segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Vai um gin do Peter’s?

Ainda um último gin sobre a experiência incrível vivida por mais de dois milhões de jovens, que rumaram a Cracóvia, vindos de todos os continentes, para ouvir um velhinho bondoso e bem disposto. No final de Julho, trocaram a praia pelo calor abrasivo de uma cidade medieval situada no coração da Europa Central. Esse encontro foi a 31ª Jornada Mundial da Juventude (JMJ) – um insólito acontecimento, sempre em contracorrente, mas a voltar a reunir mais gente nova do que os míticos festivais de rock ou outros eventos povoados pelos alegados ídolos da juventude. Misterioso o tal ancião, sem marketing nem dotes musicais que se conheçam, ter maior alcance do que as equipas híper profissionais do showbiz. Segue o clip oficial, legendado em português, a incluir o hino das Jornadas cujo título adoptou o lema desta JMJ: «Bem-aventurados os Misericordiosos»: 



A partir de três palavras orientais antiquíssimas e exóticas – jobel, jobil e jobal – cita-se adiante uma reflexão sobre uma das ideias-chave do pontificado de Francisco, que se preocupa em deixar claro que todos (mesmo) estão abrangidos pela ternura de Deus. Que não há transgressão nossa, por escabrosa e excessiva que seja, capaz de fazer o Pai desistir de nós. Do lado do Céu a porta está sempre aberta! A possibilidade de rejeição mantém-se só do nosso lado, sendo a escolha escrupulosamente respeitada. Ou seja, Deus dá a última palavra aos humanos, que assim decidem se haverá ou não happy end

No entanto, o mistério da liberdade humana não conflitua com a Justiça, pelo que são levados a sério, quer a intenção, quer o impacto das nossas acções, desde as benignas às envenenadas. Naturalmente, a dita abertura de Deus não se oferece de forma indiferenciada à diversidade de comportamentos humanos, pois seria injusto não destrinçar entre a atitude generosa de um Gandhi e as perversidades de um Hitler. A novidade divina não reside na ignorância ou no excesso de tolerância ao mal, mas antes em colocar ao nosso dispor meios para suplantar os erros cometidos intencionalmente. Meios que Francisco não se cansa de relembrar, desde que foi eleito Papa, referindo-se ao movimento do coração que procura e pede a reconciliação, ao reconhecer-se a falha, arrepender-se, pedir perdão e esforçar-se por não reincidir. Isto vezes sem conta, ao longo da vida. Aqui sim, a dose de misericórdia do Céu para com o faltoso não tem limites, situando-se muito para lá do entendimento humano. 
Segue uma versão abreviada da reflexão gentilmente cedida pelo autor:

 «O jobel, o jobil e o jobal

A mensagem que o Papa Francisco escreveu com antecedência à juventude das Jornadas Mundiais (…) em Cracóvia tem várias palavras em hebreu, algumas em grego, mas uma proposta muito clara.

A introdução da mensagem fala de uma trombeta. Ou corneta (feita de um corno). Os eruditos pensam que este corno se chamava «jobel» por influência árabe, porque há grande proximidade linguística entre o hebreu e o árabe. O certo é que este jobel ressoou há vários milhares de anos na Terra Santa para convocar (jobil) o povo inteiro para o grande momento da reconciliação (jobal).

A Igreja, diz Francisco, toca este ano o jobel – por isso este ano se diz jubilar – para convocar todos os homens a reconciliar-se entre si e com Deus.

Agora, surpresa! Que acontece quando as pessoas se reconciliam com Deus? O Papa cita várias parábolas de Jesus: «impressiona a alegria de Deus, a alegria que Ele sente quando reencontra o pecador e o perdoa. Sim, a alegria de Deus é perdoar! Aqui está a síntese de todo o Evangelho».

Sejamos realistas: «Cada um de nós é aquele filho que esbanjou a própria liberdade, seguindo ídolos falsos, miragens de felicidade, e perdeu tudo».

