quinta-feira, 25 de maio de 2017

Dos caderninhos pretos *

Bernardo Maria despedira-se do último convidado. Cinco minutos depois, encostado à ombreira da porta de sua casa do Restelo, olhara com uma ternura indisfarçada para a sua filha Carmo, vendo-a afastar-se de braço dado com Tiago, o seu marido. A festa do 10º aniversário do casamento de ambos fora um sucesso.

No quarto do primeiro andar, Carlota, a sua mulher de há mais de 30 anos, sentara-se ao toucador, frente a um espelho, a uma fotografia emoldurada do Pai com o Prof. Marcello Caetano e a uma saudade de um tempo fagueiro que não voltaria. Quedou-se com um boião de creme na mão, enquanto a mente deambulava pelo dia em que recebera a notícia do casamento da filha.

Oh minha querida! Fico tão satisfeita.

Enquanto isso, no seu escritório, Bernardo Maria escutava o ruído decrescente de uma casa que se vai arrumando aos poucos. A empatia pelo genro nascera com o primeiro aperto de mão entre ambos, talvez há 20 anos.

Olá Tia, olá Tio. Entrem, se faz favor, que os pais estão lá dentro.

As relações entre as pessoas nem sempre são classificáveis por palavras certas, disponíveis nos manuais da especialidade. Bernardo Maria tinha-se-lhe afeiçoado, se bem que não soubesse caracterizar como. Afinal, enquanto Tiago saía com a sua própria filha, ele alimentava uma clandestinidade com a mãe do rapaz, que fora votada a um abandono, sexualmente injusto e financeiramente confortável, por um marido empresário e passageiro frequente.

Um dia, escrevera no seu livrinho de capa preta que o acompanhava há alguns anos:

Ana Sofia, 15 de Janeiro. Casa bonita, cama larga, música suave. Sexo óptimo; mulher experiente e ágil; criativa e com iniciativa. A repetir e a manter.

Bernardo Maria sorrira ao deambular pelo livro, um verdadeiro who’s who da sua vida paralela.

Irene, 18 de Agosto. Mulher poderosa e esgotante. Pouco versátil, agarrada a fórmulas certas. A espaçar devido à exaustão física que me provoca.

Anabela, 1 de Novembro, dia de Todos os Santos. Mulher pequena mas proporcionada, obediente. Sugeri-lhe operação estética aos seios. Dava-lhe outro impacto. Casa pequena, com um cheiro permanente e adocicado que é estranho mas agradável.


Dulce, véspera de Natal…


Andreia, 1 de Fevereiro, dia do regicídio…


Ana Sofia, 2ªfeira de Carnaval. Tiago muito simpático, enternecido pela companhia quinzenal que faço à mãe na ausência do pai. Sexo extraordinário de arrojo, resistência e inovação. Este dia, então, foi de ir às nuvens. Pateta do António, que deixa aquela mulher sem dono.


Bernardo Maria voltou a sorrir, cheio de um encantamento por uma vida secreta e estimulante, repleta de aromas, de posições, de certezas, ausente de remorsos. O sorriso ainda não se desvanecera quando viu, a um canto do escritório, um caderno igual ao seu, mas onde vislumbrou a caligrafia do genro.

Miss X. 15 de Janeiro. Indescritível de ternura, sofreguidão e desejo. Terminou a chorar.

Irene, 20 de Agosto. Já vi mais criatividade, mas é um género. Se não fosse a minha preparação física, talvez não aguentasse.


Anabela, 3 de Novembro. Gosto daqueles seios pequenos . Quer ser operada e discordei. Casa com cheiro enjoativo.


Dulce, 26 de Dezembro…


Andreia, 3 de Fevereiro…


Miss X. 2ªfeira de Carnaval. Como se descrevem duas horas de pleno gozo? O riso final foi o de um sorriso que findara. Chorou.


Bernardo Maria sentiu que ficava sem sangue. Olhou em frente, para uma árvore genealógica onde os seus antepassados se cruzavam com as elites merecidas ou nascidas e não viu orgulho de gente antiga, presunção de mais valor, sangue medieval. Só conseguiu ver uma filha atraiçoada vezes sem conta, um genro que o seguia nas capelinhas do desejo, parando com uma exactidão de complô nas mesmas estações e apeadeiros. Antes de se deixar cair num sofá ainda teve forças para uma última pergunta, gritada para o andar de cima:

Carlota! Lembras-te do que fizeste na 2ªfeira de Carnaval?


JdB

* publicado originalmente a 8 de Fevereiro de 2010

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