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17 maio 2019

Do ciúme

Refiro-me ao texto que postei há uns dias sobre o Ciúme, da autoria de Alfredo Castelino Carvalho. Em condições normais o texto ali ficaria, premiado ou criticado por um eventual comentário. Não conheço o autor em questão, e normalmente não me pronuncio sobre textos de outrem que aqui publico porque me suscitam um interesse qualquer. No entanto, o texto foi comentado por alguém que dele discordava. Ora, eu discordo da discórdia e, por isso, quebro a tradição, comentando um tema sobre o qual alguém escreveu.

***

Se é verdade que o ciúme não é o oposto do amor, também é verdade que, numa moeda, a cara não é o oposto da coroa. Ambas têm uma função complementar, que é a de constituir um objecto que foi criado para a transacção comercial - a moeda. Podia a cara viver sem a coroa? Sim, mas não seria a mesma coisa.

Por outro lado, o ciúme não é a posse de alguém, mas a posse do sentimento de alguém. Eu não detenho a posse do corpo de quem vive comigo, mas desejo ter a posse do sentimento de quem vive comigo, ter uma espécie de exclusividade daquele afecto específico, porque noutros afectos (materna / paternal / outros) o coração não me pertence. O ciúme é, por isso, a angústia da perda de um sentimento, não (ou nem sempre) a angústia da perda de alguém. 

Amar-se alguém é uma manifestação muito grande de fragilidade, porque é uma manifestação muito grande da nossa dimensão humana. Só o ser humano ama, e o amor que sente por outrem é o reconhecimento que não domina tudo, que não sabe tudo, que não pode tudo; por isso se une (ou  quer unir) àquela pessoa, para que ela o complete, o aconselhe, o ajude a ser melhor. Amar é relacional e a dimensão relacional encerra, em si, a fragilidade inerente à vida conjunta de duas pessoas que estão lado a lado, não uma atrás da outra. O amor por alguém é a afirmação mais cabal da auto-insuficiência do ser humano, porque é a assunção de que sozinhos não se consegue tudo. Se amar é dar a vida e a alma a outro, se amar é querer isso também para si, só pode amar na plenitude quem está disposto a abdicar de algo que é seu, que o constitui e que o define. Ao fazê-lo, confia, entrega-se, depende.  

O ciúme, por ser outra face (e talvez não a outra face) do amor, tem a sua dose de fragilidade, porque representa o medo da perda, a angústia da perda. Sentir ciúme é uma dupla fragilidade: a fragilidade da perda (ou da possibilidade de) relativamente à fragilidade do afecto. O ciúme evidencia a limitação do domínio: se há possibilidade de perda é que porque não se domina o objecto amado, ele tem uma liberdade que nos foi confiada, mas não entregue; O ciúme "saudável" evidencia o sentimento do amor. O ciumento não diz "quero-te" mas diz "quero o teu amor". Ora, se esse amor não é nosso por direito, temos de lutar por ele, fazermo-nos merecedores dele, desejá-lo. É por isso que amor e ciúme caminham de braço dado. 

O amor não é dependência nem independência; o amor é inter-dependência; o ciúme é o horror à perda dessa inter-dependência. O amor, no fundo, não é para todos, apenas para os que são suficientemente fortes para perceber a sua fragilidade.

JdB

14 maio 2019

Textos dos dias que correm

O ciúme

Do ciúme se disse muito. Dele falaram médicos da mente ou dos comportamentos humanos gregários, sobre ele escreveram historiadores de agremiações e dos povos, poetas eruditos ou de cariz mais popular que compensavam em criatividade repentista o que lhes faltava em sensibilidade profunda; do ciúme cantou gente das mais díspares proveniências, acompanhados a orquestra ou à guitarra. Do ciúme tudo se disse: a doença que requer tratamento, o excesso e a violência decorrente, a infelicidade de todos. Fala-se de ciúme como se fala de preguiça, de luxúria ou de inveja; o que suscita o texto, o pequeno ensaio, a dissertação académica, ou até mesmo uma sextilha, são a existência da característica. A inversa - a ausência de preguiça, de luxúria ou de inveja - não fazem parte, ingenuamente, do repertório médico, mas da vida de santos. Nesse mesmo sentido, a ausência do ciúme não é cantado no Fado Menor do Porto ou na ária lírica. Aparentemente a virtude não vende, não entretém, não desafia o pensamento.

Ora, estas linhas de um fado

tu não me digas 
que já não sentes ciúme 
que já se apagou o lume 
que aquecia o nosso amor 

só confirmam o raciocínio supra. Com efeito - e numa primeira análise - o advérbio  remete o acontecimento de ausência de ciúme, não para uma vida de virtude celeste, mas para uma questão temporal. Houve algo que desapareceu, como uma peça de fruta de um cesto: já não há pêssegos? Houve pêssegos e houve ciúme; deixou de haver e, nesse sentido o poeta é suscitado: o desaparecimento é diferente da nunca existência, pese embora a conclusão final ser a mesma: não há.

A inexistência de ciúme (que difere do desaparecimento do ciúme como combustível de um afecto) não tem sido tratada pelos especialistas com a devida atenção. Na verdade, alguém dizer o pecado da luxúria não me assiste, não é o mesmo que alguém dizer o ciúme não me assiste. Podemos não ser invadidos pelo pecado referido porque seremos por outro; em bom rigor, não é crível, nem humanamente justo, que um ser humano sinto em si todos os pecados mortais, embora sejam apenas cinco. Se não sente luxúria sente a inveja, se não sente a inveja sente o orgulho. Porém, se não sentir ciúme sente o quê? A ausência de ciúme não configura virtude, mas indiferença; do outro lado de uma moeda não pode haver apenas uma face polida que convida ao narcisismo.

Os versos reproduzidos supra enfermam de uma possível fragilidade: o advérbio não foi ali prantado para identificar um antes e um depois, mas para compor uma métrica - o corresponde, embora no início, à sétima sílaba métrica. Em não estando lá, o fadista fica com um excesso de ar na cavidade bocal, seria possuído por um volume excessivo sem nada que o ocupasse. O advérbio tem, portanto, uma valência utilitária, não explicativa.

O ciúme e o amor são duas faces da mesma moeda; não ter um é não ter o outro. É por isso que à afirmação o ciúme não me assiste se deve reagir com uma prudência de investigador, como se estivéssemos defronte de um animal raro, ou de uma tribo perdida na floresta que adora a barata e a quem a cabra repugna, pela configuração das orelhas. O ciúme é a demonstração da normalidade humana, aquela normalidade que se inquieta, que tem medo do escuro ou do mar alteroso, do inimigo que se esconde atrás de uma porta ou numa esplanada com vista para o mar, que encontra na vida, não uma sucessão de feitos heróicos, mas uma correnteza de incertezas, de sensações de efemeridade contra as quais tem de lutar.

Alfredo Castelino Carvalho, in 'Fragmentos'

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