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21 julho 2023

Poemas dos dias que correm

 

Madeira (Porto Moniz?) Julho de 2023

O cheiro do corredor 

O
corredor de hospital onde se aguarda a noticia é
escuro
e abafado. As cadeiras de plástico (polidas e
pacientes) aceitam familiares com
um único objectivo: «positivo
ou negativo?» O medo
bebe um cigarro
(fuma o terceiro café)
julgando furtar-se ao cheiro que habita
o corredor –
um cheiro iniludível que invade a memória
acerbando a angústia que antecede
o veredicto: «negativo
ou positivo?» As mãos
tecem litanias
algemadas a um terço (a esperança é o nervo
quando a crença é o músculo) e o
cheiro do corredor fica colado à resposta que
chega pelo fim do dia
devolvendo ordem ao mundo: «Negativo.»
«Negativo?»
«É negativo.»

João Luís Barreto Guimarães, in Nómada

15 julho 2021

Crónicas das Madeira bela (II) *

 

Clube de Turismo da Madeira, Julho 2021

Telefonam-me de Lisboa por um assunto que não vem ao caso:

- Estás em Lisboa?

- Não, estou na Madeira, de férias.

- Já foste ao...

- Não quero ir a lado nenhum!

Vimos à Madeira e perguntam-nos se já fomos aqui ou ali. A pergunta não é estranha - a não ser para mentes perturbadas, como a minha. Eu explico: tenho amigos que passam férias no Magoito. Nunca me ocorreu perguntar-lhes:

- Já foram ao Museu Arqueológico de São Miguel de Odrinhas?

Tenho amigos que passam férias em Alcácer do Sal. Nunca me ocorreu perguntar-lhes:

- Já foram à Cripta Arqueológica do Castelo?

Nessa linha de pensamento, porque quereria eu ir não sei aonde na Madeira, destino esse para onde iria forçosamente com um carro, que não tenho?

Talvez porque parte da minha vida activa desde Outubro tenha sido um pouco agitada, vim para o Funchal com um fito principal: apanhar sol e tomar banhos de mar. Pela primeira vez senti que essas duas actividades me restituíam uma certa energia que se foi perdendo nos últimos meses. Não era só o gosto de apanhar sol e tomar banhos de mar, mas uma certa necessidade vital que me impelia a isso. 

Tomar banho no Clube de Turismo permite não estar em contacto com os dois únicos factores menos agradáveis numa praia vulgar: a areia e o excesso de pessoas. Há pouca gente, não há areia - e o banho é extraordinário, não só porque a temperatura da água é equilibrada, mas porque é um mar fundo, grosso, com ondulação, para onde mergulho com destemor e gosto do alto de um pontão. Dias houve em que fiz 3 horas de "praia"; dias houve em que fiz 7: estendido ao sol numa espreguiçadeira, a dar mergulhos a cada 10 minutos, embalado por um calor que não é excessivo e por um sotaque que tem o seu quê de encanto.

Não quis ir a lado nenhum, a não ser aos sítios onde poderia ir a pé. Consegui-o, o que torna estas quinzena de férias particularmente bem sucedida. Arrisco-me a não conseguir aguentar a rentrée, apesar da energia que acumulei na Madeira bela. 

* título roubado a uma música cantada por Max: Noites da Madeira bela / De magia encanto sedutor / Com viçosas flores formosas

JdB   

28 julho 2020

Moleskine

Funchal, Julho de 2020

TAP

Já aqui o disse: tive a sorte de começar a viajar cedo - e na TAP: serviço impecável, comidas quentes, menu em papel de boa gramagem, opção de refeições, talheres de metal. Nada é eterno, e a necessidade de cortar custos, o desaparecimento de uma certa aura de aventura na vida de uma hospedeira, o desejo do turismo de massas e o 11 de Setembro deram cabo de tudo. Passou a haver uma sandes má de atum ou um pacotinho com sete bolachas salgadas. Para uma certa imagem que ainda tinha na memória, a ida ao Funchal foi um desastre: não havia refeições quentes, não havia sandes nem salgadinhos; havia, isso sim, comida paga. Não acho que seja uma vergonha ou um disparate - foi apenas uma tristeza. Como sempre, a expectativa (ainda que já muito pequenina...) é mãe da desilusão. Acresce ainda que no regresso houve falta de comida para vender...

