quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Vidas cruzadas

Durante mais de dez anos, falámos por telefone. Havia semanas em que nos ouvíamos várias vezes, depois passavam-se dois, três meses de silêncio. Há dois anos, foi também por telefone que chegou a notícia. “Já sabes? O Martin morreu. A notícia já está na Lusa.” Dois minutos depois, o telefone de novo. “Estava na Somália, a filmar uma manifestação. Deram-lhe um tiro à queima-roupa.” Lembro-me que pousei o auscultador e fiquei quieta. A primeira imagem que me veio à memória foi a de uma avenida a preto e branco em Grozny, os prédios em escombros, onde uma mãe caminha pelo passeio destruído levando a filha pela mão. A mulher usa um vestido de manga curta, estampado com figuras que à distância parecem flores e um lenço cobre-lhe os cabelos. A criança, 5 ou 6 anos, olha o fotógrafo, curiosa, apanhada entre um saltitar e outro. A toda a volta, a desolação é total. E, no entanto, naquele Verão de 1995, a vida continuava à sombra das montanhas do Cáucaso, numa Chechénia onde se prolongavam os combates entre tropas russas e rebeldes.
Martin Adler nasceu em Estocolmo, em 1958, de mãe britânica e pai sueco. Estudou antropologia em Londres, optou pelo jornalismo e juntou-se a um pequeno grupo de profissionais em vias de extinção - os repórteres de guerra. Esteve praticamente em todos os cantos onde o mundo ameaçava vir a desabar ou já se desmoronava: de Caxemira ao Ruanda, do Sri Lanka à Guatemala, do Afeganistão à Chechénia, no Iraque, em Darfur, na Indonésia, na Somália, no Congo, na Serra Leoa, na Libéria, na Bósnia, na Eritreia, no Burundi, na Nigéria. Começou por escrever e fotografar, passou depois a carregar também uma máquina de filmar. Preferia ser freelancer e dono do seu destino. Trabalhou sobretudo para jornais e televisões em Inglaterra e na Suécia e recebeu inúmeros prémios (em 2007, o Rory Peck Trust, instituição que apoia jornalistas freelance e respectivas famílias em todo o mundo, instituiu o Prémio Martin Adler). Em Portugal, foi colaborador permanente da revista “Grande Reportagem”, depois de “O Independente”, e durante mais de uma década os textos e as fotografias publicados nessas páginas foram a maior prova do seu profissionalismo e objectividade. E da sua enorme coragem.
Martin preferia cobrir os conflitos e as misérias humanas de que ninguém se lembrava ou que o mundo fazia por esquecer. Nos intervalos voltava a Vasteras, na Suécia, onde vivia com a mulher e as duas filhas. Nos intervalos reactivava contactos e planeava as próximas reportagens. Era nesses intervalos que o telefone tocava. Que ele cruzava a vida com as vidas dos outros.

Talvez seja da época. Ou destes dias de chuva intermitente. Ou das más notícias que chegam de Israel, do Zimbabué ou sobre a crescente tensão entre a Índia e o Paquistão. Ou talvez seja só a estranha saudade de uma noite de Verão e de conversa em Lisboa.
Take care, Martin. Como noutro tempo.

http://br.youtube.com/watch?v=VSX4ZfFGXnU

On Patrol with Charlie Company, no Iraque, a reportagem emitida pelo canal de televisão norte-americano PBS que, em 2004, valeu a Martin Adler o Prémio Rory Peck.


Mónica Bello

2 comentários:

Anónimo disse...

também eu, como leitor, 'conheci' o martin, dos jornais, das revistas, desse quotidiano feito de retalhos atentos..

vivi um pouco mais, um pouco melhor, o mundo, pela lente dele, através do seu olhar.

uma comovente homenagem, que me tocou, nesta manhã de um novo ano. oxalá fosse de Ano Novo.

obrigado. a ele. e a si.


flores,

gi.

Anónimo disse...

Obrigada, eu, gi. E pela promessa do 6º poema: "escuta: já lá vem o verão."
Um Bom Verão!
MB

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