You are welcome to Elsinore
Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício
Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição
Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras e nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita
Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar
Mário Cesariny, in Pena Capital (Lisboa, Assírio & Alvim, 1982)
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* enviado por mão amiga
As melhores viagens são, por vezes, aquelas em que partimos ontem e regressamos muitos anos antes
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quinta-feira, 26 de julho de 2018
terça-feira, 24 de julho de 2018
Duas Últimas (em registo de doutorando tardio)
Até ao final de Setembro será isto: o silêncio. Os dois livros abaixo mais outros que me possa surgir / ser sugeridos, tal como textos / artigos / regras sobre / dos cartuxos. Se alguém quiser sugerir alguma coisa chegue-se à frente se faz favor.
Até lá, continuamos em modo Simon and Garfunkel, naquele mítico concerto do Central Park.
Boas férias, para aqueles que as vão gozando.
JdB
The Sound of Silence
Hello darkness, my old friend
I've come to talk with you again
Because a vision softly creeping
Left its seeds while I was sleeping
And the vision that was planted in my brain
Still remains
Within the sound of silence
In restless dreams I walked alone
Narrow streets of cobblestone
'Neath the halo of a street lamp
I turned my collar to the cold and damp
When my eyes were stabbed by the flash of a neon light
That split the night
And touched the sound of silence
And in the naked light I saw
Ten thousand people, maybe more
People talking without speaking
People hearing without listening
People writing songs that voices never share
And no one dared
Disturb the sound of silence
Fools, said I, you do not know
Silence like a cancer grows
Hear my words that I might teach you
Take my arms that I might reach you
But my words, like silent raindrops fell
And echoed in the wells of silence
And the people bowed and prayed
To the neon god they made
And the sign flashed out its warning
In the words that it was forming
And the sign said, the words of the prophets are written on the subway walls
And tenement halls
And whispered in the sounds of silence
Letra de Paul Simon
Etiquetas:
Doutoramento,
Músicas,
silêncio,
Simon and Garfunkel
terça-feira, 11 de julho de 2017
Do silêncio (post repescado com actualizações)
Fui buscar ao site Essejota [na altura site da Companhia de Jesus em Portugal] este pensamento, publicado ontem, 1 de Agosto [de 2008]. O silêncio é um tema que me encanta, sobre o qual gosto de ler e de pensar. A minha vida dos últimos anos foi atravessada, aqui e ali, por momentos de grande parcimónia na utilização das palavras - ditas ou ouvidas. Foram tempos reconfortantes, de olhar para dentro e para fora, de escutar vozes que só nós ouvimos, de proferir frases que mais ninguém ouve; foram alturas esmagadoras, em que o que não se dizia tinha um peso infinitamente doloroso, constrangedor, revelador de um incómodo que era filho do diálogo que já não existia. O silêncio é, de facto, uma ferramenta poderosíssima, capaz do melhor e do pior. Assim eu soubesse usá-la para os fins mais elevados.
(Vasco P. Magalhães, sj)
***
Há coincidências, mesmo que esta não seja significativa. Este sábado vinha de Coimbra com um amigo e colega de direcção da Acreditar. Falámos de temas diversos como as minhas aulas, o meu doutoramento, a pintura dele e o livro que ele está a terminar. Falei-lhe de silêncio, um tema que me interessa desde há muito (e a citação de um post com nove anos é bem sintomático...) e que quero abordar na tese. Ontem ao pesquisar, já a horas tardias, o que postar preguiçosamente hoje, deparei-me com o referido post. Ontem, ainda, li um texto muito interessante na revista Brotéria dedicada aos 100 anos das aparições de Fátima, intitulado: "da Religião à Oração: uma reflexão sobre a Fé e o Lugar de Fátima" [João J. Vila-Chã, in Brotéria, Maio / Junho 2017]. E cito:
No seu silêncio, o homem deixa de olhar para as coisas, para os nomes e problemas do mundo a partir da perspetiva do conceito ou da conceptualização apenas. Nesta forma de oração, portanto, deixa-se cair por terra o ideal de posse ou do ser possuído. São os próprios instintos e as suas moções que se tornam silenciosos. A pessoa que reza precisa de se tornar em sua inteireza silêncio e serenidade. Como diria o grande místico que foi o Mestre Eckhart, trata-se mesmo de aprender a ser igual ao Nada.
JdB
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