segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Vai um gin do Peter’s?

Junto ao Marquês de Pombal, na rua Duque de Palmela, reabriu em 2005 um hotel que recupera o nome do mítico Hotel Aviz. O original ficava situado na av.Fontes Pereira de Melo, no actual quarteirão do edifício Imaviz e Sheraton, com espaço desafogado para jardim e anexos. Ganhou fama de ter a melhor cozinha da capital e um serviço de luxo. Até abrir o Ritz, recebia os convidados oficiais do Estado português. 

Mítica foi também a sua frequência, sobretudo durante a Segunda Guerra Mundial, quando Lisboa se tornou o paraíso solarengo e pacífico dos refugiados vindos da Europa ocupada.

Fachada exterior do Aviz Hotel

A elite lisboeta dos anos 40 encontrava ali reis no exílio, actores de cinema, escritores célebres, governantes e até espiões. Se as paredes falassem, dizem que as do Aviz teriam matéria mais do que suficiente para compor um romance. Por ali passaram os reis Carol da Roménia, Juan Bourbon de Espanha e Humberto da Itália, além de Evita Perón ou artistas como Maria Callas, Marcello Mastroianni, Frank Sinatra, Ava Gardner e Amália. O magnata do petróleo e coleccionador de arte, Calouste Gulbenkian trocou Paris pelo Aviz, nos últimos anos de vida: desde 1942 até 1955. 

Na década de 40, os seus salões foram palco de festas sofisticadas, de importantes reuniões de negócios e até de encontros históricos secretos. A 31 de Julho de 1940, num jantar no Aviz, o Duque de Windsor terá recusado a proposta alemã de recuperar o trono britânico para funcionar como rei fantoche, ao serviço do Reich. Segundo o agente triplo Dusko Popov («Triciclo»), que trabalhava sobretudo para os serviços secretos britânicos e esteve inúmeras vezes no Aviz, o poderoso hotel penderia mais para o lado nazi.

Nascera como «palacete Silva Graça», construído em 1904 pelo proprietário e Director do jornal «O Século» – José Joaquim da Silva Graça. A arquitectura coubera a Miguel Ventura Terra (que contava no currículo com o Prémio Valmor), num estilo moderno para a época e equipado com o maior conforto. O sistema de aquecimento e as persianas tinham vindo de Paris; a cantaria era do atelier Pardal Monteiro e os trabalhos de estuque, pintura ou ferragem provinham dos melhores especialistas portugueses.   

Palacete Silva Graça e a Avenida Fontes Pereira de Melo

Em 1919, passou para a posse do genro – José Rugeroni que, uns anos depois, resolveu transformá-lo num hotel de luxo. Entre 1931 e 1933, dedicou-se à remodelação de todo o quarteirão, com o apoio do arquitecto Vasco Regaleira. A 24 de Outubro de 33, o Aviz Hotel abria ao público, exibindo num dos salões as armas da Casa de Avis, que terá inspirado o nome do hotel.  

Da sua decoração opulenta apenas resta o arquivo fotográfico, a fazer jus ao património de uma Lisboa desaparecida: 

Hall faustoso e amplo.


Salão renascença. À direita: fogão, tipo lareira portuguesa, com ricas colunas de madeira lavrada, vindo do palacete dos Burnay (à Junqueira). Sobre ele o brasão da Casa de Avis, replicado nas sobreportas da porta em ferro forjado. À esquerda: armário renascença seiscentista, proveniente do Convento das Trinas; porta monumental e balaustrada de ferrageria nacional oriunda da capela do Convento de Sacavém. 


Sala de leitura com mobiliário de estilo alentejano. No móvel-bar, ao fundo,
sobressaem os baixos-relevos históricos de Diogo de Macedo.
Os terraços estavam decorados com azulejos de tipo hispano-árabe,
a conferir um tom exótico ao conjunto.


Sala de Jantar, a abrir para os jardins. Destaca-se o painel de azulejos de
Leopoldo Batistini, a reproduzir uma das tapeçarias
portuguesas de «Pastrana» (cf gin de 11 de Agosto de 2010).


Os quartos, ou melhor, as suites – segundo a designação do Aviz – tinham
os nomes dos primeiros reis da segunda dinastia e de vários príncipes
da Ínclita Geração (a saber: D. João I, D. Filipa de Lencastre,
D. Pedro Regente, Infante D. Henrique, Infante Santo e Infante D.João).

Casa-de-banho

Percebe-se que o charme de Lisboa vem de longe e deixou vestígios indeléveis, mesmo quando parte dos seus exemplares já só sobrevive em imagens(1). É o caso do primeiro «Aviz», demolido em 1962.

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
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 (1) Principal fonte de informação deste gin:   http://restosdecoleccao.blogspot.pt/2011/07/aviz-hotel.html.

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