16 julho 2014

Aniversário

Ele há dias...

Ontem, findo o dia de trabalho e perdido tempo precioso a seguir erraticamente uma novela que teima em não acabar, decidi ir aos armários metafóricos deste estabelecimento. Algo dentro de mim me dizia que o blogue estava a fazer anos. E de facto assim é: hoje, mas há seis anos, inaugurava o frontispício deste espaço que teimo em manter aberto.

Agradeço a todos: os que me visitam, os que por aqui escreveram, os que permanecem fiéis com uma coluna com a regularidade possível, um ou outro blogue que fizeram referência a esta morada.

Olhem, no fundo é isto. Obrigado. Tal como disse tantas e tantas vezes, Adeus, até ao meu regresso

JdB


Diário de uma astróloga – [82] – 16 de Julho de 2014

Júpiter em Leão - um guia para o próximo ano


Hoje temos um evento astrológico digno de nota. Júpiter, o maior planeta do sistema solar, na sua órbita à volta do Sol, muda de signo, entra em Leão deixando para trás Caranguejo. 


A duração da órbita de Júpiter é de 12 anos, por isso o planeta passa um ano em cada signo. Júpiter simboliza optimismo, oportunidades e até sorte, mas sobretudo fé em si próprio, o que nos permite ir mais longe dentro do caminho escolhido. A palavra-chave para Júpiter é expansão. Expande as nossas experiências, os nossos conhecimentos e a nossa esfera de acção. Júpiter rege as viagens físicas e as intelectuais, os estudos superiores, a filosofia, mas também a justiça, os valores morais e a divulgação de ideias. Podemos dizer que é o planeta dos pregadores, do marketing e da publicação.  

Tendo em conta estas energias favoráveis, a astrologia tradicional designa Júpiter como “o grande benéfico”, mas a astrologia moderna, apesar de concordar com a facilidade e a ausência de obstáculos que Júpiter simboliza, chama a atenção para os seus efeitos negativos: exageros, excesso de confiança, arrogância, extravagância.

A maior parte das pessoas gosta desta ideia de crescimento, de ter mais oportunidades, de ir mais longe. E quem é mais favorecido por esta estadia de Júpiter em Leão que começa hoje e termina a 11 de Agosto de 2015?

·     Os que têm o Sol em Leão   
O período em que Júpiter está próximo do grau do Sol natal pode ser considerado um trânsito “top” em termos de saúde, de alegria de viver e de oportunidades para aplicar a sua criatividade.

·     Os que têm a Lua em Leão
As semanas em que Júpiter está próximo do grau da Lua natal trazem uma sensação de bem-estar, de sentimentos expansivos relativamente aos outros, um desejo de proteger, de cuidar, não só das crianças, como da família em geral. Os relacionamentos com mulheres estão facilitados, coisa que os homens sentirão com prazer mas, mesmo as mulheres, podem beneficiar de companhia feminina.

·     Os que têm Mercúrio, Vénus ou Marte em Leão
Durante os períodos em que estes planetas estão sob uma influência mais directa de Júpiter, temos oportunidade de aprender qualquer coisa nova, planear o futuro com clareza (no caso de Mercúrio), amenizar as pequenas turbulências dos relacionamentos ou mesmo ver surgir um novo caso amoroso, apreciar a beleza que nos rodeia, nos vestirmos de forma mais elegante (Vénus), gozar de grande energia física e ver os projectos iniciados nessa época terem uma conclusão feliz (Marte).

·    Os que têm o Ascendente em Leão
Vão sentir-se bem, com boa saúde física e mental, e por isso vão projectar energias positivas, o que torna a vida do quotidiano bem mais fácil.

·    E se não tiver nada disto vai  proveitar na mesma porque a casa onde se encontra o signo de Leão vai ficar beneficiada por Júpiter. Cada casa representa uma área de vida, e nessa área Júpiter empurra-o para fazer mais, ir mais longe, crescer. Identifique primeiro no seu mapa qual é a casa ou casas que está ou estão sob o signo de Leão e reveja aqui http://www.astro.com/astrologia/in_house2_p.htm a área de vida a que cada uma corresponde.

Aproveitem bem esta passagem de Júpiter em Leão, usem a energia para serem criativos, para explorar caminhos nunca d’antes navegados. Mas cautela! Sob a sua influência é fácil ficar “inchado” e, pelo convencimento e arrogância, criar inimizades.

NOTA: Para facilitar a identificação das semanas mais favoráveis peguem no vosso mapa do céu e vejam o grau a que se encontra(m)  o (s) planeta (s) em Leão. Consultem as efemérides de Júpiter que anexo e tomem notas das semanas em que Júpiter está mais próximo do planeta natal, considerando dois graus para cada lado do número exacto.  Como  exemplo, estão  assinaladas a verde as semanas mais benéficas para quem tenha um planeta a 16° de Leão.



