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06 maio 2021

Textos dos dias que correm

«O Senhor não está no ruído»: 

O silêncio jaz, como os textos, arqui-orais, à espera que o acorde (o ressuscite) algum passante ou legente. Aparentemente, o silêncio não é um ato comunicativo: espera a sua vez, a sua fala, enquanto memória figurativa do corpo e superfície de inscrição de emoções (luto, suspense, reprovação, anuência, desabamento, júbilo). Se me volto para alguém, se o interpelo, e esse alguém não se voltar para mim, não me responder, o seu silêncio tem em mim um efeito passional, intrigante, interpretável como recusa, desprezo, abandono. Se peço silêncio, interrompo a fala do outro; obrigar o outro a calar-se: “Cala-te!” é utilizar uma injunção fortemente modalizada: “eu quero” (que te cales), “tu deves” calar-te. O silêncio, na interação social é a ausência de fala. Enquanto modo de representação, o silêncio prende o sujeito emissor ou recetor, criando uma relação nova com o espaço e o tempo em que evolui. O silêncio nesta área pode ser dividido em três categorias (Bruneau, 1973): mental, social, ou ambas, sendo definidas segundo o tempo, o contexto e a perceção. Há quem fale do silêncio surdo, isto é o silêncio que não sonoro mas gestual, próprio dos surdos para quem fazer silêncio – ou calar-se – no mundo visual que é o seu, se mostra quando deixa de mexer as mãos como outros deixariam de abrir a boca (onde encontramos o corpo enunciante). Fisiologicamente, o silêncio é o resultado de hesitação, autocorreção, ou de deliberada interrupção da fala com o fim de clarificação ou de processamento de ideias. Há silêncios curtos e silêncios longos, em intensão e em extensão. O silêncio interativo manifesta-se nas funções interativas, reativas, ou de dar lugar à fala do outro. Mas há o silêncio incapacidade de responder, recusa, significante musical (suspiro, pausa), esvaimento da linguagem diante do inefável. E há o mutismo como perversão do desejo quando “le silence même de la vie est contaminé et la source de la parole polluée”, escreve D. Vasse.

Há o intervalo entre o apelo da voz que se faz ouvir no interior do corpo e a sua proferição sob forma de oração, de meditação, de “monólogo interior”, de mutismo, de ressentimento. Uma mente silenciosa, liberta do ruído do pensamento é uma finalidade e um importante passo no desenvolvimento espiritual. Esse “inner silence” não é ausência de som; pelo contrário, é entendido como o pátio que permite o contacto com o divino, a realidade última, ou a verdade de cada um. Muitas tradições religiosas implicam a importância de estar quieto e mesmo no pensamento e no espírito em vista ao crescimento espiritual transformador. No Cristianismo existe o silêncio da oração contemplativa, ou de meditação cristã; no Islão, há a sabedoria dos escritos dos Sufis que insistem na importância de encontrar o silêncio dentro de si. No Budismo, o silêncio permite que a mente se torne silenciosa em função da iluminação espiritual. No Hinduísmo, incluindo os ensinamentos do Advaita Vedanta e os passos do yoga, os mestres insistem na importância do silêncio para o crescimento interior. Em algumas tradições do Quakerismo (ramo do Cristianismo), o silêncio é uma parte presente nos serviços da oração e um tempo que permite que o divino fale ao coração. Que é a meditação senão um «pensamento acompanhado por reflexão que procura com prudência a causa e a origem, o modo e a utilidade de cada coisa»? A meditação que isola a alma da azáfama das atividades terrestres precisa do silêncio como a sua antecâmara, como condição da sua potenciação. O primeiro gesto do silêncio é a expulsão do mundo e do ruído, conforme está escrito: “O Senhor não está no ruído” (1 R 19,11). A casa é o dentro. O invólucro do silêncio como movimento imóvel. E é porque se associa o silêncio associa ao espírito que a matéria pode aparecer como obstáculo ou trampolim. Há o silêncio que acompanha a recitação e que opera uma rutura no fio da praxis enunciativa – a oração, v.g., ou a pausa numa partitura musical, ou ainda a interrupção da fala numa situação interlocutiva. Para o autor de “La voix nu”e a leitura da “lectio divina” é uma “épreuve de nudité”. (…)

