quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Poemas dos dias que correm

A Força Exacta é Violência

a Força Exacta é violência. 
a Força em espirro, ao acaso, não é violência, é existência. 
O mal é Fixar a Força (direccioná-la) porque a natureza espontânea não o FAZ. 
Natural é ser FORTE, isto é, avançar. 
Violento é o Percurso que antecede o viajante. Antes dos pés: 
Sapatos; a estrada. 
A Força Exacta é violência. 
A natureza não tem, nunca teve, Forças EXACTAS. 
E tudo o que o homem faz é tornar exacta a FORÇA. 
Ser violento é construir; todo o Edifício é violência. 
O homem é o Exacto da Natureza; a falha NATURAL; o Erro. 
Deus errou: 
fez o homem EXACTO. 

Gonçalo M. Tavares, in "Investigações. Novalis"

***

Em Plena Vida e Violência

Em plena vida e violência 
De desejo e ambição, 
De repente uma sonolência 
Cai sobre a minha ausência. 
Desce ao meu próprio coração. 

Será que a mente, já desperta 
Da noção falsa de viver, 
Vê que, pela janela aberta, 
Há uma paisagem toda incerta 
E um sonho todo a apetecer ? 

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro" 

***

Da Violência

A violência que trazemos no sangue 
ninguém a sabe e todos (casas 
desmoronadas) a exaltam e todos 
a descombinamos 
gota a gota 
em nossos movimentos de cinza 
transitória — esta violência 
residual 
tem do corpo a secura a configuração 
cavada no sono na fogueira sem cor 
de cidades levantadas sobre a doença sobre 
a simulação 
de fogo suspenso 
no arame dos ossos — 

Casimiro de Brito, in "Negação da Morte" 

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