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07 agosto 2024

Do que comemos e do que somos

Um destes dias, no Linkedin, li as recomendações de um cirurgião (penso que americano, mas não afianço), para uma vida saudável: não fumar, não beber álcool, não beber bebidas açucaradas, fazer desporto - ou pelo menos manter actividade física. Havia uma quinta recomendação, de que não me lembro, mas que estava na linha do desporto / actividade. Ou talvez fosse, simplesmente, eliminar o stress.

Ontem, ao ler as capas dos jornais / revistas, reparei num título: Idosos - o mundo é deles. Ainda na capa referia-se: supostamente, a pessoa mais velha tem 124 anos e, além de uma dieta rica em fruta e carne de cordeiro, mastiga folha de coca. Vou presumir que esta pessoa não é portuguesa. 

Um destes dias, também no Linkedin, li um post sobre esta ideia: somos o que comemos. Supostamente (gosto desta palavra para me defender) há uma ligação comprovadamente (não sei se comprovadamente e supostamente são contraditórios) muito directa entre aquilo que comemos e aquilo que somos. Um artigo do Observador que me mandaram fala também nesta ligação directa entre o que comemos e o nosso estado emocional. O título, Intestino saudável, vida saudável: quem o diz, viveu-o na pele, é quase auto-explicativo.

Por último, o Telejornal das 13.00h TVI de ontem falava em regimes alimentares (hipocalóricos, penso eu), que podem provocar ansiedade e depressão (não afianço a depressão) nos jovens. 

***

Ainda me falta ler muito para entender o verdadeiro alcance da frase somos o que comemos. Picuinhas como sou, penso se o verbo deve ser somos ou estamos. Isto é, até que ponto é que um intestino saudável conforma o que sou, me molda, me faz ter determinadas características, ou, por outro lado (um argumento que não me custa a aceitar, quem sou eu...) faz de mim o que estou

Olhar para os outros e avaliar o que são / estão em função do regime alimentar em que foram educados é um exercício curioso. Nas casas que frequentei enquanto criança ou jovem o regime alimentar pautava-se, talvez, pela disponibilidade financeira, por um equilíbrio do que já se sabia à altura, por uma tradição de cozinha familiar. Cruzar o que se comia à mesa com aquilo em que as pessoas se tornaram é, repito, um exercício curioso, próprio para dias indolentes e compridos, ou para noites de insónia.

Porque incluí o primeiro parágrafo, uma vez que está desalinhado com os restantes? Não só porque fala de hábitos alimentares que conduzem - supostamente! - a uma vida saudável, mas porque reforça uma irritação: no limitem estas recomendações matam o prazer da vida - e não garantem uma longevidade invejosa. Seguramente que contribuem, mas não garantem. 

Olho para a minha alimentação - a de agora e a de sempre - e fico satisfeito, pois reflecte o que eu penso ser à mesa: um homem saudável, com uma alimentação globalmente equilibrada, dado a alguns excessos. Se o que como faz de mim o que sou, então compro a ideia: sou um homem saudável, equilibrado, dado a alguns excessos... E não mastigo fohas de coca, pelo que não deverei chegar aos 124 anos.

JdB      

17 junho 2019

Do desporto e outras patetices

Há uns anos foi-me diagnosticada uma rotura de ligamentos irreversível num pé. Na minha proverbial ignorância - e até esse momento inesquecível de esclarecimento tardio - achava que ligamento era uma palavra do foro desportivo, como médio-ala, florete, falso lento e bola medicinal. Hesitei, na elaboração do rol, na utilização de fato de treino. Na verdade, já fez e talvez venha a fazer parte do vocabulário desportivo; numa dada altura, e pelos piores motivos, passou a ser incorporado na classificação vestuário, tal como calças de fantasia, cuecas, meias de cano alto ou popelina. 

Regresso aos ligamentos. Surpreendeu-me o facto de também ter ligamentos, eu que tenho pelo exercício desportivo o mesmo sentimento que a natureza tem ao vácuo: uma espécie de horror. Se o facto de ter ligamentos me irmanava, ainda que numa pequeníssima fracção, aos grandes atletas, a ideia de ter uma rotura de ligamentos  - e disso poder falar com um certo orgulho parcimonioso e enganador - dava-me uma determinada aura, como algo que se adquire novo mas já dotado de uma patine surpreendente e valiosa. 