O silêncio é uma estratégia de comunicação, um fazer, como se verá adiante no relato da mulher que se ajoelha aos pés de Jesus e lhe unge os pés, e que lemos como uma parábola no decurso de um discurso. O corpo fala, o silêncio é um gesto significante, afetivo. Há silêncios prenhes: Jonas, no ventre da baleia, é o símbolo de Cristo silencioso no seio da mãe e, ao mesmo tempo, a figura reduzida ao silêncio e que depois renasce, falando. Thomas Merton falava de vida religiosa como vida silenciosa. O que a vida religiosa exige é que se deixe instalar o silêncio para que Deus fale, que se entre no silêncio de si para aí ouvir a Palavra. Quando amamos alguém, procuramos a sua presença: basta então que aquele que procuramos esteja lá, mesmo que nenhuma palavra se troque: essa é a verdade do silêncio interior. Nesse silêncio escuta-se o que vive em nós, a palavra. O silêncio da presença faz apelo a um presente radicalmente outro. S. Agostinho coloca a questão de fundo: lembramo-nos do passado, antecipamos o futuro, mas o presente? E contudo, não podemos definir o passado e o futuro senão relativamente ao presente. O silêncio faz parte da observância regular recolhida da tradição por S. Domingos. Entre os elementos da vida regular e que constituem a vida dominicana, por exemplo, destaca-se o silêncio. No nº 46 do Livro das Constituições e Ordenações lê-se: «Os irmãos devem diligentemente guardar o silêncio, sobretudo nos lugares e tempos destinados à oração e ao estudo; é, com efeito a defesa de toda a observância e contribui sobremaneira para a vida religiosa interior, para a paz, para a oração, para o estudo da verdade e para a sinceridade da pregação». (…)

O tempo da receção vive-se antes de mais no silêncio. Acolher o dom do amor do Outro passa pelo silêncio da escuta. Ou não fosse o silêncio o pai da palavra, como dizia Domingos de Gusmão. O místico Jean Tauler, evocando o “Dum medium silentium” da liturgia, escreve: «É no meio do silêncio, no momento em que todas as coisas mergulham no maior silêncio, em que o verdadeiro silêncio reina, que se ouve o Verbo, porque se queres que Deus fale, é preciso calares-te: para que ele entre, todas as coisas devem sair». Receber a palavra não é receber uma mensagem a transmitir, é reconhecer esta palavra num corpo, como palavra da vida. É pelo corpo que passa a receção: não há palavra sem interação. Não há praxis enunciativa sem um corpo que responde a outro corpo. Mesmo que seja virtual: afinal, pensar, recordar, são operações virtuais, não há traços visíveis que as colham, ao contrário da escrita.

