quinta-feira, 15 de maio de 2014

Largo da Boa-Hora *

Há muito que deixámos de ser tribais, há algum tempo que deixámos de ser comunitários.
A aldeia foi substituída pelo bairro, este pela rua e esta pelo condomínio, e este é tão opaco que a vizinhança se reduz à partilha de elevador.
Vivemos dispersos e separados uns dos outros, com barreiras e distâncias que nos afastam.
Hoje, a amizade, e até a família, exercem-se por marcação, como qualquer outro serviço. É preciso combinar previamente, ajustar agendas, conciliar disposições, tirar a senha para o encontro.
O estar juntos, que antes resultava do casual e natural encontro de quem coincidia nos mesmos espaços e tempos de existência, é agora, para acontecer, um acto premeditado, planeado.
A geografia e geometria separam cada vez mais e, paradoxalmente, com a cumplicidade das novas tecnologias de contacto (intencionalmente não as designo de comunicação) como seja o sms, o telemóvel e o email.
Nunca vi um sms comunicar uma lágrima ou um sorriso, nunca vi um telemóvel desvendar um olhar de ternura ou de dor, nunca um email abraçou alguém.
A comunidade tornou-se um imenso arquipélago, em que cada núcleo familiar restrito é uma ilha, e no qual as águas são tão profundas que é sempre preciso barca e barqueiro para nos visitarmos, e está sempre sob um denso nevoeiro tal que nem consente o irmo-nos vendo à distância de um aceno.
Resultado: abandonamo-nos reciprocamente.
Pergunto-me porque é que as coisas são assim. Não culpo apenas as distâncias físicas que nos separam, busco e encontro outras explicações, que aqui deixo para reflectirmos.
A primeira é que interiorizámos, como paradigma civilizacional, que pouco ou nada precisamos dos outros, e estes pouco ou nada precisam de nós.
Numa lógica de predominância de valores materiais, o “outro” perde importância à medida que vai estando assegurada a nossa auto-suficiência material.
Cada núcleo familiar restrito constrói permanentemente a sua independência, a sua autonomia, a sua capacidade de sobrevivência, com recursos próprios, um ter tudo o que se quer, mesmo que seja algo de uso ocasional ou temporário.
Partilhar teres e haveres não faz parte da actual lógica; o “emprestar”, o “dispensar”, o “dividir”, não fazem parte do modelo da sociedade (que ironia, o sentido da palavra sociedade é precisamente o oposto…)
No mesmo sentido, o apelo aos outros para ajudar num empreendimento já não faz qualquer sentido. Quando antes se chamava a “malta” para ajudar a varar o barco na praia, hoje recorre-se ao mercado, e compra-se a tarefa.
Concorre igualmente para o isolamento a falta de entrega a causas, projectos e acções, comuns e comunitárias, a militância social, cultural, recreativa.
Pertencer-se e dedicar-se a um grupo de teatro amador ou de canto, aos bombeiros voluntários, ao grupo recreativo do bairro, à junta de freguesia, à paróquia, ou ao que seja de todos e para todos, à vivência colectiva, é hoje uma raridade que torna o participante numa “ave rara”, num “carola” ou num “santo”, que não se consegue explicar sem um juízo de extravagância, hoje que nem para administrador do condomínio se consegue encontrar um voluntário…
Tornámo-nos todos egocêntricos com ambições e quereres de auto-suficiência e indiferença ao colectivo. Trilhamos, assim, caminhos de isolamento e alheamento.
Todavia, não nos culpabilizemos demasiado. É que concorrem para estas atitudes, para estes comportamentos de isolamento, a justificada preocupação que a vida de cada um nos origina, a angústia destes dias plenos de preocupações que vão correndo sucessivamente em desgaste e temor do amanhã. Na verdade, há medo e esgotamento, e estes originam a busca do refúgio no núcleo restrito, na “casa” de cada um.
É real a componente da exaustão que marca as nossas vidas, de um cansaço que paralisa e predispõe para a fuga do refúgio da “casa”, sem querer ouvir, ver ou saber de mais nada. Até pelo temor de que o contacto com os outros possa originar mais trabalhos, empenhos e preocupações.
Não é despicienda esta vertente de moral e espiritualmente estarmos a ser consumidos, diria até arruinados, por um sistema, por uma máquina trituradora que sobrevive e se alimenta do nosso esgotamento, da nossa mecanização, do sermos autómatos num quotidiano ditado por um “big brother”.
Para muitos, o bálsamo de cada dia é “não haver problemas”. Para quê procurá-los por via do confronto com os outros, quando aliás nos reconhecemos incapazes, sem ânimo ou força, para ajudar?
Muito do nosso “autismo” actual advém da sensação de já nem forças termos para levar a nossa “canga”, quanto mais as dos outros.
A meu ver, importa inverter este estado de coisas, porque, na realidade, e como desde sempre, nós precisamos dos outros e os outros precisam de nós. Necessidade que se não é premente e actual no domínio do ter, o será seguramente no domínio do ser.
O caminho pode estar no conformarmo-nos com as contingências e limitações modernas, que são inevitáveis pela actual natureza das coisas, sem, todavia, prescindir do objectivo de estarmos uns com os outros. Trata-se, pois, de refundar os paradigmas desse convívio.
Basicamente, prescindir do acessório, do mundano, do convencional e protocolar e retomar a essência do encontro, do contacto.
Redescobrir a autenticidade e simplicidade do convívio, despindo-o de tudo o que é supérfluo para aproveitar e desfrutar o que temos de realmente importante para dar e receber do outro.
Como me dizia alguém, “sentimentalizar” a relação, por oposição à prática da sua “materialização”.
No concreto, falo de inovar tempos, modos e espaços de encontros, proponho passeios por parques e jardins onde estavam cinemas e saídas nocturnas em diversões; proponho tertúlias de conversa ao serão onde estavam jantares em restaurantes; proponho hospitalidade sem mais que dar do que nós próprios; proponho redescobrir a visita como tal, e não como acontecimento social.
Muitas serão as formas de inovar no modo de nos relacionarmos, que serão tão mais gratificantes quanto mais descomprometidas com o “social”, e mais empenhadas no reforço de uma intimidade e autenticidade de partilha.
Voltemos a encontrar-nos como que por acaso. Ficcionemos a imprevisibilidade e deixemos o improviso acontecer.
Mas tal não bastará. Tenhamos presente que estarmos juntos é uma riqueza, é um bem escasso, pelo que teremos que elevar o conteúdo desses momentos, não os desperdiçando com banalidades e vulgaridades, seja de atitudes, seja de pensamentos, seja de comunicações.
Estou certo que nos reencontraremos mais e melhor.

ATM

(* publicado inicialmente em 25 de Março de 2009, neste estabelecimento) 

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