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20 julho 2023

Duas Últimas

 

Já o escrevi aqui: o violoncelo é, talvez, o mais bonito de todos os instrumentos musicais. Quando é utilizado para tocar uma obra particularmente bonita e triste (uma não vai sem a outra...) é de uma beleza sem par. 

Um dos concertos para violoncelo de que mais gosto é o de Dvorák e, dentro desta obra, o II andamento. Na interpretação de Jacqueline Du Pré, famosa violoncelista que morreu com apenas 42 anos, este movimento demora pouco mais de 14 minutos. Acontece que na versão de Mstislav Rostropovitch demora pouco menos de 13 minutos. Nma pesquisa adicional encontraríamos de certeza outros valores.

 

Não sou músico. Mas imaginando que Jacqueline Du Pré não inventou notas, significa isso que algumas passagens da obra (ou deste movimento) são mais lentas, talvez mais tristes. Quem tiver paciência ou gosto, que oiça ambas as interpretações e tire as suas conclusões.

JdB

10 abril 2018

Duas Últimas

Aviso à navegação: este post não é para gente que queira coisas contentinhas pela manhã.

O Eça falava no som triste do oboé mas eu tenho para mim que som triste mesmo é o do violoncelo. Talvez não haja instrumento tão triste, mesmo quando (e não é este o caso) toca uma música agitada. Há no som do violoncelo uma nostalgia, uma gravidade e uma tristeza bela que são independentes, quase, daquilo que interpretam. 

O violoncelo não é, digo eu que nada sei, um instrumento de Primavera, menos ainda de Verão: é outonal, sobretudo: reflexivo, convidando à interioridade, ao dobrar-se sobre si mesmo para efeitos de protecção do que agride e que vem do exterior, que por vezes não é mais do que o interior que parece que vem de fora. 

Talvez este canto dos pássaros que aqui vos trago não seja o que os traz para cá, mas o que os leva para fora. É um movimento de partida, porque outonal, porque acompanhado pelos dias que encurtam e que convidam à memória - esse refúgio que todo o homem procura em tempos de intempérie.

E talvez este cinema paraíso seja todo ele feito de preto e branco, de lembranças, de beijos roubados e de fogos que tudo levaram, menos aquilo que nenhum fogo consome.  

Não é, repito, um post para gente contentinha. Para isso há estabelecimentos melhores.

JdB




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