sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Crónica de um viajante a Washington (3)

Jardim Botânico, Washington (pormenor visto por um iPhone)
4ª feira foi dia de meet and greet. Durante duas horas, normalmente, os representantes das associações, os sobreviventes, os Pais, encontram-se para confraternizar. Conhecem-se pessoas, reveem-se pessoas, conversa-se com amigos - sobre a vida, sobre as dificuldades das associações, sobre o futuro, ou sobre o que se supõe ser um ponto de viragem nesta associação global. Hoje em dia fala-se menos de casos pessoais; fala-se mais de estratégia, de caminhos a seguir, de opções funcionais ou organizativas, não porque tenhamos perdido a dimensão humana, mas porque a dimensão humana tem hoje outros requisitos. Todos queremos prestar um melhor serviço às crianças / jovens com cancro: queremos eliminar as enormes diferenças no seio da Europa, não queremos perder de vista as dificuldades de África, queremos trabalhar mais com os médicos, estabelecer boas parcerias. Mas todos temos, muito naturalmente, a nossa visão do mundo, o nosso estilo pessoal, a ideia do que é mais importante neste momento. E tudo isso, para o melhor e para o pior, assume uma dimensão maior do que há 10 anos, quando comecei nestas andanças internacionais. Há, talvez, uma necessidade maior de profissionalismo que precisa de ser temperada com uma emotividade saudável.

***

Saio do hotel em direcção ao meet and greet. Washington está sob uma chuvinha miúda, quase apenas humidade. Apanhamos um taxi, porque há uma senhora australiana entre o grupo de quatro. Vou à frente na viatura, porque sou muito grande e têm consideração por mim - ou por eles... No tablier, uma estatueta de Nossa Senhora e uma imagem de Santa Teresa de Ávila, o que não deixa de ser curioso. Pergunto por isso ao motorista de que nacionalidade é. Etíope, responde-me; ortodoxo. Faz sentido.

O motorista é simpático, reservado, com uma pronúncia difícil e um tom de voz muito baixo. Segue calado e põe música com um volume suficiente para se ouvir com conforto. Durante 20 minutos ouvimos Carlos Santana (oye como va e samba pa ti, entre outras), depois Temptations (papa was a rolling stone) e, por fim, Ben E King (stand by me). Falamos de música, da boa música daquele tempo, da música que perdura. Acabo por perguntar-lhe a idade: nasceu em 1958, um ano fantástico. Dei por mim a cantarolar tudo, a entusiasmar--me com memórias musicais. Entre o Carlos Santana (de quem me tinha já esquecido) e o que me traz aqui a Washington não há um vazio, apenas um taxista etíope da minha idade - e com muito bom gosto musical.

JdB

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