Luiza Azancot

15 julho 2014

Duas Últimas

Na semana passada morreu Charlie Haden. Tinha 76 anos e dedicara-se ao contrabaixo porque a pólio, que lhe fora diagnosticada aos 15 anos, lhe paralisara as cordas vocais. Haden tinha começado a cantar em público aos dois anos.

Não conhecia o músico, confesso, a não ser de nome. Como acontece com os realizadores de cinema (na generalidade dos casos não sei quem realizou o quê), não lhe associava nada: uma cara, uma música, uma impressão.

Na minha ronda de blogues confrontei-me com este video que decidi postar. Gostei da música, que me deu uma certa sensação de sossego triste, melancólico. Talvez se ouvisse bem no outono, a verdadeira estação do ano. Deixo-vos também com algo mais estival, para os apreciadores de jazz.

JdB




14 julho 2014

Das leituras de cada um

Fotografia de JMAC, o homem de Azeitão


Ao meu lado há quem não leia romances, com honrosíssimas excepções, preferindo um tipo de livros mais filosóficos, ou mesmo técnicos. Um pouco mais abaixo na direcção do mar, um amigo próximo lê muitos romances, talvez quase tudo o que saia, ainda que privilegiando bons e premiados escritores. Antes de mim havia quem só lesse praticamente romances, sobretudo franceses, e quem não lesse quase romances nenhuns. Mais longe, geograficamente, amizade forte ainda que recente atira-se muito à poesia sobre a qual discorre com saber e sensibilidade. Há aqueles que pouco lêem, outros que devoram escrita considerada mais light. Olho para dentro de mim próprio e sei o que me atrai - e quando - nas prateleiras de livrarias.

Se excluirmos deste raciocínio o que lemos por motivos profissionais ou académicos de momento, o que dizem de nós as opções literárias que fazemos? O que significa não gostar nada de romances ou gostar muito de poesia, querer ler filosofia ou adquirir com menos crivo? A problemática pode resumir-se a uma questão de gosto pessoal, a influências da educação ou do meio em que crescemos, ou conseguiremos descortinar outras motivações mais fundas? A pergunta, confesso, não é retórica. Não sei a resposta, embora ache que sim, que, olhando para o renque de livros que decora as estantes de cada mortal, e cavando com jeito e perspicácia na alma de cada um de nós, poderemos encontrar qualquer coisa. 

A analogia talvez só faça sentido para mim, mas o estabelecimento é meu, pelo que me reservo o direito de gerir a ementa de almoço como me aprouver. Ontem, na homilia da missa a que costumo ir, ouvi falar de palavras, da necessidade que a sociedade tem hoje em dia de factos, de coisas comprováveis e imediatas. Como se liga isso com a escuta da palavra de Deus, que parece ser algo com uma dimensão onírica, utópica, ilusória? Como interage ela na nossa vida e no nosso quotidiano? Como deixamos que ela ressoe dentro de nós, como a acolhemos para que ela nos mude por dentro? Talvez, diz a minha ingenuidade ignorante de quem gosta de embrulhar artigos aparentemente diversos no mesmo papel de fantasia, tudo se resuma às perguntas cujas respostas não sei: porque lemos o que lemos? Somos o que lemos ou lemos o que somos? Lemos para nos entretermos ou lemos para nos mudarmos? Lemos para estar ou lemos para agir (e daí a memória das palavras do sermão)?    

Há ainda uma pergunta final e, quiçá, demolidora. Para que serve sabermos as respostas a todas essas perguntas? Eu sei porquê, mas isso sou eu....