Padre

Contam-me uma história curiosa e muito verdadeira: falam a um padre de província sobre o fim do celibato dos padres ou alguma coisa do género. O padre empertiga-se, irrita-se e diz: é fácil viver sem nada; sabes o que é a dificuldade de viver com pouco? Não me lembro do que suscitou a pergunta, mas gostei sobretudo da resposta.

Uber

Usei Uber para ir para o aeroporto; usei Uber no Funchal. Serviço sempre 5 estrelas - bom e barato. Chamo um Uber para o trajecto aeroporto - casa. Motorista simpático mas com uma conversa estranha: é hipertenso, teve muitos amigos que morreram de covid 19, a irmã, o cunhado e os sobrinhos (ou familiares semelhantes) apanharam todos o virus mas safaram-se. Questiono-me se devia sair na 2ª Circular ou se confio no destino - ou se acredito que ele é apenas um homem com uma conversa pouco convidativa. 

JdB


20 julho 2020

Da relação entre a Madeira e a Cristina Ferreira


Funchal, Estrada Monumental (18 de Julho de 2020, pela hora de almoço)
Funchal, Estrada Monumental (18 de Julho de 2020, pelas 22.30 horas)

A vantagem de termos um estabelecimento como o Adeus, até ao meu regresso... reside no facto de podermos dar-nos ao luxo dos maiores dislates intelectuais. Visto e lido por uma pequena comunidade persistente de fiéis seguidores (cuja motivação está para além do explicável racionalmente), aqui posso escrever sobre cebolas roxas, mas posso escrever sobre a relação que há entre essas mesmas cebolas roxas e o principado do Mónaco.

Na minha mente estava latente a ideia de ir escrevendo sobre a Madeira, já que me encontro no Funchal; porém, o bombardeamento de que eu e todos os portugueses - pelo menos os menos interessados neste tema - fomos vítimas com as notícias da mudança da Cristina Ferreira da SIC para a TVI levam-me a escrever sobre a Madeira (a tal "cebola roxa") mas na relação com a Cristina Ferreira (o tal "principado do Mónaco", embora em versão menos ruidosa). 




Metaforicamente, as fotografia do Reid's Palace Hotel e do letreiro pendurado numa porta voltada para a rua são legendas perfeitas para o estado da Madeira: está tudo fechado. Metaforicamente, as fotografias da Estrada Monumental, tiradas a um sábado de Julho, são legendas perfeitas para o estado da Madeira: está tudo vazio.

Anda-se pelas ruas, pelo Mercado dos Lavradores, por zonas de restaurantes ou de lojas e tudo se resume a isto: o que não está fechado está vazio. A um sábado à noite vimos restaurantes com uma ou duas mesas ocupadas, outros sem ninguém; muitos - das mais diferentes categorias - fechados, sem vislumbre, talvez, de reabertura. Há hotéis fechados ou semi-vazios. Num deles, numa fiada grande de varandas deitadas para o mar, só havia luz num quarto... Numa zona como a Madeira (ou como o Algarve, noutra proporção) a falta de turistas não é um prejuízo - será uma tragédia. 

***

O fim de semana português foi dedicado a Cristina Ferreira. O Observador, cujo jornal sigo, fez uma cobertura ampla e, diria eu, exagerada. Em boa verdade, só nos faltou saber a cor da roupa interior da jornalista aquando da rescisão do contrato com a SIC, já que fomos sabendo tudo de hora a hora. A transferência não foi uma notícia: foi A notícia. Dos montantes envolvidos só sei o que a SIC pede de indemnização: 4 milhões de euros, que a jornalista e a TVI pagarão, seguramente, em partes proporcionalmente justas, se os tribunais derem razão aos queixosos.

