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24 maio 2013

O despojamento radical na Literatura*

O essencial é saber ver (Alberto Caeiro, in O Guardador de Rebanhos)

O despojamento radical e A Terceira Margem do Rio  

Um certo dia, um escultor “agarrou” num bloco de mármore puro do Carrara. Durante dois anos trabalhou afincadamente naquela massa de pedra, envolvendo-se em grande profundidade no tema que estava representar, até então pouco conhecido da maior parte das pessoas. Quando acabou, e teria, ao que se sabe, 25 anos, tinha esculpido uma das mais bonitas, se não a mais bonita, escultura de todos os tempos: a Pietà.

Chamava-se Miguel Ângelo Buonarroti e terá sido dele a frase:

Em cada bloco de mármore vejo uma estátua; vejo-a tão claramente como se estivesse na minha frente, moldada e perfeita na pose e no efeito. Tenho apenas de desbastar as paredes brutas que aprisionam a adorável aparição para revelá-la a outros olhos como os meus já a vêem.

O pensamento talvez se pudesse resumir numa frase mais simples, muito próximo de uma que ele terá proferido: uma escultura não é mais do que um bloco de pedra ao qual se retirou tudo o que era acessório.

Durante dois anos foi isso que Miguel Ângelo fez: retirou do bloco de mármore tudo o que estava a mais, tudo o que era acessório, tudo o que, do seu ponto de vista não acrescentava valor à obra. Nesta escultura, de 1,74m por 1,95 cm, não há nada a mais, nada a menos. As proporções estão perfeitas, artisticamente perfeitas; até o corpo de Jesus Cristo está propositadamente mais pequeno do que o de Nossa Senhora, para não o esmagar. Miguel Ângelo não acrescentou nada ao bloco de mármore; não lhe colou peças, não lhe juntou materiais. O que o artista fez foi despojar o bloco de mármore  do dispensável.

Os dicionários lembram que despojar significa privar da posse de; desapossar, tirar; despir, roubar, deixar, largar; renunciar, despir-se.

Ainda que aplicado à literatura, Milan Kundera usou, no seu livro A Arte do Romance, uma expressão particularmente feliz: clareza arquitectónica – um castelo não pode ser tão grandioso que não possamos abarcá-lo com a vista, um quatuor não pode durar nove horas, um livro não pode ser tão grande que nos esqueçamos do início.

Atentemos na Pietà: a estátua poderia ter o dobro da altura? Claro que poderia, o desafio não seria hercúleo para Miguel Ângelo. Mas conseguiríamos ver o encanto da escultura, a sua força, a sua beleza? Conseguiríamos ver o drama pungente de uma Mãe que carrega o Filho morto nos braços? Provavelmente não. Com mais de três metros de altura a estátua seria mais imponente, mas perderia a dimensão de clareza arquitectónica

Na mesma linha, Leos Janacek, compositor checoslovaco citado por Kundera, afirma: só a nota que diz algo de essencial tem o direito de existir. Regressamos, assim, à ideia referida acima para a Pietà: falamos do despojamento de tudo o que é acessório. Podíamos ainda falar no despojamento representado na arquitectura minimalista, de que um grande expoente foi Mies Van der Rohe: less is more

O despojamento – que também significa deixar, largar, renunciar – é uma prática antiga, talvez iniciada pelo monges. Cito José Mattoso, um professor desta casa: de facto, os monges não abandonaram a vida normal, não mergulharam no deserto, não procuraram o despojamento total de si mesmos senão para contemplarem a Deus e se unirem com Ele.

O despojamento pessoal não é mais do que a procura de uma vida mais simples, afastada da profusão de sensações, informações, notícias, ruído, desejos consumistas, que nos afastam do essencial, do que é importante, do que é belo.

A terceira margem do rio conta a história de um homem que se evade de toda e qualquer convivência com a família e com a sociedade, preferindo a completa solidão do rio, dentro de uma canoa. Por contradizer os padrões normais de comportamento, é considerado um desequilibrado. 

O narrador-personagem é seu filho, e relata todas as tentativas infrutíferas da família, vizinhos e conhecidos, de estabelecer algum tipo de comunicação com o solitário remador, que recusa qualquer contacto.

A família, inicialmente aturdida com a atitude do pai, vai-se acostumando ao seu abandono. Com o tempo, mudam-se da fazenda onde residiam. Só o narrador permanece, mas sua vida torna-se sem sentido, a não ser pelo desejo obstinado de entender os motivos da ausência do pai. Um dia, dirige-se ao rio, grita pelo pai e propõe tomar o seu lugar na canoa. A aperceber-se da concordância dele, o filho foge apavorado, desistindo da ideia.

O narrador-personagem dá-nos a conhecer um ser humano cujos ideais de vida divergem dos padrões aceites como normais. O único a persistir na busca de entendimento da opção do pai é o narrador, que não o deixa, e chega a desejar substituí-lo. A escolha do isolamento no rio instiga permanentemente o filho.

