quarta-feira, 13 de março de 2013

Diário de uma astróloga – [47] –13 de Março de 2013


Sob a influência de Neptuno

Hoje, sobre que assunto escrever? Dada a quantidade de planetas em Peixes (ver post anterior), sobre Neptuno naturalmente. Possibilidades:

a) Comentar a maré de indignação de 2 de Março incluindo a foto do número de pessoas exagerado
b) Descrever a confusão da situação politica italiana
c) Informar sobre a “sequestration” (palavra de casa 12 /Peixes) em vigor nos EUA
d) Narrar a experiência da morte recente de uma amiga

Hesito – vou ligar a rádio para inspiração…  oh não…  o programa da minha estação favorita é sobre bactérias super resistentes (por se espalharem de forma incontrolável são regidas por Peixes).

Já que não consigo escolher, deixem-me que lhes conte umas histórias neptunianas, isto é, de mar, de entrega a forças superiores a nós e sem grande lógica. Não pretendendo uma comparação com Kipling, aqui ficam duas  “Just so stories”.

O Nevoeiro
Era uma vez uma miúda que durante os dias de Verão escapava de casa para ir passear de barco à vela na baía de Cascais. E lá andava ela toda contente a sentir a ondulação, a gozar o barulhinho do mar a bater no casco, a navegar para o Sul com o mar pela frente, a fingir-se navegadora solitária e depois a virar de bordo montes de vezes para voltar para casa. Nesse tempo não havia telemóveis e, por isso, ninguém lhe podia perguntar “onde estás?” ou dizer “volta imediatamente para casa, és uma inconsciente, sair sozinha para o mar”.

Normalmente os dias eram soalheiros e ventosos mas, uma bela tarde, a nortada caiu e um nevoeiro vindo do Atlântico invadiu a baía, engolindo a miúda e a sua embarcação. Também nesse tempo não existia GPS e o barquito não tinha bússola. A miúda, sem pontos de identificação visual, ficou perdida. Tentou fazer o que o manual de navegação manda e manter um rumo, mas, com a maré a encher e sem vento, rapidamente percebeu que não havia nada a fazer a não ser entregar-se ao seu destino. O seu passeio acabaria onde os elementos a levassem. Calculou probabilidades: na melhor das hipóteses encalhava suavemente na areia da praia de Carcavelos ou da Parede, na pior das hipóteses estatelava-se contra o Forte de S. Julião da Barra. Porém havia cenários francamente assustadores: ser arrastada para mar alto ou ser abalroada por um navio.  


Os longuíssimos minutos lá se foram passando, ela sempre à escuta de qualquer ruído que lhe pudesse dar uma pista. A não ser o angustiante farol de nevoeiro, nada. Enfim, estava metida num sarilho que podia acabar muito mal. Daí a um tempo que lhe pareceu interminável, deu-se um milagre: ouviu o barulho do motor de um carro, e depois de outro… a Marginal, estava safa! Safa não, porque prendeu o leme do seu barco numa amarração de umas embarcações pesqueiras fundeadas mesmo ao lado da Marginal em Paço de Arcos.


Apesar do susto, o seu amor pelo mar não diminui e, muitos anos e aventuras náuticas depois, já a miúda era avó foi realizar um sonho e foi…

Nadar com golfinhos
E mais uma vez teve a sensação de se entregar completamente à Natureza, agora através de um contacto com os “Stenella frontalis”. São animais inteligentes, simpáticos, mas fortes e compactos – uma pancada ou uma sacudidela da cauda pode matar.
Foi assim que aconteceu: estando várias pessoas dentro de água, 3 golfinhos aproximaram-se. São eles que escolhem o parceiro humano. Quando fixam o olhar numa pessoa não há duvida de que estão a perguntar “queres vir nadar comigo, queres vir brincar?” É um momento de comunicação instintiva, perfeita. Somos da mesma espécie, entendemo-nos sem precisar de palavras. Tudo está dito.


A avó aceitou o convite e iniciou uma experiência maravilhosa de familiaridade com uma criatura possivelmente mais inteligente do que ela. Os golfinhos têm total controlo da situação. Percebem a que velocidade o parceiro humano nada, e a que profundidade consegue mergulhar e, lado a lado ou com um simples apoio de mão sobre o seu dorso, brincam juntos até o golfinho se fartar. Nessa altura acelera a uma velocidade que uma pessoa não consegue acompanhar e vai-se embora. No caso desta avó o golfinho deve ter achado graça à brincadeira e voltou, proporcionando-lhe mais um inesquecível passeio debaixo de água e uma experiência espiritual cuja recordação, seis anos passados, a deixa ainda com um sorriso de beatitude.


Luiza Azancot

3 comentários:

ACC disse...

Uma das coisas que tenho inveja é das pessoas que gozam "momentos" da sua vida. São capazes de se entregar e ir. Acho que não me lembro de ter feito isso alguma vez. Controladora, sabes?

Astrid Annabelle disse...

Que histórias gostosas de ler, ouvir, de sentir... ainda mais por eu ser amante do mar, dos peixes, de Neptuno...
Beijos Luiza
Astrid Ananbelle

JdB disse...

Tudo aquilo que eu gostaria de fazer e não sei/consigo/posso enchia várias bibliotecas de Alexandria. Uma delas está relacionada com o mar, não com barcos pequenos, onde cabem uma ou duas pessoas, mas com barcos maiores, à vela, com 30 ou 40 pés, por aí. Infelizmente, tenho uma tendência enervante e frustrante para o enjoo.
O mar tem inúmeros factores que me atraem: o espaço, o silêncio, o som das velas a bater ao de leve, a batida ritmada das ondas no casco. O mar impõe um respeito que não encontro em mais nada na natureza, mesmo sabendo que haverá pior e que eu nunca passei por nada relevante.
Gostaria eu de saber tocar piano? Pois gostaria. Mas gostaria mais de poder andar de barco à vela sem o problemazinho do enjoo.
Duas notas finais:
Entrei no porto de gibraltar com um nevoeiro de não ser ver um palmo à frente do nariz. Era um barco com 30 ou 40 pés, e nunca sabíamos quando iríamos ser abalroados por um cargueiro. Não fomos...
Nadei com um golfinho numa piscina. Foi uma experiência interessante, até porque eu era o único adulto e o tratador estava sempre a dizer-me: beija o sam, João, beija o sam...

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