O texto de João diz-nos que o gesto de dom tecido na verdade do silêncio é um mais pregnante do que qualquer outro, calculista, dominador, masculino. Como anunciar aquele que nos tocou sem pronunciar uma palavra só? Estando Jesus em Betânia, à mesa, chegou uma certa mulher que trazia um frasco de alabastro, com perfume de nardo puro de alto preço; partindo o frasco, derramou o perfume sobre a cabeça de Jesus (Mc 14,3). Uma mulher coloca um gesto em silêncio: quebra um frasco de perfume e derrama-o na cabeça de Jesus. Gesto que os discípulos não entendem. Jesus assinala a distância entre o gesto e o efeito que criou quando lido e interpretado. As palavras dos discípulos não entendem a perda senão em termos de descodificação. Jesus dirá que ela «fez uma boa obra». Ela não perfuma o corpo morto, mas um corpo à mesa. «Em qualquer parte do mundo onde for proclamado o Evangelho, há de contar-se também, em sua memória, o que ela fez» (Mc 14, 9). O seu gesto é transformado em palavra de anúncio. O perfume derramado transforma as aparências e aquilo que se diz delas, abrindo um outro espaço. O vaso quebrado assinala a dissociação entre as palavras e as coisas (as aparências) em que diz algo diferente da relação ao outro: este corpo vivo como “coisa” visível não deve ser tido por aquilo que parece ser, transporta um outro tempo e um outro espaço nele: «O filho do Homem será entregue, sofrerá, morrerá e ressuscitará ao terceiro dia». O frasco partido rasga as aparências e faz intervir uma palavra que vem de algures, do fundo das Escrituras. A unção pode ser vista como um gesto colocado sobre o corpo: um corpo morto pede que sobre ele se coloquem gestos de embalsamento. Este gesto é uma porta que abre para um corpo a vir, inscrevendo nas margens do visível o invisível da vida e da morte. O gesto da mulher adverte para a ilusão de poder absoluto sobre o mundo, sobre si e o outro. A palavra nasce do silêncio. O silêncio da mulher é um silêncio prenhe: o da palavra silenciosa, da palavra do corpo que fala. Esta mulher fala por gestos, não por palavras: prefigura o triunfo da morte. Pode este perfume útil para a conservação do corpo morto servir para a conservação da palavra? De que fala esta fratura do vaso senão do ato de proclamação e da economia, dom do amor que só na brisa ligeira se percebe – que é discreto, silencioso – e nos leva a desconfiar da impostura da língua e dos grandes gestos. O dom da mulher passa por um perfume evanescente que passa numa brisa ligeira e é o seu gesto de derramar este perfume que Jesus associa ao anúncio do evangelho. Jesus não fala, quando se ajoelha diante dos discípulos para lhes lavar os pés. O seu ato vale pela palavra: o seu ato faz corpo com a sua palavra ou a sua palavra faz corpo com o seu ato. O seu ato é palavra. Deus é percetível como um perfume quando o confessamos e celebramos: “Respire in te paululum” (Conf. XIII). «Eis onde estás! Respiro um pouco em ti quando derramo sobre a minha alma num grito de alegria em que ressoam ares de festa celebrada» (Agostinho).

De acordo com as normas culturais, o silêncio pode ser interpretado como positivo ou negativo, por defeito ou por excesso. Enigmático é o rosto do silêncio que denuncia o exílio da palavra e do encontro. Os monges inventaram técnicas de suspensão, práticas de interrupção da fala. No meio Metodista Cristão, a organização da fé e do silêncio, bem como a reflexão durante os sermões deve ser apreciada pela congregação, enquanto numa igreja Baptista do Sul, o silêncio pode significar desagrado relativamente àquilo que está a ser dito, ou talvez desconexão da comunidade congregada. Diz-se que só temos uma experiência completa do silêncio na morte. O silêncio completo é quando não se sente o mínimo ruído. Nos laboratórios, os animais submetidos a uma total falta de ruído mostram sinais de mudanças de comportamento e de agressão. Na religião ortodoxa o culto do silêncio tem um lugar de destaque. A excelência espiritual do hesicasta é silenciosa e contemplativa. A evidência do divino vivo, tal um oceano de luz, é doçura e dá-se não ao raciocínio, mas ao coração e à sensação: o «tudo sentir em Deus» de Isaac o Sírio torna-se o culto da “sensação de Deus” que recusa as palavras e se afasta da lógica da teologia. A apófase é o cúmulo desta teologia negativa que nega a limitação conceptual de Deus: nem valor, nem conceito, nem representação, Deus é o inacessível, o mistério sem fundo. (…) Através do trabalho da ausência, do luto, do vazio, sempre pulsional, não é o silêncio a manifestação de um indizível?


José Augusto Mourão
In Didaskalia
Publicado pelo SNPC em 05.05.2021

31 janeiro 2020

Silêncio

Convento da Encarnação (Lisboa) um destes dias, por via de um telemóvel

Ouvi-los a Todos, no Silêncio

Detesto a acção. A acção mete-me medo. De dia podo as minhas árvores, à noite sonho. Sinto Deus - toco-o. Deus é muito mais simples do que imaginas. Rodeia-me - não o sei explicar. Terra, mortos, uma poeira de mortos que se ergue em tempestades, e esta mão que me prende e sustenta e que tanta força tem...
Como em ti, há em mim várias camadas de mortos não sei até que profundidade. Às vezes convoco-os, outras são eles, com a voz tão sumida que mal a distingo, que desatam a falar. Preciso da noite eterna: só num silêncio mais profundo ainda, conto ouvi-los a todos.

