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03 dezembro 2021

Do regresso a casa



Revi ontem Cinema Paraíso. Cruzei-me com o filme por puro acaso, nas minhas deambulações vagas de fim de noite, quando procuro algo que me distraia e que não requeira atenção: uma receita de cozinha inesperada, um fim de filme, alguém que recita uns versos ou lê um trecho de um romance. É a minha hora dos excertos, dos fragmentos, dos bocados de coisas. Tenho sempre a esperança de encontrar algo luminoso, ou vence-me o desejo de não adormecer com nada triste, muito pelo contrário: um adeus redentor, um beijo apaixonado, um fim feliz apesar das possíveis dores da alma ou das feridas do corpo.

Num certo sentido, Cinema Paraíso é um filme sobre o regresso a casa, seja do ponto de vista geográfico, seja do ponto de vista afectivo.  E é, ainda, um filme que contraria a ideia de que não devemos regressar aos sítios onde fomos felizes. Talvez Salvatore - o Tótó - tenha voltado ao único sítio onde foi feliz, embora de lá tenha fugido para se realizar no cinema, sem nunca mais ter visto Elena, a sua namorada da altura.

Numa cena cortada do filme, Salvatore e Elena reencontram-se e beijam-se na terra onde se viram pela última vez 30 anos antes. Uma série de desencontros tinha-os afastado irremediavelmente. Felizmente não incluíram essa cena no filme que todos vimos, pois o filme tornar-se-ia demasiado feliz, demasiado previsível. Há uma certa nostalgia triste nos olhos de Salvatore a olhar para o passado, para a sua casa afectiva. Talvez haja um destino que não se tenha cumprido, porque a vida é mesmo assim. Também tenho horas assim: excertos, fragmentos, bocados de coisas, vidas inacabadas, nostalgias.

JdB

10 abril 2018

Duas Últimas

Aviso à navegação: este post não é para gente que queira coisas contentinhas pela manhã.

O Eça falava no som triste do oboé mas eu tenho para mim que som triste mesmo é o do violoncelo. Talvez não haja instrumento tão triste, mesmo quando (e não é este o caso) toca uma música agitada. Há no som do violoncelo uma nostalgia, uma gravidade e uma tristeza bela que são independentes, quase, daquilo que interpretam. 

O violoncelo não é, digo eu que nada sei, um instrumento de Primavera, menos ainda de Verão: é outonal, sobretudo: reflexivo, convidando à interioridade, ao dobrar-se sobre si mesmo para efeitos de protecção do que agride e que vem do exterior, que por vezes não é mais do que o interior que parece que vem de fora. 

Talvez este canto dos pássaros que aqui vos trago não seja o que os traz para cá, mas o que os leva para fora. É um movimento de partida, porque outonal, porque acompanhado pelos dias que encurtam e que convidam à memória - esse refúgio que todo o homem procura em tempos de intempérie.

E talvez este cinema paraíso seja todo ele feito de preto e branco, de lembranças, de beijos roubados e de fogos que tudo levaram, menos aquilo que nenhum fogo consome.  

Não é, repito, um post para gente contentinha. Para isso há estabelecimentos melhores.

JdB




31 março 2016

Das emoções explicadas



Um estudo científico revela porque fechamos os olhos quando beijamos: um aumento do estímulo visual torna as pessoas menos sensíveis ao toque. Numa conferência sobre Shakespeare e Fernando Pessoa, um professor catedrático da Faculdade de Letras diz que o conforto de uma tarde à lareira é uma construção da literatura romântica. Talvez se venha a descobrir (se é que ainda não se descobriu) que as nossas más acções têm origem numa enzima a mais ou a menos.

O beijo na boca - e em particular o primeiro, ainda que desajeitado - é um episódio alto na vida do ser humano. Todos nós teremos memórias do nosso primeiro, por mais feia que fosse a namorada do momento. Por outro lado, em cinema a "atitude" dos olhos diz muito do que move os protagonistas. Olhos fechado é sinal de que está tudo bem, olhos abertos é indicador de traição ou, simplesmente, de boca num lugar mas coração noutro. E é ainda o beijo apaixonado que faz com que os actores se tratem, ao nível das legendas, por tu. Você antes do beijo, tu depois. É a intimidade a vencer uma aparente distância linguística que é incompatível com a troca de fluidos bocais.

O estudo científico nada revela de inesperado. Beijamos de olhos fechados pelos mesmos motivos com que dançamos de olhos fechados: para focar a nossa atenção, para congelar aqueles instantes de proximidade com quem nos arrebata o coração. Talvez até os olhos fechados sejam uma construção do romantismo, como uma tarde chuvosa de domingo à frente de uma lenha a crepitar. Talvez o que me desiluda, num fim de dia todo voltado para uma apresentação sobre Schiller que terei de fazer ainda hoje (o teatro como instituição moral) é o facto de nada aparentar ser arrebatador, inexplicado, intuitivo, animal, espontâneo. Tudo parece ter uma explicação científica, racional, comprovada por pessoas que, de bata branca e caneta oferecida por um laboratório, colocam cobaias humanas a beijarem-se de olhos abertos e fechados enquanto imagens passam num ecrã; num peito de curva suave ou músculo trabalhado não há uma mão ou uma boca - apenas sensores que grafam curvas crípticas em papéis contínuos.  

Continuarei a beijar, continuarei a dançar, continuarei a acender a lareira para me aquecer ou aquecer um ambiente. No limite, poderia fazer tudo isso em simultâneo. Gostava de acreditar que nem todas as emoções (e há emoções tão boas...) são - ou têm de ser  - explicadas à luz de uma teoria.

Desculpem qualquer coisinha. 

JdB 

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