JdB

13 julho 2014

XV Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO Mt 13, 1-23


Naquele dia,
Jesus saiu de casa e foi sentar-Se à beira-mar.
Reuniu-se à sua volta tão grande multidão
que teve de subir para um barco e sentar-Se,
enquanto a multidão ficava na margem.
Disse muitas coisas em parábolas, nestes termos:
«Saiu o semeador a semear.
Quando semeava,
caíram algumas sementes ao longo do caminho:
vieram as aves e comeram-nas.
Outras caíram em sítios pedregosos,
onde não havia muita terra,
e logo nasceram porque a terra era pouco profunda;
mas depois de nascer o sol, queimaram-se e secaram,
por não terem raiz.
Outras caíram entre espinhos
e os espinhos cresceram e afogaram-nas.
Outras caíram em boa terra e deram fruto:
umas, cem; outras, sessenta; outras, trinta por um.
Quem tem ouvidos, oiça».
Os discípulos aproximaram-se de Jesus e disseram-Lhe:
«Porque lhes falas em parábolas?»
Jesus respondeu-lhes:
«Porque a vós é dado conhecer os mistérios do reino dos Céus,
mas a eles não.
Pois àquele que tem dar-se-á e terá em abundância;
mas àquele que não tem, até o pouco que tem lhe será tirado.
É por isso que lhes falo em parábolas,
porque vêem sem ver e ouvem sem ouvir nem entender.
Neles se cumpre a profecia de Isaías que diz:
‘Ouvindo ouvireis, mas sem compreender;
olhando olhareis, mas não vereis.
Porque o coração deste povo tornou-se duro:
endureceram os seus ouvidos e fecharam os seus olhos,
para não acontecer
que, vendo com os olhos e ouvindo com os ouvidos
e compreendendo com o coração,
se convertam e Eu os cure’.
Quanto a vós, felizes os vossos olhos porque vêem
e os vossos ouvidos porque ouvem!
Em verdade vos digo: muitos profetas e justos
desejaram ver o que vós vedes e não viram
e ouvir o que vós ouvis e não ouviram.
Vós, portanto, escutai o que significa a parábola do semeador:
Quando um homem ouve a palavra do reino
e não a compreende,
vem o Maligno e arrebata o que foi semeado no seu coração.
Este é o que recebeu a semente ao longo do caminho.
Aquele que recebeu a semente em sítios pedregosos
é o que ouve a palavra e a acolhe de momento,
mas não tem raiz em si mesmo, porque é inconstante,
e, ao chegar a tribulação ou a perseguição por causa da palavra,
sucumbe logo.
Aquele que recebeu a semente entre espinhos
é o que ouve a palavra,
mas os cuidados deste mundo e a sedução da riqueza
sufocam a palavra, que assim não dá fruto.
E aquele que recebeu a palavra em boa terra
é o que ouve a palavra e a compreende.
Esse dá fruto
e produz ora cem, ora sessenta, ora trinta por um».

12 julho 2014

Pensamentos impensados

TPC
A professora de português passou, como trabalho para casa, ler o dicionário e fazer um resumo.

Desportos
Os alpinistas serão criminosos? Andam todos a monte.

Autos...moveis
Gil Vicente foi a primeira pessoa a rebelar-se contra os bloqueadores amarelos dos automóveis  No Auto do Escudeiro lê:se: fi de puta roim, sapatos tens amarelos.

Rais parta
A bomba atómica tem uma radiação ultra-violenta.

Cargos
Há um Bento no Banco Espírito Santo e há um Bento no banco de Portugal.
Benza-os Deus.

Botânica
Deram-me um livro sobre flores; é lindíssimo, já o desflorei.

Transportes
Metro de superfície? Não entendo. De superfície, só conheço o metro quadrado.


Barafunda
Ricardo Espírito Santo, funda; Ricardo Salgado, afunda.

SdB (I)

11 julho 2014

love, etc.

Linhas 2, fotografia de JMAC, o homem de Azeitão


como se de metal feita fora
esta minha estival melancolia,

encho o cálice de rock & roll,
despejo a circunstancial cicuta,

lembrando o negro impossível
desses teus (Deus meu!) olhos,

embriagando-me de fantasmas
e da pior da melhor poesia.


gi.

10 julho 2014

Das bizarrias da net


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Hesito, entre as duas amostras de mails que me mandam com alguma frequência, a que apreciarei mais. Qual perdurará nas papilas gustativas da minha mente, assemelhando-se a uma imperial gelada numa esplanada de fim de tarde, ao requiem de Mozart ouvido muito alto, à ronda da noite descortinada centímetro a centímetro sem hordas de japoneses pela frente? Alguém que se dirige a mim por "olá querida" e me quer dar dinheiro cativa imediatamente a minha atenção. Por outro lado, se alguém a quem imagino uma sapiência toda feita de respeito pelos anciãos e ausência de tecnologias modernas me escreve, pedindo que as bençãos de Deus desçam sobre mim e me concedam sabedoria e simpatia (mesmo que com um intuito vagamente egoísta), como posso ignorá-lo?

Há muito que recebo este tipo de mails - como milhões de outras pessoas pelo planeta fora, seguramente. Não me espanta, porque o mundo de hoje é assim mesmo. Questiono-me, no entanto - e talvez escreva a indagar, quando andar pelo jardim a ouvir as folhas a crescer sem nada que me convide à labuta profissional - quantas respostas têm estes cavalheiros. E o que sacam dos incautos que respondem, cativados por alguém que os trata por olá querida e lhes deseja o melhor do céu? Alguém me sabe responder? Dada a minha qualidade de tradutor e a pobreza dos exemplos acima, haverá aqui um nicho de mercado a explorar? 

