quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Do espectro das nossas preferências

Último Poema: Paisagem

Quando, ao longe, a vida que habitam os homens,
em direção ao tempo do resplendor das vinhas
se esvai,
despidos pelo verão se encontram os campos,
e em sombria imagem surge a floresta.
Que a natureza acrescente a imagem dos tempos,
e permaneça. E os tempos, velozes, deslizem;
da perfeição vem isso: que brilhem
para o homem as alturas do céu,
enquanto a árvore se vai coroando de flores.

Friedrich Holderlin

***

Auto-retrato

Poeta é certo mas de cetineta
fulgurante de mais para alguns olhos
bom artesão na arte da proveta
marciso de lombardas e repolhos.

Cozido à portuguesa mais as carnes
suculentas da auto-importância
com toicinho e talento ambas partes
do meu caldo entornado na infância.

Nos olhos uma folha de hortelã
que é verde como a esperança que amanhã
amanheça de vez a desventura.

Poeta de combate disparate
palavrão de machão no escaparate
porém morrendo aos poucos de ternura.

Ary dos Santos, in 'Fotosgrafias'

***

O que dizem as nossas opções estéticas relativamente à poesia? Ou relativamente à música? Ou à gastronomia? Se me perguntarem: de que tipo de música gostas?, posso responder, sem correr o risco de perda de credibilidade, que gosto de Schubert e de Quim Barreiros? Ou de Wagner e Ana Malhoa? E se falarmos de poesia posso alternar entre Friedrich Holderlin e Ary dos Santos? Ou entre Guerra Junqueiro e o poeta chofer?

Amália Rodrigues, diz-se, não prescindia de um tupperware com carapaus de escabeche (ou jaquinzinhos, não sei) quando gravava; mas talvez apreciasse uns escargots quando ia a França, ou uma colher de caviar quando ia à Rússia. Ary dos Santos é o caviar ou é o escabeche? E o Quim Barreiros, é um carrascão ou um Veuve Cliquot?

O olhar que temos sobre a gastronomia é igual ao olhar que temos sobre a poesia? Isto é, há quem se gabe de ter boa boca - é gente que gosta de tudo. Quando nos confrontamos com alguém assim, olhamo-lo com respeito, porque essa característica nos parece uma virtude. É bom gostarmos de tudo. E o que diremos de quem goste de Holderlin e de Ary dos Santos? Como olhamos para as pessoas que têm boa boca ao nível da poesia?

E que interesse tem isto?

JdB    

3 comentários:

Anónimo disse...

Não entendo: «que têm boa boa ao nível da poesia?»
Será para emendar?
Abraço
ao

JdB disse...

Sempre atento ao. Já corrigido, e agora agradecido.

Anónimo disse...

Como sabe, sou avesso à poesia.
Raramente há umas horas ou minutos em que sinto que quem escreveu, será um exímio jongleur de palavras ou de sons — desde que eu entenda o seu idioma.

Abraço — de quem não tem boa boca...
ao

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