Raul Brandão, in 'Húmus'

***

O Valor do Silêncio

Tantos querem a projeção. Sem saber como esta limita a vida. Minha pequena projeção fere o meu pudor. Inclusive o que eu queria dizer já não posso mais. O anonimato é suave como um sonho. Eu estou precisando desse sonho. Aliás eu não queria mais escrever. Escrevo agora porque estou precisando de dinheiro. Eu queria ficar calada. Há coisas que nunca escrevi, e morrerei sem tê-las escrito. Essas por dinheiro nenhum. Há um grande silêncio dentro de mim. E esse silêncio tem sido a fonte de minhas palavras. E do silêncio tem vindo o que é mais precioso que tudo: o próprio silêncio.

Clarice Lispector, in Crónicas no 'Jornal do Brasil (1968)'

14 outubro 2019

Da Cartuxa


Mão amiga mandou-me mais um artigo sobre o fecho da Cartuxa de Évora (de onde tirei a imagem acima). Ironicamente, a meio de um trabalho académico sobre silêncio monástico, a única cartuxa portuguesa vai fechar. Este facto não significa nada, é apenas uma coincidência - mas é curioso, contudo.

Nos últimos meses li e pensei muito sobre silêncio, sobre ruído e sobre som, que são coisas diferentes, sobre lentidão, sobre música triste ou força centrípeta, sobre Outono e recolhimento, sobre contemplação e acção. Está tudo relacionado e cada vez estou mais convencido daquilo em que acredito, ou que me faz bem.

"Para louvar da glória de Deus, Cristo, Palavra do Pai, escolheu pelo Espírito Santo, desde o princípio, homens que conduziu à solidão para os unir a Si em íntimo amor. Fiel a esta vocação, no ano do Senhor de 1084, Mestre Bruno entrou com seis companheiros no deserto da Chartreuse, onde se instalou.” (dos estatutos da Ordem Cartusiana).

Deixo-vos com algo celestial, para compor o silêncio reconfortante. Enviado pela mesma amiga.

JdB

08 outubro 2019

Poemas dos dias que correm

Difícil fotografar o silêncio

Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada, a minha aldeia estava morta.
Não se via ou ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas.
Eu estava saindo de uma festa,.
Eram quase quatro da manhã.
Ia o silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim no beiral do sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada na existência mais do que na pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotografei o perdão.
Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre.
Por fim eu enxerguei a nuvem de calça.
Representou pra mim que ela andava na aldeia de braços com Maiakoviski – seu criador.
Fotografei a nuvem de calça e o poeta.Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa
Mais justa para cobrir sua noiva.
A foto saiu legal.

Manoel de Barros, em “Ensaios fotográficos”

03 outubro 2019

Poemas dos dias que correm

Poema do Silêncio

Sim, foi por mim que gritei.
Declamei,
Atirei frases em volta.
Cego de angústia e de revolta.

Foi em meu nome que fiz,
A carvão, a sangue, a giz,
Sátiras e epigramas nas paredes
Que não vi serem necessárias e vós vedes.

Foi quando compreendi
Que nada me dariam do infinito que pedi,
-Que ergui mais alto o meu grito
E pedi mais infinito!

Eu, o meu eu rico de baixas e grandezas,
Eis a razão das épi trági-cómicas empresas
Que, sem rumo,
Levantei com sarcasmo, sonho, fumo...

O que buscava
Era, como qualquer, ter o que desejava.
Febres de Mais. ânsias de Altura e Abismo,
Tinham raízes banalíssimas de egoísmo.

Que só por me ser vedado
Sair deste meu ser formal e condenado,
Erigi contra os céus o meu imenso Engano
De tentar o ultra-humano, eu que sou tão humano!

Senhor meu Deus em que não creio!
Nu a teus pés, abro o meu seio
Procurei fugir de mim,
Mas sei que sou meu exclusivo fim.

Sofro, assim, pelo que sou,
Sofro por este chão que aos pés se me pegou,
Sofro por não poder fugir.
Sofro por ter prazer em me acusar e me exibir!