E o que acontece se eu responder ao Senhor Klechi? Aparece-me um dia em casa abrindo-me os braços ao amplexo, disfarçadamente desiludido pelo olá querida de olhos fixos numa barba e numa obesidade menos feminina? Escrever a uma rapariga de 21 anos, mesmo que da Serra Leoa onde tudo começará mais cedo (excepto o nascer do sol) parece-me pouco próprio, mesmo que a Jennifer Erica Aronah me tenha sensibilizado com o seu convencimento de que sou um homem confiável e de boa reputação. 

JdB
    


09 julho 2014

Da repescagem de textos antigos

Net, fotografia de JMAC, o homem de Azeitão


Há pouco mais de seis anos, duas semanas depois de inaugurar este estabelecimento e uma semana antes de partir para o Zimbabwe, escrevia o texto abaixo - 30 de Julho de 2008. Não sei se tenho distância suficiente para me aperceber das várias fases porque passou este blogue. Teve tristeza feita de paredões ao som da ronca do nevoeiro, teve uma alegria marcadamente africana entremeada, aqui e ali, por nostalgias, teve uma pujança criativa quando vários amigos e familiares se atiraram ao alindamento do espaço.  

Várias vezes pensei em fechar o Adeus, até ao meu regresso. Mantive-o aberto por teimosia, por convicção, por não querer acabar com a oportunidade de um ou outro (eu incluído) se atirarem à escrita. Sou lido por uma falange diminuta e estranhamente fiel de pessoas, os comentários penduram-se nos dentes de um garfo, em dias bons. Dizem-me pessoas próximas que não percebem textos que eu escrevo, que no tempo de África é que era bom. Outros sentem o peso da repetição das frases, das palavras, dos raciocínios. Olho para o blogue e penso: o estabelecimento e o dono confundem-se? Para já vai ficando aberto, até porque gosto de ler quem por aqui se revela com frequências diferentes.

Olhem, é isto, no fundo...

JdB

***

Tem ido ao meu blogue?Sim, todos os dias.E então, o que acha?Em tudo se vislumbra uma nota de tristeza…

Foi este o curto diálogo que tive, no passado Domingo, com alguém que me é próximo. Uma hora depois repetia a segunda pergunta da conversa a duas ou três amizades que conhecem relativamente bem a pessoa que sou e a minha circunstância. Recebi um conjunto de respostas que se enquadram na categoria das que não oferecem margem para dúvidas:

Talvez, talvez. Pois, não sei. Um bocadinho, se calhar. Agora que fala nisso. Não me tinha ocorrido. Deixe-me pensar. Não sei bem o que lhe diga. Olhe…

Talvez o blogue esteja mesmo triste, com salpicos, aqui e ali, de uma alegria contida. Posso dizer-vos, com toda a franqueza, que aquilo que se pode lobrigar como uma nota de infelicidade está no domínio do não intencional, não se enquadrando, ainda, na categoria do não desejável. Sou visitante da blogosfera há muito pouco tempo. Entre os que peroram sobre os silêncios de Manuela Ferreira Leite e o desempenho do Ministro da Agricultura e os que revelam os seus estados de alma, as suas vontades e desejos – ou mesmo as suas neurastenias – prefiro estes últimos. Entre a informação opinante e a alma desnuda não sinto o embaraço da escolha.

Nunca quis ser juiz e observo os que o são com um olhar misto: de irritação por uma sobranceria eventualmente pontual; de terror pelo facto das suas decisões poderem afectar, tão directamente, a vida de alguns; por último, de pena, por sentir que baila, nas suas mentes, o fantasma da dúvida ou a sombra da compaixão.

Se a vida fosse asséptica e perfeita, juízes e réus dormiriam a mesma qualidade de sono, seriam afectados pela mesma insónia que caracteriza os incomodados, e roncariam a mansidão que identifica os tranquilos de consciência. Adivinho ambos os extremos da cadeia da justiça vítimas de uma espertina maldosa, com os olhos esgazeados para um tecto que não vêem enquanto o relógio avança os minutos com um vagar de corredor da morte. Uns terão dentro de si a dúvida angustiante sobre a justiça da decisão, sobre a sua relativa irreversibilidade, sobre a data que se aproxima para a execução de uma pena. Os réus poderão questionar-se sobre a dimensão do castigo e a sua proporcionalidade ao crime cometido e lamentarão, quiçá, a incapacidade que tiveram de fugir ao comportamento desviante.

Alguém escrevia, como subtítulo ao seu espaço internético, que a vida é desenhada sem borracha. É verdade, no sentido, talvez, de não podermos apagar o nosso passado, calcetado de erros e acertos. Eu contribuo para esta visão de casa havaneza, atirando para o fundo da gaveta uma caneta de tinta permanente que mão amorosa me ofereceu. É a minha metáfora pessoal para afirmar que nada é, também, definitivo. Nem o que nos apraz, nem o que nos contrista. A lua e as suas fases reflectem isto mesmo, ao não oferecer a esperança ininterrupta do quarto crescente nem impor a desgraça constante do que é minguante.

