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08 fevereiro 2011

Alguém tem soluções para o futuro do país?

O jornal Expresso, em parceria com o Millennium bcp, lançou o Movimento Milénio e o desafio a todos os portugueses para divulgarem as suas ideias e projectos futuristas em quatro grandes áreas - Democracia, Negócios, Cidades e Consumo. E as melhores ideias ainda vão ser premiadas.

Está tudo explicado aqui, em www.movimentomilenio.com. O Regulamento, os Prémios, as respostas a Dúvidas, os prazos de submissão e como Participar.

No site, além disso, ainda pode encontrar uma série de conteúdos editoriais. Espreite aqui, por exemplo, como a British Telecom via o futuro das telecomunicações nos anos de 1950:



Mónica Bello

23 julho 2009

09 abril 2009

Horizontes dos dias que não correm


Há pouco mais de um ano, era esta a minha vista para o horizonte - a umas dezenas de quilómetros da cidade da Beira, em Moçambique, e a caminho do Búzi, pequena vila nas margens do rio com o mesmo nome. Chama-se a isto ter saudades de horizontes mais largos. Sinto a terra debaixo das solas de novo, atravesso a ponte, perco o olhar lá longe. Como se diz por aqui, e muito, ultimamente, i num instante tudo muda...

Mónica Bello

02 abril 2009

O furacão





Talvez seja do frio de Berlim, ou das temperaturas antecipadas do Verão de Lisboa. Ou porque uma história de amor é sempre uma história de amor. Ou porque o tango conta as melhores histórias de amor. Esta chama-se “En tus brazos” e deu a volta a uma série de festivais de animação. Fica uma espécie de preâmbulo em três fotografias para criar ambiente. E porque o Tango não cabe num post, clique aqui. Ao ritmo de “El Huracán”, interpretado por Los Autenticos Reyes.

Mónica Bello

12 março 2009

Uma redacção nova


Uma casa nova para uma marca de informação nova vai marcar uma nova maneira de organizar e distribuir informação em Portugal. A equipa do i senta-se agora nas instalações definitivas, desenhadas por Luis Calau, arquitecto português com atelier em Barcelona. Um espaço aberto com 1300 metros quadrados organizado em estrela, dominado por um núcleo central, mais conhecido por “hub” ou “superdesk”, responsável pela distribuição e organização da informação pelas várias plataformas de publicação: papel e online.

Quatro dias depois da estreia, um tapete vermelho continua a dar-nos as boas vindas todas as manhãs. O tempo corre. Sem tempo para respirar. Aproxima-se o dia i.

Mónica Bello

05 março 2009

A última edição

O “Rocky Mountain News” fechou as portas depois de 149 anos e 311 dias de vida. Era um jornal local, do Colorado, com sede em Denver. Morreu na sexta-feira passada, apenas o caso mais recente de uma longa lista de títulos que não resistiram aos tempos difíceis que correm. Não são novos, os sinais que apontam para a necessidade de mudança da imprensa e do modelo de negócio da imprensa. Em todo o mundo. E gosto desta frase que Juan Giner, fundador e presidente da Innovation, multinacional de consultadoria de media, costuma projectar em corpo gigante na parede: “A alternativa não é um negócio que valoriza os lucros e o bom jornalismo, mas um negócio onde o bom jornalismo é o negócio.”
Deixo aqui o filme “Final Edition” do “Rocky Mountain News”. Vinte e um minutos e alguns segundos de uma história bem contada. Uma história triste. Bom jornalismo.


Final Edition from Matthew Roberts on Vimeo.

Mónica Bello

26 fevereiro 2009

Uma orquestra no caos

Reúnem-se, ensaiam, cantam, cosem vestidos e fabricam instrumentos de música. Os 170 membros da Orquestra Sinfónica de Kinshasa não desistem. E uma das razões deve-se, provavelmente, ao facto de todos estes músicos pertencerem a uma igreja local – a Igreja Kimbanguista (com raízes cristãs e mais de 5 milhões de seguidores, dizem). Da música também fazem prova de fé. Uma história de paz ao som de O Fortuna, Carmina Burana, de Carl Orff.