Senhor meu Deus em que não creio, porque és minha criação!
(Deus, para mim, sou eu chegado à perfeição...)
Senhor dá-me o poder de estar calado,
Quieto, maniatado, iluminado.

Se os gestos e as palavras que sonhei,
Nunca os usei nem usarei,
Se nada do que levo a efeito vale,
Que eu me não mova! que eu não fale!

Ah! também sei que, trabalhando só por mim,
Era por um de nós. E assim,
Neste meu vão assalto a nem sei que felicidade,
Lutava um homem pela humanidade.

Mas o meu sonho megalómano é maior
Do que a própria imensa dor
De compreender como é egoísta
A minha máxima conquista...

Senhor! que nunca mais meus versos ávidos e impuros
Me rasguem! e meus lábios cerrarão como dois muros,
E o meu Silêncio, como incenso, atingir-te-á,
E sobre mim de novo descerá...

Sim, descerá da tua mão compadecida,
Meu Deus em que não creio! e porá fim à minha vida.
E uma terra sem flor e uma pedra sem nome
Saciarão a minha fome.

José Régio

02 maio 2019

Do silêncio


Há algumas semanas, respondendo a um desafio do meu amigo Sr. Vasconcelos, que também é o Padre Miguel Vasconcelos, fui moderar o lançamento do livro referido acima. Foi uma experiência interessante: pelo ineditismo, por ter conhecido gente, por ser um livro que interessa à minha tese de doutoramento e, ainda, pelo facto de me ter suscitado outras leituras. E cito Agostinho da Silva, relido a este propósito: "(...) o de fazer que se entregue à contemplação uma Humanidade que, viciada no fabricar, não vai saber como encher os ócios."  

Moderar um lançamento não é mais do que, no período após as intervenções do apresentador e do autor do livro, suscitar um certo debate. A primeira pergunta que me ocorreu foi esta: o que dizem os padres do deserto, gente que viveu isolada há 15 séculos, à juventude de hoje? O que é, para esta "Humanidade viciada no fabricar", o silêncio? O silêncio tende a desaparecer da face da Terra - não há sítio que se frequente que não tenha som: lojas, restaurantes, comboios, centros comerciais. Não é só o som da música que tudo invade, mas o som dos telemóveis, das pessoas que falam alto ou que põem os telemóveis em alta voz. 

As gerações nascidas nos anos 70 (talvez mesmo anteriores) não sabem o que é um candeeiro a petróleo; as pessoas que têm hoje 30 anos não sabem o que é um carro sem direcção assistida. Eu já não sou do tempo do carro de cavalos e não sei o que é o som de alguns pregões citadinos. Com o advento da modernidade há sons que desaparecem, cheiros que são substituídos, equipamentos que passam a obsoletos. A minha teoria é que as gerações muito modernas não sabem o que é o silêncio, assim como eu não sei o que são os sons que eram habituais na juventude do meu pai. O silêncio desapareceu da vida das gerações mais recentes, até porque as gerações mais recentes fogem do silêncio - o que é estranho, porque não se foge do que não existe. 

Não tenho saudades de sons que não ouvi, como não tenho saudades de cheiros que não cheirei. Nesta linha de raciocínio, como se pode ter saudades do que não se conheceu. Como pode um jovem de 20 anos ter saudades do silêncio se nunca conheceu o silêncio como eu o conheci ainda, fosse na cidade ou, principalmente, no campo? Falar do silêncio é falar da máquina a vapor ou dos ardinas a vender jornais. É uma memória para quem conheceu a máquina a vapor ou os ardinas. 

Como sentimos falta de algo que não conhecemos?

JdB 

26 julho 2018

Poema para os dias em que se fala de silêncio *

You are welcome to Elsinore

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte      violar-nos      tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas      portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício
   
Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida      há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição
   
Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras e nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita
   
Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

Mário Cesariny, in Pena Capital (Lisboa, Assírio & Alvim, 1982)

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* enviado por mão amiga

24 julho 2018

Duas Últimas (em registo de doutorando tardio)

Até ao final de Setembro será isto: o silêncio. Os dois livros abaixo mais outros que me possa surgir / ser sugeridos, tal como textos / artigos / regras sobre / dos cartuxos. Se alguém quiser sugerir alguma coisa chegue-se à frente se faz favor. 

