Volto ao tema, para englobar no meu mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa um certo elogio àquelas duas senhoras que, no veterinário aonde levo o meu cão, lidaram com os delas como se fossem seres humanos: a senhora que tratou a cadela por princesa (sendo que não é nome, mas ternura) e lhe falou de ciúmes, a outra senhora que, tendo apresentado à cadela um cão que era igual ao primo (primo da cadela, pois o irmão da senhora também tinha um cão de uma raça específica), se despediu do animal dizendo: a mãe vai-se embora, que a mãe tem de trabalhar. E a esta frase voltarei, que há aqui pano para mangas, mesmo que sejam curtas e de pouca qualidade.
Há em mim um perfil militar que herdei de um desconhecido antigo, e também por isso tenho uma relação forte com a autoridade, com a hierarquia, com a cadeia de comando. Por outro lado, sou pai de filhos e avô de netos. Estas duas vertentes, que aparentemente se desligam uma da outra a não ser pelo facto de se aplicarem à mesma pessoa, são condição necessária - e, quiçá, suficiente - para manter o diálogo com o meu cão a uma certo nível que não ultrapasso. Tento que o cão me obedeça e que não seja o contrário. Sendo que ele não foi registado como meu filho, não me referirei a ele nesse sentido. E é por isso que não o abordo dizendo o pai vai trabalhar. Fora isso, tudo em mim revela uma senilidade semelhante; por vezes trato o cão por senhor, elogio-lhe a esperteza e falo alto no afecto incondicional que tem por mim (algo que rareia cada vez mais entre as pessoas) e talvez me lamente, quando ele me faz companhia, de mazelas das costas ou da alma. O que me diferencia relativamente às outras senhoras? Um certo pudor de linguagem que usaria também se estivesse no médico com um filho, e a certeza, detectável a olho nu, que o meu cão não é meu filho.
Dizer a mãe vai-se embora que a mãe tem de trabalhar, é uma frase ousada, que requer algum pensamento, sendo que não está em causa a possibilidade da senhora mentir. Uma vez que a cadela não entende o que a senhora diz, mas entende o tom de voz, a senhora poderia dizer - e se usasse o mesmo tom surtiria o mesmo efeito - frases do tipo a minha sogra é uma víbora ou se eu soubesse que o fernando era assim na cama não me tinha casado com ele. Ou poderia explicar o processo de fabrico do bacalhau com broa, começando com o desvelo com que se cortam cebolas em meia-lua. No fundo, o importante é o tom e a mão que, irmanada no mesmo afecto que a voz, afaga o pelo do animal em questão. Mas a senhora foi mais longe, e sentiu a necessidade de dizer ao cão que ia trabalhar e que só por isso é que o abandonaria. Podia ter-lhe recitado Sá de Miranda, que os olhinhos do animal seriam sempre de espanto.
Na realidade, há apenas duas coisas que me distinguem daquelas duas senhoras: um certo pudor (também não digo alto num consultório Vítor Manuel, filho, como queres logo à noite o teu bitoque?) e o teor da frase, pois nunca diria ao meu cão que vou trabalhar, mesmo que não use a expressão pai. Tento ser honesto, porque nunca se sabe o que estes animais percebem...
JdB