem dancei; esta não me lembro. Mas que dancei, estou certo que dancei. E Também cantei, porque cantávamos o que dançávamos, embora nem sempre percebêssemos o que cantávamos. A frase Sylvia's Mother, permanentemente repetida, está bem presente na minha memória, juntamente com a melodia.

Ler o poema - e coloco-o a seguir ao youtube - dá uma ideia precisa do que cantávamos: a mediação de uma mãe entre a sua filha e um pretendente. Nunca saberemos se a mãe de Sylvia a protegia ou se protegia a si própria; nunca saberemos se Sylvia foi feliz com o homem de Galveston, ou se preferia aquele que se quer despedir dela e de quem a mãe a afasta. Nunca saberemos isso, como nunca saberemos muitas coisas que se passaram no passado, porque foi assim e como teria sido se fosse diferente. 

Nota: como explicamos à gente de agora o que era um período de telefone, o que era por moedas numa máquina para podermos falar mais três minutos?

JdB

Sylvia's mother says Sylvia's busy
Too busy to come to the phone
Sylvia's mother says Sylvia's trying
To start a new life of her own
Sylvia's mother says Sylvia's happy
So why don't you leave her alone?
And the operator says forty cents more
For the next three minutes
Please, Mrs. Avery, I just gotta talk to her
I'll only keep her awhile
Please, Mrs. Avery, I just want to tell her goodbye
Sylvia's mother says Sylvia's packing
She's gonna be leaving today
Sylvia's mother says Sylvia's marrying
A fella down Galveston way
Sylvia's mother says please don't say nothing
To make her start crying and stay
And the operator says forty cents more
For the next three minutes
Please, Mrs. Avery, I just gotta talk to her
I'll only keep her awhile
Please, Mrs. Avery, I just want to tell her goodbye
Sylvia's mother says Sylvia's hurrying
She's catching the nine o'clock train
Sylvia's mother says take your umbrella
'Cause, Sylvie, it's starting to rain
And Sylvia's mother says thank you for calling
And, sir, won't you call back again?
And the operator says forty cents more
For the next three minutes
Please, Mrs. Avery, I just gotta talk to her
I'll only keep her a while
Please, Mrs. Avery, I just want to tell her goodbye
Tell her goodbye
Please, tell her goodbye

02 outubro 2020

Da dança e do sexo

Não me atirei a investigar a história da dança: não as danças de palco, mas as danças de salão. Não sei, por isso, quando é que nasceu a dança em casal. Sei, isso sim, quando acabou - e sei o que isso fez de mal à civilização.

Como já tive oportunidade de referir bastas vezes neste estabelecimento, olho para a dança com os meus olhos - e isso parece-me um enorme lugar-comum. Ver algumas pessoas numa pista de dança é perceber que a agitação do corpo ao som de uma música - ou apenas de um pau que bate num balde de metal - é algo de muito antigo, que se perde na escuridão dos tempos. Não sendo especialista na matéria (já fui especialista em matéria vaga, agora nem isso) vou presumir que a dança é como os filisteus: sempre houve, no raciocínio de um néscio que existiu. Seja para afugentar espíritos, seja para convocar os deuses, para dar sorte ou para esconjurar o mal, a raça humana já se agitava ainda antes de usar o fogo no seu quotidiano. 

Há uma semelhança interessante entre a dança e o sexo. Vou imaginar que há milhares de anos, os habitantes da Terra, depois de se terem agitado freneticamente à volta de uma fogueira, não escolheriam uma parceira com quem ir para a caverna de mão dada. O sexo era procriação, tal como a dança era exorcismo. A palavra par não tinha sido ainda inventada para o movimento mais ou menos coordenado dos corpos. Tudo era mais ou menos grupal.

Não sei o que provocou a dança em casal, 

(e é o facto de não saber que me permite escrever este ror de disparates)

o que sei é que há um momento de perfeição na existência do mundo em que dança e sexo atingem o seu ápice em conjunto: é aquele fugaz momento 

(e terá existido mesmo?)

em que as pessoas gostavam de dançar com uma determinada pessoa e que gostavam de fazer amor com uma determinada pessoa: uma espécie de fidelidade a atingir um pináculo. Depois, a partir de uma certa altura, a dança em casal terminou, como terminou uma certa vontade de fidelidade. Dança-se em grupo, onde as relações físicas são fluidas. Engana-se a pessoa com quem mantemos um vínculo afectivo, porque também as relações humanas são fluidas.

Dançar é um momento afectivo; fazer amor é um momento afectivo. Fazer ambas as actividades com outra pessoa que não aquela com quem escolhemos partilhar a vida pode ser um momento de perdição. Talvez por isso tenham acabado com as danças de agarração, como se diria num certo tempo.  

