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23 dezembro 2022

Poemas dos dias que correm

 É Tempo de Natal

É tempo de Natal. Exibe-se um pinheiro,
Com lâmpadas de cor, sobre o balcão.
Tem, também, pendurados, a isca do dinheiro
E flocos finos de algodão.

Nas férias, foge a freguesia
Do final das manhãs,
Com os seus kispos disformes, de inflada fantasia,
E o conforto das lãs.

Bebem-se mais bebidas quentes.
O chão, mais húmido, incomoda.
E há apelos insistentes
Do cauteleiro que anda à roda.

Os embrulhos, nas mesas, nos regaços,
Com vistosos papéis,
Florescem de acetinados laços,
Lembram o oiro, o incenso, a mirra, em mãos de reis.

Muitos adultos. Pouca criançada.
Muito cansaço. Pouca animação.
A vida (a cruz!) tão cara, tão pesada!
E dão-se as boas-festas sem se sentir que o são.

Consigo mesa junto à vidraça.
E é em mim que procuro, ou é lá fora,
A estrela que não luz, o pastor que não passa,
O anjo que não vem anunciar a hora?

António Manuel Couto Viana, in 'Café de Subúrbio'

30 março 2018

6ª Feira Santa

"O homem é um aprendiz, a dor o seu mestre:
ninguém se conhece a si próprio até que sofra."

"Nada nos torna tão grandes como uma grande dor."

Alfred de Musset in Noite de Outubro




ORAÇÃO

Ouvi a Tua voz – que Te buscasse,
Que eras vida e caminho ardente e santo,
Aqui me tens, Senhor, beijando-Te na face,
Mordido de vergonha, angústia e pranto.

Cruz, lança, espinhos, pregos, fel, vinagre,
Não são adereços para um corpo humano.
Faze em mim, meu Senhor, o Teu milagre:
Sofrer, morrer e ressurgir em cada ano.

Perdoa à minha carne o desejar sem norte,
Porque vivo no mundo e sou pecado.
E recebe-me puro, quando a morte
Me levar p’ra o Teu lado.

(Um Cristo de perdão,
Sereno como é fria a madrugada,
Veio cravar-me, por amor, no coração,
Uma nova espada.)

António Manuel Couto Viana

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