A honestidade não me chega por via da virtude, mas da consistência do discurso; ou seja, não minto, não porque tenha uma espécie de nojo ético à falsidade, mas porque sou fraco mentiroso. Como naquele jogo em que ganha a pessoa que estiver mais tempo sem dizer sim ou não, toda a mentira é, em mim, um esforço que denuncio sem arte nem persistência. É por isso que tenho de referir que a rotura de ligamentos não me atingiu por via do desporto, mas de um descuido: coloquei mal o pé na escada de um apartamento onde fui moderadamente infeliz; o destino puniu-me já eu me despedia da casa e, entre o pé mal colocado e a entrega da chave à senhoria, não passou mais de 1 hora. Morri na praia - de contas acertadas e um artelho torcido.

Vem tudo isto a propósito do que oiço constantemente: fulano partiu uma omoplata a fazer ciclismo de corta-mato, beltrano rachou um osso a jogar futebol, sicrano abriu a cabeça na prática violenta do ski. Ora, não me parece que alguma vez tenha ouvido que fulano partiu uma omoplata a redigir uma tese de doutoramento, beltrano rachou um osso na contemplação da suave rotina das marés, sicrano abriu a cabeça na escuta atenta de um Requiem, sobretudo se for o de Mozart. O desporto, e penso que o pensamento é cimeiro na lista dos lugares-comuns, é de uma perigosidade extrema, e o Estado deveria sobrecarregar fiscalmente os desportistas, deixando os obesos em paz na sua gordura imóvel e inócua.

Daqui por 50 anos os meus bisnetos falarão de mim com a ternura falsa que devotamos aos que não conhecemos, mas de quem nos falam com desvelo. Citarão histórias a meus respeito, repetirão com orgulho os elogios que me fizeram, e que me assentam menos por via das minhas virtudes humanas, e mais pelas minhas qualidades de vendedor de feira, perito na arte do logro. E rematarão: coitado, parece que comia carne. Perante a necessidade de pedir desculpa aos animais de terra, do ar e do mar que aquele seu antepassado deglutia com laivos de pecado, sobra-lhes o conforto de poder dizer: ao menos não fazia desporto

Alguém inventou, como benéfica, a dieta do paleolítico. Alguém inventou, como benéfica, a prática do desporto. Comer mamutes parece ser, para alguns iluminados, uma opção de vida inquestionavelmente saudável, ainda que difícil. Para outros, o esplendor da saúde seria perseguir os ditos animais a pé, antes mesmo de os cozinhar a fogo lento. As minhas convicções de homem moderadamente esclarecido duvidam dessa dieta, como duvidam da virtude de um desporto que imprima um ritmo que acelere o coração para além do que acontece quando nos apaixonamos pela primeira vez; parece-me, aliás, do mais elementar bom senso definir esse ritmo cardíaco como um limite superior. Um dia mais tarde, creio e espero eu, se provará os enormes malefícios do desporto a não ser com uma valência de entretenimento, como ouvir a Marisol ou ler banda desenhada; um dia seremos lembrados por termos comido carne e por nos termos agitado freneticamente sem razão. Seremos, em 2069, os esclavagistas do século XXI, olhados com desdém retrospectivo.

Não serei vegetariano e não farei desporto. Sobre mim ficam memórias de carnívoro e de sedentarismo persistente. Aos meus bisnetos cabe-lhes 50% de alegria, o que já não é de deitar fora.

JdB      

13 julho 2018

Vídeos dos dias que correm

Mandaram-me este video ontem, por whatsapp. Vale a pena ver, até porque tem 1'30''.

Alguém comentava sabiamente "é que é mesmo isto que andamos a comer". Eu tenho outra teoria para o video - e mesmo que seja disparatada (a teoria, claro) é-me indiferente, porque estes 90 segundos não são patrocinados pela ordem dos nutricionistas. O video não divulga a porcaria que comemos (embora muito do que comemos seja uma porcaria), mas a incongruência de algumas pessoas quanto à alimentação que fazem. 

Vejam e depois diga-me se não tenho razão. Melhor: digam-me se eu tiver razão, porque se não tiver mais vale não me dizerem nada.

JdB




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