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16 maio 2025

Da genealogia

Aqui há uns anos fiz um teste de ADN que consistia em esfregar um cotonete na parte interior da boca, colocar num saco próprio e enviá-lo para os EUA. Ao fim de algumas semanas recebi o resultado: x% dos meus antepassados eram europeus, y% africanos, tinha z% de sangue ashkenazi. Depois, através do registo num site, comecei a receber informações sobre pessoas que, por via do ADN, se entendia serem meus primos em 1º grau, 2º grau, 3º grau e mesmo 5º grau. Como sei quase tudo o que quero saber sobre a minha família, o assunto nunca me interessou muito. Na verdade, identificar potenciais descendentes do meu 5º avô, e que agora vivem no Brasil ou na Suécia ou em França, não me pareceu interessante. Sei, no entanto, que há pessoas que vão construindo a sua árvore genealógica com informações provenientes destes testes e do cruzamento de dados.

Há dias, num dos emails habituais sobre parentescos, recebo a informação de que a Maria (nome fictício) era minha prima em 3ª grau; relativamente a um primo direito meu, a Maria era prima em 2º grau. É com base neste potencial parentesco mais próximo que vou desenvolver o meu raciocínio. 

Ser minha prima em 2º grau significa que os nossos Pais eram primeiros direitos, os nossos Avós eram irmãos, os nossos Bisavós eram comuns. Isto tornava a Maria numa prima relativamente próxima, que valeria a pena conhecer um dia. Li o apelido da Maria e não me dizia nada enquanto potencial pessoa da minha família. Fui ver a ascendência da Maria (não sei se cheguei aos trisavós) - e nada! Não tínhamos um único apelido em comum.

Em contacto com um amigo ligado a este tema da genealogia, partilhei (do alto da minha ignorância) três possíveis hipóteses para este imbróglio:   

1) a Maria não é filha / neta / bisneta de quem acha que é;

2) eu não sou filho / neto / bisneto de quem acho que sou; 

3) estes testes são altamente falíveis. 

A resposta deste meu amigo foi rápida, sendo que votava na hipótese 3.

Havia quem afirmasse que uma em cada três pessoas não era filha (ou seria neta?) de quem acha que é. Sabemos que a nossa árvore genealógica assenta em convicções, mais do que certezas. Estamos convictos de que somos descendentes de alguém porque há documentos que o afirmam, mas não temos uma certeza inquestionável relativamente a isso. Acontece que estes testes de ADN têm, supostamente, uma base científica, pelo que, ou há um problema com as nossas ascendências (e alguém, num determinado momento, terá sido protagonista de infidelidade) ou os testes são uma trapaça que convém desmascarar. 

Não conheço a Maria, mas gostava de lhe perguntar: o que achou de saber que era prima relativamente próxima de umas pessoas cujo ascendente comum (conhecido) ninguém consegue identificar? O que é que isso lhe diz?

JdB

16 fevereiro 2018

Do ADN



Carlos é cubano. Quando lhe perguntam o que não queria ser, se lhe detectassem as origens, era dominicano, argentino, francês. Quando lhe analisam o ADN, e recuam dois mil anos, Carlos percebe que tem "sangue" de países que não sabe o que são - não é não saber onde ficam, é não conhecer sequer a palavra. 

Carlos está pendurado numa ignorância legítima - a de que, olhando para a cor da pele, é dali de onde é, talvez como um bocadinho de algo parecido, nunca nada radicalmente diferente, menos ainda de locais cuja palavra é um neologismo no vocabulário dele. Entre a certeza, o gosto e um misto de desilusão e emoção há um fio de cabelo. É assim com a nossa genealogia. Falarmos numa característica que é muito da "nossa" família pode ser uma ilusão potencialmente destruidora. Todo o nosso mundo genealógico está assente em algo fino, que é sermos filhos de quem somos, que eram filhos de quem eram, que eram filhos de quem eram e assim sucessivamente. Só que, e este "só que" é mais frequente do que poderia parecer, há alguém, nesta corrente familiar, que não é filho de alguém, mas filho de outro alguém - um criado, uma criada, uma prima, um desconhecido. 

A nossa genealogia, como a genealogia geográfica do Carlos, pode não ser mais do que um desejo. Sermos filhos de, que era filho de que, era filho de e que, por isso nos torna descendentes de um papa, de um santo, de um pirata do mar báltico ou de uma princesa egípcia. Tudo se esfuma com uma análise de ADN - um bocado de cuspo arrastado por um esfregaço ou vertido num tubo de ensaio, pode ser o fim de uma ilusão - não somos descendentes de um rei, mas talvez do bobo que animava o rei... No caso do Carlos, ser descendente do que não sabia que existia.

JdB

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