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05 abril 2024

O fado, canção de vencidos

Estranho Fulgor 

Deu-me Deus bodas vermelhas
E palavras como abelhas
Esquecendo-se de mim
Deu-me a paz de alguns minutos
E palavras como frutos
Esquecendo-se de mim 

Deu-me as ideias formosas
E palavras como rosas
Esquecendo-se de mim
Deu-me a voz que persuade
Muito mais do que a verdade
Esquecendo-se de mim 

Mas um dia, veio a dor
Veio o castigo sem fim
Veio esse estranho fulgor
Apartando o bem do mal
E vi que Deus afinal
Já se lembrava de mim

Pedro Homem de Mello

05 janeiro 2024

Poemas dos dias que correm

Resgate

Não sou isto nem aquilo
É o meu modo de viver
É, às vezes, tão tranquilo
Que nem chega a dar prazer…
Todavia, onde apareço,
Logo a paz desaparece
E a guerra que não mereço
Dá princípio à minha prece.
És alegre? Vês-me triste?
Por que não te vais embora?
Quem é triste é porque é triste.
E quem chora é porque chora.
Tenho tudo o que não tens
Tenho a névoa por remate.
Sou da raça desses cães
Em que toda a gente bate.
Só a idade com o tempo
Há-de vir tornar-me forte.
A uns, basta-lhes o vento…
Aos Poetas, basta a morte.

        Pedro Homem de Mello 

18 julho 2022

Poemas dos dias que correm

 

Fui Pedir um Sonho ao Jardim dos Mortos

Fui pedir um sonho ao jardim dos mortos.
Quis pedi-lo, aos vivos. Disseram-me que não.
Os mortos não sabem, lá onde é que estão,
Que neles se enfeitam os meus braços tortos.

Os mortos dormiam... Passei-lhes ao lado.
Arranquei-lhes tudo, tudo quanto pude;
Páginas intactas — um livro fechado
Em cada ataúde.

Ai as pedras raras! As pedras preciosas!
Relâmpagos verdes por baixo do mar!
A sombra, o perfume dos cravos, das rosas
Que os dedos, já hirtos, teimavam guardar!

Minha alma é um cadáver pálido, desfeito.
As suas ossadas
Quem sabe onde estão?
Trago as mãos cruzadas,
Pesam-me no peito.
Quem sabe se a lama onde hoje me deito
Dará flor aos vivos que dizem que não?

Pedro Homem de Mello, in "Príncipe Perfeito"

30 dezembro 2021

Poemas dos dias que correm

Presságio

Ela há-de vir como um punhal silente
Cravar-se para sempre no meu peito.
Podem os deuses rir na hora presente
Que ela há-de vir como um punhal direito.
Cubram-me lutos, sordidez e chagas!
Também rubis das minhas mãos morenas!
Rasguem-se os véus do leito em que me afagas!
— A coroa de ferro é cinza apenas...
E ela há-de vir a lepra que receio
E cuja sombra, aos poucos me consome.
Ela há-de vir, maior que a sede e a fome,
Ela há-de vir, a dor que ainda não veio.

Pedro Homem de Mello, in "Príncipe Perfeito"

15 abril 2021

Das rimas pobres

Frank Gelett Burgess (1866 – 1951)  natural de Boston, EUA, foi um artista, crítico de arte, poeta, autor e humorista, conhecido pelos seus versos non-sense, dos quais incluo dois abaixo

The Purple Cow 

I never saw a Purple Cow,
I never hope to see one;
But I can tell you, anyhow,
I'd rather see than be one.


Cinq Ans Apres 

Ah, yes! I wrote the "Purple Cow"-- 
I'm Sorry, now, I Wrote it!
But I can Tell you, Anyhow,
I'll Kill you if you Quote it

Imaginemo-nos incultos, sem qualquer conhecimento da língua inglesa, e que, de olhos fechados, atentássemos apenas na rima. O que ressalta destas quadras singelas? A repetição da última palavra dos segundo e terceiros versos: one / one e it / it. Dir-se-ia uma rima pobre. 

Imaginemo-nos agora sem qualquer conhecimento da língua portuguesa e que, de olhos fechados, atentássemos apenas na rima. No poema Fonte, de Pedro Homem de Mello, acontece o mesmo nas quatro quadras seguidas: a última palavra do primeiro e terceiro verso repetem-se. Já não se diria uma rima pobre.