Qual o significado deste conto, apesar das várias interpretações? Considerando que o rio só tem duas margens, a busca de uma terceira margem poderá ter um significado metafísico. A viagem, no plano meramente material, seria sem destino e sem sentido. O homem foge de uma vida apagada, medíocre, em busca de respostas que não encontrou nas limitações e na superficialidade do senso comum. A terceira margem representa o subjectivo – o que não se vê, não se toca, não se conhece. Eternidade? Utopia?

Assim, ao partir em busca da terceira margem do rio, o homem vai à procura do desconhecido dentro de si, do sentido da vida. O homem toma a decisão de existir. O isolamento a que se entrega – uma forma de despojamento – é a única forma de ele entender os mistérios da alma, o que não é compreensível na vida.

O narrador-personagem, filho do homem da canoa, ao ser confrontado com a possibilidade de se despojar de tudo e ir procurar o essencial, desiste e vive amargurado.

O que é o despojamento radical na literatura? Será assim tão diferente dos vários despojamentos de que aqui falei? Do acessório que Miguel Ângelo retira do seu bloco de mármore, dos monges que abandonam a vida dita normal e mergulham no deserto, do less is more da arquitectura minimalista, do direito a existir das notas musicais apenas que dizem coisas essenciais, ou da evasão do homem do Sertão que vai viver para uma canoa no rio, à procura do que não encontra na vida real. Poderia ainda falar na metáfora mecânica de Gonçalo M Tavares: uma máquina só deve ter as peças que cumprem alguma missão. Na literatura aplica-se o mesmo princípio.

Para que serve o despojamento radical na literatura? Para que se consiga a clareza arquitectónica. Para que todas as palavras sejam imprescindíveis e cumpram o objectivo de Hermann Broch, ainda citado por Kundera: descobrir aquilo que só um romance pode descobrir é a única razão de ser de um romance. O romance que não descobre uma porção até então desconhecida da existência é imoral. O conhecimento é a única moral do romance.  

* dissertação apresentada na disciplina Tópicos de Teoria da Literatura, que servirá de base ao trabalho final

JdB

02 maio 2013

So You Want To Be A Writer *


if it doesn't come bursting out of you
in spite of everything,
don't do it.
unless it comes unasked out of your
heart and your mind and your mouth
and your gut,
don't do it.
if you have to sit for hours
staring at your computer screen
or hunched over your
typewriter
searching for words,
don't do it.
if you're doing it for money or
fame,
don't do it.
if you're doing it because you want
women in your bed,
don't do it.
if you have to sit there and
rewrite it again and again,
don't do it.
if it's hard work just thinking about doing it,
don't do it.
if you're trying to write like somebody
else,
forget about it.
if you have to wait for it to roar out of
you,
then wait patiently.
if it never does roar out of you,
do something else.

if you first have to read it to your wife
or your girlfriend or your boyfriend
or your parents or to anybody at all,
you're not ready.

don't be like so many writers,
don't be like so many thousands of
people who call themselves writers,
don't be dull and boring and
pretentious, don't be consumed with self-
love.
the libraries of the world have
yawned themselves to
sleep
over your kind.
don't add to that.
don't do it.
unless it comes out of
your soul like a rocket,
unless being still would
drive you to madness or
suicide or murder,
don't do it.
unless the sun inside you is
burning your gut,
don't do it.

when it is truly time,
and if you have been chosen,
it will do it by
itself and it will keep on doing it
until you die or it dies in you.

there is no other way.

and there never was.

Charles Bukowsky

(* enviado por mão amiga da pós-graduação)

12 abril 2013

Babel - a utopia do universalismo em duas traduções do mesmo texto


Toda a terra tinha uma só língua e usava as mesmas palavras. 
Ao emigrarem do Oriente,
os homens encontraram uma planície na região de Senaar
e nela se fixaram.

Disseram então uns aos outros:
«Vamos fabricar tijolos e cozê-los ao fogo».
Os tijolos serviam-lhes de pedra e o betume de argamassa. 

Disseram ainda:
«Vamos edificar uma cidade
e uma torre cujo cimo atinja os céus,
para nos tornarmos famosos
e não nos dispersarmos por toda a superfície da terra». 

Mas o Senhor desceu para ver a cidade e a torre
que os filhos dos homens construíam.
Disse então o Senhor:
«Aí está um povo unido e todos falam a mesma língua.
Se este é o começo dos seus empreendimentos,
nenhum projecto lhes será difícil.
Vamos descer até lá para lhes confundir a linguagem,
de modo que não entendam a fala uns dos outros». 

E o Senhor dispersou-os por toda a superfície da terra, 
e eles desistiram de construir a cidade. 
Por isso lhe chamam Babel, 
porque lá o Senhor confundiu a linguagem de todo o mundo 
e de lá dispersou os habitantes por toda a superfície da terra. 

