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13 março 2026

Poemas dos dias que correm

A mesma chuva de sempre

Voltamos para casa tarde
(a cama: ainda
por fazer)
o lençol afeiçoado àquele
vinco da manhã e
percebo pela imagem como assentimos a pressa
como o
dia é uma partida com a meia cinzenta rota
no dedo grande do pé. Eu e
o cadeirão de madeira gastamos o
mesmo número de ombros
(hoje usou o dia inteiro a
minha camisa aos quadrados).
O fim de tarde repousa em vasilhas
junto à entrada no
canto da sala onde fomos deixando apinhoar o
monte de jornais antigos com recortes por fazer
(na nódoa que
assentimos: passasse a ser parte integrante do
padrão do sofá)
no cabelo que imolaste ao
meu lado do lençol testemunhando que ontem
ontem sim
ontem sim. A
felicidade entra em casa em sacos de hipermercado –
está de volta o estranhamento de
fugaz tranquilidade por
sabermos que o ruído que insiste sobre o telhado
não
é o céu a cair
(não são anjos a chorar)
são apenas os acordes da
mesma
chuva de sempre. 

João Luís Barreto Guimarães
rés-do-chão (2003)
o tempo avança por sílabas
poemas escolhidos
quetzal
2019

19 fevereiro 2025

Poemas dos dias que correm

As Empregadas Fabris

Arregaçam a manhã (as empregadas fabris)
pernas como tesouras
recortando a calçada
ferem o lenho da mesa com
sortes
de boletim. Uma sirene as trouxe aqui
(às
empregadas febris)
ancas de esboço perfeito sob
vestes de operária
tocam umas nas outras como
inda fossem meninas mas a
delas que vai noivar já
traz o primeiro a caminho. E
quando o cigarro se apaga
(ou a
cerveja se escoa) o
que resta é a dor da tarde
que nem esta chuva afaga
o
gasóleo dos rapazes que
lhes cantam a cantiga e
as tomam pela cintura. Um
foguete fecha a festa
(pelo lado de dentro da coxa)
há nelas a incerteza de
não saberem se são
incompletamente infelizes.

João Luís Barreto Guimarães, in 'Rés-do-Chão'

08 outubro 2024

Poemas dos dias que correm

O QUE ESCOLHES FAZER DAS COISAS

Com
uma navalha afiada (que fura
o ventre de
um homem) também se pode soltar
a corda de
um prisioneiro. Com a corda que suspende
o pescoço do enfocado
também se pode salvar a mão
do fundo de
um poço. O nome fica de fora quando
se enterra um corpo. A sombra
de um ovo
não é branca. O mais belo
é a inteligência. Na mão (em forma de punho)
que fere o rosto de um homem
há força suficiente para
fechar
a navalha.

João Luís Barreto Guimarães * Poeta e Médico Cirurgião.
(1967 - )
In "Claridade"

20 fevereiro 2024

Poemas dos dias que correm

Convento de Cristo, Tomar (Fevereiro 2024)

Comentário sobre os velhos

Alguém tem de
ir à frente. A ir alguém
que vão
os velhos. Se formos pensar bem
para que é
que os velhos servem? A maior parte
não faz nada. Estão quase sempre doentes.
Em rigor só
dão trabalho. Consomem recursos
imensos. A ter de ir
alguém à frente
(é bom de ver:) que
vão eles. Nós temos objectivos. Toda uma
vida pela frente. Molhando
as calças de
pingos.
Lançando pão d’ontem
aos pombos.

João Luís Barreto Guimarães, Poesia Reunida, 2023, pp. 343-4.

14 dezembro 2023

Poemas dos dias que correm

Decepção à Regra

Sentar-me e
ver os outros passar é o
meu exercício favorito. Entretém.
Não esgota.
É gratuito. Neste meu jogo-do-não
são os outros que passam
(é aos outros que reservo a tarefa
de passar). Lavo daí os pés.
Escrevo de dentro da vida.
Pode até parecer que assim não
chego a lugar algum mas também quem
é que quer ir
ao sítio dos outros?

João Luís Barreto Guimarães, in 'Luz Última'

21 julho 2023

Poemas dos dias que correm

 

Madeira (Porto Moniz?) Julho de 2023

O cheiro do corredor 

O
corredor de hospital onde se aguarda a noticia é
escuro
e abafado. As cadeiras de plástico (polidas e
pacientes) aceitam familiares com
um único objectivo: «positivo
ou negativo?» O medo
bebe um cigarro
(fuma o terceiro café)
julgando furtar-se ao cheiro que habita
o corredor –
um cheiro iniludível que invade a memória
acerbando a angústia que antecede
o veredicto: «negativo
ou positivo?» As mãos
tecem litanias
algemadas a um terço (a esperança é o nervo
quando a crença é o músculo) e o
cheiro do corredor fica colado à resposta que
chega pelo fim do dia
devolvendo ordem ao mundo: «Negativo.»
«Negativo?»
«É negativo.»

João Luís Barreto Guimarães, in Nómada

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