JdB    

   

23 maio 2019

Crónicas de Praga


Emily, francesa, tinha 5 anos quando lhe foi diagnosticada uma leucemia. Foi tratada (talvez transplante, já não sei bem) mas, aos 10 anos, surgiram complicações. Os dois ou três anos seguintes foram dramáticos, tendo sido dada como (quase) perdida. Foi submetida a um tratamento inovador e, poucos meses depois, estava na escola. Poucos anos depois subia a uma montanha com 3.000 metros, empunhando uma bandeira onde se podia ler: "a chacun son Everest". 

Desde 2009, talvez (e a nível internacional, porque a nível nacional já levo mais tempo) que vou assistindo aos "everests" de muita gente: gente que sobe, gente que fraqueja, gente que parte na caminhada. Acho sempre - e repito-o muito, porque me esqueço - que estes "everests" me devem ficar na memória, para relativizar as minhas montanhas aparentemente tão grandes. Grande é o "everest" de Emily e o de muitas outras pessoas como ela; as nossas montanhas, por mais altas que nos pareçam, são sempre coisinhas poucas.


Ver gente a dançar em Praga (oncologistas pediátricos, investigadores, pais, membros de associações, sobreviventes - de todos os cantos da Europa) é o mesmo que ver gente a dançar na Quinta do Lago ou num casamento de gente rica de Lisboa: são as mulheres que mais dançam, que se agitam freneticamente até ao limite. Mas em todos - mulheres, mas também homens - há um denominador muito comum: a dança como manifestação primitiva de expulsão de demónios, de toxinas, de cansaços. Há gente que dança bem, há gente que dança sem ritmo ao som de uma música que não ouviria em casa. Talvez seja a reacção a um dia de trabalhos em que se fala de cancro em crianças, de taxas de sobrevivência, de remédios que tiram as dores e que não são dados universalmente nesta Europa dos direitos dos animais, das não ofensas ao Islão, das ideologias de género. Eu sei que isto é uma grande misturada, mas o estabelecimento é meu. E sim, dancei, com gente da minha idade - uma espanhola e uma holandesa.


Estar em Praga é voltar a um sítio bonito, que continua a encantar-me. Estar em Praga é conviver com tudo: com a gargalhada, com o encontro de amigos, com a gente que se conhece, com a estatística que ofende, com a quantidade de pessoas que, podendo embelezar cirurgicamente o corpo de mulheres já de si bonitas, optam por tratar o cancro em crianças, ou com pessoas que foram afectadas por isto - pais ou sobreviventes - e que fazem disto uma (quase) cruzada.

JdB 

08 abril 2019

Da cacofonia dos nomes e da dança

Chamava-se Amílcar Carlos e tinha um olho de cada cor. Se não era sensível à heterocromia dos olhos era sensível à cacofonia da identidade. Dizer o nome era uma espécie de gaguez inexistente que nunca perdoou aos pais, pese embora eles lhe terem dito que o segundo nome próprio Carlos era uma tradição de família. Não sendo uma tradição dramática, nem lhe tendo provocado graves inconvenientes, levou-o a pensar nisto: há estética nos nomes ou somos vencidos pela tradição apenas? Amílcar Carlos? Que sentido fazia esta junção onomástica?

Não obstante esta estranheza (o olho de cada cor era uma característica) Amílcar seguiu a sua vida. Formou-se em Contabilidade e cumpriu o seu serviço militar obrigatório com correcção e bonomia. Não se fez notar para além das noites num clube local, onde lhe puseram a alcunha Valsinhas, embora fosse mais dado às danças africanas, carregadas de uma sensualidade que ele imaginava, pois nunca havia provado. No regresso à vida civil empregou-se como contabilista numa pequena unidade industrial do Seixal. Gostava do rigor dos números e atribuía o sucesso da sua função a isso mesmo - o rigor. Sempre lhe fizera confusão aquelas pessoas que, entrevistadas pela qualidade do café que tiram, respondem à pergunta sobre o que os diferencia dos outros: o amor, dizem. Como se numa máquina o amor se sobrepusesse à qualidade da matéria-prima, à afinação da temperatura / pressão e à limpeza das peças móveis. 

Casou com Rosália, com quem se cruzara num encontro de jovens promovido pela paróquia local. Juntos viajaram pelo país, dançaram muito e com gosto, lancharam caracóis a ver o mar e passearam de braço dado pelos largos de província. Desse casamento nasceu a Júlia, que emigrara para o Canadá atrás de uma carreira como higienista oral e de um jovem de Winnipeg que conhecera num simpósio em Badajoz intitulado: fio dental. Que desafios para o futuro? A vida do casal sem a filha foi entrando num espiral rotineira feita de desinteresses, de ausências, de balancetes a desoras e de séries de televisão cujo principal encanto é o preenchimento de silêncios incómodos. Foi então que Amilcar Carlos se cruzou profissionalmente com Carla Laura. Não o encantaram os olhos azuis, as pernas longas, o cabelo encaracolado e curto. Foi o nome: Carla Laura era Amílcar Carlos no feminino - e duas cacofonias juntas eram uma espécie de fórmula matemática: menos com menos dá mais. Seis meses depois beijavam-se pela primeira vez, tocavam-se pela primeira vez, conheciam-se biblicamente pela primeira vez. O contabilista esquecia a ausência da boca da mulher na boca de outra mulher. Não teve a sensação do pecado nem do desrespeito. Teve a sensação da sensualidade exaltante, juvenil, feita de futuros inimagináveis e borboletas no estômago. Separou-se.