Mónica Bello

19 fevereiro 2009

Dancem com ele

Matt Harding chegou à fama através do Youtube. Nada de muito novo, portanto. Talvez já tenham ouvido falar neste homem. Mas para quem não conhece, Matt deu duas voltas ao mundo e por cada sítio que passou deu-se ao trabalho de dar uns pés de dança. Na primeira volta, em 2006, Matt dançou sozinho. Na segunda, já patrocinado, pediu a quem por ali estivesse que dançasse com ele. Eis um resumo da 2ª aventura que demorou 14 meses e passou por 42 países.



Já agora, faça zoom só na produção dos passos de dança na companhia de alguns “homens de peruca Huli” (tradução literal de “Huli Wigmen”) nos confins da Papua Nova Guiné.



Uma boa maneira de percebermos que vivemos todos no mesmo mundo.

Sorriam. Tenham um bom dia.

Mónica Bello

12 fevereiro 2009

Outro dia

Revejo este anúncio de vez em quando. Quando os dias – mesmo os dias de sol – se complicam e as complicações parecem não ter saída. É nestes dias que me apetece fazer o que se pode ver em anexo. Que é como quem diz, arrumar o dia. O assunto. A máquina infernal que não se pode desligar. E faço de conta que em vez de um iPhone, dou o mesmo tratamento ao Nokia. Um minuto e trinta e sete segundos de paz e sossego. Amanhã é outro dia.

Mónica Bello

05 fevereiro 2009

A bola



Cinema de Moçambique. Do realizador Orlando Mesquita. Sem comentários.

Mónica Bello

29 janeiro 2009

Um desejo


Uma ideia simples. Sair à rua e fazer a mesma pergunta a 50 pessoas. Cinquenta pessoas com quem cruzamos na rua todos os dias, que não conhecemos, nem conheceremos. Caras desfocadas que se diluem num mar desfocado de caras. Mas que se transformam em pessoas quando respondem a uma única pergunta. Que desejo gostaria que se tornasse realidade até ao fim do dia?
Um bom exercício de simplicidade. E de proximidade. Este foi feito em New Orleans. (Apesar de ter um minuto e meio a mais – no início – para ser perfeito.) Mas podia ser gravado em qualquer parte do mundo.
Se me perguntassem a mim?
E a ti?
E a vocês, aí fora?




Mónica Bello

22 janeiro 2009

Back to basics

Se não me falham as contas, este é o meu post número 11. Ou talvez seja o décimo segundo, o que é absolutamente irrelevante para o caso. Porque o caso é que, olhando para trás, sobretudo para as primeiras semanas, percebo que me perdi pelo caminho. Talvez seja um problema meu, o de tentar dar algum sentido a esta colaboração semanal “blogueira” – uma deformação profissional dos jornais, ou que me ficou da escrita para o “papel”.
Agora que mergulhei de cabeça no “admirável mundo online” e nos desafios para a informação online, confesso que aquilo que me apetece é twittar. Ou seja, vou continuar a percorrer no “Adeus…” este meu caminho errático. Que espero não seja errático de mais para quem lê ou vê.

Twitt desta semana: Food for thoughts. A missão do sr. Gebregiorgis. Ou back to basics.





Mónica Bello

15 janeiro 2009

O cimento antes de secar


Estou a tentar abrir uma porta.
Não sei para que lado a chave vai quebrar
nem sei como chegou à minha tentativa
o interdito com que de novo procuro.
Alguma coisa está a ser calcada
no interstício dos gonzos, na dobradiça
cercada de estrelas mortas a fulgir.

Atravessou entre pinheiros.
O vento levantava areia,
enterrava-se no côncavo da represa.
Faltava a esse amor a ilusão
do amor. O céu mordente.
Esse rastilho quase animal.
Toda a explosão do mundo.

De golpe incendiaram-se as plantas,
as que de mês a mês vemos crescer
até às flores as que dão flor,
a novos ramos as que só dão folhas.
Mês a Mês, ramo a ramo, flor a flor,
a mentira bate na lagoa e dança
no tecto com as venezianas corridas.

