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12 maio 2026

Da surpreendente inteligência do "somos o que comemos"

 Há um espécie de sabedoria, que não imagino se antiga, que diz: somos o que comemos; ou seja, diz-me o que comes, dir-te-ei quem és. Sempre entendi que a frase era o elogio da alimentação regrada, feita de alimentos saudáveis cozinhados de forma saudável; e sempre entendi que a frase me era dita de uma forma crítica, numa alusão velada à minha dieta (aparentemente, ou de acordo com alguns critérios) pouco saudável. 

O volte-face na minha auto-crítica aconteceu quando conversava com alguém sobre uma fase mais confusa da minha vida, cheia de actividades e compromissos e prazos em assuntos muito díspares: a recta final do doutoramento, uma viagem ao estrangeiro em serviço de voluntariado, a organização de um almoço com mais de 100 pessoas, uma apresentação no Algarve, webinars para preparar, etc. Quando essa pessoa me disse pois percebo, não estás habituado... a minha resposta foi imediata: não estou e não quero estar! Não quero stress, não quero excesso de solicitações, não quero adormecer a pensar no que tenho de fazer e acordar a meio da noite a pensar no que tenho de fazer. Quero ter tempo para almoçar com amigos, quero ler, escrever, andar a pé, viajar, ir a museus ou ao teatro. Quero ter tempo para tudo!

Tinha eu acabado de defender o meu actual modelo de vida quando percebi que a frase somos o que comemos assentava que nem uma luva às minhas convicções. Na verdade, a minha teoria sobre a alimentação (uma teoria pouco original e pouco científica) baseia-se numa ideia simples: comer de tudo - e pouco. Num repente dei por mim a lembrar-me de uma frase que disse a uma colega internacional vegetariana, por quem tinha pouca amizade: tenho sempre a sensação de que os vegetarianos / vegans são pessoas potencialmente infelizes, sempre a dizer que não aos prazeres da vida: um bife do lombo? Não, não, sou vegan... Uma cataplana de marisco? Não, não, sou vegan... Um cozido à portuguesa? Não, não sou vegan... 

Ao contrário do que eu pensava, a frase somos o que comemos é, afinal, um elogio ao meu modo de vida, que eu pretendo diversificado. Basta para isso percebermos que, dentro de limites, um cachaço de porco assado no forno, uma salada rica cheia de vitaminas ou uns carapaus assados com molho à espanhola, são o equivalente gastronómico - ou um complemento - de um teatro, de uma visita a um museu ou de uma viagem ao Chile. São vidas diversificadas nas suas várias vertentes. 

Desconfiem das pessoas que têm uma alimentação pouco variada, e desconfiem das pessoas que têm uma vida pouco variada, embora provavelmente uma coisa vá com a outra. 

Somos o que comemos é, portanto, uma frase muito inteligente; basta que percebamos que entre umas migas gatas e um concerto de Beethoven pode não haver mais do que um fio de cabelo a separá-los.

JdB    

08 janeiro 2020

Do espectro das nossas preferências

Último Poema: Paisagem

Quando, ao longe, a vida que habitam os homens,
em direção ao tempo do resplendor das vinhas
se esvai,
despidos pelo verão se encontram os campos,
e em sombria imagem surge a floresta.
Que a natureza acrescente a imagem dos tempos,
e permaneça. E os tempos, velozes, deslizem;
da perfeição vem isso: que brilhem
para o homem as alturas do céu,
enquanto a árvore se vai coroando de flores.

Friedrich Holderlin

***

Auto-retrato

Poeta é certo mas de cetineta
fulgurante de mais para alguns olhos
bom artesão na arte da proveta
marciso de lombardas e repolhos.

Cozido à portuguesa mais as carnes
suculentas da auto-importância
com toicinho e talento ambas partes
do meu caldo entornado na infância.

Nos olhos uma folha de hortelã
que é verde como a esperança que amanhã
amanheça de vez a desventura.

Poeta de combate disparate
palavrão de machão no escaparate
porém morrendo aos poucos de ternura.

Ary dos Santos, in 'Fotosgrafias'

***

O que dizem as nossas opções estéticas relativamente à poesia? Ou relativamente à música? Ou à gastronomia? Se me perguntarem: de que tipo de música gostas?, posso responder, sem correr o risco de perda de credibilidade, que gosto de Schubert e de Quim Barreiros? Ou de Wagner e Ana Malhoa? E se falarmos de poesia posso alternar entre Friedrich Holderlin e Ary dos Santos? Ou entre Guerra Junqueiro e o poeta chofer?

Amália Rodrigues, diz-se, não prescindia de um tupperware com carapaus de escabeche (ou jaquinzinhos, não sei) quando gravava; mas talvez apreciasse uns escargots quando ia a França, ou uma colher de caviar quando ia à Rússia. Ary dos Santos é o caviar ou é o escabeche? E o Quim Barreiros, é um carrascão ou um Veuve Cliquot?

O olhar que temos sobre a gastronomia é igual ao olhar que temos sobre a poesia? Isto é, há quem se gabe de ter boa boca - é gente que gosta de tudo. Quando nos confrontamos com alguém assim, olhamo-lo com respeito, porque essa característica nos parece uma virtude. É bom gostarmos de tudo. E o que diremos de quem goste de Holderlin e de Ary dos Santos? Como olhamos para as pessoas que têm boa boca ao nível da poesia?

E que interesse tem isto?

JdB    

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