Até lá, continuamos em modo Simon and Garfunkel, naquele mítico concerto do Central Park.

Boas férias, para aqueles que as vão gozando.

JdB 








The Sound of Silence

Hello darkness, my old friend
I've come to talk with you again
Because a vision softly creeping
Left its seeds while I was sleeping
And the vision that was planted in my brain
Still remains
Within the sound of silence

In restless dreams I walked alone
Narrow streets of cobblestone
'Neath the halo of a street lamp
I turned my collar to the cold and damp
When my eyes were stabbed by the flash of a neon light
That split the night
And touched the sound of silence

And in the naked light I saw
Ten thousand people, maybe more
People talking without speaking
People hearing without listening
People writing songs that voices never share
And no one dared
Disturb the sound of silence

Fools, said I, you do not know
Silence like a cancer grows
Hear my words that I might teach you
Take my arms that I might reach you
But my words, like silent raindrops fell
And echoed in the wells of silence

And the people bowed and prayed
To the neon god they made
And the sign flashed out its warning
In the words that it was forming
And the sign said, the words of the prophets are written on the subway walls
And tenement halls
And whispered in the sounds of silence

Letra de Paul Simon

11 julho 2017

Do silêncio (post repescado com actualizações)

Fui buscar ao site Essejota [na altura site da Companhia de Jesus em Portugal] este pensamento, publicado ontem, 1 de Agosto [de 2008]. O silêncio é um tema que me encanta, sobre o qual gosto de ler e de pensar. A minha vida dos últimos anos foi atravessada, aqui e ali, por momentos de grande parcimónia na utilização das palavras - ditas ou ouvidas. Foram tempos reconfortantes, de olhar para dentro e para fora, de escutar vozes que só nós ouvimos, de proferir frases que mais ninguém ouve; foram alturas esmagadoras, em que o que não se dizia tinha um peso infinitamente doloroso, constrangedor, revelador de um incómodo que era filho do diálogo que já não existia. O silêncio é, de facto, uma ferramenta poderosíssima, capaz do melhor e do pior. Assim eu soubesse usá-la para os fins mais elevados.

O silêncio é um valor inestimável. Sem silêncio não se ouve e ainda menos se escuta. O homem que não se escuta a si próprio, desconhece-se. O que não tem espaço e tempo para meditar, para ouvir o significado dos sons e das palavras, anda neste mundo a reboque, sem leme. Só no silêncio é possível descobrir outros sinais de comunicação. Aproveitemos este tempo de férias para fazer silêncio. O silêncio é o segredo de uma melhor comunicação.

(Vasco P. Magalhães, sj)

***

Há coincidências, mesmo que esta não seja significativa. Este sábado vinha de Coimbra com um amigo e colega de direcção da Acreditar. Falámos de temas diversos como as minhas aulas, o meu doutoramento, a pintura dele e o livro que ele está a terminar. Falei-lhe de silêncio, um tema que me interessa desde há muito (e a citação de um post com nove anos é bem sintomático...) e que quero abordar na tese. Ontem ao pesquisar, já a horas tardias, o que postar preguiçosamente hoje, deparei-me com o referido post. Ontem, ainda, li um texto muito interessante na revista Brotéria dedicada aos 100 anos das aparições de Fátima, intitulado: "da Religião à Oração: uma reflexão sobre a Fé e o Lugar de Fátima" [João J. Vila-Chã, in Brotéria, Maio / Junho 2017]. E cito:

No seu silêncio, o homem deixa de olhar para as coisas, para os nomes e problemas do mundo a partir da perspetiva do conceito ou da conceptualização apenas. Nesta forma de oração, portanto, deixa-se cair por terra o ideal de posse ou do ser possuído. São os próprios instintos e as suas moções que se tornam silenciosos. A pessoa que reza precisa de se tornar em sua inteireza silêncio e serenidade. Como diria o grande místico que foi o Mestre Eckhart, trata-se mesmo de aprender a ser igual ao Nada.

JdB


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