(Gen. 11, 1-9)


***

E é toda a terra: um só lábio, de únicas palavras.
E é à partida deles do oriente: encontram um vale
Em terra de Shinear.
Estabelecem-se aí.
Dizem, cada qual ao seu semelhante:
"Vamos, moldemos tijolos, 
Passemo-los pelo lume"
O tijolo torna-se para eles pedra, o betume, argamassa.

Dizem:
"Vamos, construamos uma cidade e uma torre.
A cabeça dela: lá nos céus.
Adquiramos nomeada,
Para não sermos dispersos por toda a superfície da terra."

YHWH desce para ver a cidade e a torre
Que os filhos dos homens construíram.
YHWH diz:
"Sim! Um só povo, um só lábio para todos:
Eis o que eles começam a fazer!
Agora nada impedirá
tudo o que intentarem fazer!
Vamos! Desçamos! Confundamos aqui os seus lábios!
O homem não mais compreenderá o lábio do próximo."

YHWH dispersa-os dali por toda a face da terra.
Cessam de construir a cidade.
Então ele chama o seu nome: Bavel, Confusão,
Pois ali YHWH confunde o lábio de toda a terra,
e dali YHWH dispersa-os por toda a face da terra.

(Gen. 11, 1-9)

15 março 2013

Crónicas de um universitário tardio - O Detalhe


L. entendia que um comboio era um conjunto mais ou menos harmonioso de sistemas composto por rodas, motores, tirantes, equipamentos pneumáticos, engrenagens, componentes hidráulicos, relés, bobinas, rolamentos e mancais, parafusos e porcas de diâmetro variado. Entendia ainda que se assemelhava ao corpo humano pelo facto da panóplia de órgãos em andamento ter uma existência não vazia, isto é, não desprovida de sentido. No homem é a locomoção, no comboio é a deslocação, ambas relacionadas com o movimento de gente. Conceptualmente não haveria, por isso, diferença entre um fémur e um solenóide, porque ambos servem o mesmo propósito - levar alguém do ponto A ao ponto B. Por outro lado, tanto no homem com no comboio há uma noção do excesso, que pode ser sensorial ou espacial. No homem há o vómito, que é o sintoma físico da intemperança. No comboio há uma porta por fechar devido ao excesso de corpos por metro quadrado. A porta que não se fecha equivale, em conceito, à boca que se abre, porque ambas são a manifestação do descomedimento.

L. entrou no comboio e sentiu a não conformidade. Estava demasiado próximo dela, uma desconhecida, e o comboio não tinha conseguido exercer o alívio da sufocação. A porta não se fechara para impedir a entrada, como por vezes a boca não se abria para permitir a saída. L. estava colado a ela, a desconhecida, e sofreu o desconforto inicial. Fixou-lhe tudo com um pormenor que poderia ser perturbador. Viu-lhe os olhos assimétricos, o olho direito ligeiramente inclinado para cima na direcção do exterior da face. Uma ligeiríssima diferença, só detectável com a contiguidade demasiado chegada das caras. 2 graus? 3 graus? Qual a inclinação relativamente à linha média horizontal que atravessava as duas órbitas oculares? Havia as sobrancelhas, castanhas, talvez um pantone 126, mas que também poderia ser um 1265. A sobrancelha esquerda tinha uma pequena falha, uma clareira – 1 mm? - onde não crescera nada. A testa era um paralelogramo estreito, talvez com 4 cm de altura por 8 de largura. E o nariz? Como era o nariz desta desconhecida, de quem ele estava tão próximo que quase a poderia tocar se a língua dele, de L., fosse ligeiramente mais comprida do que a média? Talvez 12 cm bastassem para que a ponta da sua língua e um dos seus 17 músculos lambessem a ponta do nariz dela. Um nariz que era equilibrado, bem implantado no meio da cara, sem qualquer vestígio de formação vesiculosa cutânea.

L. estava cada vez mais próximo, porque os corpos nunca estão totalmente estáticos, além de que não há um conhecimento absoluto de como funcionam as posições relativas de pessoas que estão imóveis. L. sempre sentira que, mesmo quieto, se aproximava de um qualquer vizinho, ainda que este também estivesse quieto, como se a distância vital entre os corpos fosse algo de incontrolável e desobediente à vontade das pessoas. E estava tão perto daquela desconhecida que sentiu nascer dentro de si a vontade de a beijar. Aquela visão do detalhe, aquela proximidade, aquela análise exaustiva das cores, dos ângulos, das pequenas falhas, dos equilíbrios, das assimetrias estava a criar-lhe um desejo de lhe tocar nos lábios, pequenos em termos de largura (4 cm?), pintados de um vermelho que seria um pantone 1788, embora não estivesse certo. Era uma desconhecida, mas isso era irrelevante. O que importava era a proximidade dos lábios, e um estudo pormenorizado de uma face que lhe provocava um sentimento de atracção. Como poderia ele dominar este achegamento forçado causado por um comboio demasiado povoado e que não rejeitara o excesso humano?