Ficámos a falar por muito tempo.
Tinha o corpo de betão.
Mostrei-lhe livros, discos, labaredas
que falham quando procuramos
as palavras que já os olhos disseram.
E há um silêncio entre gestos cegos.

O mármore pulsa com os pontos cardeais.
Parece o coração. Bátegas
de encontro ao fechamento, obscuras.
Escuta, continua a escutar, a treva
solta-se da terra inacessível
onde os diamantes prefiguram
a nossa petrificação.

Vivíamos no canal de lava da rua,
no último café a fechar,
as solas sobre um vidro em ebulição
e perdíamos.

É muito de manhã. Acorda
a dor humana que me faz companhia.
Estou a sair de tua casa
a caminho de lugar nenhum,
a minha casa, esse vazio
com a música arrumada,
o cinzeiro, o aspirador, a cortina míope,
a gelatina da cama
onde não mais queria voltar.

Joaquim Manuel Magalhães, in “a poeira levada pelo vento”



Mónica Bello

08 janeiro 2009

Arrumações


“Certifico, por este meio, que a família Fritz foi inquilina do apartamento da Grolmanstrasse, nº 15, em Berlim Charlottenburg, desde o ano de 1938 até à destruição daquele prédio, em Agosto de 1943, do qual fui administrador. Durante todo esse período não pude constatar da parte do senhor Fritz, nem da mulher, nem dos filhos, que a família fosse simpatizante de Hitler. A família também nunca me cumprimentou com a saudação idiota (“Heil Hitler”), facto que sempre apreciei. Por estas razões, estou em condições de testemunhar a seu favor.”

Hans Mulka
29 de Maio de 1945


Naquela manhã do dia 29 de Maio de 1945, Gottfried vestiu o melhor fato e despediu-se da mulher com um beijo. “Vou registar-me. Não demoro”. Faltavam dois dias para acabar o prazo que obrigava ao registo obrigatório de todos os militares ou membros de forças de segurança junto das autoridades de ocupação. Durante todo o dia, as mulheres da casa espreitaram-lhe o regresso da janela. Depois no outro. E no outro.

Gottfried Fritz voltaria a Berlim quatro anos e oito meses mais tarde, em finais de Janeiro de 1950. Esse intervalo da vida, de que nunca falou, passou-o em dois campos de internamento, como lhes chamavam, à época, e o maior período, quatro anos e um mês, esteve no Campo Especial nº 2, ex-campo de concentração nazi de Buchenwald, transformado pelo comando soviético em campo de prisioneiros. Gottfried, ex-agente da Krippo, a versão alemã da polícia judiciária, foi um dos 28.455 homens e mulheres (cerca de mil mulheres, algumas acompanhadas de crianças pequenas) internadas em Buchenwald no pós-guerra. Nenhum deles foi julgado.

Cheguei a Buchenwald numa manhã fria e de céu encoberto. Um dia de Inverno, quatro décadas e meia depois de Gottfried ter partido com um livre-trânsito da Cruz Vermelha na mão e licença para apanhar um comboio de regresso a casa. Cheguei num desses dias em que o mundo fica da cor do chumbo e a terra parece suar em frio. Buchenwald está afundado em sombras. Onde os pesadelos tomam conta do ar. Primeiro, o pesadelo dos 50 mil que aqui morreram de fome, doença, maus tratos e puro assassinato às mãos dos nazis; depois, o dos sete mil, enterrados sem nome na floresta que se adivinha ao fundo, durante a administração soviética do campo.

Quase seis décadas depois, nada disto tem importância e importa ainda a muito poucos. Na Grolmanstrasse, nº 15, em Berlim, ergue-se hoje um edifício moderno, onde tem sede uma consultora imobiliária, com negócios centrados na Alemanha, em França, na Europa Central e de Leste. Hans Mulka, o administrador do velho prédio arrasado por uma bomba aliada desapareceu há muitos anos. O testemunho que escreveu naquele dia 29 de Maio de 1945, seria anexado, em 1950, ao processo de “desnazificação” de Gottfried, que viveu até aos 100 anos. Sobreviveu para ver o muro cair em Berlim e a Alemanha reunificada.