Passo da impressão pessoal para o mais forte lugar-comum: nada disto me preocuparia muito numa empresa privada, onde a obscenidade dos salários e dos valores de transferências não me afecta. Ora, acontece (como foi salientado publicamente) que a TVI recebeu uma verba para compensar perdas de publicidade derivadas da pandemia. E nesse sentido, sim, a gestão dos dinheiros da TVI já me afecta os bolsos. Mais do que dizer-me muito, Cristina Ferreira grita-me muito; fora isso, será uma boa profissional, seguramente uma pessoa inteligente porque chegou a estes níveis de popularidade, mesmo que isso revele alguma coisa do povo português - ou da espécie humana. 

A televisão e o futebol ombreiam, de certa forma, numa obscenidade de ordenados. Veja-se os valores envolvidos na transferência de Jorge Jesus para o Benfica (desmemoriado que sou para algumas coisas, não sei se o clube da Luz se tem candidatado a apoios estatais...).  Por esse Portugal fora, médicos e profissionais de saúde ganham uma miséria. Na outra ponta do espectro, há jornalistas ou entertainers - ou Jorge Jesus, que também entretém... - a ganhar milhões, pagos por patrões que pediram apoio ao Estado para fazer face a dificuldades. Um médico cura vidas; Cristina Ferreira (com todos os méritos profissionais) alegra vidas. 

Uma certa ética está acima da lei ou das lógicas de mercado ou de facturação de empresas privadas. A diferença entre os ordenados de jornalistas, de treinadores de futebol e de médicos (ou de outros profissionais de saúde) não configura um incumprimento legal. Não há nada na lei que impeça o Estado de pagar 1.800€ a um médico e um clube de futebol (ou uma estação de televisão) pagar cem vezes mais a um profissional da bola ou do pequeno ecrã. Talvez haja, apenas, uma distorção entre valor e valores

Talvez não possa comparar-se uma "cebola roxa" (os números do drama humano se o Verão da Madeira, ou de outros pontos do país, for isto que vi nestes últimos dias) com o "principado do Mónaco" (materializado pelos ordenados de Jorge Jesus e Cristina Ferreira); a vantagem deste estabelecimento é que aqui pode-se...

JdB  


16 julho 2020

Da viagem à Madeira em temos de pandemia


Muito provavelmente, há alguns anos publiquei neste estabelecimento fotografias iguais a estas, tiradas ontem no Funchal, onde me encontro. O mar não mudou, as piscinas estão onde sempre estiveram, a entrada para o Clube mantém-se inalterada, com uma menina - talvez não a mesma... - sentada, e quiçá maçada, atrás de um computador. Esta parte da ilha da Madeira está inalterada. Não falo do resto, porque ainda não vi: os restaurantes vazios, os hotéis às moscas, as ruas sem trânsito, a ausência de inglês ou alemão escutado nas ruas.


Embarquei ontem, 15 de Julho: um voo atrasado 3 horas por causa do vento na Madeira; uma aterragem "ventosa", oscilante mas, ainda assim, segura, como compete aos pilotos da TAP. Talvez outros pilotos, de outras companhias aéreas, não aterrassem com o vento que se fazia sentir ontem. 

Foi a minha primeira viagem pós-pandemia. O que se oferece dizer? Um aeroporto da Portela tristemente vazio, mas com mais regras de segurança. Um hall de restaurantes sem ninguém, mas com 4 italianos a colarem-se à mesa onde eu estava, falando muito alto (senti que tinha de mudar de sítio) e deixando entender que há uma sensação gregária que não nos sai da pele, porque vamos para os sítios onde outros já estão. Uma viagem de avião curta, com a estranheza (talvez faça sentido ser assim....) de ver pessoal da TAP a vender comida a bordo: Lays gourmet, cacahuetes, bolachas de chocolate, sandes de perú, Sprite ou água mineral... Por último, porque todas as grandes dificuldades encerram em si ganhos secundários, a alegria de um distanciamento social. Ao contrário de muitos à minha volta, não me alegro com o desaparecimento do cumprimento físico. Há quem fique satisfeito por já não haver beijo (é um ou dois?) ou aperto de mão. Para pessoas como eu, a grande alegria está, repito, no distanciamento social: obcecado que sou com questões de proxémia, alegra-me poder dizer a um cavalheiro sem correr o risco da deseducação: importa-se de manter o distanciamento recomendado? É o vírus, sabe...

JdB


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