L. ainda teve tempo de analisar as orelhas, os brincos na forma de uma pérola encaixada numa flor que abre, os lobos excessivamente grandes (2 cm parecia-lhe muito). Mas os lábios, os lábios!, e o apelo daquele vermelho (pantone 1788 ou 1795?) daquela boca entreaberta, não sabia se em convite explícito se em dificuldade respiratória. Uma desconhecida... L. inclinou-se e cedeu ao impulso decorrente de uma análise demasiado próxima. Tocou-lhe nos lábios com os seus próprios lábios e fez pressão. Sentiu que os lábios da desconhecida cediam, amolecidos, húmidos, receptivos, e que se entreabriam para o receber. E ele ali ficou, durante alguns segundos (10, 15?) num beijo humano, a mordiscar-lhe as partes carnudas, a identificar-lhe os contornos com a ponta da língua.

Sabes porque pareço uma desconhecida para ti? Porque não te percebo, não entendo nada do que tu dizes! Comboios e vómitos? E olha lá, com tanta igualdade conceptual, preferes ter a mão num fémur, como tens agora no meu, ou num solenóide?

JdB 

06 março 2013

Crónicas de um universitário tardio - A Morte

Um aprendiz só perde verdadeiramente o medo ao touro quando o enfrenta pela primeira vez, quando sente fixarem-se sobre si os olhos do animal e se apercebe da sua investida. É nesse momento decisivo, quando nada mais existe no mundo para além do homem e da besta, que o temor desaparece. Por semelhança de raciocínio, talvez seja preciso ver-se a morte para se perder o medo à morte.

Eu vi a morte, não num animal feroz, não num acidente iminente, nem sequer na forma de uma doença que nos habita e que a ciência não sabe curar. Vi-a numa mão pequena, numa vida pequena. Vi-a nuns dedos infantis que agarravam outra vida quando ainda não tinham largado esta. No meio estava a morte, naquela breve passagem de uma realidade que nem sempre dominamos para outra realidade em que nem sempre acreditamos. Via-se na dimensão física de um rosto sereno, na impessoalidade de uma parafernália tecnológica que nos revela números que decrescem até ao zero absoluto. Via-a no vazio árido cujo ar respirei, num deserto onde nada pode existir mas de onde tudo pode nascer.

Ver a morte, essa águia cujo grito ninguém descreve, é viver com ela na persistência da memória até ao fim do tempo, até ao momento em que alguém passa a ser o espectador da nossa própria morte. Só então a imagem se desvanece para dar lugar ao último abraço. É nessa altura que a morte se materializa no nosso próprio corpo, e não no corpo dos outros. O aprendiz, sonhador de tardes de fama, não mais esquecerá o dia em que enfrentou o animal que lhe coube em sorte, porque nunca se esquece o horror que vence a sensação de horror. Por isso, jamais se esquece a morte que vence o medo da morte. Por isso, jamais esqueci o momento em que vi a besta à frente.  
   
Olhar para a morte não é olhar só para a curva da estrada, lembrar o corpo desaparecido que dá lugar à saudade, conjugar de forma tão dolorosamente adulta a expressão nunca mais. Olhar para a morte, vê-la chegar, senti-la nuns dedos que perdem força, perceber que ela se instalou à espera de vencer e de ser vencida numa fracção de instante não constitui uma fatalidade, mas abre uma possibilidade. A morte para quem quase lhe toca pode ser só dor, mas pode ser muito mais. Pode ser um farol num nevoeiro persistente, pode ser uma oportunidade de redenção, pode ser a chave certa para a criação da beleza. Mas pode ser uma solidão dolorosa, a ausência de ouvidos que escutem, a saudade que se crava como um espinho persistente.


***

Em Gran Torino, o personagem representado por Clint Eastwood deixa-se matar, perante testemunhas, redimindo-se de uma relação agreste com o mundo e revelando, com este acto, um último grande gesto de amizade. Não há maior amor do que dar a vida pelo próximo, e há quem o faça tomando a frase bíblica à letra. 




***

Cristóvão palmilha montes e vales com o menino às costas. Vai exausto, mas sabe que a casa para onde leva a criança é já ali. Sabe que vai morrer, mas o menino é mais importante. O esforço do santo para levar o menino até casa do Pai é recompensado pela dimensão da fé. Que melhor morte podemos desejar do que aquela que nos permite ver, no instante anterior à despedida deste mundo, aquilo em que sempre acreditámos, mas para o qual tivemos olhos forçosamente incapazes? 