Este fim-de-semana arrumei papéis. Velhos papéis que herdamos um dia. E que um dia deixamos que nos contem histórias de uma história que intuímos, como uma recordação que nunca vivemos.

Lembro-me bem das mãos do meu avô. Grandes e ásperas como a vida. E que guardavam as minhas quando me levava de passeio pelos jardins do palácio de Charlottenburg.

Mónica Bello

01 janeiro 2009

Vidas cruzadas

Durante mais de dez anos, falámos por telefone. Havia semanas em que nos ouvíamos várias vezes, depois passavam-se dois, três meses de silêncio. Há dois anos, foi também por telefone que chegou a notícia. “Já sabes? O Martin morreu. A notícia já está na Lusa.” Dois minutos depois, o telefone de novo. “Estava na Somália, a filmar uma manifestação. Deram-lhe um tiro à queima-roupa.” Lembro-me que pousei o auscultador e fiquei quieta. A primeira imagem que me veio à memória foi a de uma avenida a preto e branco em Grozny, os prédios em escombros, onde uma mãe caminha pelo passeio destruído levando a filha pela mão. A mulher usa um vestido de manga curta, estampado com figuras que à distância parecem flores e um lenço cobre-lhe os cabelos. A criança, 5 ou 6 anos, olha o fotógrafo, curiosa, apanhada entre um saltitar e outro. A toda a volta, a desolação é total. E, no entanto, naquele Verão de 1995, a vida continuava à sombra das montanhas do Cáucaso, numa Chechénia onde se prolongavam os combates entre tropas russas e rebeldes.
Martin Adler nasceu em Estocolmo, em 1958, de mãe britânica e pai sueco. Estudou antropologia em Londres, optou pelo jornalismo e juntou-se a um pequeno grupo de profissionais em vias de extinção - os repórteres de guerra. Esteve praticamente em todos os cantos onde o mundo ameaçava vir a desabar ou já se desmoronava: de Caxemira ao Ruanda, do Sri Lanka à Guatemala, do Afeganistão à Chechénia, no Iraque, em Darfur, na Indonésia, na Somália, no Congo, na Serra Leoa, na Libéria, na Bósnia, na Eritreia, no Burundi, na Nigéria. Começou por escrever e fotografar, passou depois a carregar também uma máquina de filmar. Preferia ser freelancer e dono do seu destino. Trabalhou sobretudo para jornais e televisões em Inglaterra e na Suécia e recebeu inúmeros prémios (em 2007, o Rory Peck Trust, instituição que apoia jornalistas freelance e respectivas famílias em todo o mundo, instituiu o Prémio Martin Adler). Em Portugal, foi colaborador permanente da revista “Grande Reportagem”, depois de “O Independente”, e durante mais de uma década os textos e as fotografias publicados nessas páginas foram a maior prova do seu profissionalismo e objectividade. E da sua enorme coragem.
Martin preferia cobrir os conflitos e as misérias humanas de que ninguém se lembrava ou que o mundo fazia por esquecer. Nos intervalos voltava a Vasteras, na Suécia, onde vivia com a mulher e as duas filhas. Nos intervalos reactivava contactos e planeava as próximas reportagens. Era nesses intervalos que o telefone tocava. Que ele cruzava a vida com as vidas dos outros.

Talvez seja da época. Ou destes dias de chuva intermitente. Ou das más notícias que chegam de Israel, do Zimbabué ou sobre a crescente tensão entre a Índia e o Paquistão. Ou talvez seja só a estranha saudade de uma noite de Verão e de conversa em Lisboa.
Take care, Martin. Como noutro tempo.

http://br.youtube.com/watch?v=VSX4ZfFGXnU

On Patrol with Charlie Company, no Iraque, a reportagem emitida pelo canal de televisão norte-americano PBS que, em 2004, valeu a Martin Adler o Prémio Rory Peck.


