terça-feira, 27 de março de 2018

Das forças iguais e opostas

O diabético tem diabetes. Sabe que os tem, sabe o que tem de fazer para os contrariar ou, na pior das hipóteses, para não os agravar. Sabe o que lhe está proibido, o que lhe é permitido. Tudo nele - a sabedoria, a informação, o conhecimento mais equilibrado de si - vai no mesmo sentido. Ter diabetes e não injectar a insulina quando deve injectar-se é como querer andar-se de carro em contramão - pode fazer-se, mas é insensato. 

O raciocínio acima pode replicar-se para um sem fim de situações: o preguiçoso que sabe que é preguiçoso, o alcoólico que sabe que não pode beber álcool, o violento que sabe o que nele faz disparar um potencial ataque de violência, o asmático que desconfia muito certamente que a poeira lhe provocará incómodos. Tudo isto vai num mesmo sentido, que é saber-se o que provoca alterações e contrariá-las. Diabético -> insulina; violento -> trigger.  Podemos andar em contramão, mas sabemos que estamos a andar.

Há uma situação em que os raciocínios acima não funcionam, como se a contramão não fosse bem a contramão. Falo do convicto equilibrado. Este tipo de pessoas, cuja raridade só advém de um potencial déficit de auto-conhecimento, vivem uma contradição. Por um lado, estão certas, estão convictas de uma determinada posição. Por outro lado, embora saibam que sabem, têm consciência de que pouco sabem. Em que ficamos, então? Sabem ou não sabem? E chega dizer que sabem pouco?

O convicto equilibrado pode entender, muito sábia e correctamente, que tem razão numa discussão. Porém, como é equilibrado, sabe que pode não ter razão. É plausível que não tenha. Ora, nesse aspecto, tem duas convicções contraditórias: sabe que tem razão mas sabe que pode não ter razão. No fundo como se o diabético soubesse que não precisa de injectar insulina mas que precisa de injectar insulina. Não se trata de quanta insulina nem com que frequência. Não se trata de saber se tem muita razão ou pouca razão: há uma contradição insanável no convicto equilibrado: a certeza que tem e a certeza que não tem é uma tragédia no sentido aristotélico do termo, porque há duas forças em oposição. A tragédia, no sentido real do termo, é que as forças são iguais e de sentidos opostos, suscitando uma impossibilidade.

Aquele que sabe que nada sabe levou uma vida para perceber isso. A sabedoria advém-lhe da consciência da ignorância. Acontece o mesmo com o forte que pede ajuda e só é forte porque pede ajuda. O convicto equilibrado pode ser um lúcido com anos de estudo de si próprio. Ao fim de anos, especialista credível na leitura da vida, sabe que tem razão na forma como olha para um problema. Mas sabe que pode não ter razão, porque tem consciência da sua falibilidade sobre as coisas não exactas.

Este raciocínio, tal como a poesia, faz bem. Não percebi ainda bem a quê...

JdB     

1 comentário:

Anónimo disse...

Faz bem à humildade, que nos consciencializa da nossa fragilidade e finitude e assim anima os que sabem que nada sabem. mfm

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