Mas o realismo completo inclui que «Deus não Se esquece de nós, o Pai nunca nos abandona. (...) Espera-nos sempre! Respeita a nossa liberdade, mas permanece fiel. E, quando voltamos para Ele, acolhe-nos como filhos na sua casa (...). Nem sequer por um momento, deixa de esperar por nós com amor. E o seu coração fica em festa por cada filho que volta para Ele. Fica em festa, porque Deus é alegria. Vive esta alegria, cada vez que um de nós, pecadores, vai ter com Ele e Lhe pede perdão». (…)

(Disse-lhes) que tinha pena da gente nova «que parece “reformada” antes de tempo. Preocupa-me ver jovens que “atiram a toalha” antes de começar o jogo». Ou «que se “rendem” sem começar a jogar». «São uns jovens essencialmente enjoados ...e enjoativos. Custa (...) ver jovens que largam a vida à procura da “vertigem” ou daquela sensação de se sentir vivos por caminhos obscuros que acabam por “pagar”, e pagar caro, correndo atrás de vendedores de falsas ilusões» (…)

Na mensagem que lhes escreveu com antecedência, o Papa entrou em aspectos muito pessoais. «Quando tinha dezassete anos, num dia em que devia sair com uns amigos, decidi passar antes pela igreja. Ali encontrei um sacerdote que me inspirou particular confiança e senti o desejo de abrir o meu coração na Confissão. Aquele encontro mudou a minha vida». A descrição alonga-se em mais pormenores e desemboca num desafio. «Talvez algum de vós sinta um peso no coração e pense: Fiz isto, fiz aquilo… Não temais! Ele espera-vos. É pai; sempre nos espera. Como é belo encontrar no sacramento da Reconciliação o abraço misericordioso do Pai, descobrir o confessionário como o lugar da Misericórdia, deixar-nos tocar por este amor misericordioso do Senhor que nos perdoa sempre!».

Não ficam muitas alternativas. «Gostaria aqui de lembrar o episódio dos dois malfeitores crucificados ao lado de Jesus: um deles é presunçoso, não se reconhece pecador, insulta o Senhor. O outro, ao contrário, reconhece ter errado, volta-se para o Senhor e diz-Lhe: “Jesus, lembra-Te de mim, quando estiveres no teu Reino”. Jesus fixa-o com infinita misericórdia e responde-lhe: “Hoje estarás comigo no Paraíso”. Com qual dos dois nos identificamos? Com aquele que é presunçoso e não reconhece os próprios erros? Ou com o outro, que se reconhece necessitado da misericórdia divina e implora-a de todo o coração?»

O Papa quase inverte as posições, porque afinal quem implora é Cristo (…) «(que) nos dá sempre a possibilidade de recomeçar».»

Vários tipos de cornos que se utilizavam na Terra Santa,  nomeadamente para convocar o jubileu.» 



Artigo de José Maria André, 3-Jul.- 2016, 
publicado em media dos dois lados do Atlântico: 
«Correio dos Açores» , «ABC Portuguese Canadian 
Newspaper»,  «Verdadeiro Olhar» e blog Spe Deus

Com tanta gente nova reunida em Cracóvia, claro que superabundou a música e a dança. Mas, curiosamente, muitos dos participantes ficaram mais impressionados com o silêncio profundo nos momentos de oração. E houve vários, sobretudo na via sacra, à noite. Ali viveram uma sintonia invulgar, precisamente por não ser sustentada pelos típicos sons proferidos em conjunto. Numa sociedade tão viciada em barulho, é difícil de conceber como foi possível mais de dois milhões de miúdos mergulharem no silêncio, num gesto que pressupôs um perfeito alinhamento entre a multidão e o Papa, além de notável solidariedade e abertura entre todos. 

A concluir, uma pequena amostra das horas de festa: 


Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas) 

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