quarta-feira, 17 de maio de 2017

Poemas dos dias que correm

Sabedoria

Desde que tudo me cansa, 
Comecei eu a viver. 
Comecei a viver sem esperança... 
E venha a morte quando 
Deus quiser. 

Dantes, ou muito ou pouco, 
Sempre esperara: 
Às vezes, tanto, que o meu sonho louco 
Voava das estrelas à mais rara; 
Outras, tão pouco, 
Que ninguém mais com tal se conformara. 

Hoje, é que nada espero. 
Para quê, esperar? 
Sei que já nada é meu senão se o não tiver; 
Se quero, é só enquanto apenas quero; 
Só de longe, e secreto, é que inda posso amar. . . 
E venha a morte quando Deus quiser. 

Mas, com isto, que têm as estrelas? 
Continuam brilhando, altas e belas. 

José Régio, in 'Poemas de Deus e do Diabo'

***

Testamento do Poeta

Todo esse vosso esforço é vão, amigos: 
Não sou dos que se aceita... a não ser mortos. 
Demais, já desisti de quaisquer portos; 
Não peço a vossa esmola de mendigos. 

O mesmo vos direi, sonhos antigos 
De amor! olhos nos meus outrora absortos! 
Corpos já hoje inchados, velhos, tortos, 
Que fostes o melhor dos meus pascigos! 

E o mesmo digo a tudo e a todos, - hoje 
Que tudo e todos vejo reduzidos, 
E ao meu próprio Deus nego, e o ar me foge. 

Para reaver, porém, todo o Universo, 
E amar! e crer! e achar meus mil sentidos!.... 
Basta-me o gesto de contar um verso. 

José Régio, in 'Poemas de Deus e do Diabo'

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