Então o bom gigante fez um prodigiosos esforço, e a cada passo, meio desfalecido, os olhos turvos, a cada instante lançando a mão para se arrimar, tropeçando, com grossas gotas de suor que se misturavam a grossa gotas de sangue, rompeu a caminhar, sempre para cima, sempre para cima. Os seus pés iam ao acaso, no desfalecimento que o tomava. Uma grande frialdade invadia todos os seus membros. Já se sentia tão fraco como a criança que levava aos ombros. E parou, sem poder, no topo do monte. Era o fim: um grande Sol nascia, banhava toda a Terra em luz. Cristóvão pousou o menino no chão, e caiu ao lado, estendendo as mãos. Ia morrer. Mas sentiu as suas grossas mãos presas nas do menino — e a terra faltou-lhe debaixo dos pés. Então entreabriu os olhos, e no esplendor incomparável reconheceu Jesus, Nosso Senhor, pequenino, como quando nasceu no curral, que docemente, através da manhã clara, o ia levando para o Céu.(1)

***

Não se vê a morte impunemente. Ver algo que é comum à humanidade e ficar igual é uma impossibilidade, uma indeterminação humana. Ver a morte é ver aquilo que nos une a todos, qualquer que seja o ponto no globo onde vivemos, qualquer que seja o deus a quem pedimos e agradecemos. Ver a morte é querer falar da morte. Ver a morte é ver o fim último, mesmo que esse fim seja mais prematuro do que todas as mortes prematuras que acontecem ao nosso lado. Iona, o cocheiro, não tem ninguém a quem contar que viu a morte e ele sabe que precisa de falar disso, para que a morte não o mate a ele também. Iona não encontra ninguém, porque a obsessão da ligeireza da vida devora os ouvidos que deviam estar atentos, anula a certeza de que falar do sofrimento é, também, alumiar o sofrimento. E o sofrimento tem horror à luz, como a natureza o tem ao vácuo. 

... Precisa contar como o filho adoeceu, como padeceu, o que disse antes de morrer e como morreu... Precisa descrever o enterro e a ida ao hospital, para buscar a roupa do defunto. Na aldeia, ficou a filha Aníssia... Precisa falar sobre ela também...
... O cavalo foi mastigando, enquanto parecia escutar, pois soprava na mão do seu dono... Então Iona, o cocheiro, animou-se e contou-lhe tudo...(2)


***

Nada há de mais bonito do que a música triste. Nada há de mais esplêndido do que a música que se compõe para lembrar quem morreu. É na lentidão das frases, na distância sublime entre dois pontos de música, na melancolia dos instrumentos, que a cada um de nós é dada a possibilidade de lançar os olhos para o infinito e, na morte que se recorda, sentir o efémero de tudo, a pequenez de tudo, a beleza de tudo. Compor um requiem é entrar em contacto com o divino. Imaginar um requiem quando se está frente a frente com a morte próxima é ganhar a certeza de que nada no mundo é inalcançável.



***

Como morremos? Como olhamos para a nossa morte, para a morte dos que nos estão próximos ou dos que não conhecemos e que são um número numa estatística? Como morreremos? Lúcidos? Angustiados? Em paz com a vida? Certos de que mataremos as saudades num encontro já além? A morte é o nosso último grande desafio. Pensar nela e cantar a morte que me namora/já me pode vir buscar não é o desejo da partida, mas a certeza do sossego. Morreremos como vivemos. Ou como tentámos viver, porque tentar é já em si bastante.

Onde está Ivan Ilitch? Onde está a agonia, como a escreveu Lev Tolstói? Onde estão os homens olhando para trás, para o momento em que se fizeram homens? Onde está o arrependimento e o perdão? E a satisfação, se a houve, dos anos felizes? Os doentes sofrem e parecem não ter forças para pensar, colocar-se questões morais – e  já nem sequer parecem preocupados (é isto específico do nosso tempo?) com o paraíso, o inferno, o juízo final. Querem apenas um pouco mais de vida, querem um pouco mais de tempo para acreditar que o corpo vence; todos querem, com uma força desproporcionada, talvez delirante, continuar de olhos abertos.(3)

***

(1) A Morte de Cristóvão (Eça de Queiroz)
(2) Tristeza (Anton Tchecov)
(3) Agora e na Hora da Nossa Morte (Susana Moreira Marques)

31 janeiro 2013

Crónicas de um universitário tardio

Ad honorem Sanctae et Individuae Trinitatis, ad exaltationem fidei catholicae et vitae christianae incrementum, auctoritate Domini nostri Iesu Christi, beatorum Apostolorum Petri et Pauli ac Nostra, matura deliberatione praehabita et divina ope saepius implorata, ac de plurimorum Fratrum Nostrorum consilio, Beatum N. Sanctum esse decernimos et definimos, et Sanctorum Catalogo adscribimus, statuentes eum in universa Ecclesia inter Sanctos pia devotione recoli debere.

Foi com esta fórmula, proferida pelo Papa aquando da proclamação de um novo santo, que dei início ao meu ensaio intitulado: A Santidade, ou a perfeição dos dias quotidianos. Está entregue, e será o último que partilho (partes, apenas) com os meus queridos e inesperados fiéis leitores, que as crónicas de um universitário tardio já deram, por agora, o que tinham a dar. A citação de Sophia de Mello Breyner encerra o ensaio.