Carla Laura gostava das praças, de caracóis, de matinés no cinema, de viajar de comboio e de conversar. Gostava de beijar Amílcar, de lhe fazer bolos de côco, de rir muito no segundo copo de vinho e de fingir interessar-se pela contabilidade de uma pequena unidade industrial do Seixal. Passeavam de mão dada e falavam de tudo e de nada. E falavam de ir a um clube dançar. Amílcar sentiu um ínfimo torcer de dedos de Carla, um microscópico desviar de olhos, uma desatenção. Não ligou, mas sentiu o possível desacerto no ritmo. Uma semana depois, num clube da margem sul, o contabilista encostou-se ofegante a uma coluna, enquanto a sala se agitava aos som dos Boney M. Carla não gostava de dançar mas, pior do que isso, não sabia dançar: era desajeitada, insípida, desinteressada, sem química nem física. Amílcar fez o deve e o haver num instante: não havia futuro.

Seis meses depois (seria uma progressão aritmética?) escrevia à mulher: posso viver com a ausência dos teus beijos, procurando outros; posso viver com a ausência do teu corpo, procurando outro. Não sei viver com a ausência do teu ritmo. Posso voltar para casa?

JdB   

10 fevereiro 2017

Da dança

Gosto desta ideia construída em proporções incertas de arrojo e banalidade: a dança precede a música. Isto quer dizer, para quem tem mais dificuldade em perceber os meandros obscuros do meu pensamento, que antes de se ter inventado a música (e não sei bem quando se inventou) já se dançava. Melhor, já se abanava o corpo, movimento primitivo - sem acompanhamento musical - que deu origem, mais tarde, ao tango, ao bolero, ao rock, à valsa vienense ou inglesa, ao sapateado e à chula do Minho. A música, na sua ligação com a dança, eliminou o ridículo de uma agitação frenética e sem sequência lógica e conferiu a essa agitação um carácter sensual que os tempo modernos eliminaram de vez, como num tempo qualquer se fez com a varíola. Se a doença já só existe em frascos, a dança amorosa só existe em sítios obscuros, com tendência para a eliminação por via do ridículo e da idade avançada dos seus defensores.

A agitação do corpo é incivilizada e crente, desprovida de sentimentos nobres a não ser o temor, agradecimento ou pedido a uma transcendência que não se sabe o que é ou quem é, que forma tem, ou o que fez mais para além da suave rotina das estações do ano. Agita o corpo quem é religioso, isto é, aquele que quer religar-se a algo que o transcende. A agitação evoca o divino. A invenção da música, sobretudo aquela que suscita o pensamento pecaminoso decorrente de dois corpos que se tocam (e o slow dos anos 70 é o minuete do séc. XVII) veio eliminar essa religação, veio dar-lhe uma corporalidade que é a mãe de muitos vícios. Já não se dança (no sentido de agitação do corpo) por temor, devoção ou pedido. Dança-se por lascívia, luxúria, pecado da carne. A música que se dança, essa infâmia que se atravessa na civilização, é a culpa de muitos erros cuja gravidade foi escamoteada pelo surgimento do telemóvel, ipad, desaparecimento da casa de jantar, carreira da mulher, substituição do sexo por género e acesso generalizado aos aviões e às praias. 

Dançar a dois está na iminência da proibição, com um fervor idêntico ao que proíbe o cigarro electrónico, o consumo de açúcar em excesso, os castigos corporais e a caça com arco e flecha. Curiosamente, por um duplo motivo - o ridículo e o imoral, uma parceria que não é vulgar, um pouco como se D. Juan ou o Sr. Casanova fossem estrábicos, ou tropeçassem sempre que desafiam uma senhora casada à tentação da infidelidade. Dançar em grupo é possível, desde que ninguém toque em ninguém, ninguém olhe para ninguém, ninguém deseje ninguém. A cegueira do grupo, a impessoalidade da turba ululante é o que separa a dança primitiva de uma orgia ao som da cítara. 

Hoje deu-me para isto. Agitem-se sensualmente e freneticamente e pecaminosamente e ridiculamente com o vosso significant other ao som da música abaixo, cujo ritmo começa aos dois minutos. Não aceitem grupos, que é uma das pragas dos tempos modernos. Um com uma, que até o ridículo pode ser amoroso.

JdB

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