Fonte

Meu amor diz-me o teu nome
— Nome que desaprendi...
Diz-me apenas o teu nome.
Nada mais quero de ti.
Diz-me apenas se em teus olhos
Minhas lágrimas não vi,
Se era noite nos teus olhos,
Só por que passei por ti!
Depois, calaram-se os versos
— Versos que desaprendi...
E nasceram outros versos
Que me afastaram de ti.
Meu amor, diz-me o teu nome.
Alumia o meu ouvido.
Diz-me apenas o teu nome,
Antes que eu rasgue estes versos,
Como quem rasga um vestido!


Atentemos, por último, no poema de Amália Rodrigues: quatro quintilhas, em que o primeiro e o quinto verso se repetem sempre. Não se dirá uma rima pobre.


Estranha Forma de Vida

Foi por vontade de Deus
Que eu vivo nesta ansiedade
Que todos os ais são meus
Que é toda minha a saudade
Foi por vontade de Deus

Que estranha forma de vida
Tem este meu coração
Vives de forma perdida
Quem lhe daria o condão?
Que estranha forma de vida

Coração independente
Coração que não comando
Vives perdido entre a gente
Teimosamente sangrando
Coração independente

Eu não te acompanho mais
Para deixa de bater
Se não sabes onde vais
Porque teimas em correr
Eu não te acompanho mais

Se não sabes onde vais
Para deixa de bater
Eu não te acompanho mais

Do ponto de vista puramente acústico, o que separa as quadras de Burgess, de Pedro Homem de Mello ou as quintilhas de Amália Rodrigues? Talvez uma coisa muito simples: a quantidade de quadras / quintilhas. Se Burgess se alongasse a falar na Purple Cow, repetindo sempre a última palavra dos segundo e quarto versos, talvez criasse um estilo. Assim, limitou-se a uma coisa sem sentido. Se o meu argumento estiver certo, ainda bem que Amália e Pedro Homem de Mello se atiraram a mais. E ainda bem que tudo isto é um disparate.

JdB   

16 novembro 2020

Música e poema dos dias que correm

 


Simplicidade


Queria, queria
Ter a singeleza
Das vidas sem alma
E a lúcida calma
Da matéria presa.

Queria, queria
Ser igual ao peixe
Que livre nas águas
Se mexe;

Ser igual em som,
Ser igual em graça
Ao pássaro leve,
Que esvoaça...

Tudo isso eu queria!
(Ser fraco é ser forte).
Queria viver
E depois morrer
Sem nunca aprender
A gostar da morte.   

Pedro Homem de Mello, in "Estrela Morta"

25 novembro 2019

Poema e música para o dia de hoje

Não Choreis os Mortos

Não choreis nunca os mortos esquecidos
Na funda escuridão das sepulturas.
Deixai crescer, à solta, as ervas duras
Sobre os seus corpos vãos adormecidos.

E quando, à tarde, o Sol, entre brasidos,
Agonizar... guardai, longe, as doçuras
Das vossas orações, calmas e puras,
Para os que vivem, nudos e vencidos.

Lembrai-vos dos aflitos, dos cativos,
Da multidão sem fim dos que são vivos,
Dos tristes que não podem esquecer.

E, ao meditar, então, na paz da Morte,
Vereis, talvez, como é suave a sorte
Daqueles que deixaram de sofrer.

Pedro Homem de Mello, in "Caravela ao Mar"

22 novembro 2019

Poemas dos dias que correm

Presságio

Ela há-de vir como um punhal silente
Cravar-se para sempre no meu peito.
Podem os deuses rir na hora presente
Que ela há-de vir como um punhal direito.
Cubram-me lutos, sordidez e chagas!
Também rubis das minhas mãos morenas!
Rasguem-se os véus do leito em que me afagas!
— A coroa de ferro é cinza apenas...
E ela há-de vir a lepra que receio
E cuja sombra, aos poucos me consome.
Ela há-de vir, maior que a sede e a fome,
Ela há-de vir, a dor que ainda não veio.

Pedro Homem de Mello, in "Príncipe Perfeito"

***

A Dor Tem um Elemento de Vazio

A Dor - tem um Elemento de Vazio -
Não se consegue lembrar
De quando começou - ou se houve
Um tempo em que não existiu -

Não tem Futuro - para lá de si própria -
O seu Infinito contém
O seu Passado - iluminado para aperceber
Novas Épocas - de Dor.