(...) 
Até há bem pouco tempo vivíamos num mundo de apelo ao consumo, à imagem, ao ter mais do que ao ser, ao sucesso, aos sinais exteriores, ao prazer, ao calcorrear sem fim das ruas dos centros comerciais para comprar mais um artigo. A crise mundial, com reflexos penosos em Portugal, alterou esta realidade – se não por via da vontade de rever modos de vida, talvez pela via da necessidade de alterar modos de vida. Hoje há mais desemprego, mais fome, há famílias abaixo do limiar da decência humana, há horizontes sombrios, amanhãs que já não cantam, um imenso mês que sobra quando o salário – ou a generosidade alheia – chega ao fim. Hoje há ruínas, falências, humilhações, dívidas,  impostos,  abandonos. Hoje há um muro que tapa a palavra esperança, e todas as forças individuais se concentram na defesa do presente porque o futuro, até prova em contrário, existe cada vez menos.

Vivemos um tempo em que não há tempo, um momento dolorosamente duradouro das nossas vidas em que o arsenal que nos resta de energia e resistência interior está voltado para a subsistência, para a sobrevivência, para a dignidade da vida própria, para a manutenção dos limites que cada um define como sendo os mínimos que não o aviltem. Em cada casa de família há desemprego, verba escassa para a faculdade, emigração, crises afectivas que a luta diária potenciou. Em muitos recantos escondidos e envergonhados há choros, olhos cavados por noites insones, mãos inquietas devido à inexistência de soluções.

Neste cenário de desesperança, o que significa ser-se santo? O que significa, na verdade, a perfeição das vidas quotidianas, quando a nossa procura é, cada vez mais, a da satisfação das necessidades mais básicas onde o transcendente tem pouco lugar?

(...)
Enquanto houver alguém que se disponha a lutar pela reposição da justiça, que perdoe ofensas, que rasgue um pouco do seu manto para cobrir a nudez do outro, que se sinta desafiado à entrega gratuita e voluntária aos outros, que não desvie o olhar perante a miséria que confrange ou que chore com a morte injusta, então o milagre e o heroísmo conviverão connosco de mãos dadas. Enquanto houver alguém ao nosso lado que teime em levantar o céu, no significado feliz que lhe dá o Prof. José Mattoso, que encontre no seu sofrimento um sentido para a vida, que saiba oferecer uma palavra a um velho abandonado ou uma mão a uma criança doente ou que arrisque a sua vida pela vida dos outros, então a esperança de um mundo melhor mantém-se viva. Enquanto houver alguém assim, por menor que seja o número desses alguéns na multidão anónima de egoísmos, prepotências, comodismos, indiferenças, não perderemos a esperança, e assumiremos a santidade - ou a perfeição dos dias quotidianos - como uma possibilidade ao virar de uma esquina, numa fábrica, numa vizinhança, num escritório, num hospital, numa escola, numa família.

Negar este caminho é abdicar de uma vida grande, de uma vida maior do que nós, para abraçar um mundo pequeno onde só cabe o eu que nos afasta do próximo, que nos cega de orgulho, que nos ilumina a vaidade com uma luz efémera, que nos faz negar esta ideia salvadora que nenhum dos nossos talentos é verdadeiramente nosso, apenas nos foi disponibilizado para o  serviço de um bem comum. Negar o caminho da perfeição ou, melhor, o caminho da procura da perfeição, é viver num mundo estreito, triste e sombrio, porque só se ilumina de uma vida própria e egocêntrica. Um mundo que será sempre pequeno de mais.  

***
[A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível. O amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais. Mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias.][1]

JdB


[1] Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Retrato de Mónica (Contos Exemplares) 

29 janeiro 2013

Crónicas de um universitário tardio

6ª feira passada entreguei o meu trabalho de Poéticas Contemporâneas, cuja nota ainda não sei. Partilho uma parte com os resistentes que quiserem chegar ao fim...

***


o panoptismo e a fábrica do futuro
ou
como reduzir os níveis de entropia nos sistemas produtivos