Em tudo se vislumbra uma nota de tristeza…
Olho para a vida dos juízes e dos réus (pensando que se confundem, por vezes, uns e outros, não se sabendo exactamente quem é quem) para a borracha e para a caneta que não fazem parte do kit que nos oferecem para a vida e penso que está tudo certo, está tudo como pode ser – sei lá se está como devia ser.

Partir é morrer um pouco, e até a contagem decrescente coincidir com o zero, que é o nada do inexistente, é tempo de abalada. Toda a viagem tem como prelúdio uma despedida que se vai fazendo ao ritmo do que nos manda o impulso ou a decisão. Negar o adeus a quem quer que seja é negar a natureza das coisas. Quando o olhar estiver para lá do horizonte, abrir-se-á uma nova frente na vida, feita daquilo que já foi, daquilo que é, e daquilo que está para vir.

Até lá é isto, para os poucos que me vão lendo.

Adeus, até ao meu regresso.

08 julho 2014

Duas Últimas

É a Clarice Falcão, que não conheço, mas podia ter sido um pasodoble. No fundo no fundo, deliciava-me a ver uma corrida da feira de Pamplona quando me apercebi que anda não tinha postado nada para hoje. 

Ah e tal e coisa, que maçada, o que posto amanhã?, pergunto eu, com os olhos fitos no televisor onde o matador, cujo nome não conheço nem fixo (ando muito arredado destas coisas) descalço e com a montera boca abajo, para dar sorte, crava uma estocada limpa, até ao punho. O touro teima em morrer, como teimam em morrer outros da mesma corrida que sofreram estocadas até ao punho. E eu, que não mato um gato - um animal que detesto - não me custa ver um toiro a morrer na arena, mesmo que cambaleante e a golfar sangue. Enfim, o meu lado bárbaro, porque somos muitos dentro de nós.

Olhem, tanta coisa para ser a Clarice Falcão, sugerida pelos meus filhos, cada um com a sua música. Se gostarem, voltem amanhã. Se não gostarem, voltem na mesma, que haverá nova corrida, nova viagem.

Desculpem qualquer coisinha.

JdB



07 julho 2014

Vai um gin do Peter’s?

Continuando o gin de 23 de Junho, a completar o mini-guia sobre locais menos conhecidos de Lisboa, seguem  mais nove dicas e um alerta sobre a possibilidade de visita ao Palácio da Ega (ref. no gin anterior), por marcação, desde que se reúna um número mínimo de participantes.    

 

PALÁCIO DAS NECESSIDADES, actual Ministério dos Negócios Estrangeiros, em Alcântara (não permite visitas)



Mandado erguer por D.João V, foi a única residência real que sobreviveu ao grande terramoto de 1755. Abrange também as antigas instalações do Convento de Nossa Senhora das Necessidades, com capela própria e inúmeras salas com elementos decorativos em talha dourada e belas esculturas, que o tornam num conjunto arquitectónico valioso.
Quando terminou a monarquia, passou a ser sede do MNE, tendo as peças de ourivesaria transitado para o Museu de Arte Antiga e parte do mobiliário para os palácios da Ajuda e de Queluz (todos eles visitáveis).


PALÁCIO BURNAY, na rua da Junqueira, a Alcântara (visitável por marcação)


Mandado edificar por D. César de Meneses, entre 1701 e 1734, teve várias obras de remodelação e mudanças de propriedade, chegando a ser a residência de Verão dos patriarcas de Lisboa, até ser adquirido pelo Estado, em 1940.
A maioria das peças do sumptuoso recheio foi vendida em 1936, como o mobiliário, as tapeçarias, as telas e as esculturas. Mantém, no entanto, as pinturas murais, onde se destacam as da escadaria principal em trompe-l’oeil, criando um efeito monumental de relevos. Hoje, aloja o Instituto de Investigação Científica Tropical. 

QUINTA DOS AZULEJOS, nos Paços do Lumiar, hoje Colégio Manuel Bernardes (visitável mediante marcaçção)


O edifício principal foi edificado, no início do século XVIII, pela família do ourives Colaço da Cruz/Colaço Torres com uma decoração notável. O conjunto inclui a casa, a capela e os jardins profusamente ornamentados de arcos, lagos, bancos e colunata octogonal, revestidos por azulejaria policromada e de bom esmalte, representando cenas bíblicas, de caçadas e da mitologia clássica. Proveniente da Real Fábrica de Faianças do Rato, foi enriquecendo ao longo do tempo, reunindo estilos diferentes, do barroco ao rococó.