Emily Dickinson, in "Poemas e Cartas"
Tradução de Nuno Júdice

28 outubro 2019

Fotografia e poema dos dias que correm

Lyon em Outubro de 2019, visto por um iPhone
Oásis

Aquela praia-contraste
Entre a liberdade e a lei
(Aquela praia ignorada!)
Foste tu que ma mostraste
Ou fui eu que a inventei?
Lençol de seda ou de linho?
Lençol de linho bordado?
Deitei-me nele ao comprido...
Lençol de seda ou de linho?
Lençol de espuma comprido...
Lençol de areia queimado!
Ai! aquela praia! Aquela
Que, na minha embriaguez
Manchei sem dó! Fiquei triste
Logo da primeira vez
Em que a vi... Não o sentiste?
Agora, lembro-me dela
Como de um lençol de renda
Rasgado por minha mão...
E fico triste, tão triste!
Todas as praias são brancas
E só aquela é que não!
Moinhos que andais no vento,
Leite que escorres na Lua,
Quero pedir-vos perdão!
Mas é tão grande, tão grande
Ai! é tão grande o contraste
Entre a liberdade e a Lei
Que, às vezes até nem sei
Se aquela praia ignorada
Foste tu que me mostraste
Ou fui eu que a inventei...

Pedro Homem de Mello

06 abril 2019

Poemas dos dias que correm

Hino à Dor

Sorri com mais doçura a boca de quem sofre,
Embora amargue o fel que os seus lábios beberam;
É mais ardente o olhar onde, como um aljofre,
A Dor se condensou e as lágrimas correram.

Soa, como se um beijo ou uma carícia fosse,
A voz que a soluçar na Desgraça aprendeu;
E não há para nós consolação mais doce
Que o regaço de quem muito amou e sofreu.

Voz, que jamais vibrou num soluço de mágoa,
Ao nosso coração nunca pode chegar...
Mas o pranto, ao cair duns olhos rasos de água,
Torna mais penetrante e mais profundo o olhar.

Lábio, que só bebeu na fonte da Alegria,
É frio, como o olhar de quem nunca chorou;
A Bondade é uma flor que se alimenta e cria
Dos resíduos que a Dor no coração deixou.

Em tudo quanto existe o Sofrimento imprime
Uma augusta expressão... mesmo a Suprema Graça,
Dando aos versos do Poeta esse esmalte sublime
Que torna imorredoira a Inspiração que passa.

É por isso que a Dor, sem trégua nem guarida,
Dor sem resignação, Dor de estóico ou de santo,
Só de a vermos passar no tumulto da Vida
Deixa os olhos da gente enublados de pranto.

António Feijó, in 'Sol de Inverno'

***

Presságio

Ela há-de vir como um punhal silente
Cravar-se para sempre no meu peito.
Podem os deuses rir na hora presente
Que ela há-de vir como um punhal direito.
Cubram-me lutos, sordidez e chagas!
Também rubis das minhas mãos morenas!
Rasguem-se os véus do leito em que me afagas!
— A coroa de ferro é cinza apenas...
E ela há-de vir a lepra que receio
E cuja sombra, aos poucos me consome.
Ela há-de vir, maior que a sede e a fome,
Ela há-de vir, a dor que ainda não veio.

Pedro Homem de Mello, in "Príncipe Perfeito"

31 outubro 2018

Poemas dos dias que correm

Remorso

Lembro o seu vulto, esguio como espectro,
naquela esquina, pálido, encostado!
Era um rapaz de camisola verde,
negra madeixa ao vento.
Boina maruja ao lado…

De mãos nos bolsos e de olhar distante
jeito de marinheiro ou de soldado…
era um rapaz de camisola verde,
negra madeixa ao vento,
boina maruja ao lado.

Quem o visse, ao passar, talvez não desse
pelo seu ar de príncipe, exilado
na esquina, ali, de camisola verde,
negra madeixa ao vento,
boina maruja ao lado…

Perguntei-lhe quem era e ele me disse:
— sou do monte, senhor! E seu criado…
pobre rapaz de camisola verde,
negra madeixa ao vento,
boina maruja ao lado.

Por que me assaltam turvos pensamentos?
Na minha frente estava um condenado?
— vai-te! Rapaz de camisola verde,
negra madeixa ao vento,
boina maruja ao lado!

Ouvindo-me, quedou-se, altivo, o moço.
Indiferente à raiva do meu brado,
e ali ficou, de camisola verde,
negra madeixa ao vento,
boina maruja ao lado…

Ali ficou… e eu, cínico, deixei-o
entregue à noite, aos homens, ao pecado…
ali ficou, de camisola verde,
negra madeixa ao vento,
boina maruja ao lado…

Soube eu depois, ali, que se perdera
esse que, eu só, pudera ter salvado!
Ai! Do rapaz de camisola verde,
negra madeixa ao vento,
boina maruja ao lado!