Mónica Bello

25 dezembro 2008

Christmas play



Vou passar devagarinho à sala do lado, fechar a porta e os olhos e deixar correr estes pouco mais de sete minutos do Concerto de Natal de Corelli - dirigido e interpretado por Roy Goodman e o Brandenburg Consort. Replaying.

Mónica Bello

18 dezembro 2008

Um murro no estômago


Mediastorm.org, patrocinado pelo jornal “Washington Post”, é um dos sites preferidos pela geração de 80 – os que têm agora entre 20 a 30 anos. Talvez menos, até. Um site criado para desenvolver e incentivar o jornalismo multimédia, premiado com um Emmy e dois Webby Awards, entre outros, que se dedica à divulgação e produção de documentários, sobretudo na área social. “Condition: Critical, Voices from the War in Eastern Congo” é um projecto Mediastorm produzido para a ONG Médecins Sans Frontières. Um murro no estômago, desses que têm o condão de voltar a pôr o mundo em perspectiva – para além do nosso próprio umbigo.

“Condition: Critical”, como lhe chamam abreviadamente, dá-nos a pior imagem de África. O inferno que se instalou no Congo é exemplo das piores notícias que costumam chegar daquele continente. Mas apesar de todo o horror, de toda a selvajaria, de toda a demência e desolação - em que as imagens de um Jesus crucificado só parecem dramatizar ainda mais a ausência de salvação para os que conseguem sobreviver -, ainda é possível encontrar uma semente de vontade entre as centenas de milhar de refugiados da região de Kivu - mulheres e homens bons, disponíveis para voltar a casa e reconstruir a vida.

“De que é que um gajo ainda se queixa?”, perguntam-me aqui ao lado.

Mónica Bello

11 dezembro 2008

Uma lição de vida em seis minutos e cinquenta e um segundos


É uma lição de jornalismo de dois fotógrafos profissionais norte-americanos, Charla Jones e Jayson Taylor, que há um ano decidiram dedicar-se ao vídeo jornalismo. “Farm Family”, como o nome indica, é a história de uma família rural - do Maine. De uma segunda oportunidade. De coisas simples e tão complicadas como o amor e uma família.
Vale a pena parar durante seis minutos e cinquenta e um segundos para conhecer a família Tibbetts.

Mónica Bello

04 dezembro 2008

A primeira sinfonia global



A 6 de Outubro deste ano, Tan Dun dirigiu a London Symphony Orchestra na estreia da Internet Symphony No. 1 "Eroica", para o Youtube, da autoria deste compositor e maestro chinês.
Vale a pena ver e ouvir.

A primeira orquestra sinfónica global



A estreia da primeira orquestra sinfónica global está marcada para o dia 15 de Abril de 2009, em Nova Iorque, no Carnegie Hall – cem músicos de todo o mundo dirigidos por Michael Tilson Thomas, o maestro da orquestra sinfónica de São Francisco.
As inscrições e as audições estão abertas online.
Vale a pena esperar.

Mónica Bello

27 novembro 2008


New York Review Books Classics, 2007

O alcatrão brilha à luz dos candeeiros de rua. Não mexe uma folha. E nem podia, porque não sobra uma folha nas árvores. Uma nuvem embacia-lhe o horizonte a cada batida do coração. Não sei se do dele ou de outro coração qualquer. A noite traz a primeira neve do ano e o homem enterra a cabeça na gola do casaco. Os poucos sons a cortar o silêncio são as solas das botas que esmagam a neve na calçada e um ou outro carro que desaparece, engolido pela escuridão. É como se não existisse mais ninguém no mundo. Nenhum outro lugar no mundo. Talvez mundo nenhum. Apenas dois pares de semáforos com agenda própria e duas alas de árvores nuas ao longo de um caminho para lado nenhum. Deve ser isto, a paz. Um buraco no tempo. Um floco de neve que entra pela gola. Uma gota de água gelada que se consome entre as omoplatas. Os passos são agora mais lentos. Vagarosos. Se pudesse, ele ficava ali. A mão esquerda procura o livro no bolso fundo. “A Time to Keep Silence”. Ainda o tem. A neve cai agora com mais força e ele acelera a passada. A caminhada é minha, o livro é para ti.

Mónica Bello

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