Local de visita da alta sociedade, a Quinta foi frequentada pela família real, desde o tempo de D.José, chegando a ser residência temporária da rainha D.Maria I, no final do século XVIII. A partir de meados do século XIX, mudou consecutivamente de proprietário e de designação (ex: «Quinta do Espírito Santo»), até ser transformada em colégio privado, a partir de 1935.


IGREJA DO CONVENTO DA ENCARNAÇÃO, entre a av. da Liberdade e o Hospital de S.José (visitável em dias de culto)



Recuamos ao reinado de Filipe II para cumprir uma disposição da filha de D.Manuel I – a Infanta D.Maria – de erigir um convento de religiosas sob a invocação de Nossa Senhora da Encarnação. O edifício, em linguagem barroca, guarda um dos tesouros mais notáveis em talha dourada e em azulejaria.
Conheceu as maiores intervenções nos reinados de D.João V e de D.José, sobressaindo no seu interior: a colecção de azulejos azul e brancos de setecentos, característicos do Ciclo dos Grandes Mestres lisboetas; o retábulo-mor de 1719, trabalhado em prata e atribuído a João Frederico Ludwig; as pinturas e a talha dourada da capela-mor; as pinturas no convento atribuídas a Bento Coelho da Silveira e a André Gonçalves e seus discípulos.

  

IGREJA DE SÃO MIGUEL, perto da Sé (visitável quando abre para o culto)



A  fachada sóbria, com duas torres sineiras, não sugere o interior rico em talha dourada e tecto de madeira pintada, além de painéis ornamentais, de nave única.
Embora date do início da nacionalidade, foi reedificada entre 1673 e 1720, em estilo maneirista e barroco.


IGREJA DE SANTA CATARINA, ao Chiado (visitável nos horários de abertura ao culto)


Uma jóia do barroco, salienta-se pela talha dourada do retábulo da capela-mor da autoria de Santos Pacheco (1728), pelas 6 telas de André Gonçalves relacionadas com a Eucaristia, pelo fresco do tecto de António Pimenta Rolim (1689), e ainda pelas imagens de Santa Catarina, S. Paulo Eremita e de Sto. Antão a ladear o Sacrário.
Ao longo do transepto encontra-se: a capela lateral do Senhor Jesus da Pobreza com o embutido de pedra florentino; a capela de Nossa Senhora da Atocha, gótica, oferecida, em 1681, pelo pintor de azulejos Gabriel del Barco; e as pinturas de Vieira Lusitano, na zona superior. Ao fundo da Igreja, vislumbram-se os estuques pintados por Giovanni Grossi, além do órgão setecentista.
Fundada em 1647 como igreja conventual, começou por ser dedicada ao Santíssimo Sacramento. A partir de 1835, passou a ser designada por Igreja de Santa Catarina, após a destruição da original, situada no Alto de Santa Catarina.

 

Palácio dos Condes da Calheta, no Largo dos Jerónimos (visitável com marcação prévia)



No século XVII, a zona do Palácio reunia as casas e quintas de D. João Gonçalves Câmara, quarto Conde da Calheta. A casa principal, característica das construções de seiscentos e setecentos, estende-se por dois andares, irregulares em altura, com a fachada sul voltada para o jardim, desfrutando de uma extensa varanda no primeiro andar e cinco grande janelas.
Posteriormente, foi adquirido pelo Rei D. João V, em conjunto com a Quinta do Meio. No reinado de D. José, funcionaram no Palácio as secretarias de Estado e o Arquivo Militar, além dos interrogatórios aos implicados no atentado contra o rei, em 1758.
Ao longo do século XX foi várias vezes intervencionado, nomeadamente para a Exposição do Mundo Português (1940). Hoje alberga o Jardim-Museu Agrícola Tropical.

Convento dos Cardaes, na Rua do Século, ao Príncipe Real (visitável aos Sábados à tarde e por marcação)


Um edifício pré-pombalino, de seiscentos, tem na igreja uma colecção extraordinária de azulejos holandeses (de Jan Van Oort), um magnífico altar-mor em talha dourada, embutidos em mármore, pintura, escultura e inúmeras outras peças de arte sacra.
O exterior sóbrio e austero abriga um interior barroco, fundado por D.Luísa de Távora como convento de carmelitas. Desde o final do século XIX que foi entregue a uma ordem religiosa vocacionada para a assistência a deficientes profundos, que ainda hoje funciona.   

Igreja da Madre de Deus, no Museu do Azulejo, em Xabregas (visitável no horário do Museu)


A construção do convento inicia-se sob a égide da Rainha D.Leonor (1509), sendo a Igreja do reinado de D.João III. Enriquecida ao longo dos séculos, em especial com o ouro do Brasil, por ordem de D.João V, constitui um exemplo notável do barroco português.  
Pinturas, painéis de azulejos e talha dourada forram este templo pertencente ao convento onde hoje está  alojado o Museu do Azulejo. O altar em estilo rococó revestido a ouro são verdadeiras jóias do património histórico da cidade.