1. Introdução
Uma fábrica rege-se por princípios económicos fundamentais e comuns a todas as organizações com fins lucrativos.  Não obstante as preocupações de ordem social, de valorização da pessoa, do respeito pelo seu crescimento como ser humano e como trabalhador, o seu objectivo poderia resumir-se, numa versão forçosamente redutora, a algumas ideias chave: redução de custos, aumento de competitividade, maximização dos recursos, rentabilização do equipamento, flexibilização.  Se o apego ao sintético nos obrigasse a usar uma palavra só, escolheríamos esta: eficácia. Paralelamente a estes factores há, obviamente, a qualidade do produto fabricado, o cumprimento das normas do ambiente, da segurança e da saúde no trabalho, o estabelecimento de parcerias com fornecedores e clientes, a formação dos colaboradores, a actualização tecnológica, o respeito pelas partes interessadas
Tudo isto concorre, no fundo, para que a fábrica, no seu sentido lato de organização com fins lucrativos, seja competitiva, ganhe quotas de mercado, ambicione a exportação, a internacionalização, crie um nome que seja respeitado num mundo global onde as fronteiras se esbateram, numa Europa que vê o seu parque industrial reduzir-se lentamente, como uma folha de papel que se esboroa exposta aos ventos de mudança.
Uma fábrica é apenas, na maioria das vezes, uma espécie de braço armado de uma empresa mais vasta onde convivem o Marketing, a Contabilidade, os Recursos Humanos, as Vendas, etc. Para efeitos deste trabalho não nos interessa se a fábrica é um centro de custo, se gera lucro, qual as regras financeiras ou contabilísticas que se lhe aplicam. O que nos interessa é uma visão simples desta realidade: uma fábrica é uma unidade, composta por pessoas e máquinas, que tem de produzir com a máxima qualidade e segurança, no menor tempo possível, com uma flexibilidade total.

2. Conceitos
2.1. Fábrica e linhas de montagem
Diz-nos uma definição que uma fábrica é uma empresa destinada à transformação ou conservação de matérias-primas ou à transformação de produtos semifinais em produtos finais.
Por outro lado, uma linha de montagem é um espaço onde se executa um conjunto de operações elementares distintas, tendo em vista a montagem de um ou vários produtos. Estas linhas são compostas por um conjunto de postos de trabalho ligados entre si.
A produção em fluxo contínuo é a chave de todos os sistemas de organização do trabalho numa instalação fabril.  A cadência, a entrada e a saída são os pilares da linha de montagem, cujas vantagens são:
  •  resultados muito eficientes;
  •  menores custos de manipulação do material;
  •  operações muito simplificadas, que permitem a utilização de mão-de-obra pouco qualificada (barata);
  •  pequenos stocks intermédios;
  •  simplificação do controlo da produção (o sequenciamento baseia-se quase só́ na definição de uma taxa de produção).

2.2. A entropia e as equipas
Na termodinâmica, a entropia está vulgarmente associada à quantidade de ordem, desordem e/ou caos num sistema.  Por outro lado, a entropia, que pode reduzir-se por acção externa, é (também) uma medida da desordem no sistema; quanto maior a entropia, maior a desordem. De acordo com a 2ª lei da termodinâmica, a entropia do Universo tende para um máximo.
Paralelamente, em termos de gestão de recursos humanos (e lembramos que o âmbito deste trabalho é uma fábrica, uma unidade fabril, um microcosmos no mundo laboral actual) tem sido de alguma forma evidente que alguns sistemas humanos, deixados em roda livre, isto é, sem controlo ou disciplina, tendem para o caos, para a desordem. No fundo, como se uma linha de montagem fosse a replicação, a uma escala miniatural, do Universo.
Obviamente que esta ideia-chave não se aplica a toda a realidade humana de uma unidade fabril onde coexistem técnicos ligados ao desenvolvimento de novos produtos, ao controlo da qualidade, à reparação dos equipamentos indispensáveis à boa fabricação dos produtos acabados, à monitorização da saúde dos colaboradores. Para estes, ainda que enquadrados por regras e princípios, a liberdade existe, isto é, há alguma amplitude na forma como entendem gerir o seu tempo, organizar o ritmo/posto de trabalho.
Ora, muitas destas áreas são serviços de suporte, existem com o objectivo de apoiar o coração deste corpo produtivo. Poderíamos chamar a este órgão fulcral e determinante o departamento de produção – não mais do que o conjunto de pessoas a quem é atribuída a responsabilidade de fabricar, de acordo com instruções claras e inequívocas em termos de especificação do produto, prazos de execução e quantidades planeadas, o que é necessário para abastecer o mercado, seja o mercado do consumidor final, seja o mercado da organização que se situa a jusante.     
Apesar da sofisticação mecânica de muitos sistemas produtivos fabris, o facto é que a mão-de-obra humana ainda desempenha um papel importante. A automação das várias tarefas é, para uma enorme quantidade de unidades fabris, uma relativa miragem. Com as actuais exigências de redução de custos, aumento de competitividade, maior flexibilidade, etc., a autonomia das equipas/grupos de trabalho, tão em voga nos últimos anos com os conceitos de lean manufacturing, TPM (Total Productive Maintenance), toyotismo, é menor.  Por outro lado, a equipa ou grupo de trabalho (pessoas que realizam em conjunto tarefas ou  missões concretas) não são, ao contrário da família, da pequena comunidade aldeã, ou do grupo étnico, equipas naturais, mas artificiais. Como conseguir, então, um nível de produtividade e de eficácia nestas equipas multidisciplinares, artificiais?
Citemos uma frase, de cujo autor falaremos mais adiante: as disciplinas são técnicas para assegurar a ordenação das multiplicidades humanas.