Pedro Homem de Mello

01 junho 2018

Poemas dos dias que correm

Escárnio

O meu amor anda em fama.
Mesmo assim lhe quero bem.
Cegueira? Seja o que for!
Os olhos do meu amor
Não os vejo em mais ninguém.

Tentaram deitá-lo à rua,
Mas abri-lhe a minha porta,
E a minha mão, toda nua,
Varreu toda a noite morta.
Porém, mil vozes, medonhas
Como pedaços de lama,
Segredaram-me vergonhas
Do meu amor que anda em fama.

Ai! a dor! — casa florida...
Ai! o amor! — casa cercada.

Há-de-se acabar a vida
Com a última pedrada!..

Pedro Homem de Mello, in "Bodas Vermelhas"

***

De Que São Feitos os Dias?

De que são feitos os dias?
- De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inactuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias
- do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças...

Cecília Meireles, in 'Canções'

27 dezembro 2017

Poemas dos dias que correm

Confissão

Meus lábios, meus olhos (a flor e o veludo...)
Minha ideia turva, minha voz sonora,
Meu corpo vestido, meu sonho desnudo...
Senhor confessor! Sabeis tudo — tudo!
Quanto o vulgo, ingénuo, ao saudar-me, ignora!

Sabeis que em meus beijos a fome dormira
Antes que da orgia a fé despertasse...
Sabeis que sem oiro o mundo é mentira
E, como do fruto que Deus proibira,
Um luar tombou, manchando-me a face.

Pássaro, cativo da noite infinita!
Águia de asa inútil, pela noite presa!
Ó cruz dos poetas! ó noite infinita!
Ó palavra eterna! minha única escrita!
Beleza! Beleza! Beleza! Beleza!

Eis as minhas mãos! Quem pode prendê-las?
São frágeis, mas nelas há dedos inteiros.
Senhor confessor! Quem não conta estrelas?
Meus dedos, um dia, contaram estrelas...
Quem conta as estrelas não conta dinheiros!

Pedro Homem de Mello, in "Adeus"

***

Fonte

Meu amor diz-me o teu nome
— Nome que desaprendi...
Diz-me apenas o teu nome.
Nada mais quero de ti.
Diz-me apenas se em teus olhos
Minhas lágrimas não vi,
Se era noite nos teus olhos,
Só por que passei por ti!
Depois, calaram-se os versos
— Versos que desaprendi...
E nasceram outros versos
Que me afastaram de ti.
Meu amor, diz-me o teu nome.
Alumia o meu ouvido.
Diz-me apenas o teu nome,
Antes que eu rasgue estes versos,
Como quem rasga um vestido!

Pedro Homem de Mello, in "Grande, Grande Era a Cidade..."

29 agosto 2017

Duas Últimas

Se a chuva ocasional de ontem, forte e intensa, foi para uns momento de neurastenia, a mim-me deixou prenúncios benfazejos, ainda que prematuros, de Outono.  De janela aberta, a meio da manhã, cheirei o cheiro da terra molhada e imaginei, ingenuamente, o mercúrio do termómetro a descer, os dias a encurtar, a necessidade de resguardo. Sei que será chuva de pouca dura, que Setembro pode ser um bom mês para quem ainda ambiciona praia e dias ao sol.

Ontem, numa conversa breve, uma amiga dizia-me que gostava do Outono porque os dias curtos demoravam menos tempo a passar. São motivos diferentes os que me levam a apreciar esta época do ano: o Outono, tal como a música mais triste (e já aqui falei sobre isto) é centrípeto, convida ao recolhimento, à interiorização das ideias, à descoberta do sentido das coisas, à protecção que se encontra em locais familiares. Talvez, num certo sentido, seja uma estação do ano mais segura (importante?), porque mais propícia a decisões sérias. Para quem faz do regresso a casa um tema fulcral nas suas deambulações metafísicas, o Outono tem de ser uma presença - talvez mesmo uma dominância. 

Deixo-vos com um conjunto bonito de aspectos estéticos: Monserrate, a viola de Pedro Jóia, a voz de Ricardo Ribeiro e, não menos importante, uns belíssimos versos de Pedro Homem de Mello. 

Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu.

JdB  




Entrega

Descalço venho dos confins da infância
Que a minha infância ainda não morreu.
Atrás de mim em face ainda há distância
Menino Deus, Jesus da minha infância,
Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu

Venho da estranha noite dos poetas,
Noite em que o mundo nunca me entendeu
Vê trago as mãos vazias dos poetas.
Menino Deus, amigo dos poetas,
Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu

Feriu-me um dardo, ensanguentei as ruas
Onde o demónio em vão me apareceu.
Porque as estrelas todas eram suas
Menino irmão dos que erram pelas ruas
Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu

Quem te ignorar ignora os que são tristes
Ó meu irmão Jesus, triste como eu
Ó meu irmão, menino de olhos tristes,
Nada mais tenho além dos olhos tristes
Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu!