Com estas sugestões completa-se o mini-guia dos lugares menos conhecidos de Lisboa, que vale a pena explorar.

Maria Zarco

(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

06 julho 2014

Hoje, mas há vinte anos


Nasceste hoje, mas há vinte anos.

Onde estás não tens idade, porque és dona de um tempo que não tem início nem fim, um tempo sem memória nem lamento, porque inundado de um Amor infinito. Para nós, que vivemos outra realidade, o dia de hoje continua a ser de lembrança e de agradecimento. Foste um estrela que desceu do céu para iluminar o nosso caminho - caminho tantas e tantas vezes pedregoso mas, acima de tudo, sempre luminoso, porque assente no que é importante e que perdura. Foste um presente de Deus, e por isso a Ele voltaste. Nunca nos pertenceste, em bom rigor. 

No coração de todos os que te amaram, te conheceram, contigo se cruzaram, contigo riram ou contigo choraram, há uma oração permanente, mesmo que não consciente. Não pedimos que fiques connosco, mesmo à distância, mas pedimos para nunca deixarmos de te ver, mesmo à distância. Pedimos que nunca deixes de derramar o eterno pó de amor que nos converte, nos transforma, nos faz esconder o que é supérfluo para viver com o que é perene: a tua memória. Como a música de que tanto gostavas nos diz, estarás no nosso coração. Hoje, até à eternidade.

Nasceste hoje, mas há vinte anos. 

J (e todos os outros que comigo assinam este texto)

(a escolha da música e a autoria da fotografia criativa são da Teresa)

05 julho 2014

Pensamentos impensados

Triunvirato
Em Yalta, Stalin, Roosevelt e Churchill, formaram uma interessantíssima trindade.
 
Vacas magras
Dada a crise, a eternidade ainda será o que era?
Vai levar cortes, aumentos?
 
Alta matemática
Sabe-se qual o número que indica a maioria absoluta.
E a minoria absoluta? É o zero?
 
Música
"Eu sei o que tu queres" não é o mesmo que "o que tu queres sei eu".
Depende da entoação.
 
Mais músicas
Não confundir dar acordo de si, com dar um acorde de Si.
 
Vestimentas
Umas meias calçam-se, umas calças vestem-se. Há lógica?
 
É só saúde
Está melhor, está rodeado de médicos, está nos cuidados intermédicos.

SdB (I)

04 julho 2014

Textos dos dias que correm

Fotografia de JMAC, o homem de Azeitão


O homem

Era uma tarde do fim de novembro, já sem nenhum outono.

A cidade erguia as suas paredes de pedras escuras. O céu estava alto, desolado, cor de frio. Os homens caminhavam empurrando-se uns aos outros nos passeios. Os carros passavam depressa.
Deviam ser quatro horas da tarde de um dia sem sol nem chuva.

Havia muita gente na rua naquele dia. Eu caminhava no passeio, depressa. A certa altura encontrei-me atrás de um homem muito pobremente vestido que levava ao colo uma criança loira, uma daquelas crianças cuja beleza quase não se pode descrever. É a beleza de uma madrugada de verão, a beleza de uma rosa, a beleza do orvalho, unidas à incrível beleza de uma inocência humana. Instintivamente o meu olhar ficou um momento preso na cara da criança. Mas o homem caminhava muito devagar e eu, levada pelo movimento da cidade, passei à sua frente. Mas ao passar voltei a cabeça para trás para ver mais uma vez a criança.

Foi então que vi o homem. Imediatamente parei. Era um homem extraordinariamente belo, que devia ter trinta anos e em cujo rosto estavam inscritos a miséria, o abandono, a solidão. O seu fato, que tendo perdido a cor tinha ficado verde, deixava adivinhar um corpo comido pela fome. O cabelo era castanho-claro, apartado ao meio, ligeiramente comprido. A barba por cortar há muitos dias crescia em ponta. Estreitamente esculpida pela pobreza, a cara mostrava o belo desenho dos ossos. Mas mais belos do que tudo eram os olhos, os olhos claros, luminosos de solidão e de doçura. No próprio instante em que eu o vi, o homem levantou a cabeça para o céu.

Como contar o seu gesto?

Era um céu alto, sem resposta, cor de frio. O homem levantou a cabeça no gesto de alguém que, tendo ultrapassado um limite, já nada tem para dar e se volta para fora procurando uma resposta: A sua cara escorria sofrimento. A sua expressão era simultaneamente resignação, espanto e pergunta. Caminhava lentamente, muito lentamente, do lado de dentro do passeio, rente ao muro. Caminhava muito direito, como se todo o corpo estivesse erguido na pergunta. Com a cabeça levantada, olhava o céu. Mas o céu eram planícies e planícies de silêncio.

