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terça-feira, 10 de abril de 2018

Duas Últimas

Aviso à navegação: este post não é para gente que queira coisas contentinhas pela manhã.

O Eça falava no som triste do oboé mas eu tenho para mim que som triste mesmo é o do violoncelo. Talvez não haja instrumento tão triste, mesmo quando (e não é este o caso) toca uma música agitada. Há no som do violoncelo uma nostalgia, uma gravidade e uma tristeza bela que são independentes, quase, daquilo que interpretam. 

O violoncelo não é, digo eu que nada sei, um instrumento de Primavera, menos ainda de Verão: é outonal, sobretudo: reflexivo, convidando à interioridade, ao dobrar-se sobre si mesmo para efeitos de protecção do que agride e que vem do exterior, que por vezes não é mais do que o interior que parece que vem de fora. 

Talvez este canto dos pássaros que aqui vos trago não seja o que os traz para cá, mas o que os leva para fora. É um movimento de partida, porque outonal, porque acompanhado pelos dias que encurtam e que convidam à memória - esse refúgio que todo o homem procura em tempos de intempérie.

E talvez este cinema paraíso seja todo ele feito de preto e branco, de lembranças, de beijos roubados e de fogos que tudo levaram, menos aquilo que nenhum fogo consome.  

Não é, repito, um post para gente contentinha. Para isso há estabelecimentos melhores.

JdB




quinta-feira, 31 de março de 2016

Das emoções explicadas



Um estudo científico revela porque fechamos os olhos quando beijamos: um aumento do estímulo visual torna as pessoas menos sensíveis ao toque. Numa conferência sobre Shakespeare e Fernando Pessoa, um professor catedrático da Faculdade de Letras diz que o conforto de uma tarde à lareira é uma construção da literatura romântica. Talvez se venha a descobrir (se é que ainda não se descobriu) que as nossas más acções têm origem numa enzima a mais ou a menos.

O beijo na boca - e em particular o primeiro, ainda que desajeitado - é um episódio alto na vida do ser humano. Todos nós teremos memórias do nosso primeiro, por mais feia que fosse a namorada do momento. Por outro lado, em cinema a "atitude" dos olhos diz muito do que move os protagonistas. Olhos fechado é sinal de que está tudo bem, olhos abertos é indicador de traição ou, simplesmente, de boca num lugar mas coração noutro. E é ainda o beijo apaixonado que faz com que os actores se tratem, ao nível das legendas, por tu. Você antes do beijo, tu depois. É a intimidade a vencer uma aparente distância linguística que é incompatível com a troca de fluidos bocais.

O estudo científico nada revela de inesperado. Beijamos de olhos fechados pelos mesmos motivos com que dançamos de olhos fechados: para focar a nossa atenção, para congelar aqueles instantes de proximidade com quem nos arrebata o coração. Talvez até os olhos fechados sejam uma construção do romantismo, como uma tarde chuvosa de domingo à frente de uma lenha a crepitar. Talvez o que me desiluda, num fim de dia todo voltado para uma apresentação sobre Schiller que terei de fazer ainda hoje (o teatro como instituição moral) é o facto de nada aparentar ser arrebatador, inexplicado, intuitivo, animal, espontâneo. Tudo parece ter uma explicação científica, racional, comprovada por pessoas que, de bata branca e caneta oferecida por um laboratório, colocam cobaias humanas a beijarem-se de olhos abertos e fechados enquanto imagens passam num ecrã; num peito de curva suave ou músculo trabalhado não há uma mão ou uma boca - apenas sensores que grafam curvas crípticas em papéis contínuos.  

Continuarei a beijar, continuarei a dançar, continuarei a acender a lareira para me aquecer ou aquecer um ambiente. No limite, poderia fazer tudo isso em simultâneo. Gostava de acreditar que nem todas as emoções (e há emoções tão boas...) são - ou têm de ser  - explicadas à luz de uma teoria.

Desculpem qualquer coisinha. 

JdB 

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