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20 julho 2023

Duas Últimas

 

Já o escrevi aqui: o violoncelo é, talvez, o mais bonito de todos os instrumentos musicais. Quando é utilizado para tocar uma obra particularmente bonita e triste (uma não vai sem a outra...) é de uma beleza sem par. 

Um dos concertos para violoncelo de que mais gosto é o de Dvorák e, dentro desta obra, o II andamento. Na interpretação de Jacqueline Du Pré, famosa violoncelista que morreu com apenas 42 anos, este movimento demora pouco mais de 14 minutos. Acontece que na versão de Mstislav Rostropovitch demora pouco menos de 13 minutos. Nma pesquisa adicional encontraríamos de certeza outros valores.

 

Não sou músico. Mas imaginando que Jacqueline Du Pré não inventou notas, significa isso que algumas passagens da obra (ou deste movimento) são mais lentas, talvez mais tristes. Quem tiver paciência ou gosto, que oiça ambas as interpretações e tire as suas conclusões.

JdB

27 janeiro 2020

Duas músicas (sugerido por mão amiga)

Com excepção da Sinfonia do Novo Mundo (sobre a qual já escrevi neste estabelecimento) conheço alguma coisa, não muita de Dvorak; não conhecia nenhuma parte da obra de que sugiro aqui o 2º andamento. Foi-me sugerido por mão amiga, acompanhada da frase está ali sempre quase quase a "tropeçar" para uma valsinha mas há uma nuance qualquer que não deixa e do texto abaixo. Oiçam, que vale a pena.

JdB



Just like delivering good news to someone has a positive rub-off effect on the messenger, performing Dvořák's Serenade is really a very therapeutic endeavor for performers. There is so much 'pure goodness' in it. Somehow even the moments which could cast a gloomy shadow – light melancholy of the Waltz, or the fragility of the opening of Larghetto – retain the wonderfully cloudless atmosphere... The remarkable thing about Dvořák's Serenade – this 'cloudless goodness' is fully sufficient for sustaining meaningful communication for nearly half an hour of music.

Misha Rachlevsky, 2000, in Wikipedia

24 março 2015

Duas últimas

Não sou dado à criação de quadros relativamente às obras clássicas que vou escutando. Eu explico: oiço uma sinfonia de Beethoven ou de Mozart, um sonata de Chopin ou de Brahms - ou outra obra qualquer - e não imagino nada.O concerto Imperador, dedicado, parece-me, a Napoleão, não me suscita imaginação, não vejo o pequeno corso em nenhum dos movimentos (sendo que o segundo é das peças musicais mais bonitas de sempre) assim como não imagino qualquer ruralidade na obra que se chama Pastoral. Oiço uma polonaise e não me lembro da Polónia (ou de Varsóvia e Cracóvia, que conheço); escuto Liszt e Budapeste não me vem à memória, que o resto da Hungria desconheço. Oiço o concerto de Aranjuez e não (re)vejo a localidade espanhola. 

E no entanto, quando ouvi pela primeira vez a sinfonia do Novo Mundo - a nº 9, de Dvorak - criei rapidamente quatro quadros distintos, que a obra tem quatro andamentos. À minha frente estava o Mayflower, e as quatro partes representavam a história da viagem até ao Novo Mundo: a alegria e uma certa organização na partida, e imaginei a azáfama no porto, com tudo o que envolve uma partida deste tipo; depois, o sossego de uma parte da viagem, a esperança de que se reveste a vitória sobre o desconhecido, talvez até a calmaria que é o desespero do marinheiro; no terceiro andamento, o temporal que se abate sobre o barco, e imaginei o terror, as ordens desenfreadas, as velas que se rasgam e as madeiras que rangem e as ondas que galgam; por último, a alegria da chegada, uma certa pompa e circunstância, o alívio, as bocas abertas perante uma nova realidade.

Tudo se esvaiu quando percebi que na mente de Dvorak o cenário era totalmente diferente. Já não consigo reproduzir o que estava por trás dos 1º, 3º e 4º andamentos, mas nada tinha a ver com o produto da minha imaginação. Tratava-se de cenas campestres, de casamentos entre índios, do encontro do John Smith com Pocahontas etc. Sobre o segundo andamento, Dvorak diria que se cruzava com música tradicional americana, algo entre a negra e a índia. Lá se ia toda a minha teoria - o encanto da teoria...

Deixo-vos com o segundo andamento da Sinfonia nº 9 de Dvorak, também chamada de Novo Mundo. Ainda sábado a ouvi no Estoril e, pasme-se, confirmei a minha ideia de sempre - a partida, o sossego e blábláblá. O compositor checo enganou-se, sei lá eu...

JdB  


06 janeiro 2015

Duas Últimas

Já aqui contei a história, estou certo: várias vezes me cruzei no paredão do Estoril com uma pessoa de quem sou muito amigo. De auscultadores no sítio certo (eu, nos meus ouvidos), mantinha este diálogo:

- O que estás a ouvir?
- Fado.
- Estás triste?

A primeira nota é de espanto. Apesar de na generalidade dos casos o fado ser considerado uma música triste, onde está o racional da pergunta? Estou triste porque oiço fado ou oiço fado porque estou triste? Sempre achei que a lógica da dúvida (toda apoiada na enorme amizade que esta pessoa me tinha) assentava na primeira hipótese - tristeza gera tristeza.

Anteontem, parece-me, o jornal Observador publicava uma notícia interessante, subordinada ao título: A música triste deixa as pessoas mais felizes. Sabe porquê?  Aparentemente, um estudo de uma universidade alemã chegou à conclusão que as canções tristes têm um efeito positivo no humor e na sensação de bem-estar de pessoas que passam por momentos de alguma infelicidade.

Percebi então que a pergunta que a minha amiga proferia, toda feita de ternura e interesse, se ancorava numa visão premonitória e percursora que realçava a segunda hipótese: oiço fado porque estou triste. Isto é, a música triste tinha um efeito positivo numa fase bem menos feliz da minha vida. Uma vez que sou um feroz adepto de música triste, temo levar um excesso de vitamina de bem-estar que me deixe contente e folião o que, a bem dizer, me é profundamente detestável...

Deixo-vos com algo triste (que podem e devem ouvir alto, se bem que muita gente gritasse "deprimente!!!!"). Porquê? Em Fevereiro tenho de pagar o IVA e assim vou aforrando boa-disposição...

JdB
    

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