Tudo isto se passou num momento e, por isso, eu, que me lembro nitidamente do fato do homem, da sua cara, do seu olhar e dos seus gestos, não consigo rever com clareza o que se passou dentro de mim. Foi como se tivesse ficado vazia olhando o homem.

A multidão não parava de passar. Era o centro do centro da cidade. O homem estava sozinho, sozinho. Rios de gente passavam sem o ver.

Só eu tinha parado, mas inutilmente. O homem não me olhava. Quis fazer alguma coisa, mas não sabia o quê. Era como se a sua solidão estivesse para além de todos os meus gestos, como se ela o envolvesse e o separasse de mim e fosse tarde de mais para qualquer palavra e já nada tivesse remédio. Era como se eu tivesse as mãos atadas. Assim às vezes nos sonhos queremos agir e não podemos.

O homem caminhava muito devagar. Eu estava parada no meio do passeio, contra o sentido da multidão.

Sentia a cidade empurrar-me e separar-me do homem. Ninguém o via caminhando lentamente, tão lentamente, com a cabeça erguida e com uma criança nos braços rente ao muro de pedra fria.

Agora eu penso no que podia ter feito. Era preciso ter decidido depressa. Mas eu tinha a alma e as mãos pesadas de indecisão. Não via bem. Só sabia hesitar e duvidar. Por isso estava ali parada, impotente, no meio do passeio. A cidade empurrava-me e um relógio bateu horas.

Lembrei-me de que tinha alguém à minha espera e que estava atrasada. As pessoas que não viam o homem começavam a ver-me a mim. Era impossível continuar parada.

Então, como o nadador que é apanhado numa cor­rente desiste de lutar e se deixa ir com a água, assim eu deixei de me opor ao movimento da cidade e me deixei levar pela onda de gente para longe do homem.

Mas enquanto seguia no passeio rodeada de ombros e cabeças, a imagem do homem continuava suspensa nos meus olhos. E nasceu em mim a sensação confusa de que nele havia alguma coisa ou alguém que eu reconhecia.

Rapidamente evoquei todos os lugares onde eu tinha vivido. Desenrolei para trás o filme do tempo. As imagens passaram oscilantes, um pouco trémulas e rápidas. Mas não encontrei nada. E tentei reunir e rever todas as memórias de quadros, de livros, de fotografias. Mas a imagem do homem continuava sozinha: a cabeça levantada que olhava o céu com uma expressão de infinita solidão, de abandono e de pergunta.

E do fundo da memória, trazidas pela imagem, mui­to devagar, uma por uma, inconfundíveis, apareceram as palavras:

- Pai, Pai, por que me abandonaste?

Então compreendi por que é que o homem que eu deixara para trás não era um estranho. A sua imagem era exatamente igual à outra imagem que se formara no meu espírito quando eu li:

- Pai, Pai, por que me abandonaste?

Era aquela a posição da cabeça, era aquele o olhar, era aquele o sofrimento, era aquele o abandono, aquela a solidão.

Para além da dureza e das traições dos homens, para além da agonia da carne, começa a prova do último suplício: o silêncio de Deus.

E os céus parecem desertos e vazios sobre as cidades escuras.

*****

Voltei para trás. Subi contra a corrente o rio da multidão. Temi tê-lo perdido. Havia gente, gente, ombros, cabeças, ombros. Mas de repente vi-o.

Tinha parado, mas continuava a segurar a criança e a olhar o céu.

Corri, empurrando quase as pessoas. Estava já a dois passos dele. Mas nesse momento, exatamente, o homem caiu no chão. Da sua boca corria um rio de sangue e nos seus olhos havia ainda a mesma expressão de infinita paciência.

A criança caíra com ele e chorava no meio do passeio, escondendo a cara na saia do seu vestido manchado de sangue.

Então a multidão parou e formou um círculo à volta do homem. Ombros mais fortes do que os meus empurram­me para trás. Eu estava do lado de fora do círculo. Tentei atravessá-lo, mas não consegui. As pessoas apertadas umas contra as outras eram como um único corpo fechado. À minha frente estavam homens mais altos do que eu que me impediam de ver. Quis espreitar, pedi licença, tentei empurrar, mas ninguém me deixou passar. Ouvi lamentações, ordens, apitos. Depois veio uma ambulância. Quando o círculo se abriu, o homem e a criança tinham desaparecido.

Então a multidão dispersou-se e eu fiquei no meio do passeio, caminhando para a frente, levada pelo movimento da cidade.

*****

Muitos anos passaram. O homem certamente morreu. Mas continua ao nosso lado. Pelas ruas.

Sophia de Mello Breyner Andresenretirado daqui


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