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22 abril 2019

Duas Últimas

Ricardo Ribeiro é visita habitual deste estabelecimento. Não fui à procura do que já aqui postei dele, a não ser uns versos de Pedro Homem de Mello, de que gosto muito (e que vão dizendo, dirigindo-se a Jesus: tudo o que tenho, e nada tenho, é teu) , acompanhados por Pedro Jóia. Vi-o a cantar ao vivo na Gulbenkian - não a cantar fado, mas "toadas" da África do Norte, talvez Marrocos, não sei ao certo. E talvez não fosse nada disso, o importante é que não era fado tradicional. 

Li ontem uma entrevista de Ricardo Ribeiro no Observador, a propósito do seu novo disco. A entrevista era entremeada por alguns youtubes dele, também não de fado. O gosto da selecção não é, portanto, meu. Espero que gostem.

JdB
  


19 março 2018

Duas Últimas

Ontem fui aos 40 anos de casados de amigos recentes, mas cuja amizade prezo. Embora sejam pessoas mais velhas do que eu, e tenham casado relativamente cedo, são gente da minha geração. Mandaram celebrar missa no mesmo sítio onde casaram, rezada pelo mesmo padre que os casou - agora com 86 anos. Nestas bodas de esmeralda (aprendo ontem) estava gente que não estava há 40 anos, gente que repetiu as cerimónias, faltavam pessoas - porque morreram - que estiveram ali ontem, mas há 4o anos. Nada de muito surpreendente na dinâmica da vida. 

40 anos é mais do que uma vida. Daquele casamento nasceram filhas e netos. Daquele casamento, como de outros que vou conhecendo mais ou menos com a mesma idade, nasceram ideias de casamentos perfeitos - não porque isentos de discussões e zangas, mas porque isentos de desistência. Tal como um santo é um pecador que não desiste, um casamento perfeito é aquele do qual não se desiste, em busca de uma felicidade que é um caminho, não um destino.

A longevidade destes casamentos representa tudo - uma dimensão de sorte, de esforço, de cedência mútua, de negociação, talvez até de vontade de mandar tudo às malvas.  Mas significa, acima de tudo, a ideia de exequibilidade, de possibilidade. Sim, é possível nos dias de hoje festejarem-se 40 anos de casados, contra todas as ideias que vão em sentido contrário. Não significa isto que o fim de alguns casamentos não tenha sido um inevitabilidade. Sim, alguns acabaram porque tinham de acabar, assim como outros acabaram sem que isso fosse uma inevitabilidade. 

40 anos é uma vida. E pode ser uma vida cheia, assim as pessoas queiram e o destino ajude. 

Deixo-vos com uma dupla que já por aqui passou, talvez mesmo com este belíssimo poema de Pedro Homem de Mello. "Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu."

JdB


29 agosto 2017

Duas Últimas

Se a chuva ocasional de ontem, forte e intensa, foi para uns momento de neurastenia, a mim-me deixou prenúncios benfazejos, ainda que prematuros, de Outono.  De janela aberta, a meio da manhã, cheirei o cheiro da terra molhada e imaginei, ingenuamente, o mercúrio do termómetro a descer, os dias a encurtar, a necessidade de resguardo. Sei que será chuva de pouca dura, que Setembro pode ser um bom mês para quem ainda ambiciona praia e dias ao sol.

Ontem, numa conversa breve, uma amiga dizia-me que gostava do Outono porque os dias curtos demoravam menos tempo a passar. São motivos diferentes os que me levam a apreciar esta época do ano: o Outono, tal como a música mais triste (e já aqui falei sobre isto) é centrípeto, convida ao recolhimento, à interiorização das ideias, à descoberta do sentido das coisas, à protecção que se encontra em locais familiares. Talvez, num certo sentido, seja uma estação do ano mais segura (importante?), porque mais propícia a decisões sérias. Para quem faz do regresso a casa um tema fulcral nas suas deambulações metafísicas, o Outono tem de ser uma presença - talvez mesmo uma dominância. 

Deixo-vos com um conjunto bonito de aspectos estéticos: Monserrate, a viola de Pedro Jóia, a voz de Ricardo Ribeiro e, não menos importante, uns belíssimos versos de Pedro Homem de Mello. 

Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu.

JdB  




Entrega

Descalço venho dos confins da infância
Que a minha infância ainda não morreu.
Atrás de mim em face ainda há distância
Menino Deus, Jesus da minha infância,
Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu

Venho da estranha noite dos poetas,
Noite em que o mundo nunca me entendeu
Vê trago as mãos vazias dos poetas.
Menino Deus, amigo dos poetas,
Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu

Feriu-me um dardo, ensanguentei as ruas
Onde o demónio em vão me apareceu.
Porque as estrelas todas eram suas
Menino irmão dos que erram pelas ruas
Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu

Quem te ignorar ignora os que são tristes
Ó meu irmão Jesus, triste como eu
Ó meu irmão, menino de olhos tristes,
Nada mais tenho além dos olhos tristes
Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu!

Pedro Homem de Mello

18 agosto 2015

Duas Últimas

Atrapalhado com a feitura do primeiro draft da tese de mestrado - o tempo é curto e a sabedoria pouca... - falta-me a inspiração para escritas bloguistas. 

Deixo-vos com Pedro Jóia - numa parceria com Ricardo Ribeiro e num solo.

JdB


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