3. O mundo de hoje
Em meados do séc. XX, George Orwell publicaria Mil Novecentos e Oitenta e Quatro. Em Airstrip One, uma província de Oceânia, e local principal onde se desenrola a história, uma profusão de posters invade a cidade. Neles, o retrato do líder vem acompanhado da frase Big Brother is watching you.
O mundo de hoje é orwelliano, ainda que nem sempre saibamos quem é o Big Brother, ou o conceito se divida por uma quantidade imensa de pessoas ou organizações que nos vigiam. Entre a saída de casa e o regresso, doze horas depois, somos observados em permanência: numa bomba de gasolina, numa rua, num banco, num parque de estacionamento. Em qualquer estabelecimento podemos ser confrontados com a frase que nos sugere que sorriamos, porque estamos a ser filmados, frase que denota um olhar invisível pousado em cada um de nós. Mesmo que não saibamos quem nos observa, temos a consciência dessa possibilidade, e o nosso comportamento molda-se a essa hipotética certeza. Esta possibilidade impressiona mais a imaginação do que os sentidos.   
O conceito de privacidade desfaz-se nos dias de hoje  A nossa intimidade é revelada nas redes sociais – em particular no facebook. Esta exposição é irreversível e as nossas actividades profissionais ou de lazer, os amores e desamores, os gostos e as preferências, os conhecimentos e fotografias ficarão para sempre num mundo etéreo, acessível a pessoas cujos rostos não conhecemos mas que nos conhecem, porque tiveram acesso aos nossos passos, à nossa intimidade revelada. Apesar desta exposição, que atingiu já o ponto de retorno, o facebook tem um tremendo sucesso, remetendo os não aderentes para uma espécie de infoexclusão.
Noutra dimensão, centenas de candidatos perfilaram-se num balcão, ao longo dos últimos anos, para se inscreverem num programa onde são filmados 24 horas por dia, expostos aos olhos de uma multidão anónima que liga as televisões num voyeurismo obsessivo.  Hoje, ao contrário do 1984 de George Orwell, os vigilantes somos todos nós, que espionamos os passos dos participantes anónimos. O que antes era temido – o controlo e a vigilância – e também o que era protegido – a privacidade e a intimidade – tornam-se objectos de fascínio. Trocou-se a privacidade pela fama. A sociedade de hoje, subordinada ao conceito do sou visto, logo existo, é dominada por um olhar omnividente, que vai da proliferação dos programas televisivos de voyeurismo explícito à epidemia da vigilância que multiplica as câmaras encontradas a cada passo que damos. Vive-se hoje numa sociedade escópica que tem como espectáculo a disciplina e o controlo. O olho que vigia e pune é o mesmo que possibilita a fama.
É com esta realidade que olhamos para os sistemas produtivos, em particular para as fábricas, onde uma miríade de pessoas, artificialmente agrupadas, transformam matérias-primas em produtos acabados. É preciso disciplinar esta heterogeneidade humana, criar condições para que a sua eficácia se eleve a níveis de excelência. É preciso organizar esta multiplicidade de gente que já vive e convive com uma sociedade distópica e controlada, gente que é observada sem o querer, mas que também se expõe voluntariamente à observação. É preciso organizar esta diversidade de gente que se perfila numa linha de montagem para fabricar ou transformar produtos, que se organiza para satisfazer critérios de produtividade, de rentabilidade, de eficácia, de serviço ao cliente.
Que ferramenta temos ao nosso alcance para organizar esta força de trabalho que, deixada em roda livre, tenderá para a desordem, para o caos? Qual o modelo que leva um operário de uma linha a sair de sua casa e a entrar na sua fábrica e a perceber que esta não é mais do que a extensão daquela, que não há ruptura, não há diferença substantiva na forma de viver, de pensar e de agir, que a única evidência visível de mudança está na eventual existência de um uniforme...
Este modelo, que é a chave para o imbróglio humano, chama-se panóptico

...

8. Conclusão
Poder ver tudo, ter a sensação de se ser visto em permanência. Paredes transparentes, em vidro, que nada escondem, tudo revelam. Por trás, câmaras ou pessoas, pouco importa. A sensação da observação num hipotético sentido biunívoco, porque não sabemos nunca se observamos mais do que somos observados, ou, se ao observarmos os outros, nos observamos a nós próprios. Uma vida feita de dias iguais, sem ruptura de ambientes, a conviver com um dispositivo incorpóreo, virtual, insinuante, que torna o exercício do poder mais rápido, mais leve, mais eficaz. A disciplina, essa técnica para assegurar a ordenação das multiplicidades humanas, a vencer o caos, a desordem, a artificialidade das equipas. A disciplina ao serviço da eficácia da unidade, de um todo que é maior do que a soma das partes.  A disciplina que faz crescer as aptidões de cada um, que as coordena, que multiplica a capacidade produtiva, que alarga - sem enfraquecer - as frentes de ataque. A disciplina como tecnologia.
O panóptico...

JdB

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