Pedro Homem de Mello

14 julho 2016

Poemas dos dias que correm

Não Choreis os Mortos

Não choreis nunca os mortos esquecidos
Na funda escuridão das sepulturas.
Deixai crescer, à solta, as ervas duras
Sobre os seus corpos vãos adormecidos.

E quando, à tarde, o Sol, entre brasidos,
Agonizar... guardai, longe, as doçuras
Das vossas orações, calmas e puras,
Para os que vivem, nudos e vencidos.

Lembrai-vos dos aflitos, dos cativos,
Da multidão sem fim dos que são vivos,
Dos tristes que não podem esquecer.

E, ao meditar, então, na paz da Morte,
Vereis, talvez, como é suave a sorte
Daqueles que deixaram de sofrer.

Pedro Homem de Mello, in "Caravela ao Mar"

***

Ao Meu Maior Amigo

Quando eu morrer, eu sei, tu escreverás
Triste soneto à morte prematura;
Dirás que a vida cansa em amargura
E, pálido e frio, tu me cantarás.

Nas quadras, reflectido se lerá
De como, vã e breve, a vida expira
E como em terra funda, dura e fria,
A vida, má ou boa, acabará.

A seguir, nos tercetos, tu dirás
Que a morte é mistério, tudo fugaz,
Verdadeira, talvez, a vida além.

Por fim porás a data, assinarás.
E, relido o soneto, ficarás
Contente por tê-lo escrito bem.

Alexander Search, in "Poesia"

24 setembro 2015

Preces dos dias que correm

Prece

Meu Deus, aqui me tens aflito e retirado,
Como quem deixa à porta o saco para o pão.
Enche-o do que quiseres. Estou firme e preparado.
O que for, assim seja, à tua mão.
Tua vontade se faça, a minha não.

Senhor, abre ainda mais meu lado ardente,
Do flanco de teu filho copiado.
Corre água, tempo e pus no sangue quente:
Outro bem não me é dado.
Tudo e sempre assim seja,
E não o que a alma tíbia só deseja.

Se te pedir piedade, dá-me lume a comer,
Que com pontas de fogo o podre se adormenta.
O teu perdão de Pai ainda não pode ser.
Mas lembra-te que é fraca a alma que aguenta:
Se é possível, desvia o fel do vaso:
Se não é, beberei. Não faças caso.
   
Vitorino Nemésio, O Verbo e a Morte (1959)

***

Prece

Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saudade.

Mas a chama, que a vida em nós criou,
Se ainda há vida ainda não é finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão do vento pode erguê-la ainda.

Dá o sopro, a aragem - ou desgraça ou ânsia -,
Com que a chama do esforço se remoça,
E outra vez conquistamos a Distância -
Do mar ou outra, mas que seja nossa!

Fernando Pessoa, Mensagem

***

Prece

Talvez que eu morra na praia,
Cercado, em pérfido banho,
Por toda a espuma da praia,
Como um pastor que desmaia
No meio do seu rebanho…

Talvez que eu morra na rua
- Ínvia por mim de repente –
Em noite fria, sem Lua,
Irmão das pedras da rua
Pisadas por toda a gente!

Talvez que eu morra entre grades,
No meio duma prisão
E que o mundo, além das grades,
Venha esquecer as saudades
Que roem o meu coração.

Talvez que eu morra dum tiro,
Castigo de algum desejo.
E que, à mercê desse tiro,
O meu último suspiro
Seja o meu primeiro beijo…

Talvez que eu morra no leito,
Onde a morte é natural,
As mãos em cruz sobre o peito…
Das mãos de Deus tudo aceito.
- Mas que eu morra em Portugal!

Pedro Homem de Mello

17 março 2009

Poemas dos dias que correm

Prece

Talvez que eu morra na praia
cercado em pérfido banho
por toda a espuma da praia
como um pastor que desmaia
no meio do seu rebanho.

Talvez que eu morra na rua
e dê por mim de repente
em noite fria e sem luar
irmão das pedras da rua
pisadas por toda a gente.

Talvez que eu morra entre grades
no meio de uma prisão
que o mundo além das grades
venha esquecer as saudades
que roem meu coração.

Talvez que eu morra no leito
onde a morte é natural
as mãos em cruz sobre o peito
das mãos de Deus tudo aceito
mas que eu morra em Portugal

(Pedro Homem de Mello)

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